Notas iniciais
Parece que de 10 em 10 anos eu consigo escrever alguma coisa de Solangelo! ♥
Ainda não é a que eu estou trabalhando arduamente para escrever, mas eu achei bonitinha!
Espero que vocês também achem!
Boa leitura!

Dias de folga eram uma coisa bem rara na enfermaria no Acampamento Meio Sangue, principalmente com todos aqueles semideuses lutando com espadas afiadas desde os doze anos, mesmo tendo acabado de chegar ali. Mas eu gostava do que eu fazia e isso tornava meus dias de folga ainda mais raros, porque eu não tinha um motivo para sair de lá.

O que tinha acabado de mudar com o fato de que Nico tinha se decidido ficar no Acampamento e eu queria passar muito mais tempo com ele. Naquele exato momento, eu estava sentado na grama, diante da arena de combates, assistindo-o numa luta com Jason Grace, que era um dos poucos que não tinha medo de cruzar espadas com o Filho de Hades.

Eu admirava sua habilidade de combate, sua seriedade, seu estilo e ficava completamente sem fôlego com sua imagem; até mesmo um pouco intimidado, não pelo fato que Nico sempre achava que todos se sentiam intimidados perto dele, mas porque ele às vezes não parecia ter a mesma idade que eu.

Ele estava permitindo minha aproximação lentamente, mas nós só trocávamos uns beijos escondidos, de “bom dia” e “boa noite” principalmente, ele raramente me deixava pegar em sua mão e gostava muito pouco de abraços, mesmo assim eu não desanimava. Tinha conseguido que Quíron permitisse que ele se sentasse na mesa do Chalé de Apolo comigo, com a desculpa de que sozinho Nico não conseguia controlar bem seus poderes. Nenhum de nós tinha especificado minha mesa e ele tinha ficado muito feliz em poder aterrorizar alguns campistas mais novos com seu espetáculo de esqueletos saindo do chão!

Claro que eu não queria pressioná-lo demais, mas todos já percebiam que estávamos andando sempre juntos, principalmente Jason e Piper, que estavam sempre conosco; eu tinha certeza de que Annabeth Chase também sabia e talvez tivesse mencionado algo a Percy Jackson, mas os quatro não diriam nada, porque suas cabeças estavam muito mais focadas em descobrir o que tinha acontecido com Leo Valdez; e, é claro, meus irmãos, que não paravam de me abordar como conseguiam, fosse à noite no Chalé, ou quando Nico não estava por perto na enfermaria.

Nico não ligava para os olhares, dizia que estava acostumado com as pessoas sempre olhando de esguelha pra ele e eu não me incomodava também, mas eu estava começando a ficar impaciente porque eu queria mais do que pequenos contatos longe de olhares curiosos e beijos escondidos. Meu medo era que minha impaciência o afastasse de novo.

Tentei me focar novamente na luta e desviar meus pensamentos daquele sentimento de ansiedade e medo, querendo agir como uma pessoa normal, sem ter de ficar babando e bufando ao mesmo tempo, porque eu era incapaz de parar de fazer algum dos dois quando se tratava de Nico, mas sua figura era hipnótica pra mim. Eu nunca tinha me sentido assim antes e, mesmo que isso soasse muito clichê na minha cabeça, era a verdade, Nico mexia comigo. Ele era tudo o que eu queria pensar e tudo no que eu conseguia pensar.

— Calma aí, Nico — Jason disse, rindo, tendo muita dificuldade em defender o último golpe do mais novo. A expressão de Nico também relaxou e os dois apertaram as mãos, saindo da arena e indo na minha direção e na de Piper.

Fiquei com inveja ao ver Jason enlaçando a cintura da namorada e beijando-a apaixonadamente; aquilo era tudo o que eu queria e o que eu sabia que nunca ia acontecer. Eu estendi uma toalha para Nico secar sua testa e seus braços, perdendo totalmente a concentração que eu conseguira juntar com muito esforço. Ele era tão lindo e eu queria tanto beijar aquela boca!

