Ohana Dreams

1 Capítulo 1 - Baía do Rei


Hal saltou de cima da pedra e não se preocupou com a altura, indo direto para o fundo do oceano, mergulhando entre pedras e peixes exóticos só encontrados naquela parte do mundo. Estava bem acostumado a saltar lá de cima junto dos colegas da escola, as férias de fim de ano se revelavam longas e improdutivas, mal podia esperar pelo retorno às aulas — era a única tarefa interessante que tinha para fazer numa área tão isolada da cidade.

A temperatura do oceano estava mais fria do que o de costume, ainda que em outras regiões do mundo Pokémon dezenove graus não fosse considerado tão gelado. Sentia falta do verão que beirava os quarenta, gostava de sair para caçar Krabbys na areia enquanto sua irmã trazia as amigas bonitas para dançar no luau semanal dos turistas. Aquela época do ano nunca tinha muito movimento, esquecera seu violão na casa de Kaleu e toca fitas subitamente parara de funcionar. Não tinha mais nada para fazer em casa, e por isso decidiu sair para nadar.

Afinal, água é que o não faltava na região de Alola.

Hal não precisava de máscaras ou equipamentos de mergulho sofisticados para tal tarefa. Quando saltou da pedra tudo que levava consigo era um par de óculos de mergulho e um balde. Um cardume de Remoraids assustou-se com o movimento e se dispersou, duas Magikarps tolas foram verificar do que se tratava.

A água continuava límpida e brilhante, como sempre. Não que alguém valorizasse, para o povo de Alola simplesmente não existiam águas sujas ou poluídas. Eles viviam no paraíso e nunca se deram ao conhecimento. Hal movia as pernas e os braços como se fosse parte de todos os tipos de Pokémons aquáticos que ali viviam. Um gigantesco Mantine vivia naquela baia há anos, e sempre voltava em tempos de acasalamento. O garoto passou bem perto da criatura majestosa e foi recebido de bom grado, contanto que não roubasse muito de sua comida. As rochas tornavam difícil a travessia de outros Pokémons perigosos como Sharpedos e Gyarados, mas a fauna aquática eram tão bela e diversificada que parecia impossível alguém invadir aquele santuário sagrado. Era um lugarzinho especial que só Hal e sua família conheciam — a Baía do Rei, como a apelidaram graças ao suntuoso Mantine que sempre nadava ali com suas enormes asas, o senhor do oceano.

Hal mergulhou bem fundo dessa vez porque pensou ver algo brilhante que a maré trouxera nos últimos meses. Adorava colecionar pedras raras, tanto que o cachorro da família fora apelidado de Dia — e engana-se ao julgar ser uma homenagem ao sol. Era por causa do Diamante. Prendeu a respiração e foi de uma vez só; três, quatro, cinco metros. Ainda conseguia enxergar o fundo com certa facilidade. Um grupo de Clamperls se aglomerava ali, e entre elas havia o que parecia ser uma escama cor de rosa.

Ao retornar à superfície, Hal foi até as pedras e observou bem a escama.

— Deep Sea Scale — sussurrou bem baixinho, impressionado com um artefato tão raro dar as caras em uma área relativamente rasa do oceano.

Não era o achado mais espetacular de sua vida, mas ficaria muito bonita em sua coleção de itens que o oceano lhe trouxera. Uma Water Stone ficava bem no centro de sua estante ao lado de uma estranha chapa azulada que lhe parecera interessante guardar. A verdade é que nem sabia se todas aquelas pedras eram verdadeiras, até porque se fossem já as teria vendido para ajudar sua irmã em casa com comida e contas a pagar. Seus pais sempre lhe disseram que ele deveria cuidar da irmã, da mesma forma que ela também seria eternamente responsável por ele. Com apenas doze anos Hal teve de aprender a ser autossuficiente e esperto para tomar conta de sua vida sem a participação de adultos. Aprendeu da maneira mais difícil.

Foi então que notou um estranho movimento entre as rochas que quebravam as ondas do outro lado. Um vento frio soprava junto do sol, seus pés deixaram marcas na areia que era varrida pelas ondas e ele jurou ter visto a barbatana de um Wailmer. Para sua decepção, não era um. Era apenas... um filhote de Popplio, bem pequenino e desengonçado.

Era a primeira vez que via um em terras tão quentes, talvez tivesse se perdido nas torrentes frias que se aproximavam do litoral.

— Cadê sua família? — perguntou Hal ao Pokémon.

O Popplio estava sozinho, mas não parecia triste ou sequer abatido. Mesmo tendo se distanciado tanto de sua rota original continuava ali sorridente, como se quisesse brincar.

