Ok! Apague o cigarro

1 Talvez só mais uma tragada


Mercy escutava o som do Nirvana no último volume. Ela estava terminando de olhar seus perfis na rede social e desligou o computador se jogando na cama. Massageou a ponte do nariz e suspirou alto. Sua mente tentava trabalhar em um jeito de fugir de casa antes que a festa de aniversário de Débora começasse.

Não que não gostasse da irmã. Elas até que se davam bem, mesmo com as muitas diferenças. O problema todo era Sean, o namorado de Débora. Mercy se levantou da cama, pegando um baseado dentro da gaveta da cômoda e se sentando no parapeito da janela e o acendeu. Tinha prometido a si mesma que nunca mais faria isso, mas naquele estresse todo, não conseguia se segurar.

Ela deveria saber que seu dia ia se tornar um inferno quando, ao descer as escadas, encontrou seus pais sentados a mesa tomando o café alegremente como se não tivessem saído para viajar a dois meses e só tivessem aparecido naquele momento. Débora quase trombou com ela na escada, quando passou correndo. A irmã se deu ao trabalho de terminar de descer as escadas. Mercy deu meia volta e se trancou no quarto.

Só tinha certeza de uma coisa. Se os pais estavam ali, e logo no aniversário de Débora, queria dizer que haveria uma festa. E que Sean estaria nela. Deu um longo e preguiçoso trago no baseado e deixou que a fumaça tomasse conta de sua boca. Depois de alguns segundos, soltou-a e sorriu.

Lembrava claramente do dia em que foi adotada. Ela vivia em um orfanato religioso, então, seu espírito rebelde nunca foi entendido. Ela nunca admitiu, mas tudo o que queria era ser entendida. E Samantha e Peter estavam perto de entendê-la quando a adotaram. Ela só não sabia que ela não seria filha única e teria que dividir a boa vida com mais duas garotas totalmente diferentes dela.

Lembrou-se também de quando sua mãe perguntou o motivo do apelido, ela teve que explicar que, quando tinha sete anos, brigou com uma garota e ela ficou gritando Misericórdia até que uma das freiras tirou Meredith de cima dela. Então, o apelido pegou e toda a família a chamava de Mercy e não de Meredith.

Mercy escutou a campainha tocando e rapidamente apagou o baseado, jogando pela janela de seu quarto. De um jeito estranho, ela sabia que era Sean. Talvez fosse o modo com ele sobe as escadas sempre pisando nos degraus com os dois pés, ao invés de pisar em cada degrau com um pé. Ou talvez fosse o cheiro do perfume dele que conseguia passar pela fumaça no quarto de Mercy e abafar o cheiro da maconha. Ou podia ser sua voz. Charmosa, rouca, harmônica. Não sabia o que era, mas ela sabia que era Sean que estava passando de seu quarto para ir ao quarto de Débora.

Ela se levantou passando a mão pelo rosto e pelos cabelos castanhos escuros ondulados. Sempre que tocava neles, lembrava-se de Débora quase implorando para que ela ou os alisasse ou cortasse, por estarem quase tocando sua cintura. Ela não ligava, gostava dos cabelos. Mercy foi até o banheiro do seu quarto e abriu o armário de remédios, tirando o colírio de lá. Pingou duas gotas dentro dos olhos negros e piscou.

Só chapada para aguentar aquela festa.

“Mercy”, escutou a voz de sua irmã mais nova, Melanie, soando do outro lado da porta. “Mamãe está perguntando onde está a máquina fotográfica.”

Revirou os olhos e se apressou em abrir a porta. Melanie quase caiu com seu corpo magro e pálido dentro do quarto da irmã. Seus cabelos eram uma confusão cacheada e vermelha. Franziu o nariz ao sentir o odor inconfundível de drogas que envolvia aquele ambiente.

Mercy levantou uma sobrancelha, como se a desafiasse a dizer alguma coisa. Era destemida e não teria problemas em fazer a irmã calar a boca. A verdade era que todos ali tinham seus segredos sujos. E Melanie – com aqueles grandes olhos azuis singelos – não era a mais inocente.

“Deixe que eu pego.”, a morena disse sem se preocupar em calçar os sapatos ou trocar de roupa. Encarou a mais nova por cima do ombro. “Sean está aqui?”