— O que foi? — ele chamou minha atenção, estalando os dedos diante do meu rosto e eu percebi que fiquei muito tempo encarando enquanto ele se ajeitava e colocava de volta a camiseta do Acampamento por cima da regata que ele usava para o treino. Se fosse por mim, ele ficava só com a regata sempre!

— Nada — eu respondi rápido, mas senti meu rosto esquentar inevitavelmente com aqueles pensamentos e ele percebeu mesmo que eu tivesse olhado para o outro lado o mais rápido que eu consegui.

— Como assim nada? Você fica me olhando com um olhar de peixe morto por um tempão, sem escutar o que eu estava dizendo e fica vermelho que nem quando eu te pego cantando na enfermaria e quer que eu acredite que não foi nada? Acho que eu te conheço melhor do que isso já, Solace — ele disse, estranhamente bem humorado, caminhando comigo para longe da arena. Ele ficava de bom humor depois de seus treinos de luta de espadas.

— O que é que você estava falando? — desconversei, tentando não parecer suspeito e ele revirou os olhos.

— Você tem de voltar pra enfermaria agora? — ele perguntou, dando risada, sem cair no meu truquezinho de tentar soar casual.

— Ah, não, só vou voltar amanhã — respondi, meio envergonhado de não ter prestado atenção e ele ter me pegado em flagrante.

— Quer dar uma escapadinha lá pro meu chalé, então? — a malícia em sua voz me deixou arrepiado e eu já não precisava mais esconder que estava vermelho.

— Uma hora alguém ainda vai pegar nós dois quebrando as regras desse jeito — brinquei, testando como seria sua reação e Nico fez o que eu jamais esperaria que fizesse: deu de ombros.

— Vai acontecer alguma hora e eu não acho que ninguém mais se engane achando que nós dois somos só amigos— ele disse, despreocupadamente e eu o encarei, pasmo. Pasmo com sua falta de preocupação com o que os outros realmente pensavam e ainda mais pasmo com aquela afirmação de nós não sermos “só amigos”. Claro que nós trocávamos beijos e nos apertávamos mais um nos braços do outro do que dois amigos fariam, mas ser “mais do que amigo” significava alguma coisa pra mim que eu não sabia se significava pra ele também.

— Acha que não?

— É claro que não! — ele não pareceu se importar, nem com minha pergunta nem com o fato de que todos sabiam sobre nós. — Quíron é o primeiro que com certeza não compra nossa história, mas o que ele vai fazer? Ele não pode me deixar continuar assustando os novos campistas daquele jeito.

Eu assenti, em silêncio, ainda muito surpreso.

— Mentira! — Nico disse de repente e eu olhei para ele, entendendo menos ainda. — Quíron é o segundo, Jason foi o primeiro que nunca comprou nós dois como “só amigos” — essa ideia pareceu diverti-lo e tive a impressão de que eu tinha perdido alguma conversa entre ele e o Filho de Júpiter que lhe dava toda aquela certeza. Talvez tivesse sido uma conversa constrangedora entre os dois que tinha terminado bem para o Filho de Hades. — Acho que seus irmãos também não.

— Isso não te incomoda? — tomei coragem para perguntar.

— As pessoas saberem que eu ando me amassando nos cantos com um dos filhos de Apolo? — ele brincou e eu senti meu rosto esquentando ainda mais. O que é que estava acontecendo naquele dia? — Não me incomoda, não. Incomoda você?

— O quê? — perguntei, surpreso.

— Ser visto comigo… — ele explicou, parecendo inseguro. Eu tinha entendido que era aquela a pergunta que ele fizera, eu só não tinha acreditado que ele não soubesse qual era a minha resposta já.

Estiquei meu braço na direção do dele, hesitante e segurei sua mão na minha.

— Eu quero gritar pra todo mundo que estou com você — respondi e ele sorriu. Não era comum vê-lo sorrindo, mas eu estava tão apaixonado por aquele sorriso, que era capaz de vencer um Titã só com a energia que tinha quando conseguia uma reação normal dele.