— Xô. — Hal empurrou um pouco de areia para cima dele. — Volte para o mar antes que te esqueçam e não venham mais te buscar.

O Popplio piscou e com a ponta do nariz redondo cutucou o pé do garoto que sentia muitas cócegas ali. Hal sorriu e deu alguns pulos para longe de onde estava, agachando na areia e escondendo-se entre as pedras como um Pokémon selvagem prestes a batalhar.

O filhote era desengonçado em terra, tentava arrastar-se para perto do humano que continuava fugindo dele, mas quando os dois entraram na água sua velocidade era impressionante e ele fazia muitas acrobacias malucas.

— O que mais você faz de interessante? — perguntou Hal, recebendo um jato d’água na cara. — Ah, então é assim, seu engraçadinho?

Os dois mergulharam na baía e foram para mais fundo, próximo aos recifes. Embora nunca tivesse visto um Popplio nas redondezas era como se aquele filhote já estivesse ali há algumas semanas, pois os outros Pokémons aquáticos estavam bem acostumados a sua presença.

A criança e o Pokémon passaram o resto da tarde na Baía do Rei divertindo-se. Naquele tempo não haviam laboratórios em Alola e nunca passou pela cabeça de Hal possuir um Pokémon só para si. Nunca nem pegara uma pokébola na mão, eram muito raras e estavam começando a ser desenvolvidas. Para ele, Popplio era como um verdadeiro amigo. Caçaram Krabbys e os prenderam em armadilhas de madeira para depois soltá-los. Reuniram pedras das mais bonitas para depois arremessa-las, embora Popplio pensasse que fosse porque estavam construindo um ninho ou uma casa para morar, e isso o lembrava que já era hora de partir. Estava entardecendo quando Hal preparava-se para voltar, juntou o balde cheio de conchas e pedras e virou-se para o Pokémon ao dizer:

— Obrigado pela companhia. Pretende estar aqui amanhã?

O Popplio ergueu-se em suas nadadeiras traseiras e bateu palmas, como se insinuasse que desejava mesmo um bis da experiência. Hal riu e concordou com a cabeça, acenando para ele enquanto se distanciava.

— Fechado! Amanhã cedo estarei de volta, não se divirta sem mim!

A velha trilha do litoral só era tomada por quem morasse naquelas redondezas, e Hal já estava bem acostumado a fazer o percurso quando voltava para a escola. Andava descalço e sentia a terra em seus pés e a pedra ainda quente do sol. Logo estaria escurecendo e os lampiões seriam acesos, precisava estar em casa antes que sua irmã enlouquecesse e acionasse a polícia local para ir atrás dele de novo.

O primeiro a recebê-lo foi Diamante, um cãozinho felpudo que eles resgataram com seus pais há alguns anos. Dia era um Rockruff muito alegre e ficava solto o tempo todo, por isso vivia correndo nos arredores e cavando buracos entre as pedras. Pulou o riacho, subiu os degraus baixos de madeira e abriu a porta que nem estava trancada. Sua irmã não estava deitada na sala só com as roupas de baixo, o que era bem raro, visto que ela sempre estava ali ouvindo rádio e programas chatos sobre famosos. A casa tinha apenas um andar composto por sala e cozinha, no fim do corredor uma das duas portas dava no cômodo de sua irmã que antes pertencia aos seus pais, pelo menos agora teria o outro quarto inteiro só para si. Mesmo sem muito espaço no interior, a quantidade de área externa compensava. Eles consideravam que toda aquela areia pertencia a eles, pois não havia mais cabanas por perto, principalmente em tempos e que Alola ainda era tão modesta e começava a se desenvolver. Sem contar que a vista era belíssima, bem de frente ao oceano. Muitos turistas pagariam os olhos da cara para morar num lugar como aquele ou passar um dia que fosse.

Hal foi para seu quarto e deixou o balde de preciosidades em cima da escrivaninha de madeira, Dia ficou lá cheirando porque também adorava mastigar pedras para afiar seus dentes — uma das características da espécie. Depois foi ao quarto da irmã e tentou abrir a porta, mas surpreendeu-se por estar trancada. Ouviu cochichos lá dentro e muito barulho de gente se movendo às pressas.

Teve de ficar quase dois minutos ali parado na entrada até que sua irmã finalmente abrisse a porta toda descabelada.

— Oi — ela falou, forçando um sorriso e ajeitando a franja. — Já voltou?

— São quase seis horas, Mili — respondeu Hal, preferindo não responder uma pergunta tão óbvia. — Estou indo preparar a janta, tá?

— Ah, então coloque pratos para mais um! A Kai está aqui comigo.

