Oh Shit, Girl!

6 Please, don't tell


Califórnia, San Diego – Março de 2015

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Imprevisível, essa era a palavra que resumia perfeitamente Zachary Hayes. Sexy também. Imprevisível e sexy.

De qualquer modo, Zac era um caso que precisava urgentemente ser estudado. Imaginar estudar a anatomia daquele corpo me fez morder os lábios. Foco, Philippa!

Não era a anatomia dele que precisava ser estudada e sim o que se passava pela mente daquele acéfalo. Nunca fui alguém que precisou de um manual de instruções para saber lidar com um cara. Vivia cercada por eles e pode-se dizer que esse gênero não é muito difícil de se decifrar. Contudo, Zac continuava sendo uma incógnita.

Primeiramente, pelo fato de não saber nada sobre ele além do básico. Um acéfalo que morava sob o mesmo teto que eu, não media esforços para ser gostoso e estúpido na mesma intensidade e que beijava bem. Era impossível rotular sua personalidade, uma vez que era mais bipolar que uma mulher em TPM. No mais, minhas informações sobre meu não-colega de apartamento não passavam de uma grande imensidão de nada.

Impossível fingir que sua existência não me fez pensar se morar no apartamento 407 era mesmo a única alternativa. Parecia precipitado afirmar que não conseguiríamos ficar no mesmo ambiente, mas havia passado uma semana desde o nosso “momento” e não tínhamos cogitado a possibilidade de manter um clima amigável e sem tensão sexual até então. E eu havia pensado que ficaríamos assim depois de ir para cama. Coitada!

Mesmo que seu desfile só de cueca na minha frente era muito agradável de se presenciar e suas provocações verbais a cada dez minutos muito agradáveis de se responder, eu não sabia por quanto tempo seria possível guardar minha intimidade dentro da calcinha.

Balancei a cabeça, notando o quão perdida estava e bufei. Meu maior desejo era parar de pensar em Zac e prestar atenção no que o Sr. Dimas dizia enquanto escrevia no quadro de caneta.

A sala onde eu estava parecia com um auditório. A parte onde as cadeiras ficavam era inclinada, as mais próximas do professor eram da altura normal e as de trás mais elevadas, assim sucessivamente. Era interessante como sua voz fazia eco pela sala e parecia que estava em um cinema, assistindo um filme absurdamente chato.

Atentei meu olhar para a apostila e levei o lápis aos dentes, procurando alguma coisa nas minhas anotações que me situasse na matéria. Fiz uma careta ao notar que algo estava bem errado ali e, esse algo, não era só o fato de eu não fazer ideia do que se tratava aquele estudo ou de estar na última página da apostila, e sim, o fato de não existir anotações, porque no lugar delas estavam desenhos. Poderia ser considerada uma artista aos olhos admiradores de rabiscos artísticos.

Mordi com força a ponta do lápis, chamando a atenção da garota ao meu lado que fez uma expressão desconfiada para mim. Lancei lhe um sorriso cínico para, em seguida, fazer uma careta de repugnância, me segurando para não mandar de brinde meu dedo do meio.

Tirei a apostila da minha frente, indignada com o fato de ter ficado três aulas pensando em um acéfalo e observando a transa das moscas na janela ao invés de prestar atenção na única coisa que me daria um futuro. Encontrei o caderno de Axel embaixo da apostila – que eu havia pegado errado na correria da manhã – e folheei-o.

Eu não saberia dizer ao certo se algumas coisas que aconteciam eram obra do destino ou só coincidência. Por exemplo, se eu não tivesse pegado o caderno do meu irmão sem querer antes de sair de casa, ele não estaria comigo. Se eu não estivesse pensando em sexo com o cara que morava comigo, eu prestaria atenção na aula. Se eu estivesse prestando atenção na aula, eu não abriria o caderno para ocupar meu tempo com algo que não fosse Zac. Se eu não tivesse a brilhante ideia de abrir o caderno para ocupar o meu tempo, eu não encontraria a foto que eu encontrei.

Na foto estava eu, Axel, minha mãe e meu pai. Sorrindo como uma família feliz. Meu coração deu uma batida tão forte que eu imaginei-o saindo pela minha boca; depois disso, passou a bater como um descompensado. Um nó se formou na minha garganta e eu peguei a foto na mão para olhar mais de perto.

