Oito horas

1 Oito horas — capítulo único


Oito horas. Exatamente 480 minutos 288.00 segundos e 28.800.000 milésimos de segundo. Oito horas são o que médicos e especialistas na área a qual ela não detinha conhecimento recomendavam para uma boa noite de sono. Era o ideal para que mente e corpo continuassem funcionando devidamente durante o ciclo diário de acordar, se alimentar, assim como cuidar da higiene pessoal para enfim dormir ao final de vinte e quatro horas deveriam ser a norma mas não para ela. Não especificamente para ela. Pois Mei Hatsume gostava de ignorar os princípios básicos e fisiológicos do corpo humano. E justamente aqueles que tinham conhecimento na área deveriam saber o desperdício que era passar oito horas inerte quando ela poderia muito bem usar desse tempo para suas ilustres criações. Seus bebês levavam tempo e disposição mas tão rápido quanto seus dedos corriam pelas teclas de um teclado, algo em sua produção já poderia estar ultrapassado e ela não poderia se dar ao luxo de entregar um bebê incompleto para servir de uso para a classe de heróis, que desperdício seria em meio a um resgate um item do traje não funcionar como deveria!

Então não, Mei se negava veementemente a dormir por oito horas ao fim de um dia onde ela passasse enfurnada em seus projetos.

Sua mente transbordava com ideias tal como fluía rapidamente para a solução de um problema aparente que surgia em meio suas criações. Ela poderia ter facilmente oito braços dada a velocidade com a qual trabalhava e por mais que seus colegas já estivessem acostumados a sua energia inesgotável haviam aqueles que se preocupassem com a garota — afinal uma hora toda a combustão encontra seu ponto de morte, onde a energia a acaba e o processo de convergência de partículas se esvai — que notavam a sutil mudança na velocidade de raciocínio dela, a maneira como seu corpo estava mais surrado do que seu macacão e as inquestionáveis olheiras abaixo de seus olhos, era fácil perceber a estrela de Hatsume morrendo mesmo que ela relutasse em ceder a sua própria queda.

Hitoshi notara que o microfone em sua máscara estava falho, dificultando o uso de sua quirk, e quando procurara pelo coração pulsante do Departamento de Suporte da Yuuei percebera que este estava em estado latente, seus olhos piscando lentamente, buscando foco nos reparos de um uniforme enquanto vagavam sobre a tela de um dos dois monitores em sua área de trabalho, a imagem nele sendo completamente diferente do item em que seus dedos mexiam com atenção quase própria.

Praticamente todos os alunos no curso de heróis buscavam pelo auxílio de Hatsume para reparos imediatos, mas poucos a viam nesse estado.

Um onde ela se encontrava praticamente sem energia, seu sorriso tão marcante pequeno e o brilho em seus olhos já quase inexistente.

E tudo o que ele precisava era de um reparo rápido, não em ter de lidar mais uma vez com a falta de preservação pessoal de Hatsume, isso quando ele mesmo passava pelos mesmos dilemas dela em relação ao sono mas no caso dele era apenas dificuldade em dormir.

Hatsume.

Ela terminara os reparos que estava fazendo e olhara em direção a ele, os olhos se estreitando, buscando se lembrar quem ele poderia ser...

— E você é..?

Shinso, Hatsume, Shinso.

Os cabelos róseos dela penderam para o lado esquerdo, conforme ela fazia uma lenta associação de nome e pessoa, os olhos piscando até que um breve brilho passou por eles e seu sorriso largo voltou a vida.

— O pupilo daquele professor rabugento, certo? O que eu posso fazer por você, Shinso?

— O microfone da máscara, ele não tá funcionando direito.

A tela do outro monitor se acendeu enquanto ela digitava algo nas teclas com uma das mãos e com a outra pedia pelo item em questão e, em poucos minutos, ela já havia aberto a máscara de tal forma que ele não imaginava o que poderia fazer com que sua quirk fosse tão efetiva.

— Você sofreu um belo impacto.

— É, deu pra perceber?

Ela assentiu com a cabeça, descendo seus óculos para poder trabalhar melhor.

— Uma das placas que estabilizava a sua quirk saiu do lugar, o que é ótimo pois se ela tivesse queimado eu não teria como substituir no momento.

Ela ajustava a lente dos óculos enquanto dava os retoques finais no item.

— Sorte sua que fui eu quem fez o design da sua máscara, ao menos assim posso fazer o que bem entender com ela.

Levantando o óculos e deixando um longo bocejo lhe escapar dos lábios, a garota selou seu bebê e entregou ao mais novo herói em treinamento.

— Prontinho Shinso.

— Obrigado Hatsume.

— É o meu trabalho, e como pagamento bem que você poderia me ajudar...

Ele negou com a cabeça observando a parte crucial de seu uniforme de herói.

— Seria bom se você deixasse de lado essa mania de deixar tudo para a última hora, sabia?

— Impossível quando se nasceu para criar bebês incríveis para o curso de heróis!

Shinso apenas sorrira em resposta, colocando a máscara e obrigando a garota a cuidar de si mesma com sua famigerada quirk.

Ao menos Hatsume, assim como seu mentor, reconheciam a utilidade de sua habilidade em fazer uma lavagem cerebral em qualquer pessoa apenas com uma simples troca de palavras — ao menos eles o viam como alguém diferente de um vilão infiltrado no curso de heróis, com uma habilidade tão baixa quanto.

Na manhã seguinte ele antes sentira o impacto da presença de Hatsume para depois ouvi-la com sua energia no máximo.

SHINSO! Seu idiota! Eu só queria dormir, não tomar banho e escovar meus dentes e comer todas as refeições do dia!

Mas ao menos por um momento ela pode concordar com os especialistas quando eles diziam que oito horas de sono faziam um bem danado ao corpo, assim como para a cabeça.

Notas finais
Por algum motivo eu teimo em gostar dessas interações inexistentes entre Shinso e Hatsume e essa é a segunda vez em que escrevo sobre elas. Só não sei dizer se foi a Mei quem fez o design da máscara que torna mais eficiente o uso da quirk do Shinso. Até dei uma olhadinha no perfil do personagem e não apareceu nenhuma informação sobre - só que a máscara é um dispositivo não eletrônico - logo peço que ignorem esse detalhe em prol do conjunto da obra assim como o velho dito que tomei como motivo do texto sobre as preciosas "oito horas de sono", muito obrigada.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!