— Por favor, não saia gritando — ele brincou, mas entrelaçou os seus dedos aos meus e continuamos caminhando de mãos dadas. — Acho que eu entro em combustão espontânea se todo o acampamento olhar pra nós ao mesmo tempo!

— É só uma maneira de dizer... — abaixei os olhos, tentando não ficar triste com sua resposta. — Eu quero dizer, eu não me importaria se todos soubessem sobre nós dois, eu gosto de ser visto com você.

Nico me puxou para dentro de seu chalé furtivamente e mais uma vez eu acreditei que ninguém tinha nos visto. Ele tinha dado um jeito de tornar o lugar habitável, sem aquele aspecto sinistro de mausoléu que tinha antes de ele se instalar permanentemente no Acampamento. Era bem diferente do Chalé de Apolo, mas eu gostava de ficar ali, muito provavelmente porque o lugar tinha toda aura de Nico.

— Eu não sou a pessoa mais especialista nesse assunto… — ele disse, de repente, me chamando mais uma vez de volta a realidade, se jogando em sua cama e me puxando pelo braço para ficar ao seu lado, o que eu fui de bom grado, prestando muita atenção ao que ele dizia dessa vez. — Mas acho que nós dois estamos tendo uma conversa sobre assumirmos que estamos juntos?

Eu me ajeitei melhor deitado em seus braços para encará-lo e não consegui esconder minha surpresa.

— É o que você quer? — ele perguntou, quando percebeu que eu estava muito sem fala para dizer alguma coisa sozinho.

— É o que você quer? — retornei a pergunta, enfatizando sua opinião.

— Eu realmente não me importo com o que os outros pensam e acho que ninguém tem nada a ver com a nossa vida, mas eu quero ficar com você, Will! — eu sorri ao escutar aquelas palavras. Até aquele momento, não tinha percebido o quanto eu precisava ouvi-las.

— Eu também quero ficar com você! É só o que eu quero! — ele também sorriu e isso aqueceu meu coração.

— Mas eu… Não sou como Jason, entende? Eu não fico à vontade quando os outros estão por perto, mesmo que eu queria muito, por exemplo, beijar você… Não é alguma coisa que está em mim!

— E quando estamos só nós dois assim sozinhos? — perguntei, achando-o completamente adorável, segurando seu rosto entre minhas mãos, acariciando lentamente seu cabelo e prendendo algumas mechas atrás de sua orelha delicadamente.

Nico me puxou mais pra perto e aproximou seu rosto do meu, unindo nossos lábios num beijo. Eu ainda não estava acostumado com seus beijos, eles faziam com que todo o meu corpo se arrepiasse e eu sentia cada nervo estalar em eletricidade, meu estômago parecia em queda livre e meu coração batia tão forte que eu achava que cada vez que Nico se aproximava de mim, ele queria sair de meu peito, atravessando nossos corpos para se encontrar com o dele. Na verdade, esse pensamento era um pouco grotesco, do tipo que os filmes de terror costumavam ser e eu não sabia se estava andando demais com um Filho de Hades ou se aquele simplesmente era um eu desconhecido que surgia.

Não me importava muito com o tempo quando estávamos juntos, seus lábios deslizando nos meus podiam continuar por séculos até que eu me sentisse saciado, ou talvez isso não fosse acontecer e nos tornássemos duas estátuas coladas uma na outra com o passar do tempo; tudo parecia pequeno, inclusive meu medo e ansiedade, quando podia abraçar Nico e ficar com ele daquele jeito.

Ele lentamente me deitou sobre seu travesseiro e ficou sobre mim, ainda me beijando, sua língua enroscada na minha, causando espasmos de excitação por todo meu corpo, gritantemente numa parte específica que eu tentava ignorar por ainda ser cedo demais pra essa conversa.

Quando nosso ar acabou, eu sentia como se tivesse acabado de correr todo Acampamento com a bandeira na mão, fugindo de uma multidão entusiasmada. Ele sorriu para mim mais uma vez, acariciando meu rosto e colocando meu cabelo atrás da minha orelha também, me dando um último selinho antes de cair deitado ao meu lado de novo.