A foto devia ser ter uns oito anos. Eu tinha meus treze anos, sorrindo com um pirulito na boca e a mão na cintura. Os cabelos longos e negros caindo feito cascata pelos meus ombros. Axel, uns vinte centímetros maior do que eu, com um cabelo grande, tendência Justin Bieber e um estilo bem gótico.

Meu pai estava com sua rotineira carranca e habituais roupas despojadas e sujas de tinta. Expressão de poucos amigos, facilmente confundida com a de Axel. Na verdade, a única diferença entre os dois, além do cabelo e das roupas, era a diferença de idade. A primeira impressão que passava era de um homem carrasco e grosseiro, no entanto, nunca havia conhecido um homem tão gentil e revolucionário.

Ao seu lado estava Srta. Fox ou minha mãe, ela tinha os braços em volta do pescoço do meu pai, mudando completamente a visão que se tinha dele naquela foto. Ela era o contraste no meio de todos nós. Cabelos longos e loiros, um sorriso branco deslumbrante acompanhado das roupas de grife.

Meus olhos estavam marejados e meu nariz escorrendo. A foto trazia lembranças que, até então, eu pensava que nunca mais fosse ter. O dia em que a foto foi tirada, meus pais decidiram fazer um almoço diferente, só para nós quatro. Jogamos poker na sala de estar e fizemos churrasco na varanda. Meu pai encontrou o cachorro comendo seu bife e, em um dado momento, as galinhas da vizinha fugiram, fazendo com que todos nós corrermos para capturá-las, até minha mãe em cima dos saltos plataforma.

Funguei e engoli em seco, lembrando que esse também havia sido o dia que o meu pai deu a notícia de que estava com câncer.

Uma lágrima escorreu do meu olho e eu sequei-a com o dorso da mão rapidamente. Doía lembrar. O aperto que eu tinha no peito era saudade. A saudade de um tempo que nunca voltaria porque, depois desse dia, tudo desandou.

Minha mãe se focou no trabalho e quis se mudar para Manhattan. Logo, fomos para lá, perceber o quão mesquinha e superior poderia ser sua ocupação. Em pouco tempo, meu irmão quis voltar para San Diego e fazer sua faculdade de Administração e eu… Bem.. Eu estava fugindo dela e me enrolando cada vez mais para sobreviver.

Eu me levantei de supetão, assustando a menina que estava do meu lado e, provavelmente o resto das pessoas que estava a minha volta. Equilibrei todas as coisas que estavam em cima da minúscula mesinha acoplada a cadeira, sem me preocupar em guardar dentro da minha bolsa. Atravessei até as escadas em passos largos e quando, enfim, cheguei no último degrau ouvi o silêncio devastador que se instalou na sala. O professor havia parado de falar, portanto, automaticamente, todos os cochichos aleatórios também.

“Knust!”, ouvi a voz do Sr. Dimas e encaminhei meu olhar até ele vagarosamente.

Ele abriu a boca para dizer algo, mas possivelmente – lê-se com certeza – desistiu ao ver o estado deplorável que eu devia – lê-se com certeza – estava. Ele respirou fundo e franziu o cenho. Não soube identificar com exatidão o que seu semblante significava, mas parecia com pena. Ele piscou, assentindo e eu voltei a minha caminhada para fora da sala.

Pensei em pedir licença e obrigada, porém estava muito confiante na minha voz para tal ato.

O primeiro lugar que eu pensei em ir foi o banheiro, claro. E, confirmando todas as minhas teorias, eu estava um caco. Na frente do espelho eu me sentia um zumbi recém transformado. Meu rosto estava inchado e minha boca mais corada que o normal. Meu nariz estava vermelho do jeito que sempre ficava quando chorava, era minha marca registrada e o que sempre me denunciava.

Sorri para o meu reflexo, vendo se assim ficava melhor. Só piorou. Clarissa sempre dizia para olhar o lado bom das coisas. Portanto, o lado bom era que eu parecia ter acabado de sobreviver ao apocalipse. Uma pessoa que havia acabado de sobreviver ao apocalipse era digna de um prêmio.

O outro lado bom, era que a menina ao meu lado retocando a maquiagem só me olhou de cara feia. Nada de dirigir a palavra para mim. Não saberia conversar educadamente com uma pessoa naquele momento.

Bufei. Eu era decepcionante olhando o lado bom das coisas. Olhei para o teto, reunindo minha dignidade quando ouvi o baque da porta do banheiro. Minha atenção voltou-se para o feitor do estardalhaço, assim como a das outras três meninas do banheiro.