Melanie assentiu ainda atordoada com o cheiro.

“Está na cozinha com Débora.”, fez uma careta. “Acho que você não deveria ir lá.”, acrescentou. Meredith sentiu seus ossos congelando, por mais que sua expressão permanecesse impassível. Melanie sorriu. “Sabe, está todo aquele clima de casal.”, encolheu os ombros e fingiu sentir nojo. “Revira o estômago.”

Lentamente, Mercy concordou. Por um segundo pareceu que sua irmã tinha noção de sua atração pelo namorado da outra. Só que Meredith fazia questão de esconder tudo por trás do ódio. Comprimiu os lábios, envolvida com a piada interna. Debochava tanto de livros onde tinha esse tipo de relação e estava diante de uma.

Destino puto.

“Obrigada pelo conselho.”, disse se afastando pelo comprido corredor. Abaixou a voz o suficiente para que apenas ela escutasse seu último comentário enquanto descia as escadas. “Acho que Débora já vomita demais por nós três.”

Seus passos eram confiantes. Cabeça erguia, olhos alertas, ouvidos atentos. Tudo para que Sean não aparecesse do nada e a surpreendesse, como tinha o péssimo hábito de fazer. Sua cabeça latejou, como um lembrete da diversão que tivera no dia anterior. Sua memória traidora lhe trouxe flashes de como desabafava em meio a desconhecidos sua paixão não correspondida pelo namorado da irmã.

Ele era tudo o que ela não era permitida a sonhar. O corpo de um deus diante de seus olhos pecadores. O gosto amargo de sua declaração fez sua língua pinicar e raiva preencheu seu corpo. Sean não tinha o direito de fazê-la sentir desse jeito. Não depois de ter assumido um compromisso com Débora.

Se todos soubessem o que a princesa perfeita fazia... Não a achariam tão perfeita assim. Esse era o erro de Mercy. Expunha-se, não se escondia atrás de uma fachada. E sempre era julgada. Se ela fosse o reflexo da mentira que Débora era, talvez Sean estivesse ao seu lado, ao invés com a loira.

Assim que adentrou o biblioteca onde havia deixado a máquina, pegou outro baseado do bolso e não reprimiu o impulso de acendê-lo. Ela queria se aliviar. E para aguentar um dia sendo cercada por ódio, dor, recriminação e desejo... Ela teria que acender aquele cigarro de maconha.

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Sean subiu as escadas determinado á tirar Meredith do quarto. Sabia o que ela estava fazendo e não permitiria. Era aniversário de sua namorada e a egoísta de sua cunhada não estragaria aquele dia. Mas quando virou o corredor, sua irritação diminuiu. Ele estava mascarado. Queria vê-la. Só isso.

Mercy era problema, isso era um fato. Mas talvez Sean fosse a solução. Ou foi o que pensou antes de abrir a porta do quarto dela e ser envolvido pelo cheiro de erva forte, levemente adocicado. Bufou, movendo os dedos pelos fios loiros e contendo a vontade de arrancá-los. Essa garota estava no limite. E quando ultrapassasse, o levaria junto. Seus olhos azuis estudaram as possibilidades de esconderijos para ela terminar o que começou. Tornou a descer as escadas, após estalar a língua.

Era um erro se sentir atraído por uma garota como Meredith Wilder. Não apenas por ela usar drogas constantemente e não ter pudor ao ingerir bebidas alcoólicas. Muito menos por ser malditos três anos mais nova. Era por ser sua cunhada. Amaldiçoava-se todos os dias por estar preso naquela confusão mental.

Débora era fiel, companheira e faria tudo para agradar Sean. Era popular, engraçada, além de muito bonita. Eles eram compatíveis, semelhantes e compreensivos um com o outro.

Meredith era o tipo de mulher que se domava mantendo o número dos bombeiros na discagem rápida. Seus olhos gritavam: fogo! E tudo ao seu redor se reduzia em cinzas diante de sua presença. O peito de Sean ardeu com aquele pensamento e ele justificou como sendo raiva. Era apenas isso entre eles. Gritos, xingamentos, provocações e ódio.

Oh, havia muito ódio.

