Oficialmente Dilf
6 O Halloween
Notas iniciais
― Stiles, o que é isso? ― Derek questionou ao abrir a porta.
― O que parece? ― Ironizou o garoto, adiantando-se para entrar na casa Hale. ― São abóboras!
― Eu já falei que não preciso de decoração aqui.
― Cara, com tantas coisas sobrenaturais por aí, você não deveria desrespeitar tradições ― argumentou enquanto largava com um suspiro de alívio o par de pesadas abóboras maduras no balcão da cozinha. ― Toda lenda tem seu fundo de verdade, e eu não gostaria de ser um fantasma solto por aí no Halloween sem uma luz pra iluminar o caminho. Portanto ― continuou ― faremos lanternas de abóboras!
― Eu definitivamente não vou perder meu tempo aqui esculpindo abóboras ― resmungou Derek, cruzando os braços para o jovem. ― E também não quero bagunça enquanto o filhote dorme.
― Qual é cara, vai ser divertido. Eu comprei uma abóbora só pra você! E também daqui a pouco o pack vai estar aí.
― Por que você inventa essas coisas na minha casa?
― Porque todo mundo já decorou a própria casa, só falta a sua ― Stiles argumentou enquanto retornava para fora, voltando com uma pequena caixa de papelão e uma sacola. ― E atividades criativas em grupo são ótimas para fortalecer os laços da matilha.
― Caçar é ótimo para fortalecer laços de matilha.
― Atividades pacíficas que todo mundo possa participar também! O halloween é amanhã, e não vai machucar colocar algumas decorações pela casa e lanternas de abóbora na varanda ― disse o garoto em um tom mais brando, remexendo na caixa que trouxera. ― Não precisa se preocupar com as velas das abóboras, eu comprei essas velinhas de led a pilhas, são zero risco de incêndio ou do Sam se queimar.
Derek olhou para as velas de plástico na mão de Stiles e sentiu seu interior amolecer com a ideia atenciosa, suavizando suas expressões para algo próximo do carinhoso.
― E também... ― tornou a dizer Stiles, agora revirando a sacola. ― Comprei uma fantasia pro Sam!
Derek pensou em questionar, ou até mesmo reclamar, mas não valia o esforço. Não quando os expressivos olhos de corça de Stiles brilhavam em pura empolgação enquanto segurava para Derek ver a pequena roupa de Yoda.
― Ele vai ficar uma gracinha! ― Continuou o garoto. ― E pensei em comprar algo para você também, mas como todo ano você usa sua fantasia tradicional de lobisomem, o que é muita falta de originalidade, se você quer saber, eu comprei isso!
Sorrindo largo, Stiles tirou da sacola um arco de cabelo com um belo par de compridas orelhas felpudas caninas, que em um movimento ligeiro conseguiu encaixar na cabeça de Derek, aproveitando-se de sua surpresa inicial.
Derek rosnou com o gesto, mas permitiu que Stiles desse uma boa olhada em como ficara, antes de se livrar do objeto rosnando novamente.
― Eu definitivamente não vou usar isso ― resmungou, atirando o arco em direção ao sofá.
― Qual é, você precisa de uma fantasia! Não tem graça atender as crianças sem fantasia.
― Stiles, aqui é longe demais para crianças virem pedir doces ― falou o homem, pegando a caixa das mãos do outro, a colocando junto das abóboras. ― E literalmente fica no meio da reserva. Ninguém nunca vem pedir doces tão longe da cidade.
― Então definitivamente você deveria vir pra minha casa amanhã! ― Disse com empolgação.
― Não há necessidade, Stiles.
― De jeito nenhum vou deixar você dar uma de Batman todo trevas e solidão no primeiro Halloween do Sam! ― Insistiu Stiles, cruzando os braços. ― Vocês vão pra minha casa. Eu ia ficar a noite toda sozinho mesmo. Sabe, não sou do tipo que as pessoas convidam para festas legais de Halloween, e também meu pai vai trabalhar, e de jeito nenhum eu deixaria a casa sozinha. As crianças não perdoam nem a casa do xerife com os ovos e papel higiênico se não conseguirem alguns doces.
