Oi, pecado!

1 Oi, pecado!


Toda vez que Aurora saia de casa ela sempre recebia os mesmos avisos de sua mãe, “Não se distraia!”, “Não fale com estranhos!”, “Não brinque com os gatos!”; mesmo nunca tendo visto um. No entanto, tinha o mais importante de todos: “Não faça nada de estranho!”. A verdade é que naqueles tempos o mundo era extremamente hostil às mulheres e sua mãe fazia questão de lembrá-la disso. O motivo de tudo isso? Simples. Aurora podia fazer o que quisesse, desde que não chamasse a atenção ou desse origem a comentários. Aurora sempre foi muito atenta e rigorosa em relação aqueles avisos, sempre os seguindo à risca, eram as regras de sobrevivência. No entanto naquele dia algo aconteceria, um evento que faria Aurora questionar e quebrar todos os limites impostos a ela.

Apesar dos avisos, era impossível Aurora não chamar a atenção, no meio dos tons pasteis e acinzentados do vilarejo, o emaranhado ruivo da menina parecia vibrar e para alguns ela tinha um apelido especial.

— Quantas bagas vai querer hoje Pequena Sol? – Disse o Padeiro com um largo sorriso no rosto.

— Apenas uma. – A menina sorriu de volta.

Aurora colocou a baga em sua cesta e saiu em direção a sua casa. Aurora ia saltitando e cantarolando, enquanto o pequeno vilarejo era sujo, com casas tortas feitas com madeira, chão barroso e moradores mau cheirosos, a menina era viva. Ela carregava em si um certo contraste, algo que dizia que ela não era dali. Sua casa era um pouco afastada da vila, logo depois da colina. Enquanto subia o morro Aurora reparou no Girassol que crescia logo à frente, era de um amarelo tão vibrante que a menina não resistiu e colocou a flor na orelha, fazendo dela um enfeite de cabeça. No entanto, quando se abaixou, sem querer a baga pulou para fora da cesta e rolou alguns centímetros à frente, antes que ela pudesse se levantar, algo se moveu no arbusto onde a baga havia parado. Aquilo fez com que Aurora recuasse alguns passos, era comum eles dividirem o habitat com animais, então dali podia muito bem sair alguma fera raivosa. Então o animal saltou do arbusto e atacou a baga. E de todos os piores animais que podiam topar em seu caminho, o mais assustador e demoníaco, ele, que causa terror e pânico em todos os aldeões da vila, foi ele que atacou sem dó a baga.

— Um gato! – Aurora tentou correr, mas acabou tropeçando na cesta.

Ela rastejou por alguns segundos, estava em prantos. Já era! Tudo havia acabado. Segundo as crenças, só de uma criatura dessas atravessar o seu caminho já era morte certa. Aurora fechou os olhos com força, pediu proteção pra sua mãe e respirou fundo, não tinha o que fazer. O jeito era esperar a morte vir buscá-la. Aurora esperou por um, dois, três minutos e nada. “Talvez a morte esteja atrasada!” pensou a menina. Então resolveu dar uma pequena espiadela naquele ser satânico. Era exatamente como os mais velhos diziam, um animal de pelagem tão negra que era impossível ser visto a noite, olhos esmeraldas que hipnotizava, uma cauda longa e fina que se assemelhava ao rabo do diabo.

— Que lindo! – Aurora imediatamente levou a mão à boca, seus olhos dançaram para os lados. Se ouvissem o que saiu de sua boca, com certeza seria queimada.

Ela ficou ali, parada. Hipnotizada. Em algum momento se perguntou se estava sob algum feitiço do animal, ela não conseguia fugir ou parar de olhá-lo. Naquele instante milhares de dúvidas borbulhavam em sua mente. Aurora não entendia como um ser tão pequeno que mal conseguia atacar uma baga podia fazer mal a um humano. Era engraçado vê-lo rolar para os lados com um pedaço de pão maior que ele, aquele gato parecia se divertir com aquilo. Então o felino largou a baga, suas orelhas ficaram erguidas e ele tombou a cabeça para o lado com aqueles esmeraldas fixos em Aurora.