“Ei, aqui é o banheiro feminino!”, uma das garotas exclamou para meu irmão, que sequer se deu ao trabalho de olhar para o lado.

Ele parou de andar a passos largos quando chegou na minha frente e me envolveu em um abraço.

“Mas o que?!”, perguntei atônita, ainda sendo esmagada pelo seu aperto. “O quê… Como? Axel...”.

Ouvi os cochichos das meninas que permaneciam no banheiro, mas não fui capaz de distinguir o que diziam.

Axel me soltou e colocou as duas mãos em volta do meu rosto. Segurando meu maxilar e levantando-o até que ele enxergasse meu rosto por completo. Ele passou o dedão pela maçã do meu rosto e o ponto de interrogação que tinha estampada bem no meio da minha testa não pareceu afetá-lo.

“Que merda você tá fazendo?”, questionei enfim.

“Tô checando.”.

“Quê?!”, perguntei ainda mais confusa. “Checando se consegue me esmagar?”.

“Não me culpe pela sua inferioridade em questões musculares.”, Axel disse dando de ombros enquanto me soltava. “O que aconteceu?”, perguntou e deu uma mera olhada a sua volta pelo que me parecia a primeira vez.

Só tinha nós dois no banheiro naquele ponto, visto que as garotas pareciam ter alguma alergia ao sexo oposto no lugar onde faziam suas necessidades e davam uma ajeitada na aparência.

“Por que você acha que alguma coisa aconteceu?”, franzi o cenho e cruzei os braços na frente do peito.

“Eu estou vendo sua cara, Lippa.”.

“Menos mal, já sabemos que problema de visão você ainda não adquiriu.”, constatei irônica.

“Estava chorando.”, ele afirmou.

“Não estava chorando.”, retorqui, mas foi rápido demais.

“Estava sim, estou vendo seu nariz vermelho.”, apontou para mim. Eu revirei os olhos e fiz o meu possível para fazer semblante de tédio, demonstrando o quanto ele era desnecessário e inconveniente. Não pareceu afetá-lo. “Desembucha, Fox!”, ordenou grave.

Abri a boca para lhe responder, já com a justificativa na ponta da língua, mas ele se adiantou me repreendendo com o olhar.

“Não ouse mentir para mim, Lippa.”, disse apontando o indicador na minha cara. Acompanhei seu dedo com o olhar e fiquei estrábica. Balancei a cabeça com o olho fechado, consertando a visão; abri a boca novamente para responder, mas desisti quando assisti-o balançar a cabeça negando. “E eu sei que seu período de TPM já passou então pense em outra desculpa.”.

Bufei frustrada e revirei os olhos, perguntando-me que tipo de irmão grava seus dias possíveis para uma TPM. Olhei para o teto, tentando não ficar irritada. Meu subconsciente me alfinetou, me julgando por ter passado informações do tipo aos meus colegas de apartamento por influência e pressão. Eu revirei os olhos mentalmente com a lembrança dos papéis coloridos que pregaram no calendário situado na porta da geladeira. “Atenção, dias perigosos!”, estava escrito.

“Olha, eu só estou cansada, ok? E eu nem estava chorando.”., exclamei. “Quem te disse isso?”.

“O Sr. Dimas me parou no corredor dizendo que você saiu atordoada da sala de aula. Assim como alguns outros alunos disseram.”, contou e se encostou no balcão do banheiro, cruzando os braços na frente do peito. Isso dava a ele uma posição mais superior. “Penso eu que não viriam me alertar sobre isso atoa.”.

Oh Hades!

Respirei fundo, me questionando o porquê da necessidade que o ser humano tinha de especular e comentar sobre a vida de outros. Principalmente quando esse tipo de intromissão era direcionado a minha vida. Uma borboleta tinha a vida mais interessante que a minha, ela saia de um casulo e antes disso era uma lagarta.

“Você nem tem aula nesse prédio.”, desconversei astuta. “Foi fazer o quê na minha sala? Lembrou que tem uma irmã?”.

Não queria abrir o jogo sobre o que aconteceu de fato. Não era relevante saber que uma fotografia antiga me afetou. Além do que, conversar sobre nossos pais era desconfortável. Não por causa de Axel, meu irmão era a primeira pessoa que eu sempre procuraria para pedir ajuda. Era mais uma coisa minha. Eu nem sabia o que tinha acontecido de verdade. Na minha cabeça apenas uma crise de lembranças e saudades. Nada mais.

