Ohana Dreams
12 Capítulo 12 - O Guardião da Família [FINAL]

Era a época mais quente do ano, a região de Alola nunca esteve tão cheia de turistas e grandes treinadores vindos de fora, era como se por um instante aquele conjunto de ilhas isoladas em algum lugar do oceano subitamente voltasse para os mapas e todas as pessoas do mundo decidissem passar as férias de fim de ano no paraíso.
Um velho senhor saiu para a varanda abanando o rosto, sentou-se em sua cadeira de balanço que rangeu com seu peso, depois tirou os chinelos e esticou as pernas sobre a mesinha de centro. Ligou um rádio bem antigo — um presente de uma amiga estimada—, mas o aparelho estava tão acabado que demorou a funcionar. Nunca aprenderia a mexer naqueles novos equipamentos eletrônicos, não substituiria por nada suas antigas preciosidades. Após dois tapas, o rádio ligou em uma estação de músicas antigas e o velho foi tomado pelo alívio, relaxando em frente ao mar.
Verão de 76. Aquela música trazia algumas boas lembranças.
Passara uma vida inteira apreciando aquela paisagem, agora que já completara meio século de vida concluiu que jamais se enjoaria dela.
A tranquilidade foi perturbada quando um jovem de cabelos esverdeados apareceu correndo pela estrada com sua mochila nas costas. Sua inquietação era tamanha que ele embaralhou-se todo em suas palavras, sem saber se corria para não perder o horário ou se se despedia de forma adequada de sua família.
— Vovô, estou saindo com meus amigos! Nós vamos ao aquário da ilha vizinha em uma excursão da escola! — o garoto saiu correndo no mesmo instante, depois voltando ainda apressado e foi direto para dentro de casa. — Será que a vovó preparou algum lanche para a viagem? Será que estou esquecendo alguma coisa? Droga, por que fui deixar tudo para última hora?
— Aproveite a viagem— respondeu o velho com uma risada. Sempre se divertia muito com as visitas do neto.
Hau carregava duas sacolas de comida suficiente para um batalhão inteiro. Apesar da pressa, deu meia volta e lembrou-se de dar um beijo no rosto de seu avô antes de seguir na viagem.
— Eu te amo, vovô. Obrigado por estar passando as férias de verão comigo!
Uma senhora observava da varanda, ela tinha quase 70 anos, mas não demonstrava nem metade de toda aquela idade. Ainda era forte e saudável, devia ter sido de uma beleza invejável no passado.
— Eles estão indo para o aquário — o velho fez que sim com a cabeça e a senhora deu um sorriso. — Eu ainda me lembro de quando eu trabalhava lá.
— Foi onde nos conhecemos a primeira vez, Alikia. Você ficava linda naquela roupa de mergulho, mas demorei para criar coragem e te contar.
— Você nem tinha idade para dar em cima de uma mulher velha, seu bobinho.
— Tudo acontece ao seu tempo — o velho homem riu. — Hoje tenho sorte de ter-me casado e tido filhos com uma mulher honesta e gentil como você.
— Eu ainda me lembro daquela sua Popplio que você não sabia que era fêmea.
— É... A Senhorita Chefe. Faz tanto tempo...
Sua esposa voltou para a cozinha, estava assando uma lagosta deliciosa para um jantar especial à noite, por isso pediu que uma Tsareena a ajudasse nos preparos.
— Candy, poderia ir até a padaria para comprar alguns ingredientes para mim? Hoje à noite nossa sobrinha Phoebe vai chegar, quero que ela aproveite ao máximo sua estadia.
Aquela linda Tsareena era a mesma que um dia fora resgatada após o incidente no Sunset Circus. Ela continuou a viver com a família Kameahookohoia por mais de quatro décadas, e ainda esbanjava charme apesar de algumas de suas flores terem perdido o brilho rosado.
A Tsareena saía de casa com seu dinheirinho contado quando um carteiro apareceu de bicicleta e a cumprimentou de relance. O velho sentado na cadeira o viu de longe, mas não fez muita questão de levantar-se.