— Sério? — Hal voltou-se para trás, surpreso.

No quarto haviam duas garotas, uma delas era Miliani, que na língua nativa significava “suave carícia”. Mili era a irmã mais velha de Hal e acabara de completar vinte e um anos, ela era alta e de pele queimada, tinha um corpo esbelto, não de alguém que malha muito ou se esforça com dietas, mas de quem que foi agraciado pela natureza em ter curvas suaves e um sorriso radiante. Um detalhe que tornara Mili uma celebridade nas festas e luaus era que seu cabelo inteiro tinha um tom branco, quase prateado, e brilhava à noite como se fosse parte da lua. Certa vez vira em uma revista de moda que as líderes de ginásio mais lindas do mundo Pokémon tinham cabelos coloridos, então tentou colorir o seu — e ficou horrível. Quando a cor finalmente saiu, o branco entrava em contraste completo com sua cor de pele morena, e as pessoas adoraram. Mili adotou o branco como sua cor característica, e muito se falava ao seu respeito como dançarina. Seus olhos azuis eram um presente do oceano.

Kailani significava “mar e céu”, e era a melhor amiga de Miliani. As duas trabalhavam juntas como dançarinas na Cabana do Luar, e quando estavam dançando eram simplesmente de parar o comércio. Enquanto Mili representava a tranquilidade de um céu, brincava ao dizer que Kai era a ferocidade dos mares. Tinha o cabelo bem curtinho acima dos ombros e não os penteava há algum tempo, preferia uma saia leve de estampa florida e muitas cores para destacar. Ela adorava andar de shorts ainda mais curtos e camisa aberta para deixar evidente seu abdômen definido e coxas torneadas, sem contar as tatuagens das mais diversas pelo corpo. A favorita de Hal era uma Staryu bem discreta próxima ao peito.

— Oi, Kai.

— E aí, guri — disse ela, sorrindo ao apoiar o braço no encosto da porta. — Está escutando muito as fitas que eu te dei?

— Na verdade, não — desculpou-se Hal. — Meu toca fitas parou de funcionar há mais ou menos um mês, então ainda não ouvi tanto quanto eu gostaria. Mas as músicas são incríveis, quando as ouço sinto que falam diretamente com meu coração.

— Adoro o jeito como esse menino fala — disse Kai, sorrindo para sua amiga. — Ei, cadê seu aparelho quebrado? Me manda que eu arrumo agora, isso é, só se sua irmã deixar eu ficar mais um pouco.

— Nossa, que coincidência, eu já pedi para ele deixar um prato a mais na mesa! — respondeu Mili, dando uma piscadela para o irmão. — Halzinho querido, tem peixe na geladeira, seria super fofo se você deixasse tudo preparado para a janta, o que acha?

Hal revirou os olhos. Sabia que ia sobrar para ele.

Entendia que sua irmã precisava de sua ajuda nessas horas já que não havia mais ninguém em casa. Às vezes sentia falta da comida de sua mãe e do carinho do pai, mas tentava não pensar muito nisso. Se preparasse uma janta deliciosa teria a companhia de Kai, que arrumaria seu toca fitas e ficaria para conversar, e ele queria muito contar para alguém sobre sua experiência com o Popplio.

Pelo menos uma vez por semana Kailani almoçava ou jantava com eles, isso quando não ficava para dormir. Ela era divertida e agitada, além de ter um gosto muito bom para música e apresentar algumas das favoritas de Hal hoje em dia. Foi Kailani quem o ensinou a tocar violão, e também foi a primeira a puxar sua mão e pular do alto da rocha na Baía do Rei quando tinha apenas seis anos. Hal achou que morreria naquele dia, mas anos mais tarde tornou-se o maior saltador das redondezas.

Kailani não era apenas a melhor amiga de sua irmã, era a sua também. Ela era parte da família, da sua “Ohana”, como certa vez ouvira em algum lugar...

Hal preparou a melhor peixada frita que suas habilidades culinárias permitiam. Colocou os pratos e preparou a mesa do lado de fora, pois o friozinho estava agradável e excelente para acender uma fogueira ao ar livre. Kailani não demorou para arrumar o toca fitas, e assim eles puderam deixar a música tocando enquanto se banqueteavam. No próximo dia não haveria aula e nem trabalho, poderiam tirar a noite para conversar e divertirem-se, ter visitas em casa era raro e Hal adorava qualquer companhia.

— Tudo bem, então eu estava lá, dançando e exibindo todo meu corpinho lindo e chegou um cara muito estranho, um desses turistas taradões. Ele chegou achando que eu era fácil e já tentou dar em cima de mim, então eu dei um “chega pra lá!” nele, da forma mais educada possível, afinal, ainda estávamos no horário de trabalho — disse Kailani, compartilhando uma de suas várias histórias.

