O.k

1 Capítulo 1


Estacionei minha caminhonete em uma vaga. Desci dela com com dificuldade. Sempre é difícil descer de qualquer carro quando não se tem uma perna. Fiquei esperando Isaac em frente a porta da igreja, quando me dei conta de que ele já podia ter chegado. Desci lentamente e escada e me vi em uma sala com várias cadeiras plásticas brancas agrupadas em um círculo. Isaac estava comendo um biscoito e bebendo um copo com algo que eu não sabia dizer o que era. Andei até ele.
– Oi, Isaac.
– Você veio, cara. Já vou te dizendo que isso é tédio — advertiu-me Isaac. – É, deve ser. Vou me sentar.
Lembrei-me de Isaac ao telefone, dizendo que teria de remover os olhos em duas semanas. Ele chorava muito, disse à ele para pensar positivamente, que ao menos ele não ficaria surdo. Aquilo só fez Isaac chorar mais e dizer que preferiria ser surdo a ser cego. Então disse a ele que eu iria ao tal Grupo de Apoio a Crianças com Câncer, o que deixou-o um pouco melhor. A ligação ocorrerá um pouco depois da hora do almoço, ele já estava bem melhor.

Sentei-me em uma das cadeiras de plástico, olhando fixamente para a porta que dava acesso a escada. Ás vezes alguém que eu conhecia do Memorial chegava. Alguns acenavam, outros não. Então uma garota apareceu, carregando um cilindro de oxigênio que se conectava ao nariz da garota por um tubo. A garota devia ter câncer de pulmão. Afastei esses pensamentos e me concentrei na garota, olhando fixamente para ela. Tinha cabelos curtos, nem claros nem escuros. Era proporcional, nem alta nem baixa, nem gorda nem magra. Vestia um jeans surrado e uma blusa de malha amarela do Green Day. De um certo modo ela me lembrou Caroline. Pensei que depois dela nunca mais iria me apaixonar. Eu estava completamente errado. Eu sabia que novamente iria me ferir por me apaixonar por alguém como ela, mas essa era minha escolha e eu a aceitei. Mantive os olhos nela o tempo todo. Ela havia pego o celular, talvez para ver as horas. O círculo de cadeiras foi ocupado por mais alguns jovens e crianças. O tal de Patrick, que comandava a reunião, começou a fazer uma espécie de prece, na qual eu não prestei o mínimo de atenção. Quando ele terminou a garota desviou o olhar por mim e logo enrubesceu. Finalmente ela começou a me encarar. Os olhos dela fixados no meu e vice-versa. Continuamos com isso durante todo o discurso de Patrick, contando como era a vida dele com a ausência de bolas. Não queria ficar encarando ela e ouvindo isso ao mesmo tempo, era constrangedor. Dei um sorriso para a garota e desviei o olhar. Nesse momento tive certeza de que não me arrependeria de ter feito aquela escolha. Olhei novamente e ela arqueou as sobrancelhas como se estivesse dizendo: ganhei. Dei de ombros. O homem sem bolas terminou seu belo discurso.
– Isaac, talvez você queira ser o primeiro hoje. Sei que está enfrentando um grande desafio no momento — me perguntei de que o Isaac talvez queira ser o primeiro.
– É — o Isaac disse. — Meu nome é Isaac. Tenho dezessete anos- ser o primeiro para a apresentação, claro — Parece que vou precisar ser operado em duas semanas, depois vou ficar cego. Não estou reclamando nem nada porque sei que poderia ser pior, como no caso de alguns aqui, mas, quer dizer, ficar cego é, tipo, uma droga. Ter uma namorada me ajuda. Além de amigos como o Augustus. — Isaac virou-se para mim — Pois é… Não há nada que se possa fazer para mudar isso. — Estamos do seu lado, Isaac — o Patrick falou:
– Vamos lá, pessoal, digam para o Isaac ouvir.
E então todos disseram, em uníssono:
– Estamos do seu lado, Isaac — eu apenas mexi os lábios.
Tinha chegado a vez de um garoto com a cabeça raspada.
– Me chamo Michael, tenho doze anos, estou lutando contra a leucemia e estou bem — disse o garoto, mas não parecia nada bem. Mais 5 se apresentaram, não prestei atenção alguma neles, prestei atenção apenas na garota que se apresentou antes de chegar minha vez, conhecia ela do memorial.
– Mary, dezessete anos, Linfagioma — falou Mary, com a voz rouca. Ela costumava ser uma garota alegre, mas pelas marcas em seus pulsos dava para ver que estava em depressão. Sorri para ela. Ela retribuiu com um sorriso forçado, como se não fizesse aquilo há tempos. Minha vez havia chegado.
– Meu nome é Augustus Waters — falei. — Tenho dezessete anos. Tive uma pitada de osteossarcoma um ano e meio atrás, mas só estou aqui hoje porque o Isaac pediu.
– E como está se sentindo? — indagou Patrick.
– Ah, maravilha. — sorri — Estou numa montanha-russa que só vai para cima, amigão. Estava pensando em como a garota me lembrava a Natalie Portman em V de Vingança quando chegou a sua vez de falar.