— Senhor Hala Kameahookohoia? Encomenda para o senhor.
O velho fez um sinal com a mão para que o carteiro deixasse as cartas e o pacote em frente à casa. A maioria delas eram contas, mas havia surpreendentemente uma pertencente à sua irmã Miliani.
Fazia anos que não a via, a última vez devia ter sido há pelo menos três anos quando sua família visitou Alola nas férias de Janeiro. A carta demonstrava a clara preocupação de uma irmã mais velha que, mesmo após tanto tempo, sempre se preocuparia com seu irmãozinho onde quer que ele esteja. Junto do envelope havia também uma linda foto da família completa: Miliani, seu marido Dylan e a filha Phoebe.
— Olha só como cresceu... — falou Hal, sorrindo ao observá-la.
Sua irmã se casou com Dylan e teve uma filha que tornou-se não apenas uma treinadora competente, mas uma integrante da Elite dos 4 na região de Hoenn. Alola nunca teve uma Liga Pokémon, então Hala não compreendia muito bem como funcionavam as responsabilidades de um integrante, mas sabia que sua sobrinha fazia questão de tirar um tempo de folga para descansar com o tio em Alola.
Mili ainda vivia em Hoenn com seu marido, ela raramente saía de casa agora. Já estava velha e viajar de avião se tornara uma tarefa complicada, gostava mandava cartas para o outro lado do mundo e dizia com insistência como sentia falta de sua juventude e infância naquele lugar.
Após terminar de ler a carta, pegou o pacote e logo pensou tratar-se de uma pedra ou artefato raro que Dylan adorava enviar em nome da Corporação Devon. Hala sempre gostou de colecionar quinquilharias, mas já passara grande parte da coleção para o neto Hau que fazia melhor uso daqueles artefatos como treinador — nunca imaginou que passar tanto tempo no oceano juntando Heart Scales seria de alguma utilidade! O pacote era pesado e muito bem embalado, como se sua carga fosse da mais importante prioridade. Ao abri-lo, seu coração disparou ao perceber que havia um ovo Pokémon ali dentro. Junto dele havia uma nota escrita por Miliani:
“Ei, maninho. Como é que você tem passado?
Mês passado a Phoebe nos convidou para ir ao circo, ela sabe como eu adoro, mas para ser sincera nunca mais visitei nenhum desde aquela nossa triste experiência (ainda tenho a impressão de que eles maltratam os Pokémon em segredo), mas dessa vez fui convencida do contrário. Nesta apresentação, me surpreendi com o fato de que havia uma Primarina como artista principal, e adivinhe, era a Senhorita Chefe, a própria! Exatamente a mesma Popplio que você tinha quando era criança. Ela cresceu e se tornou um Pokémon belíssimo. Fico feliz que você a ajudou a seguir seu sonho, as aulas de teatro valeram a pena, tenho certeza de que ela realizou todos seus anseios.
O nome do circo onde a Chefe trabalha chama-se “O Emblema do Oceano”, eles passarão uma temporada em Kanto e disseram-me que logo estariam em Alola. Você precisa ir assisti-la. A Chefe ficaria orgulhosa. Semana passada fui surpreendida por um dos organizadores do circo que me entregou este ovo, ele disse que a Primarina gostaria que eu ficasse com um filhote dela, como agradecimento por todos os cuidados que prestamos. Fiquei muito surpresa com o fato dela lembrar-se da gente, até chorei de emoção e peço desculpas por isso, sei que você não suporta me ver chorar. Quero que você cuide desse pequeno Pokémon que virá a nascer como se fosse de nossa família, aposto que meu sobrinho Hau iria adorá-lo, ou quem sabe algum treinador em quem você confie com todo seu coração. Tenho certeza que você saberá.
Beijos para todos!
Comporte-se.
Mili”.