Minha TPM realmente havia passado?

“Fui pegar o caderno que a tapada da minha irmã confundiu pela manhã.”, disse revirando os olhos.

Esbocei um “ah” em compreensão e mordi o lábio. Eu era uma máquina de passar vergonha.

“Você não vai me dizer, não é?!”, ele interpretou e eu dei um sorriso. Um sorriso bem falso, mas que foi suficiente para ele entender.

Ele olhou para o teto do banheiro e respirou fundo. Percebi esse ser um trejeito que ambos faziam para manter a calma e sorri de leve. Algumas garotas entraram no banheiro e a reação de surpresa no rosto de todas elas ao ver Axel ali era notável.

“Sabe que se alguma coisa estiver te incomodando é só me dizer, não sabe?”, ele perguntou.

“No momento a única coisa que está me incomodado é essa quantidade de garotas entrando no banheiro e ficando incomodadas com você.”, afirmei e puxei-o para sair do banheiro.

Nós chegamos no corredor onde ainda transitavam diversos estudantes.

“Obrigada, Big Brother.”, disse quando paramos. “Não foi nada demais.”, afirmei e sorri de leve. Axel passou o braço ao redor do meu pescoço, me abraçando de lado. “Agora seja útil e carregue minhas coisas.”, ordenei jogando todo o material que eu não havia guardado na bolsa em cima dele.

Meu irmão riu e continuou andando enquanto eu o acompanhava sem rumo.

“Onde estamos indo?”, questionei visto que o incômodo de andar desnecessariamente não estava no cardápio do dia.

Axel me ignorou, passou a mexer no celular sem se importar com minha presença. Eu indaguei mais duas vezes onde iríamos até que me dei por satisfeita e dei de ombros. Desde que eu tivesse uma carona estava de bom tamanho e se seu objetivo era me matar para pegar minha parte da herança, não fazia muita diferença na minha preocupação.

Parecia tão preocupado com o que lia no celular que decidi não lhe incomodar mais, por isso, passei a cutucá-lo e perguntar se já tínhamos chegado a cada dez segundos.

Ele puxou minha mão que o cutucava e ameaçou me dar uma rasteira. Eu só não tive a oportunidade de dar um beijo no chão porque me segurou pelos ombros antes que acontecesse. Eu decidi que estava na hora de parar nesse momento, apenas por precaução.

“Você é insuportável.”, disse rindo.

“Ah, não seja tão carinhoso!”, pedi irônica e ele deu uma gargalhada.

Quando chegamos no local de destino eu lembrei que além do péssimo gosto pra roupas, ele também tinha um terrível gosto para lugares. Mordi o lábio e suspendi meus passos quando chegamos em frente a porta de vidro fumê, analisando o ambiente. A abertura da esquerda estava aberta, e a da direita sustinha um pôster anunciando as atrações da semana. Era um pub 24 horas denominado “Unknown”, logo abaixo do nome o slogan “Please, don’t tell.”.

Ri do apelo e observei que o recinto se comparava a uma BatCaverna sem tecnologia avançada. Não era muito grande e muito menos sofisticado, se prestasse bem atenção podia observar as frestas das paredes sujas e as teias de aranha em algumas delas.

“O que foi?”, Axel questionou, chamando minha atenção.

Só então percebi que estava parada na porta tentando formar uma opinião a respeito do pub. Meu consciente quis me dar um chute, eu notei. Cai na armadilha de imaginar quais os pré-conceitos que Diana daria ao ambiente e a seus filhos. Não era a primeira vez que eu fazia isto, tinha certeza que não seria a última também. Meu subconsciente sempre dava um jeito de se contactar com minha eu antiga, espelhando atitudes do passado. Era um conflito interno sério entre consciente e subconsciente, afinal, não era tão simples assim se desprender de costumes.

“Estava pensando no que Srta. Fox diria a respeito do seu progenitor se o visse entrando nesse lugar.”, disse e levantei um sorriso sarcástico.

Ele balançou a cabeça em negativa.

“Você precisa parar com isso.”, afirmou e entrou no pub.

