Oito palmos

1 Indo para o inferno


Notas iniciais
Capa: Taylor Momsen.
Inspiração para a história a música: Goin' Down - The Pretty Reckless
(https://www.youtube.com/watch?v=GjgG1wYbk7E)

Oito palmos

Indo para o inferno

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Eu o amei! Tudo que fiz foi amá-lo. Veja o que ele me fez fazer!!

Um erro pode justificar o outro?

Nos últimos quatro anos me dediquei a Marcos. Tínhamos um bom relacionamento, éramos felizes, casaríamos. Mas ele jogou tudo para o alto, largando-me sozinha.

Quando voltei do trabalho naquela quinta à noite, encontrei o apartamento vazio. Marcos nunca deixou de avisar-me caso fosse demorar a chegar. Ingênua, acreditei que após algumas semanas ausente devido ao trabalho, armaria uma surpresa. Ansiosa com a possibilidade de um jantar ou um passeio, tomei um banho demorado com óleos florais, certificando-me de escolher o perfume que ele mais gostava, mas ao abrir o guarda-roupa, minha surpresa foi outra. Dentro do armário de porta dupla meus vestidos pareciam solitários sem as camisas ao lado, a ausência de peças de roupas masculinas deu ao móvel um aspecto muito maior.

Não restaram camisas, calças, sapatos. Meus pés descalços correram rapidamente pelo apartamento. Seus livros haviam sumido, junto ao computador e ao maço de cigarro que vivia na mesa de centro.

Abalada, retornei ao quarto e sentei na cama, ainda enrolada na toalha. Tateei o colchão até encontrar o celular e discar seu número, a chamada não completou. Um nó se formou em minha garganta e o choro veio em sequência, alto e forte. Nenhuma mensagem, telefonema, bilhete. Nada. Marcos apenas pegou suas coisas e foi embora. As lágrimas rolaram compulsivamente pelo meu rosto, incessantes, a dor dilacerando meu peito. Meu coração estraçalhado pelo homem que amei.

Dormi embalada pela tristeza da rejeição, porém, ao acordar e perceber que ainda estava de toalha na cama, perfumada, com o rosto marcado e sozinha, um sentimento mais forte me possuiu: o ódio.

Marcos não foi o primeiro a deixar-me, mas seria o último. Eu não seria a única a sofrer.

Nos dias subsequentes a obsessão tomou conta de mim, a raiva crescendo e esmagando o que antes sentia de bom e doce a seu respeito. Olhava compulsivamente suas fotos, nossas fotos, imaginando cenários diversos, enquanto buscava informações do ocorrido. Marcos poderia não atender minhas ligações, mas seus amigos eram fontes fáceis de respostas e duas cervejas bastaram. Não me surpreendi ao saber que estava com outra moça, e a punhalada da traição açoitou o que restava em meu peito.

— Ele voltou para o apartamento no Centro, fomos lá no final de semana — Lúcio confessou, na metade da sua segunda long neck.

Continuei a bebericar o coquetel de frutas, mesmo sentindo a bile subir pela minha garganta, ouvindo atentamente o rapaz, que esteve tantas vezes em minha sala com os outros amigos de Marcos, falar sobre a festinha. Seu apartamento no Centro fora alugado poucos dias depois dele ter ido morar comigo, sendo uma parte do aluguel destinado para nossa viagem de lua de mel. Marcos não me abandonou às pressas, em um ato impulsivo, ele planejou. A verdade trouxe um gosto amargo a minha bebida: sua ausência não foi causada pelo trabalho, e sim por sua falta de interesse em mim e o desejo por outra mulher.

Ao final de nossa conversa, Lúcio parecia envergonhado por ter deletado o amigo e não pela minha miséria.

Mais tarde naquele dia, deitada em minha cama vazia, meu coração partido doeu mais do que na noite em que me vi abandonada, a angústia esmagando-o, contudo, não chorei. Fechei os olhos e apertei com força o travesseiro em que antes a cabeça de meu amado repousava, sem carinho algum em meus braços.

Conhecia Marcos há anos, sabia onde morava, seus horários e hábitos. Ele trabalhava em uma multinacional em uma área comercial no Centro da cidade, seu estilo despojado não combinava muito com o setor da contabilidade em que atuava, sempre atraindo os olhares das funcionárias dos outros departamentos. Lúcio não me contou, mas tudo me levava a crer que sua nova companheira fosse uma colega de trabalho. No entanto, a garota não me interessava, ela não tinha culpa, meu alvo era ele.