Hala ficou tão emocionado com a surpresa que todas as lembranças de sua infância de repente vieram à tona: tomar sorvete na VaniDelluxe e escolher um dentre tantos sabores diversos; infiltrar-se no Esconderijo de Ika e Uko para conseguir alguns trocados; voar nos costas de um Drampa; almoçar com sua família; mergulhar na Baía do Rei... Que tempo bom! As lembranças boas superavam todas as ruins.
Hoje a sorveteria já não existia mais. A construção deu espaço para um prédio luxuoso que recebia turistas.
O majestoso Mantine da Baía do Rei partiu em sua migração para as águas quentes de Hoenn e nunca mais voltou, mas deixou para trás seus filhotes, diversos Mantykes que um dia viriam a crescer e se tornariam tão grandiosos quanto o Rei original.
Ika e Uko levaram a vida intensamente, como sempre fizeram. Arranjaram confusão e tentaram alguns trabalhos aqui e ali. Foram os amigos mais próximos de Hal até o fim, fizeram muitas visitas aos sábados e foram motivo de muita risada com suas histórias e enrascadas. Quando Uko faleceu de infarto, Hala dizia que seu coração era tão grande que não cabia dentro dele. Ika, por sua vez, tinha um cérebro tão genial que alguém lá em cima precisou dele. Era triste pensar que seus dois amigos de infância partiram tão antes dele, mas Hal se conformava quando os imaginava em algum lugar no céu comendo pizza de pepperoni à vontade enquanto brincavam com Dia.
Hala também teve de se despedir de seu Rockruff quando ainda era moço. Nunca aceitou o fato de que os animais tinham de partir tão cedo. O pequeno Diamante foi enterrado em uma colina distante que mais tarde foi apelidada de Ten Carat Hill, seu túmulo ficava muito florido na primavera.
Kailani continuou o resto de sua vida na ilha. Ela teve muitos relacionamentos intensos, mas nenhum deles foi duradouro. Quando sua irmã foi embora para Hoenn, foi Kailani quem cuidou de Hal como se fosse um irmãozinho e nunca deixou de estar ao seu lado. Mesmo depois de velha ela continuava linda, procurava manter-se sempre em forma e saudável, tinha a disposição de uma jovem e ainda causava invejava nas mais novas. Hala dizia que sua arma nunca envelhecera.
Ainda se sentia culpado por ter contado que sua irmã e Dylan se beijaram numa noite qualquer. Era como se ele fosse o responsável por ter acabado com o amor mais bonito e sincero já visto, talvez hoje as duas ainda poderiam estar juntas e ele teria ambas para sempre ao seu lado, onde estariam protegidas — afinal, juntas elas eram invencíveis — mas quando separadas, era como se toda a força se seguisse numa direção oposta até se romper. Já faziam 5 anos desde o enterro. Quando era menino, costumava acreditar que Kai e Mili eram como sol e lua, e sempre estariam lá em cima não importa quanto tempo passe; mas mesmo os astros no espaço um dia deixam de brilhar. Sentia falta de muitas coisas nessa vida, mas nada se comparava à falta que sentia delas.
“Kai, você é a mulher mais linda que já conheci. Você foi a maior inspiração para minha vida”, lembrava-se de ter dito em seu enterro, só nunca se desculpou por nunca falar isso a ela quando ainda era viva.
Hala acariciava o ovo em seu colo quando murmurou para si mesmo:
— É... O tempo passa...
Estava ficando velho, sua função nessa história estava para terminar. Talvez tudo que passou ao lado das pessoas era o que importava. Sua Ohana. Teve uma vida simples, mas muito feliz.
Ainda naquela noite, Phoebe chegou de avião para a visita aos seus tios. A Dona Alikia preparou um jantar com muito capricho, talvez tantos anos trabalhando no aquário a ensinaram a saber como escolher os melhores peixes para servir.
Os quatro se sentaram à mesa e conversaram durante horas, Phoebe compartilhava suas experiências como membro da Elite e Hau se encantava com a ideia de que ainda naquele ano estaria finalmente começando sua jornada como treinador.
— E então os Wishiwashis se juntaram e se transformaram e uma forma gigantesca e monstruosa! Como isso é possível? Um bichinho tão pequeno se tornar algo tão ameaçador?