Ali dentro os móveis eram todos rústicos de madeira de demolição e alguns objetos decorativos pareciam ser reaproveitada e personalizada. Uma das paredes era de tijolos e as outras possuíam papéis de parede rosa e verde. As mesas eram decoradas, repousavam ali flores e pequenos potes de vidro com velas dentro. Luminárias de lâmpadas com cor branco quente.

Havia um espaço para as mesas de um lado, do outro um espaço para as duas mesas de sinuca, este iluminado com luzes mais claras, um branco frio. Perto dali tinha um karaokê junto a um grande aparelho de som e, em frente a ele, uma pista de dança com pisos divergentes branco e preto.

No fundo tinha um bar, e ao lado dele duas portas indicando os banheiros com luzes neon. A parede atrás do bar sustentava várias prateleiras montadas de garrafas das mais variadas bebidas alcoólicas. No fim das contas, o lugar era muito aconchegante.

Um homem alto e careca se debruçava no bar pra conversar com a mulher em sua frente, sentada no banco. Ela tinha longos cabelos cacheados e a pele negra. Enquanto andava atrás de Axel, a observava, meu sentido lésbico aflorando mais do que o normal.

Nós os alcançamos no balcão e eu notei que estava como uma tonta. Ela vestia um macacão de calça comprida preto, usava diversas jóias e calçava um salto. O homem atrás do balcão, tinha olhos muito azuis, comparados facilmente a água do mar. Seu corpo era esculpido de muitas tatuagens, os dois braços eram fechados por elas e em seu pescoço era possível ver o começo de uma delas. Não consegui identificar o desenho pois ele subia para dentro da camisa branca que usava.

Franzi os lábios, com medo de ficar muito tempo de boca aberta e começar a babar, denunciando minha total falta de maturidade para pessoas tentadoras.

Axel estendeu a mão para o homem e eles se comprimentaram.

“E ai, Devon!”, disse sorridente. “Me vê duas cervejas.”.

O suposto Devon estava tão sorridente como meu irmão, olhou para mim e deu um aceno de cabeça. Parecia ser simpático. Eu sorri secamente, com medo de sorrir demais e parecer uma idiota encantada.

“É pra já.”, disse e foi até o freezer vertical expositor atrás de si para pegar as cervejas.

Enquanto ia, ousei olhar a mulher sentada na cadeira, só para constatar que estava mesmo apaixonada. Usava duas grandes argolas nas orelhas, um batom vermelho que ainda estava impecável, mesmo depois de ter tomado o vinho que estava em sua taça. Axel acenou com a cabeça para comprimentá-la do mesmo jeito que o barman havia feito. Foi tão idêntico que parecia um código masculino silencioso.

Ela fez o mesmo para comprimentá-lo e fitou-me, abrindo um enorme sorriso ao fazê-lo. Eu quase derreti, mas me contive com um sorriso sincero.

“E quem é a beldade que te acompanha?”, o barman perguntou por cima dos ombros enquanto abria as garrafas.

Se não fosse pelo adjetivo ridículo, borboletas estariam tomando conta do meu estômago.

“Ah! Essa é minha irmã, Philippa.”.

Ele se aproximou do balcão do bar, colocando as cervejas na nossa frente e estendeu a mão para mim.

“Olá, Philippa. Sou Devon, muito prazer.”, disse ele, a voz mais sedutora que antes, mais grave.

Se eu achei o apelo no adjetivo havia sido incômodo antes, naquele momento parecia irrelevante, se ele utilizasse daquela voz para me chamar de beldade no meu ouvido por mim tudo bem.

“O prazer é meu, Devon.”, falei e sorri.

Percebi que estava flertando pois minha voz saiu mais baixa e meu sorriso saiu calmo, sem que eu me esforçasse para não parecer uma tonta.

Axel me encarou com curiosidade e de canto de olho vi a mulher beber mais um gole de seu vinho.

Ela não chamou apenas a minha atenção com esse movimento, o barman, que demorou mais alguns instantes me olhando, se voltou para ela.

“Esta é Anastácia, a dona da Unknown”, apresentou, apontando para ela.

“Tudo bem?”, ela cumprimentou-nos mais uma vez.

Axel e eu dissemos “É um prazer” em uníssono. Senti o momento bastante constrangedor, portanto tratei de dar alguns passos para trás afim de sentar-me em alguma cadeira. Entretanto, só eu parecia ter ficado constrangida.

“Nunca a vi por aqui.”, Axel comentou. “Está apenas de passagem ou pretende se estabelecer?”.