Derek abriu a boca para contestar novamente, mas se interrompeu ao ouvir o som de dois carros chegando, seguido por vários pares de passos, para enfim ter seus betas entrando na casa em meio a conversas animadas. Balançou a cabeça e suspirou ao avistar que traziam ao menos uma abóbora para cada um, sabendo que a batalha já estava perdida.
― E aí Stiles, vejo que já está em clima de Halloween ― saudou Jackson carregando duas abóboras, passando por Stiles para deixá-las no balcão com as outras. ― Já está até usando sua fantasia de fracassado.
― E você vai se vestir de lagartixa de novo? ― Retrucou Stiles, sem se abalar com a provocação.
― Não se preocupe, eu ainda sei um truque ou outro ― Jackson murmurou com um sorriso maldoso, piscando por um momento seus olhos ofídicos amarelos antes de os tornar normais.
― Você poderia se fantasiar de Voldemort esse ano. Sabe, já que de alguma forma você consegue sumir com o seu nariz em seu turno Kanima.
― Se vocês vão esculpir essas abóboras aqui ― interveio Derek, antes que a discussão se aprofundasse ―, tentem não fazer bagunça ou acordar o Sam, que está dormindo lá em cima.
Todos concordaram e cada um pegou sua abóbora, assim como uma faca de esculpir, indo para a varanda começar o trabalho.
― Onde pensa que vai? ― Stiles questionou ao ver Derek voltar para a sala, pronto para retomar sua leitura de um livro. ― Pegue sua abóbora e vamos esculpir!
― Eu falei que não faria isso ― resmungou.
― Nada disso, você vai pegar a abóbora e trazer sua bunda de lobo azedo até aqui como todo mundo ― mandou. ― O halloween é só uma vez no ano, e não vai te matar esculpir um legume. Vegetal. Ou fruta, sei lá. O que diabos é uma abóbora, afinal?
Revirando os olhos, Derek desistiu de sua leitura, devolvendo o livro ao seu lugar, para então ir buscar sua abóbora, interrompendo-se no caminho ao ouvir Sam resmungar em seu quarto.
― Sua reclamação acordou o bebê ― rosnou para Stiles, que ao menos parecia culpado e arrependido, antes de subir as escadas buscar seu filho.
Pouco depois voltava Derek com Sam no colo, o rosto avermelhado e sonolento, coçando os olhos com as mãozinhas e com o cabelo escuro bagunçado. Sam animou-se visivelmente ao avistar o bando todo reunido, esperneando até que Derek o largou no chão para que pudesse engatinhar até o grupo.
― Cuidado com essas facas perto do meu filho ― alertou com os olhos vermelhos alfa, olhando sério para seus betas. ― Eu arranco a garganta de quem machucar ele.
Sem perder tempo, Sam engatinhou até onde o bando estava acomodado pela varanda, a fim de ser mimado com sempre acontecia.
Se tinha uma coisa em que lobisomens eram bons, era cuidar dos filhotes do bando. O instinto protetor era maximizado quando se tratava de bebês, e Sam sendo o único filhote do pack se aproveitava de toda a atenção. Derek não negava que amava ver a interação de todos com seu filho, principalmente quando o filhote se derretia em meio ao carinho e gargalhava com as gracinhas e brincadeiras. Era definitivamente seu som favorito no mundo.
Deixando o bebê brincando com as demais decorações de Dia das Bruxas, se puseram em fim a trabalhar nas abóboras, abrindo seu topo e retirando suas tripas cheias de sementes.
― Devíamos fazer um canteiro lá atrás e plantar essas sementes ― falou Stiles adicionando mais um punhado à pilha de tripas de abóbora. ― Então não precisaríamos comprar nenhuma ano que vem!
― Ou nos próximos dez anos ― completou Isaac, notando a quantidade de sementes.
― Não vamos fazer uma plantação de abóbora ― resmungou Derek.
― Seria legal ― insistiu Stiles. ― O quanto um pé de abóbora pode crescer?
― Muito ― respondeu Boyd, concentrado em começar seu desenho. ― Quando você vê ele está invadindo sua casa.