— Os Wishiwashi se juntam em cardumes como forma de proteção, querido — explicou-lhe sua avó. — Mesmo pequenos e inofensivos, quando trabalham em grupo são capazes de derrubar até mesmo a maior das barreiras.
— Visitar o aquário foi incrível, mal posso esperar pela próxima — animou-se Hau, dando uma garfada em sua lagosta. — Ei, Phoebe, pode passar o refrigerante?
Sem que ela movesse um dedo, a garrafa misteriosamente levitou no ar e foi em direção do copo. Hau sorriu encantado, sempre se divertia com aqueles truques feitos pelos Pokémons fantasmas de sua prima.
— Isso é tão maneiro! Um dia quero ser forte que nem você!
— Ah, vocês não fazem ideia de como é exaustivo trabalhar na Liga... — disse Phoebe com um suspiro. — Tenho que aguentar aquele mala sem alça do Sidney o tempo inteiro, sem contar os compromissos constantes, acho que fico mais tempo sentada do que treinando Pokémons fantasmas... Tem dias que não sinto meus pés. Mas pelo menos agora estou aqui com vocês, e isso faz tudo valer a pena!
Hau comia com gosto quando percebeu que seu avô estava estranhamente quieto.
— Vovô, aconteceu alguma coisa? Como posso te animar?
Hala sorriu, porque algumas vezes os mais novos não entendem o motivo dos velhos ficarem tanto tempo em silêncio.
— Só estava pensando em algumas coisas. E como está sua mãe, Phoebe?
— Ah, cansada, como sempre... Ela sente muita falta de Alola, mas agora o trabalho não dá nenhuma folga. Ela disse que assim que se aposentar vai passar um tempão aqui com o senhor, nem que para isso precise deixar o Dylan em Hoenn para que ele cuide dos negócios da família. Ela precisa mesmo é de um banho de água salgada, para se limpar de todas as impurezas. Mamãe tem andado muito estressada...
— Sua mãe é forte. Ela aguenta — respondeu Hala, tomando um gole de seu drink antes de ser novamente interrompido por seu neto que não parava de falar.
— Vovô, quando é que você vai começar a entregar os iniciais para os novos treinadores que estarão chegando em Alola? Eu vou ganhar um também? Posso escolher ou vou ter que ficar com o que tiver desvantagem?
— Em breve, meu garoto, em breve. Houve um pequeno atraso porque eu ainda estava me decidindo qual seria o inicial aquático, mas acho que já o encontrei.
— E quem são os treinadores que estarão se mudando para cá? Eles são legais? É um menino ou uma menina?
O velho Hala riu e bagunçou os cabelos do menino.
— Você faz perguntas demais, mas em breve vai ter uma resposta para cada uma delas. Por hora, vão se trocar e se preparem para o rito de passagem do ano. A Phoebe vai dançar lá em cima com direito a show de Marowaks e muita comida!
— O senhor vai dançar também, vovô?
Alikia riu só de imaginar a imagem de seu marido dançando com todo aquele peso.
— Estou meio velho para essas coisas, veja só, ai, ai, minhas costas... — ele tentou disfarçar.
Hala aprendeu com sua irmã que um lar só recebe esse título quando as paredes já são cheias de marcas e rabiscos que registram o crescimento das crianças, xícaras e pratos com lascas quebradas, e muitos quadros repletos de saudade na sala.
Muitos anos se passaram até que ele compreendesse que “lar” nem sempre precisar ser um lugar— podiam ser pessoas para quem seu coração se dirige quando se está cansado, amigos que o acolhem independente de onde estiver. Talvez por isso sempre sentiu um estranho aconchego diante de seu “lar”, não importa aonde estivesse, fosse num universo existente ou não, nesta ou vida ou em outra.
As coisas mais importantes da vida eram tão simples que podiam ser expressadas em algumas poucas palavras — amor, carinho e família. O Sr. Hala cresceu ouvindo isso e estava feliz por ter perto de si cada uma delas.
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