— Não! Não! Não! Não! Não! – Aurora começou a sussurrar quando viu que o animal vinha em sua direção.

Ele a atacaria? Talvez a morte tivesse chegado. Aurora prendia sua respiração e cerrava os olhos com força, havia chegado a sua hora! Então ela sentiu algo fofo e felpudo roçar sua perna. Quando ela abriu os olhos, a menina notou que o gato se esfregava tranquilamente nela. Seu corpo enrijeceu quando ele começou a cheira-la, ela sabia que a qualquer momento ele podia usar a “Arranca Couro!”. Os mais velhos falam que sua língua é tão grossa que é capaz de arrancar a pele, os músculos e até mesmo os ossos de uma pessoa. Então num movimento suave ele a lambeu. Realmente era áspera, mas Aurora duvidou que aquilo ali provocaria algo mais do que cócegas.

Foi o que bastou! Aquela lambida lhe aqueceu tanto o coração que Aurora havia se entregado aos sentimentos. Ela de verdade achava que aquele serzinho não representava perigo algum e num gesto impensado ela pegou o felino e o acomodou em seu colo.

— Oi, pecado! – Aurora sussurrou.

— O que há de errado com você? – Ela acariciava o gato incessantemente. O pequeno felino se virou deixando amostra a barriga, era quase como um convite para passar a mão ali.

— O que há de errado com a gente? – Aurora o acariciava na barriga. – Os ratos daqui são mais perigosos que você! Eles sim, matam! – Aurora tinha a voz leve.

— AQUI! OLHEM! EU DISSE QUE A GAROTA O DOMOU! – A voz irada de um homem estrondou no ar.

Em instantes Aurora estava rodeada por aldeões munidos de arpões, foices e tochas. Sem perceber, ela segurava firmemente o gato, pressionando o animal contra o peito. Do meio daquelas pessoas saiu um homem velho de túnica, em sua mão havia um livro.

— Você admite ser filha dele? – O homem tinha voz pesada.

— Eu sou filha da minha mãe Padre! – Havia medo na voz de Aurora.

— Há! Não seja tola menina! Sabemos o que você pratica. – A voz do Padre era ainda mais severa.

— MAGIA NEGRA! – Gritou uma mulher do fundo.

— Pequena Sol.... – O Padeiro estava surpreso.

— SOL? OLHEM A COR DE SEU CABELO. É TINGIDO DE SANGUE! ME DIGAM! QUANTOS ELA JÁ NÃO MATOU? – Outro homem gritou ao fundo.

— ELA É MINHA FILHA! POR FAVOR, NOS DEIXEM EM PAZ! – Sua mãe havia entrado no meio do círculo colocando Aurora atrás dela.

— ELAS COMETERAM UM CRIME DIANTE DE DEUS! – Gritou o Padre!

— ELA É SÓ UMA CRIANÇA! – Havia desespero na voz de sua mãe.

— ELAS DEVEM QUEIMAR OU O POVO VAI PAGAR! – Berrou o Padre.

Movidos pelo ódio e pelo medo, aquelas pessoas colocaram Aurora e sua mãe na fogueira. Elas eram um exemplo a ser seguido, a prova de que a fé não devia ser contestada. Do alto, amarrada na viga de madeira e rodeada pelo fogo, aquela menina via os clamores desesperados e as suplicas de perdão. Naquele momento ela e sua mãe eram o motivo de todo o caos que ali fazia morada. Tantos morrendo por causa do rato e culpa mesmo era do gato.

— Entende agora filha? Qual é o mal desse mundo? – A voz de sua mãe soou em suas costas.

—Sim mãe! É de dar dó!


Notas finais
Eai? Gostaram da história da Sol? Me digam o que acharam.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.