― Definitivamente deveríamos plantar! ― Se animou Stiles.
Os próximos longos minutos foram então dedicados a esculpir diferentes expressões nas abóboras, desde a face tradicional até as mais divertidas e criativas de Erica e Isaac.
― Ei ― chamou Stiles, risonho, dirigindo-se a Derek, que tentava impedir que Sam comesse um punhado de sementes. ― É você.
Derek fechou a cara ao ver o rosto emburrado esculpido, com direito a presas em forma de rosnado e grossas sobrancelhas. Revirando os olhos, nada disse, somente rosnando para o restante do pack que parecia bastante divertido com o fato.
Quando terminaram de esculpir e limpar a bagunça de tripas e cascas, acenderam as velas a pilha e acomodaram as abóboras pela varanda e frente da casa, olhando orgulhosos para o resultado antes de terminarem o restante da decoração, pendurando e espalhando pela casa fantasmas e esqueletos, e as grandes aranhas que conseguiram salvar antes que Sam arrancasse todas as suas pernas.
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Derek não se lembrava de alguma vez se sentir inseguro como estava enquanto segurava Sam em um dos braços e tocava a campainha da casa de Stiles. Não era como se nunca tivesse estado na casa do outro sozinho, mas quando ele o convidava para uma noite de filmes em um feriado, soava como íntimo demais. Ele sabia que era algo normal entre amigos, e tentava não pensar muito no assunto enquanto ouvia os passos apressados de Stiles dentro da casa. Ali fora o vento gelado do outono soprava, e Sam lutava para tirar as orelhas de Yoda de sua fantasia, enquanto as ridículas orelhas de lobo falsas de Derek apertavam sua cabeça.
― Doces ou... ― começou Derek quando Stiles finalmente abriu a porta, sorrindo largamente ao encontrar o homem e seu filho parados ali. ― ...travessuras?
Derek piscou atordoado ao reconhecer o jovem sob a intrincada fantasia de vampiro. Seu cabelo estava impecavelmente penteado com gel, as presas falsas escapavam pela linha de seus lábios, e ele parecia muito bem em apertadas calças sociais pretas e camisa branca sob um colete justo cor de vinho, tudo isso por baixo de uma longa capa preta com o interior vermelho vivo, a qual Stiles usava para dramaticamente cobrir a metade inferior do rosto em seu antebraço.
― Não entre na minha casa ― começou o garoto, forçando a voz a assumir um tom mítico ―, ou eu vou chupar o seu pau- quero dizer, SANGUE, vou chupar o seu sangue! [1]
Derek deixou um riso nervoso escapar, combinando com o mortificado de Stiles, baixando o olhar para o chão enquanto tentava não corar perceptivelmente. Quando olhou para o garoto desconcertado, Derek pode enfim notar a maquiagem que o deixava mais pálido, porém infelizmente ocultava grande parte das sardas e pintas que secretamente achava adorável, e também os escuros traços delineados ao redor de seus olhos, onde podia jurar que ele usava lentes de contato.
― Eu aceitaria a primeira opção! ― Puderam ouvir Isaac gritar de dentro do Camaro estacionado na rua, o que deixou Stiles ainda mais envergonhado.
― É, hm... você quer entrar? ― Conseguiu finalmente dizer, se afastando para dar passagem ao homem, que silenciosamente concordou. ― O Isaac não vem?
― Ele vai a uma festa com Erica, Boyd e Scott ― respondeu Derek, ouvindo o jovem partir com o carro.
― Por que você empresta o Camaro pra eles mas pra mim não? ― Indignado, Stiles cruzou os braços depois de fechar a porta.
― Você nunca pediu.
― Estou oficialmente pedindo agora ― resmungou, seguindo para a sala, onde a pilha de DVDs de terror alugados já esperava por eles. ― E também estou indignado que nem um único indivíduo que eu não sei por que ainda insisto em chamar de amigo teve a decência de me convidar para uma festa.
