Oitava Fileira

16 Montanhas, geleiras e javalis inteligentes demais


— Mais um dia, Cas, e só. Sei que foi muita coisa, toda a história que o irmão dela está morto, mas tem algo errado. Não acredito em nada dessa conversa que ela não sabia o que Nero estava fazendo. Ela está nos segurando aqui e eu não consigo ver o motivo.

— Só preciso de mais uma chance. Preciso convencê-la, sei que é importante… Sinto que é, mas…

Olhei a angústia, a testa franzida cada vez mais frequente. Eu sabia a resposta. E como a odiava.

— … Mas não lembra o porquê, não é?

Ele bateu na testa, frustrado. — Nada. Sinto que preciso tentar salvá-la, mas não consigo imaginar a razão. Por que eu não quero destruir de vez uma humana tão perversa? Fui namorado dela ou coisa assim?

— Ela é irmã do Cebola, Cas. O Cebola original. Seu melhor amigo de infância.

— Não era você? Por que diabos não era você?

Porra, isso dói de um jeito novo toda vez. O mais calmo que pude, falei a ele de novo do Cebola, da Magali, da Mônica.

— Eu… Caralho, eu não entendo. Lembro de tudo com você, desde os sete anos. De morar com o Luca, Fred e Marina, mas desse pessoal… A única coisa que fica é essa merda de incômodo, devia ter alguma coisa lá, algo importante… Eu sei que eles existiram, que eram meus vizinhos, e só. O resto é branco.

Não consegui responder. De algum jeito, o Cas percebeu e sentou mais perto. — Deixa pra lá. Posso lembrar depois, e se não lembrar, tudo bem. Me acostumo. Você está aqui.

Respirei fundo. Parecia tão real agora, tão próximo. Eu queria aplicar magia em mim mesmo e esquecer. Pelo menos aceitar com a dignidade do Cas.

Quando ele me mostrou como realmente estava a mente dele — e pediu pra ajudá-lo a ir depois que toda essa merda terminasse, quase derrubei a casa na cabeça da Denise e do Xavier. Como o idiota tolerou chegar naquele nível? Como eu fui egoísta de deixar as coisas chegarem a esse ponto?

E como se a situação já não estivesse ruim o bastante, quando o Cássio insistiu em tentar salvar a maníaca da irmã do Cebola mesmo sabendo o que custaria a nós dois, eu mesmo o matei numa discussão imbecil. Agora ele não lembra direito da Mônica. Do Cebola. Porra, ele esqueceu o Cebolácio, e suspeito que sequer lembraria que os quatro existiram se eu não soubesse deles.

Ele deveria ter me mandado me foder de verdade há muito tempo. Mas não, o imbecil está em paz com toda essa droga. Me perdoou do próprio assassinato em dois malditos segundos. Quer ajudar aquela sociopata da Maria a escapar do Inferno, mesmo que não lembre mais quem ela ou o irmão dela foram. Ainda por cima aceitou permanecer nessa vida de merda todo esse tempo por mim. Não importa que ele esteja aqui pela metade, ele continua a porra de um herói.

O colar me incomoda quase tanto quanto minha consciência moribunda; mesmo que seja impossível dormir bem e eu me sinta um cavalo de arado com essa porcaria no pescoço, não vou tirar.

Me sentia mais corajoso com a corrente do DC comigo, mas dessa vez não está funcionando. A saudade dele, tão pior nos últimos meses, agora é tão densa que mal consigo respirar direito.

Resisto pela milésima vez a invocar o espírito do meu irmão. Ele está em paz, repito como um idiota. O maldito está em paz desde que o larguei pra morrer na rua, tanto tempo atrás. Não é certo perturbá-lo só porque estou sozinho com o javali fodido imbecil, deprimido pra caralho e já não sei mais o que fazer.

Porra, Mauricio, porque você não foi um pouco menos altruísta e sobreviveu, seu retardado de merda? Eu precisava de você comigo, seu idiota corajoso. Quem sabe eu não tivesse ferrado com tudo.

Cássio sentiu minha agitação, e tocou meu ombro. — Tá lembrando deles, não é?

E ele ri com o meu silêncio surpreso, depois parece triste. — Toda vez que você fica muito calado, faz esse gesto. — E imita o meu passar dos dedos num colar invisível.

— Eu não imaginava o que era até que você voltou a usar a corrente do seu irmão. — complementa. Tantos anos, e eu ainda me surpreendo com o quanto o Cas é capaz de perceber sem enxergar.

— Tenho sentido muita falta deles hoje em dia. Queria ter a memória ferrada como a sua, isso dói pra caralho.

O Cas negou de leve com a cabeça. — Eu sei e você sabe por que não lembro.

Um arrepio correu pelas minhas costas. Ele sabe? O javali completou com um sorriso resignado. — Você vai revê-los. Espero que daqui a muitos anos, mas vai. Eu...vou ficar aqui.