— Isso responde a sua pergunta? — ele disse, depois de um tempo tomando fôlego, estranhamente divertido.

Eu me virei deitado de lado, olhando para ele, me aconchegando em seu braço e apertando seu corpo mais perto do meu, também contente.

— Gosto do seu jeito de responder minhas perguntas — ele deu risada e me abraçou de volta.

Ficamos em silêncio por um tempo, olhando para o teto e fazendo carinho um no outro e eu não podia estar mais feliz.

— Mas então…- Nico quebrou o silêncio e eu me movi minimamente para olhar pra ele. — O que você quer?

— É claro que eu gostaria que meu namorado — falei com cautela, esperando que ele reagisse de alguma maneira àquela palavra, mas ele não disse nada e eu continuei — fosse como Jason Grace e me beijasse em público, me abraçasse e me apertasse pra todo mundo ver… — ele assentiu, com uma expressão séria, como alguém que acabou de fechar um sorriso. — Mas o que eu quero na verdade é só você, Nico! Do jeitinho que você é!

Conhecendo Nico, eu achei que ele fosse ficar em silêncio reflexivo pelo resto da semana depois de ouvir minha confissão, talvez ficasse com uma cara azeda de poucos amigos e me deixasse “de molho” por ter dito algo tão embaraçoso… Mas ele se moveu mais rápido do que esse meu pensamento estúpido e em um segundo estava montado sobre mim, me surpreendendo de verdade, segurando meu rosto entre suas mãos e beijando minha boca como nunca tinha beijado antes.

Eu prendi meus dedos na parte de trás de seus cabelos, acariciando o mais gentilmente que eu conseguia, mas nós realmente nunca tínhamos nos beijado daquela maneira e eu sentia que não podia deixá-lo se afastar nunca mais. Ele não parecia se importar, nem que eu estivesse puxando seu cabelo, nem com o pouco ar que nos restava, nem com o que eu dissera ou com o que aquele beijo significava depois. Mas tudo que é bom, uma hora sempre acaba, assim se foi nosso ar…

— Eu disse a coisa certa? — brinquei, assim que recuperei meu fôlego e recebi mais um selinho, antes que ele se ajeitasse sobre meu corpo, sem me desmontar, deitando em meu peito e eu o abracei. Não precisei de uma resposta para saber que sim, eu tinha realmente dito a coisa certa.

— Eu não quero ficar com mais ninguém! — ele disse baixinho, ainda com a cabeça sobre meu peito e eu fiz carinho em seus cabelos. Parecia que me contava um segredo que ninguém além de mim podia ouvir. Com tudo o que lhe acontecera, realmente devia ser difícil confiar em seus sentimentos, dividi-los com alguém. — Não quero que você queira ficar com outra pessoa…

— E eu não vou — afirmei, o mais resolvido que consegui soar, deixando um beijo no topo de sua cabeça, carinhosamente. Ele olhou para mim e eu vi o que ele deixava poucas vezes visível: aquele menininho assustado e curioso, que chegou no Acampamento com a irmã, aquele menino lindo que ele era, que carregava cartas de Mitomagia e que tinha mais cicatrizes do que muito que eu conhecia, em seu corpo e em sua alma. Aquele menininho olhava pra mim naquele instante, com um olhar sofrido e amedrontado, ao mesmo tempo que acendia em sua íris um jeito apaixonado que ele também não era muito de mostrar. Deuses! Como eu o amava!

— Promete? — eu sorri, buscando seus lábios com os meus, deixando um selinho e acariciando se rosto pálido com meu polegar.

— Eu prometo, meu amor! — seu rosto se retorceu num sorriso acanhado e fofo. — Entre quatro paredes eu posso te chamar assim? De meu amor? — perguntei, zombeteiro e ele revirou os olhos. — Já que eu não posso sair gritando pelo Acampamento?

— Você já tem tudo de mim e quer ainda mais… Como você é ganancioso, Solace! — eu dei risada. — Pode, entre quatro paredes pode, meu amor!

Notas finais
Mereço reviews?
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!