“Sabia que a encontraria aqui.”, rosnou, se controlando para manter a voz baixa enquanto fechava a porta da biblioteca com cuidado. Mercy deu um salto da poltrona com a surpresa, mas ao constatar que era apenas Sean, revirou os olhos escuros e deu mais um trago em seu baseado. “Não acredito que está fazendo isso.”

“Oh, cale a boca, Collins.”, ralhou tentando ignorar a presença máscula de Sean que enchia o ambiente. Não querendo ficar em uma posição desvantajosa, levantou-se e recostou o corpo em uma das estantes. “Não deveria estar com a sua namorada?”

“E você deveria estar em uma reabilitação.”

Dando um meio sorriso provocador, Mercy jogou o cigarro no chão e ficou observando-o se apagar sozinho. Poderia pisar nele, mas não estava afim de ter mais uma queimadura na sola de seus pés. Seus olhos pousaram em Sean novamente e ergueu as mãos em sinal de rendição.

“Viu?”, sinalizou para onde o cigarro jazia. “Posso parar no momento que quiser.”, deu um passo na direção do corpo estático e tenso de seu cunhado. Parou atrás dele e admirou seus ombros largos por curtos segundos. “Quem deveria estar em uma reabilitação é sua namorada. Só que um tipo diferente de reabilitação.”, soltou um riso amargo, vendo os pelos da nuca dele se eriçarem.

Sean fechou os olhos por um segundo e respirou fundo, tentando encontrar uma saída para aquele feitiço tão traiçoeiro. Virou-se, ficando de frente a frente com a morena. Ignorou as palavras pronunciadas pela mesma, segundos atrás. Meredith faria qualquer coisa para escapar. Até mesmo acusar as irmãs.

“Você está doente, Meredith.”

“Mercy”, o corrigiu. O corpo dela estava tão leve que nem a culpa por desejar o namorado da irmã tinha poder para alcançá-la. Estreitou os olhos escuros, tomada pela mudança súbita de humor. “Você se acha tão perfeito, não é, Sean? Namora a garota perfeita, frequenta a faculdade perfeita.”, pressionou seu corpo contra o dele, vendo sua respiração ficar ofegante. “Não consegue admitir...”, pausou. “Esqueça”

Afastou-se em direção a porta. Estava aproveitando aqueles poucos segundos de clareza. Sean Collins era perfeito. Meredith Wilder era o motivo da palavra “imperfeição” existir no dicionário. Quer dizer, era o que ela pensava antes de sentir a mão dele se fechando em seu antebraço e se ver presa naquelas safiras que eram seus olhos.

Suas respirações se mesclaram, tornando-se uma. Seus peitos estavam pressionados com tanta força, que era perceptível a batida acelerada de seus corações. Mercy mordeu o lábio inferior e relaxou. Cansou de lutar. Só uma vez queria poder culpar alguém por seus atos irracionais. Seus olhos estavam semicerrados quando a voz de Sean – rouca e carregada de desejo – a trouxe para a beirada da realidade.

“O que eu tenho que admitir, Meredith?”, perguntou, retórico. Engolindo a seco, ela se recusou a responder. Sean riu evidenciando a ironia daquela situação. Tocou no queixo, dela, fazendo-a erguer os olhos escuros e profundos. “Que você é doida e que estou louco para te beijar? Isso me faz um louco também, não é?”

Mercy deu um meio sorriso.

“Um louco, Collins.”

Não souberam o que aconteceu no segundo entre essa frase e o seu toque. Talvez fosse a tensão que os envolvia mesclada com o desejo. Mas era apenas os dois sendo humanos. Seus lábios se pressionaram nos dela, fazendo todo o seu corpo queimasse, como larva deslizando lentamente por seus membros. Mercy fechou os olhos, sentindo as mãos de Sean tocando sua cintura suavemente.

Tocou nos cabelos loiros dele – algo que almejava há muito tempo – e o escutou gemer contra os seus lábios. Teve que se controlar, já que – por mais irônica que fosse a situação – ela era a mais experiente. Sean a puxou para mais perto e entreabriu os lábios. Mercy gemeu ao sentir suas línguas se tocando e o seu gosto doce. Estava na ponta do pé, para compensar na altura. Deixou que seu coração batesse na velocidade que achasse apropriada e deu uma folga aos seus pulmões, esquecendo-se de respirar.

