Ohana
1 James Dean
Notas iniciais
Negra em toda a estrutura. O dourado cintilava nas quilhas, no bico, na rabeta e, até mesmo, no strep. Não que fosse chamativa demais; não. A atenção estava na singeleza com a qual os fios de ouro se trançavam no escuro e nos pequenos Lírios-aranha, também dourados, que finalizavam a decoração. O substantivo: prancha; o nome: James Dean.
Nem a aparência da prancha, nem o nome escolhido para batizá-la eram caprichos à toa. Cada detalhe do objeto guardava um simbolismo, uma razão para existir. O artefato contava a história de James Byron Dean; o ator de vida curta e glória eterna. E acima de tudo contava a história de Elouisie Blanchard; jovem de personalidade instável, humor que despontava para o sádico e coração quebradiço. Mas não vamos nos ater, por enquanto, à problemática Elouisie. Desviaremos a atenção para falar de sua alcunha: Sakura Haruno.
Não seria honroso chamar Sakura de alterego de Elouisie. Primeiramente porque isso adicionaria mais um distúrbio na vida da garota, que já tem três; incluir Transtorno Dissociativo de Personalidade à Tríplice-aliança– apelido "carinhoso" dado pela própria menina aos seus problemas- não seria algo saudável. E depois, seria desqualificar a talentosíssima Sakura. Sakura é a surfista, a vencedora; a deusa que conhece o Oceano Pacífico como um marinheiro experiente conhece seu barco. Sakura é a namoradinha de James Dean, de Tom, de Robert, de Gregory e de todos os outros dezessete atores que dão nome a suas pranchas.
É Sakura Haruno quem levanta troféus e é Elouisie quem os guarda em prateleiras; é Sakura quem compete e é Elouisie quem sente o cansaço e as dores; o nome Sakura Haruno aparece em artigos esportivos da escola, mas é o coração de Elouisie que é exposto em cada linha da matéria; Sakura perde o jogo e Elouisie se quebra.
...
Sobre James Dean, — a prancha ou ator, não importa. No final das contas se resume aos dois — o significado de sua existência sempre a faria lembrar-se de si mesma. A superfície negra era a derrota, a dor, a frustração, os obstáculos e o caminho percorrido com dificuldade. O escuro presente ali era Elouisie e era James, era o pesar da luta. Os fios de ouro eram a glória, o nome sobrepondo o fracasso, a grandeza de ser um vencedor. O dourado era Sakura, entretanto Elouisie também o queria ser, pois James já o era e sempre seria.
Os lírios-aranha, embora fossem fossem dourados na prancha, são originalmente vermelhos com variações em amarelo e branco. A flor venenosa se chama Higanbana para os japoneses e para os mesmos, é a flor que representa dor, saudade e morte.
Elouisie recordava-se do dia em que a confecção da prancha acabou e da reação de seu irmão e de sua avó quando apresentou sua nova preciosa. Enquanto Edgar Blanchard — que sempre haveria de ser seu eterno ruivinho, Gaara — torceu o nariz para as flores, Chiyo-baa-chan repreendeu o garoto por sua ignorância e preconceito:
"–Gaara, a Higanbana não trata a morte com vulgaridade e as pessoas devem seguir seu exemplo. O lírio-aranha representa a morte como uma transição, um rito de passagem, um recomeço. É o símbolo do equinócio do Outono no nosso amado e distante Japão e para nós, japoneses, é tão importante quanto a flor que te representa, Sakura-chan.
Enquanto Gaara aquiesceu as palavras da avó, Elouisie policiou-se para não protestar quanto ao nome do qual foi chamada e quanto ao fato de ter sido incluída como japonesa. Não que odiasse uma de suas culturas-raiz, só não sentia-se pronta para recebê-la e nem digna da mesma. No lugar dos protestos deu voz a curiosidade:
–Algo mais, Obaa-chan?
–Claro, Hime-sama! — com a destra já enrugada, acariciou o cabelo rubro do neto, que estava sentado aos seus pés, e com a mão esquerda sinalizou para que a jovem de cabelos rosáceos, que encontrava-se guardando sua mais nova aquisição, se sentasse ao lado do irmão — Higanbanas representam dois amantes apaixonados que devido às circunstâncias precisam viver separados; se alguém encontra uma pessoa que nunca mais verá de novo, o lírio-aranha irá cruzar o caminho dessa pessoa por toda a vida dela.
–Sabe, chiyo-baa-chan, eu escolhi essa flor porque o James Dean se foi, ele fez a transição. Agora também considero que é por causa do amor impossível entre ele e Pier Angeli; a mãe dela não quis que os dois ficassem juntos porque James não era católico e um garoto rebelde. Nenhuma flor poderia combinar mais com os dois.
–Mas o que a prancha tem a ver com você, querida?
Não muito. Não é como se eu fosse perder algo. Jay e eu ficaremos juntos para sempre, eu realmente acredito nisso. Ano que vem eu disputarei o Mauna Kea com James Dean, conseguirei a Taça do Topo do Mundo e me tornarei mais uma surfista havaiana profissional e tudo isso por vocês."
Elouisie fez esse discurso aos catorze anos. Aos quinze perdeu Jay, a Taça do Topo do Mundo, a chance de se tornar profissional e o pior, suas convicções e seu eu.
Sentada na poltrona azul de chintz, que o pai jurava ser genuinamente britânica, com os pés balançando de forma frenética e apertando o chaveiro de Kamehameha I, O Grande; a garota de dezessete anos desvia seu olhar de James Dean e olha de forma ambiciosa para Robert Downey Jr., sua prancha de número nove. Levanta e vai até a sua cômoda na outra extremidade do quarto e vê seu reflexo no espelho:
–Sakura Haruno, está na hora de pegar o mundo de volta para si.
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