Derek deveria contar que Isaac de fato pretendia o convidar antes de saber que Stiles convidara Derek para passar o Halloween em sua casa, mas soaria pretensiosamente suspeito demais, então ficou quieto e o ouviu reclamar sobre os amigos que tinha.
― Eu sabia que ele iria ficar uma gracinha! ― Stiles comentou quando deu uma olhada para Sam, que finalmente conseguiu arrancar de sua cabeça o gorro com suas compridas orelhas verdes. ― Yoda é um clássico!
Derek não negaria que o filhote ficara realmente adorável com a fantasia, mas não disse nada e apenas sorriu, o soltando no chão antes de se sentar ao lado de Stiles que ligava a televisão.
― Sabe o que cairia bem agora? ― Stiles começou, após poucos minutos de filme. ― Chocolate quente.
Derek suspirou, sabendo muito bem que essa tarefa sempre recaía sobre ele. Nem tentou protestar, somente se levantou do sofá e seguiu para a cozinha.
A campainha tocou várias vezes enquanto ele mexia o chocolate, mas não se importou muito com as crianças pedindo doces enquanto Stiles as atendia, não até que uma voz masculina totalmente não infantil saudou Stiles com animação e interesse mal disfarçados, sendo respondido no mesmo tom.
― Gostei da fantasia ― falou o jovem, e mesmo da cozinha com o cheiro doce diretamente sob seu nariz, Derek podia farejar o interesse alheio. ― Ficou muito bonito em você.
― Obrigado, cara ― respondeu Stiles, e Derek tinha certeza de que ele passava a mão pelo cabelo timidamente, como sempre reagia a essas situações. ― Você, hm, quer doce? Não são exclusivos para as crianças.
― Valeu ― o sorriso em sua voz era audível, e Derek apertou a colher inconscientemente entre os dedos com força, até a madeira estalar. ― Então, vai haver uma festa de uns amigos mais tarde, você poderia dar uma passada lá depois, se quiser.
Bufando, Derek derramou o chocolate fumegante em duas canecas, enchendo a de Stiles com mini marshmallows antes de caminhar confiante até a porta, parando atrás de Stiles mais próximo do que deveria enquanto estendia a ele sua caneca.
― Desculpe, cara, mas já tenho planos ― Stiles respondeu, pegando seu chocolate e sorrindo para Derek em agradecimento.
Ao farejar a decepção do garoto, que agora notou estar acompanhando uma pequena garotinha impaciente, Derek suprimiu um sorriso maldoso, mas não se impediu de piscar seus olhos vermelhos e deixar suas presas visíveis em um rosnado mudo, divertindo-se ao ver a surpresa no rosto alheio.
― É- tudo bem ― murmurou, coçando a nuca em embaraço. ― Bela fantasia, cara, bem convincente ― falou a Derek antes de pôr a mão sobre o ombro da menina e a guiar para fora apressadamente. ― Um bom Halloween para você e seu namorado, Stiles.
― Namorado? ― Murmurou Stiles ao mesmo tempo em que Derek agradecia e fechava a porta.
― Quem era? ― O homem questionou, voltando ao sofá, vendo Sam brincar sobre o tapete, alheio ao que acontecia ao seu redor.
― Um amigo da escola ― respondeu ainda um tanto atordoado. ― Parecemos namorados?
― Você pode ir à festa, se quiser ― Derek falou, mesmo que não estivesse realmente confortável com a ideia. ― Eu fico aqui e atendo as crianças.
― Não mesmo ― respondeu Stiles, caindo ao lado de Derek no sofá. ― Eu o convidei pra assistir filmes comigo hoje e nós vamos assistir filmes!
Derek não pode, ou quis, controlar o pequeno sorrisinho satisfeito que tomou conta de seus lábios durante o restante da noite, principalmente quando um Stiles já bastante sonolento se apoiou em seu corpo ao fim da noite, compartilhando de seu calor enquanto Sam dormia no outro canto do sofá.
E se Derek passou boa parte do tempo fazendo xícaras e xícaras de chocolate quente para Stiles somente para ter o egoísta e secreto prazer de vê-lo lamber o marshmallow derretido grudado nas bordas apaixonadamente, ninguém precisava saber.
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