“Eu sou louco por sua causa, Meredith.”, murmurou contra os lábios dela. “Você me leva ao limite.”

Descontrolou-se. Aquilo foi a gota de água para que Mercy atingisse o limite do seu autocontrole e se jogasse de cabeça no precipício. Empurrou-o para a parede mais próxima, pressionando-se contra ele. Sean apertou sua cintura com força – mas ainda sem a machucar – e arfou. Ela abriu os olhos, pensando que o tinha machucado. Abaixar a guarda foi uma falha dela.

Sean trocou suas posições e Meredith se viu presa entre ele e a parede. Seus dedos angelicalmente pecaminosos deslizaram pela pele dela até alcançar sua bunda e puxa-la para cima. Ela envolveu suas pernas entorno do quadril dele, sentindo a respiração contra o seu rosto. Seus olhos permaneciam fechados e ele voltou a beijá-la com voracidade e paixão que ninguém deveria possuir. Pôs os cotovelos nos ombros dele e suas mãos voltaram-se para o cabelo loiro.

Ser tão perfeito assim deveria ser proibido. Seu corpo másculo encostava-se a todos os pontos possíveis do dela. E ele a segurava como se pesasse a mesma coisa que uma pena. E para um erro, seu beijo era muito bom. Intoxicante, envolvente, inebriante. Por mais que estivessem arfando por falta de ar, não queriam se separar.

Aos poucos se acalmaram. Mercy arfou ao tomar consciência do que havia acabado de fazer. Estava se agarrando com o namorado da irmã. Se não estivesse tão espantada consigo mesma, poderia rir tamanho o clichê daquela situação. Perdida frente aquela situação estranha e aquele misto de sentimento, teve a reação mais surpreendente.

Deu uma bofetada no rosto de Sean.

“Nunca mais me toque.”, ela ralhou se afastando e pegando o último baseado do bolso de sua calça. O pôs na boca, suplicando pelo esquecimento e o alivio daquela culpa que tomava seu peito.

Sean foi rápido ao arrancar o cigarro da boca de Mercy e jogá-lo atrás do sofá. A morena respirava sonoramente, explicitando sua raiva. Era incrível como o momento havia se diluído diante de seus olhos. Sean ergueu um dedo na direção de Meredith, em sinal de aviso. Na verdade, estava ávido para ter aquele corpo contra o seu novamente. Mas tinha que manter a cabeça no lugar.

“Se eu te ver, ou ao menos suspeitar que continua usando essas porcarias, juro que te coloco em uma reabilitação.”, ameaçou, vendo-a erguer uma sobrancelha em desafio. “Mercy...”, disse em um tom de aviso.

Ela sorriu.

“Finalmente aprendeu, Sean.”, deu um tapinha em seu ombro, como uma recompensa e se moveu na direção em que seu cigarro estava. “Você só não compreendeu que não pode mandar em mim, certo?”

Acendeu o cigarro e deu uma tragada.

Sean se moveu em sua direção novamente, mas foi impedido de fazer uma loucura quando Débora chamou seu nome pelo corredor. Tinha uma decisão nas mãos. Poderia deixar que sua namorada visse sua irmã usando drogas e vê-la sofrer as consequências. Ou apenas ir embora.

“Querido.”, a voz de sua namorada soou cada vez mais perto. Seus olhos azuis se estreitaram e ele bufou para a cunhada que o encarava com deboche. “Apareça, amor.”

Passou a mão pelo rosto e forçou a voz para que soasse tranquila.

“Ok!”, gritou. Então, segurou Mercy pelo braço, vendo rir com os olhos escuros parcialmente dilatados. “Apague o cigarro.”, rosnou, soltando.

"Apago, sim", ela concordou sem realmente prestar atenção em suas palavras. "Depois que der um Feliz Aniversário para a doce Deb."

Meredith piscou antes de dar outra tragada e o viu fechar as mãos em punho, segundo o impulso de enforcá-la. Jogou-se na poltrona, ignorando a melancolia que a tomava enquanto Sean corria para os braços de Débora. Era apenas uma de suas diárias discussões.

Olhou para o baseado, pensativa. Sean era como ele. Errado, mas viciante. Talvez fosse mesmo a hora de apagá-lo. Tocou nos lábios inchados e meneou a cabeça. Talvez só mais uma tragada.

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