Às segundas, Marcos nunca ia de carro ao trabalho, seu experiente estendia-se até as 19 horas. Ele provavelmente voltaria a pé ou alugaria uma bicicleta, e eu não seria burra de guardá-lo no condomínio em que morava.

O trajeto de ônibus da zona norte ao centro levou exatos 40 minutos, preferi deixar minha moto no estacionamento, tudo que precisava estava em minha bolsa. Caminhei até o imponente prédio espelhado da empresa e aguardei, pacientemente, que descesse. A surpresa em seus olhos castanhos ao me ver foi nítida e cômica.

— Maria! — exclamou, dando um pequeno passo para trás, como se eu fosse ameaçadora.

Não ainda, querido.

Seu espanto tinha bases sólidas: a doce, gentil e passiva Maria que conheceu nunca iria atrás dele para exigir explicações como uma mulher honrada e ciente de seu valor. A Maria que conheceu sempre aceitava e perdoava. A Maria que conheceu se desfez quando seu coração foi pisado pela milésima vez.

— Acho que temos uma conversa pendente, não? — minha voz soou mansa, não parecendo ser minha.

Relutante, Marcos passou as mãos por seus cabelos castanhos, os olhos fugindo dos meus, como se procurasse alguém que o salvasse de mim. Sua nova namorada, talvez? Que pena.

— Uma bebida- ofereci.

Ele concordou com a cabeça, enfiando as mãos nos bolsos da calça em sinal de rendição.

Caminhamos lado a lado, mantendo uma distância estranhamente exagerada. Nenhuma palavra trocada, sua cabeça permaneceu baixa durante todo o percurso em direção a um bar menos popular, uma quadra de distância do seu trabalho, o caminho oposto ao qual costumávamos ir com seus amigos. Em dado momento vi, por canto de olho, digitar algo em seu celular. Uma mensagem de “chegarei tarde hoje”? Provavelmente. Mais uma mentira, infelizmente.

O estabelecimento estava vazio, como esperado de uma segunda, não sendo difícil encontrar uma mesa vaga aos fundos, longe de qualquer outro freguês ou dos próprios atendentes.

Um chopp para Marcos e uma dose de uísque para mim. Eu odiava uísque, mas a bebida forte me aqueceria e permitiria que meu recente nervosismo — ou excitação — não transparecesse.

— Eu não sei por onde começar, Maria… — bebericou de sua grande caneca, a espuma formando um fino bigode sobre seu lábio, que logo foi removido pela língua que outrora estivera em mim. A primeira onda de nojo me tomou, bebi um gole do destilado.

— Conte-me como foi seu dia — forcei um sorriso e o moreno balançou a cabeça. Tenho certeza que em sua cabeça surgiu o pensamento: “A doce Maria”. Uma pena que sua leitura a meu respeito não fosse mais compatível.

Ao término da sua primeira caneca de chopp, Marcos ainda não havia me contado sobre seu repentino sumiço, precisando tomar mais dois longos goles para ter coragem de dizer:

— Eu não queria te machucar…

E essa foi a coisa mais idiota que escutei! Permaneci de cabeça baixa, mantendo minha postura, as mãos em concha segurando o copo de bebida. As desculpas subsequentes foram tão estúpidas quanto a primeira:

— Você é maravilhosa… Não conseguia mais retribuir… Você não fez nada….

Em nenhum momento ele citou o fato de enfiar-se entre as pernas de outra enquanto eu jantava sozinha na sala, assistindo a um filme bobo para ter companhia. Em nenhum momento ele disse que se sentia mal por eu ainda olhar os sites de turismo, tentando escolher a melhor rota para seguirmos em nossa viagem histórica pela Europa. Ao que parece, a culpa era minha por ser 'incrível'.

Quando a vergonha o tomou, cobriu o rosto com as mãos. Eu também teria vergonha de dar essas respostas.

— Perdoe-me, Maria… — murmurou entre os dedos.

Levei minha mão às suas, tocando suavemente os nós de seus dedos.

Sentindo-se acolhido, abaixou as mãos, segurando suavemente com a destra as pontas de meus dedos antes de dar um sorriso amarelo e beber o restante do chopp em um longo gole.

Estava feito.