Sem esperar por uma resposta, Cas jogou o braço metálico sobre meus ombros. Acho que ele sabia que eu não tinha nenhuma. — Então não deseje esse tipo de merda pra sua cabeça, sério. Um de nós estar fodido até a alma já é o bastante.

Não sabia que era possível me sentir ainda pior. — Não fale assim da sua alma, porra.

— Foi só uma expressão, Mau. — Rosno baixo, tem coisa com que não se brinca. Ele recua um pouco. — Ok, retiro o que disse. Estou fodido até os ossos, mas minha alma está intacta. Melhor?

— Menos ruim — concordei, já um tanto envergonhado do ataque de mau humor. Ele só sorri e fica calado. Me concentro no cheiro dele, esquisito como sempre, e o lobo me acalma. Tenho que ter a cabeça no lugar mais um pouco, salvá-lo como puder, aproveitar enquanto ele ainda sabe quem eu sou.

Exausto e com a cabeça cheia como estava, demorei a notar ele me chamando.

— Que é?

— Você sabe o que está me acontecendo, não é? Porque raios eu nos enfiei nessa roubada, mesmo que eu não saiba mais.

Acenei positivamente com a cabeça, quase feliz com a mudança de assunto.

— Vai adiantar alguma coisa me contar?

— Acho que não. Entendo agora. Sabe, o que você quis fazer aqui.

— Então você me desculpa?

Abri um sorriso torto, a infelicidade me engolindo mais uma vez. Porque acha que é você quem precisa ser perdoado, seu animal estúpido?

— Lembra daquelas montanhas no Chile? Neve, florestas e absolutamente nenhum humano por perto? Se eu tiver pelo menos quatro meses lá sem pensar em nada mais complicado que caçar a próxima refeição, talvez eu perdoe você.

— Feito. Olha, desde que chegamos, tem um pedaço de metal no seu dedo. Bem resistente à corrosão. É o que estou pensando?

Meu sorriso fica mais sincero. Me permiti uma brincadeira dessa vez, imaginei que ele perceberia.

— Sabe, normalmente braços-direitos não ficam hospedados no mesmo quarto que seus líderes, e não vou ficar separado de você aqui. Nem mesmo por uma parede, esse lugar é perigoso demais. Disse que estava comprometido com você em vários níveis. — Tirei o anel e deixei na mão humana dele.

Ele tateou, reconhecendo o formato simples. — A aliança do seu pai. Não é mentira... de um jeito estranho. Eu não deveria ter uma também? — perguntou, me devolvendo o anel dourado. — Você está fazendo alguma coisa, e sinto que eu não lembraria nem de mim sem isso. Sério, Mau, o que é?

Sorri. Mesmo com tanta coisa perdida, ele ainda me conhecia melhor que qualquer outra pessoa. — O que qualquer homem apaixonado e imbecil o bastante faria se pudesse. Estou com você, e ela não vai mais causar mal a ninguém.

— E eu não concordaria se soubesse, não é?

— Nem um pouco — admiti, triste pra cacete. Me deito e ele busca minha mão em silêncio.

A segurei, sentindo o conforto do gesto familiar. Sempre incomodava o fato dela ser mais fria que qualquer mão humana, mas não essa vez. Hoje o frio me lembrava que esse do meu lado era o Cas, o javali mais imbecil e meu melhor amigo no mundo. Eu não estava só.

Por enquanto, pelo menos, estava tudo bem. Nenhuma magia contra nós ainda. Conforme o sono chegava, eu o sentia cada vez mais imóvel e calmo. Usava essa calma, e conseguia dormir sem sonhar. Hoje, a cabeça dele estava nas montanhas, florestas e geleiras do Sul. Também estava no anel no meu dedo.

“Devo arranjar um pajé e um terno também?”

— Não me tente, javali. Vou acabar aceitando.

“Nem pense nisso. Ainda não esqueci o que aconteceu da primeira vez que você me beijou.”

Notas finais
Tenho certeza que agora vocês sabem o preço que a magia está cobrando do Cássio por um poder quase ilimitado. Nem sempre a imortalidade é uma coisa boa. * Pra quem não leu ou lembra de Meia Lua (recomendo que leiam, explica como todo mundo acabou assim) esses dois já se beijaram duas vezes. Na primeira, Cássio levantou com tanta força em cima da perna ruim que ela quebrou. * Curiosidade: Mauro carregava a corrente do irmão, as alianças dos pais e poucas fotos. As fotos se perderam num dos muitos ataques à casa deles. Cássio não guardou nada da antiga casa, exceto os quadrinhos e livros no laboratório. Acho que é a única coisa que ele quase nunca degrada, o que é irônico. A todos que leram e acompanham, muito obrigada e até semana que vem.