– Meu nome é Hazel. — agora ela tinha um nome — Tenho dezesseis anos. Tireoide com metástase nos pulmões. Estou bem. Durante toda a reunião várias pessoas falaram um pouco sobre suas vidas, sobre sua batalha contra o câncer, sobre como as famílias ficavam felizes com qualquer regresso do câncer, sobre a esperança que alguns tinham, coisas do tipo. Todo esse papo era um tão quanto deprimente. Você ganha sua vida por algum motivo desconhecido, vive ela de uma maneira medíocre, e então morre, normalmente sem que ninguém saiba quem foi você. Tudo isso para mim não tinha sentido algum, eu apenas queria aproveitar o que me restava junto de alguém que eu amo, apenas isso. Hazel não tinha aberto sua boca, estava lá apenas como observadora, de vez em quando dando longos suspiros. De repente Patrick dirigiu-se até mim.
– Augustus, talvez você queira falar de seus medos para o grupo. — que diabos de pedido era esse?!
– Meus medos? — perguntei.
– É.
– Tenho medo de ser esquecido. — admiti — Tenho medo disso como um cego tem medo do escuro.
– Calma aí… — disse Isaac, sorrindo.
– Estou sendo insensível? Eu posso ser bem cego quando o assunto são os sentimentos das outras pessoas — debochei. O Isaac estava gargalhando feito um idiota, mas Patrick o interrompeu com um gesto.
– Por favor, Augustus. Voltemos a você e às suas questões. Disse que tem medo de ser esquecido?
– É.
O Patrick olhou para os lados, buscando auxílio, talvez. Eu havia o surpreendido com minha resposta. — Alguém, ahn, alguém gostaria de fazer algum comentário? Encarei novamente Hazel, parecia que ela queria dizer alguma coisa, mas: (a) ela era tímida, ou (b) ela iria dizer algo que eu não gostaria de ouvir. Torci para que fosse a primeira opção. Ela levantou a mão e Patrick falou:
– Hazel! — a satisfação estampada em seu rosto, não pude imaginar o motivo.
Ela olhou para mim. Aqueles olhos verdes dela penetravam em minha alma e me diziam que tudo ficaria bem.
– Vai chegar um dia — ela começou. — em que todos vamos estar mortos. Todos nós. Vai chegar um dia em que não vai sobrar nenhum ser humano sequer para lembrar que alguém já existiu ou que nossa espécie fez qualquer coisa nesse mundo. Não vai sobrar ninguém para se lembrar de Aristóteles ou de Cleópatra, quanto mais de você. Tudo o que fizemos, construímos, escrevemos, pensamos e descobrimos vai ser esquecido e tudo isso aqui — ela rodopiou o braço por cima da cabeça — vai ter sido inútil. ode ser que esse dia chegue logo e pode ser que demore milhões de anos, mas, mesmo que o mundo sobreviva a uma explosão do Sol, não vamos viver para sempre. Houve um tempo antes do surgimento da consciência nos organismos vivos, e vai haver outro depois. E se a inevitabilidade do esquecimento humano preocupa você, sugiro que deixe esse assunto para lá. Deus sabe que é isso o que todo mundo faz. Um silêncio seguiu-se por todo o círculo.
Abri um imenso sorriso e falei baixinho:
– Caramba! Não é que você é mesmo demais.
Eu sabia de tudo o que ela falou, claro. Sabia que aquilo era totalmente verdade, mas, ouvir tudo aquilo vindo dela. Ela era incrível. Mesmo sabendo daquilo eu continuava com medo. Pelo menos até a raça humana se extinguir eu queria que alguém lembrasse de mim, mesmo que não fosse por nada. Seria bom saber que alguém se lembra de você mesmo depois de sua morte. Hazel e eu ficamos completamente quietos até o fim da reunião. Em um momento todos deram as mãos (queria muito segurar a mão de Hazel), e Patrick iniciou uma prece.
– Senhor Jesus Cristo, estamos aqui reunidos em Seu coração, literalmente em Seu coração, como sobreviventes do câncer. O Senhor e somente o Senhor nos conhece como conhecemos a nós mesmos. Nos guie pela vida e para a Luz em nossos períodos de provação. Oremos pelos olhos do Isaac, pelo sangue do Michael e do Jamie, pelos ossos do Augustus, pelos pulmões da Hazel, pela garganta do James. — ele havia esquecido de Mary. — Oremos para que o Senhor consiga nos curar e para que possamos sentir Seu amor e Sua paz, que excedem todo o entendimento. E nos lembremos em nossos corações daqueles que um dia conhecemos, amamos e que foram para a Sua casa: Maria, Kade, Joseph, Haley, Abigail, Angelina... A lista parecia ser infinita. Ao menos aquelas pessoas não foram esquecidas. Não até agora. Ou talvez foram, pois ninguém estava prestando nenhuma atenção. Decidi que iria falar com Hazel, assim que a reunião acabasse. Fui pego de surpresa quando todos se levantaram e falaram alguma coisa, me levantei junto mas não disse nada, pois eu não havia entendido. Me levantei da cadeira com um impulso e andei até Hazel. Eu estava determinado a conquistar ela. Parei em sua frente, mantendo uma certa distância.
– Qual é o seu nome? — perguntei
– Hazel.
– Não, o nome completo.
– Hazel Grace Lancaster.

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