— Conheço bem esse seu “jeitinho” educado — brincou Mili.

— Ah, qual é! Não sou mulher para homem babaca, sou uma moça de família e prefiro mil vezes os comportados, tá? Olha só para o Halzinho, que tipo de homem você imagina que vai ser quando crescer? Eu aposto que será um rapaz educado, bondoso e gentil. Isso vem de criação, vem de berço. A família nos ensina como sermos pessoas melhores.

— Bem, eu acho que as influências são mais importantes. O tipo de gente que andamos na escola ou no trabalho... Isso certamente nos muda, por isso devemos escolher as amizades — respondeu Miliani, desviando o olhar para o mar. — Tem gente que não tem sempre os pais por perto, né?

Kailani percebeu que havia tocado em um assunto muito delicado.

— Ei, ei, desculpa, não foi minha intenção! — ela imediatamente tentou mudar de assunto e enfiou uma garfada inteira na boca. — Tipo, hmm, esse peixe está delicioso, o Halzinho é promissor na cozinha!

— Obrigado — a criança agradeceu, embora seus pensamentos continuassem distantes em lembranças muito antigas.

— Você o está treinando bem, Mili. Já deve estar no level 17 de obediência — Kailani deu um empurrão fraco no ombro da amiga e caiu na risada.

— Já o treinei para dizer sempre “sim”, especialmente quando preparo a comida, não é mesmo, Hal?

— Sim — o garoto repetiu, e os três riram. — Mas, é sério, sua comida é ótima, Mili. Só falta um pouco de tempero. E carinho.

— Como ousa elogiar aquele Trubbish que ela chama de almoço? — indagou Kailani, batendo com força na mesinha de madeira. — Eu só concordei ficar para jantar porque ela disse que é você quem iria cozinhar, não sei se eu sobreviveria três dias na mesma casa com essa garota!

Mili fez menção a chorar, e nesse momento Kai a envolveu em seus braços e a abraçou com muita força, como se nunca mais fosse larga-la. Depois a beijou no rosto e as duas riram muito, e Hal sorriu, porque gostava muito de ver as duas juntas e isso mantinha sua família feliz e unida.

— Ei, me conta — Kai recomeçou —, o que fez hoje de bacana?

Hal abriu um sorriso ainda maior, como se só estivesse esperando a hora em que alguém fizesse aquela pergunta. Queria muito falar sobre sua visita à Baía do Rei e sobre o Popplio filhote que encontrara, mas ergueu um dedo e pediu para que esperassem. Foi correndo até seu quarto, pegou os artefatos que encontrara em sua busca e os mostrou com alegria.

— Uau, uma escama de Gorebyss! — disse Kailani, impressionada. — Conheço muita gente que pagaria uma nota por um desses!

— Hal, com o dinheiro poderíamos reformar a casa depois da última ventania — sua irmã falou num sinal de surpresa.

— Não quero vender. É especial. — respondeu o garoto. — Mesmo que eu não tenha nenhum Clamperl ou outro Pokémon para sair em aventura, é uma de minhas maiores aquisições nessa vida, e...

— Espera — falou Mili. — É... falsa. É só uma escama de Luvdisc. E essa tem aos montes por aí.

Hal prendeu a respiração e baixou o rosto. O pobre Dia ao seu lado encolheu o rabo e sentou-se, comovido. Kailani também não pôde esconder o desapontamento, pois pensava que aquela poderia ser a solução para muitos de seus problemas.

Kailani franziu o cenho e fechou os olhos com força. Eram dois vacilos numa só noite.

— E-eu acho que é melhor eu ir andando. Obrigada pela janta, e...

— NÃO! — Mili a chamou, segurando pelo braço. — Fica aqui hoje, sério, fica, fica, fica! É um dos poucos fins de semana que nós duas temos livre, e eu faço muita questão da sua companhia... muita mesmo.

Kailani gostava quando sua presença era tão requisitada, e também compreendia que eles precisavam dela.

— Só espero que não me peçam para lavar a louça amanhã — ela sorriu, dando a entender de que ficaria a noite lá.

Miliani comemorou tanto que as duas saíram juntas para preparar algum drink com vodca na cozinha.

O céu estava estrelado e a lua reinava solitária lá no alto. O barulho das ondas incessante voltava a tornar-se presente quando Hal se deu conta de que estava sozinho mais uma vez no descampado, e sua única companhia era Dia, que não compreendia muito do que ele falava e preferia ficar babando e cavando buracos.

Mas pelo menos ele o ouvia.