Preso em sua culpa de arrependimentos vagos, em um monólogo horrendo, não se deu conta de que eu não derramei uma lágrima, não articulei uma única palavra, apenas permaneci escutando sua ladainha. Não houve culpa quando me traiu, nem quando foi embora sem dizer nada ou quando fez uma festa com seus amigos para sua nova vida longe de mim. Ainda bem que não seguiu a carreira de ator, que teatro fraco.

— Ah, minha cabeça… — Marcos gemeu, apoiando um cotovelo na mesa e a testa na canhota, parecendo embriagado e desnorteado.

— Você bebeu demais — levantei e fui ao balcão para pagar pelas bebidas.

— Foram duas canecas… — ela balbuciou, a fala tornando-se mole.

Quem diria que ter um colega de trabalho estranho, que sabia onde conseguir alguns ilícitos, poderia ser útil a mim um dia. Puxando-o pelo braço, tirei Marcos do estabelecimento, suas pernas trançavam e ele murmurava. Na calçada, o táxi que chamei nos esperava. O condomínio onde morava ficava virando a esquina e seguindo a leste, o carro virou a sul.

Poucos minutos depois desembarcamos. Passava das nove da noite, nem o motorista que nos guiou ou os poucos transeuntes saídos de seus empregos importavam-se com uma moça amparando um rapaz em sua caminhada. Dopado, Marcos não percebeu que o guiava por outro caminho, distanciando-nos do centro, seguindo para o bairro periférico. Um trecho de ciclovia junto a uma calçada ampla para caminhada nos levava a uma região mais tranquila da cidade, praticamente sem movimento naquele horário.

Um terreno baldio coberto por mato alto, do que um dia deveria ter sido uma praça, estava logo à frente. O local provavelmente servia de ponto para alguns viciados ou qualquer outro tipo de delinquente, e eu torcia para que naquela segunda amena eles não tivessem passado por ali e encontrado o que deixei preparado.

Carregar um homem de quase um metro e oitenta e cinco foi mais difícil do que pensei e levamos mais tempo do que julguei ser necessário.

— Maria… onde estamos? — a voz de Marcos saiu ainda mais arrastada, a droga cumprindo bem seu papel.

Ninguém cruzou a rua enquanto entrávamos pelo mato, sem comércios próximos ou casas, o lugar era perfeito. Exceto, claro, pela sujeira. Por toda parte podia-se ver preservativos usados, garrafas de bebida, pinos e bitucas; porém, o mais importante: o material que deixei mais cedo estava intacto.

Sentei Marcos no chão seco e ele logo pendeu para trás, deitando de costas na grama seca. Tirei minha bolsa do ombro, puxando de dentro da mesma a faca enrolada, cuidadosamente, em uma toalha de rosto. Na terra, meu antigo amor não tinha nenhum controle sobre seu corpo, de olhos fechados e braços abertos. Posicionei-me em cima dele, sentando sobre sua pelve, uma perna de cada lado de seu tronco.

— Maria… — ele murmurou — Não posso.

O nojo e a raiva subiram como fogo por minha garganta. Seu ego era tão grande a esse ponto? Eu estava prestes a fazer um favor a outras mulheres.

Desembrulhei a faca e seus olhos nublados ganharam lampejos de consciência, em um reflexo lento seu braço atingiu pesadamente meu rosto, o relógio que sempre usava batendo na parte baixa do meu olho. O movimento inesperado me fez cambalear para o lado, surpresa. Sua atitude desesperada apenas aumentou minha ira. Tomei rapidamente minha posição anterior, prendendo também seus braços abaixo de minhas coxas, ele poderia ter reagido, mas não teria forças para me deter, a droga havia tomado-o por completo.

Enfiei a toalha em sua boca, segurando-a firme com a canhota, os olhos castanhos se esbugalharam. Com a mão direita empunhei firmemente a faca.

— Eu amei você! — desferi o primeiro golpe contra seu peito, o corpo estremeceu abaixo de mim e apertei mais minhas pernas — Eu amei você mais do que tudo! — a segunda facada, em seu estado completamente dopado Marcos não tinha condição nenhuma de reagir, seus ganidos de dor abafados pela toalha — Eu amei você e você… — a terceira facada penetrou profundamente seu coração, minha visão borrada pelas lágrimas, a raiva consumindo cada célula do meu corpo.