Arqueei as sobrancelhas notando que eu não era a única encantada no ambiente.

“Não moro na cidade.”, explicou educada. “Vim até aqui checar como andam as coisas e acredito que Devon precise de uma ajuda com o bar, o que acham?”, a mulher disse.

Devon respirou fundo, eu registrei. Olhei para o restante do pub, constatando apenas a nossa presença ali e não entendendo a real dificuldade em servir um lugar praticamente vazio.

“Não sei dizer. Frequento o pub a bastante tempo e nunca tive do que reclamar, Devon atende bem.”.

“Sim, claro!”, ela disse e abanou a mão no ar. “Ele é ótimo no que faz.”, disse e eu jurei ter visto certa maliciosidade quando ela dirigiu seu olhar até ele. “Mas o lugar têm ficado cada vez mais cheio de universitários, por estar ao lado da UCSD.”, voltou-se para nós.

Olhei mais uma vez ao redor, suspeita de minha própria visão. Continuava a mesma monotonia. Ninguém.

“Ele administra o lugar sozinho, uma ajudinha nunca é demais, mas ele é cabeça dura, não me escuta.”.

Devon balançou a cabeça em negativa.

“Não preciso de outra pessoa, consigo dar conta de alguns adolescentes.”.

Me ofendi com a insinuação de que universitários eram apenas adolescentes. Bem, 21 anos não era muita idade, realmente, minha maturidade também não era lá grande coisa. Todavia, ele não parecia ter passado dos 25, não era tão velho ao ponto de dizer que se tornou um adulto. Franzi o cenho indignada, era a segunda vez que sua falta de escolha com as palavras me perturbava.

“Trabalhei de bargirl uma vez e, realmente, uma ajuda é sempre bem vinda em uma casa cheia.”, pronunciei-me.

Anastácia arqueou as sobrancelhas e sorriu de lado contidamente.

“Viu? Não precisa machucar seu ego por eu estar querendo te ajudar.”, ela disse para o barman e colocou a mão sobre a sua. Senti aquilo bem íntimo. Ela não aparentava ser só sua chefe.

Ele bufou e revirou os olhos, dando-nos as costas e entrando por uma porta ao lado do freezer. Muito malcriado, assim que o considerei.

Anastácia tomou mais um gole de seu vinho e quando apoiou a taça no balcão balançou a cabeça baixa. Tinha um semblante triste. Senti vontade de abraçá-la e tomei um gole da minha cerveja para me controlar.

Estava preparada para dar mais alguns passos para trás quando minha mente clareou e uma ideia veio a me complementar. Eu não tinha um emprego e precisava de um.

Oh Hades!

“Se a senhorita ainda estiver interessada, me disponho a ajudá-los.”, ofereci com a maior serenidade que consegui. Maior atrevimento também, diga-se de passagem.

Anastácia levantou o rosto e ergueu as sobrancelhas, curiosa.

“Disse que já trabalhou de bargirl uma vez, certo?”, perguntou.

“Sim. Há alguns meses atrás em Chicago.”, contei.

“Bom, o único desafio que enfrentará aqui será ele. Como disse, ele é cabeça dura. Muito difícil admitir que precisa de ajuda.”.

Mordi o lábio, tentada a dizer que o mandaria a merda caso me incomodasse com seu suposto ego machista.

“Por mim tudo bem, não será tão difícil assim.”, sorri. Olhei para Axel que me fitou com singularidade. “Tenho uma experiência diária com indivíduos assim.”.

Axel soltou uma risada ao meu lado e Anastácia esboçou um pequeno sorriso gentil. Pressupus que ela estava com pena de mim.

“Já que está dizendo.”, deu de ombros. “Por mim está contratada, pode começar amanhã, combine os horários com Devon depois.”.

Eu sorri, me sentindo uma pessoa empregada. Encarei meu irmão com a sobrancelha arqueada e bebi mais um gole da cerveja, ele ergueu a sua e me deu um sorriso.

Notas finais
Hey, genteeee. Que saudades!!! Desculpem a demora, again. Se encontrarem algum erro (e vão encontrar) não deixem de me dizer. E ai? O que acharam desse capítulo, esse resumo ai de um pouco que aconteceu com a Lippa e desses novos personagens MARAVILHOSOS? Falem comigo, amo falar com vocês. ♥ Enfim, Até. Kisses. ♥
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