Dei-me conta de quanta força estava empregando apenas quando percebi sua cabeça torcida para trás, meus dedos protegidos pela toalha afundaram em sua garganta. Debruçada sobre seu corpo ensanguentado, não soltei um instante sequer a faca, que torcia levemente sobre o aperto do meu punho em sua carne, o ódio me fez desmoronar em pranto.

Chorando, abandonei sua boca para segurar o cabo de madeira com ambas as mãos e permitir que toda aquela angústia escorresse por mim, golpe em cima de golpe em seu tórax rubro. Quando as lágrimas acabaram e meus braços começaram a doer, deixei-me cair sentada para o lado naquela terra imunda. Abaixo de Marcos o chão estava empapado de sangue, seus olhos vidrados para cima e a boca aberta com metade da toalha cor-de-rosa entalada em sua garganta. Respirei profunda e longamente três vezes, sentindo pela primeira vez a dor em minha bochecha. Inconscientemente direcionei meus dedos ao machucado, freando o movimento poucos centímetros antes de sujar meu rosto com seu sangue. Eu tinha sangue em minhas mãos e o que me incomodava naquele momento era a possibilidade de ficar com um hematoma no rosto.

Levantei-me, meu trabalho não havia terminado. Caminhei em direção a árvore onde deixei a pá e um par de luvas, que usaria para cavar a cova em que meu noivo descansaria, oito palmos abaixo da terra. Fincando a ponta do instrumento no solo seco, iniciei o trabalho duro. Durante o processo de remoção da terra, cogitei desmembrá-lo, para não precisar abrir um buraco tão comprido, abandonando a ideia em seguida. Queria apenas ir embora e não ter mais contato com aquele homem.

Rolei seu corpo para dentro da vala funda que cavei, certificando-me de remover o rastro de sangue. Passava das três da manhã quando terminei de fechar sua cova, sentindo-me cansada e imunda. Larguei a pá em um canto mais escondido e removi a proteção das minhas mãos, lavando-as com a água que trouxe em uma garrafa. Em seguida me despi das roupas sujas, vestindo a muda limpa que estava em minha bolsa e guardando as manchadas de sangue e terra, juntamente com as luvas, em uma sacola plástica dentro da mesma. Adorava aquela calça e torcia para conseguir remover toda a sujeira que se incrustou nela.

Cansada, deixei o matagal e rumei para meu apartamento, desejando tomar um longo banho quente com meus óleos florais.

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No confessionário o padre estremeceu. Havia escutado muitas atrocidades em seus anos de serviço à igreja, fiéis arrependidos, visitantes desesperados em busca de consolo. As confissões eram difíceis, carregadas de emoção e, muitas vezes, lágrimas. Mas a voz doce e calma que lhe narrou um assassinato não apresentava arrependimento algum do ato. A tranquilidade com que a confissão foi feita o desestabilizou. O que poderia dizer aquela mulher?

O coração do padre retumbava, buscando em seus conhecimentos as palavras certas, sem perceber que os minutos estenderam-se em silêncio pela capela. Foi apenas com o ranger das dobradiças velhas da porta do confessionário abrindo-se e fechando, que o padre tomou noção do tempo decorrido. A sua frente a jovem ergueu o véu negro, revelando o cabelo loiro comprido e o rosto delicado e livido como porcelana, corrompido apenas por uma contusão abaixo do olho esquerdo.

— Um pecado justifica o outro, padre? — a mulher questionou.

O idoso pensou em erguer-se para pedir que se retirasse do local, mas ao perceber que ela trazia consigo uma faca em uma mão e na outra uma corda e um pedaço de pano, exitou.

— Seja franco, padre, o senhor também não acredita em perdão, não é? — Maria sorriu, apenas um retesar de músculos sem emoção alguma.

O padre não se deu conta que apertava fortemente sua batina, o medo empurrando suas costas contra a parede de madeira.

O sorriso se desfez e Maria deu um passo à frente na direção do homem.

— Perdão.

Notas finais
"Não me abençoe, padre, pois eu pequei.

Padre, sentiu minha falta?
Estive presa por um tempo
Fui pega pelo que fiz
Mas levei tudo com estilo

Deixei de lado todas as confissões
Eu fiz o caminho de volta
Mas agora sou uma versão muito pior
Então, estou de volta
E ele disse

Pelos caminhos que eu tomo
Eu vou para o inferno
Pelo amor que eu faço
Eu vou para o inferno"
(...)
Going To Hell - The Pretty Reckless (https://www.youtube.com/watch?v=JEDeyLxlOwI)
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