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22 Cúmplices


O apartamento cheirava a curry e alguma nova invenção de Priya.


Lara entrou e ficou parada por um segundo na entrada, a mochila ainda no ombro, sentindo o calor do lugar depois do frio da rua — e havia algo especial em voltar pra esse apartamento pequeno com a planta chamada Alberta e o sofá velho e o cheiro de Priya cozinhando que era diferente de qualquer outra vez que tinha voltado. Era o mesmo lugar.


Ela é que estava diferente.


— VOCÊ VOLTOU!


Priya apareceu na entrada da cozinha com sua companheira colher de pau na mão, cabelo preso de qualquer jeito, usando um avental que tinha uma estampa de pimentas que Lara nunca tinha conseguido entender de onde tinha vindo, com aquela energia que ocupava o cômodo antes mesmo de ela entrar nele.


— Voltei — disse Lara, com um sorriso que não planejou.


Priya parou.


Inclinou a cabeça.


Examinou o rosto de Lara com aquela atenção de quem lê pessoas com a mesma facilidade que lê cardápio.


— Oi — disse ela, mais devagar.


— Oi.


— Você está diferente.


— Não estou.


— Você está com aquela cara.


— Que cara?


— A cara de pessoa que passou o fim de semana numa cabana e não ficou só olhando pra neve. — Priya apontou a colher de pau pra ela como evidência. — Essa cara.


Lara abriu a boca.


Fechou.


Pendurou o casaco no gancho da entrada com uma calma que era completamente calculada, como alguém comprando tempo pra decidir por onde começar uma coisa que nunca tinha começado antes.


— Priya — disse ela.


— Sim.


— Você pode desligar o fogão?


Priya ficou parada por exatamente um segundo.


Virou. Desligou o fogão. Voltou com a colher de pau ainda na mão, sentou no sofá com as pernas cruzadas e aquela postura de quem não vai a lugar nenhum até ouvir tudo.


— Pode falar — disse ela.



Aquilo, vindo de Priya, era o equivalente a parar de respirar.



— Aconteceu — Lara falou sem rodeios.


— Aconteceu aconteceu? — ela disse, com uma voz muito controlada pra ser Priya.


— Aconteceu aconteceu.


Priya jogou a colher de pau no sofá do lado e cobriu o rosto com as duas mãos.


Lara esperou.


— Estou bem — disse Priya, com as mãos ainda no rosto. — Só estou processando. Continue.


E Lara contou.


Contou o vinho que apareceu sem cerimônia, o filme italiano que nenhum dos dois terminou de assistir, a distância que foi sumindo entre eles no sofá de um jeito que nenhum dos dois tinha anunciado. Contou a conversa sobre a mãe dele, sobre o medo dela de ser vista como abusadora, sobre a insegurança do corpo que ele desmontou com aquela paciência e aquela presença que ela ainda estava aprendendo a receber sem tentar devolver.


Priya não disse uma palavra.


Isso era inédito.


— E depois — disse Lara, mais baixo — eu parei de pensar. — Ela olhou para as próprias mãos. — Sabe quando você para de verdade? Sem a parte da mente que fica de fora monitorando, sem ficar contando o que está sentindo pra entender se está dentro do limite. — Ela pausou. — Foi a primeira vez que aconteceu comigo. Estar completamente dentro de um momento sem nenhuma parte de mim de fora.


Priya abaixou as mãos devagar.


Ficou olhando pra Lara com uma expressão que era ternura pura, sem nenhuma camada de humor por cima.


— E depois? — disse ela, quieta.


— Depois a gente ficou quieto por um tempo. — Lara sorriu, involuntariamente, com aquela memória específica. — E aí eu perguntei um monte de coisa idiota porque a minha cabeça voltou e trouxe todas as perguntas de volta junto.


— Que tipo de pergunta idiota?


— Se era fetiche. Se era curiosidade. Se em algum momento ele ia ter vergonha de mim.


Priya fechou os olhos por um segundo.


— Lara….


— Eu sei o que vai dizer. Ele disse isso também. Que eram perguntas que não faziam sentido dado tudo que ele tinha feito até ali. — Ela ficou em silêncio por um momento. — Mas ele respondeu. Com paciência. Sem me fazer sentir pequena por ter perguntado.


— E sobre o que vocês são?


— Não demos nome. — Lara disse isso sem tristeza, só como fato. — Nós dois queremos guardar por mais um tempo. Ele porque a vida dele é toda pública e eu sou a única coisa que ainda é só dele. Eu porque preciso de tempo pra acreditar que sou a pessoa que pode ser escolhida sem ser descartável. — Ela ergueu os olhos pra Priya. — Mas ele disse que se fosse por ele mostraria pra todo mundo. Que não tem vergonha nenhuma de nós.


Priya ficou em silêncio por um momento.


— Você acreditou? — disse ela.


— Acreditei. — Lara disse isso com uma simplicidade que era nova. — E isso também é novo pra mim. Acreditar em alguém de primeira sem ficar procurando a parte que está errado.


Priya ficou olhando pra ela por um tempo longo.


— Lara.


— Sim.


— Você sabe que eu vou te apoiar em qualquer coisa, né? — Priya disse isso com uma seriedade que raramente aparecia, sem a aquela energia habitual por cima. — Não importa como isso se desenvolva, não importa o que as pessoas vão falar na internet, não importa se daqui a seis meses vai estar diferente do que é hoje. Eu estou do seu lado.


Lara sentiu a garganta apertar.


— Eu sei — disse ela.


— E você merece isso. — Priya disse com firmeza. — Merecia faz tempo. Só demorou pra aparecer o tipo de pessoa que consegue fazer você acreditar nisso.


Lara ficou com aquilo, deixando entrar sem filtrar.


— Obrigada — disse ela, baixinho. — Por ter me aceitado em Edmonton e toda essa loucura.


— Não agradece. — Priya pegou a colher de pau de volta e se levantou. — Agradece ao grupo de Facebook que te conectou comigo. — Ela foi pra cozinha. — Agora vou terminar meu novo prato, você vai tomar banho, e eu vou fazer perguntas enquanto a gente come porque tenho muitas e não vou guardar todas.


— Não vou responder tudo.


— Vou perguntar de qualquer jeito.


— Eu sei.


…


Na manhã seguinte a vida voltou.


Não de forma dramática, a vida nunca volta de forma dramática, só aparece de manhã como sempre, com o despertador e o frio e a necessidade de café antes de qualquer decisão.


Lara chegou na cafeteria no horário de sempre.


Priya já estava lá, fazendo barulho na cozinha, e havia uma normalidade no ritual da manhã que Lara abraçou com as duas mãos, a máquina de espresso, as xícaras, o quadro de giz com as sugestões do dia.


Normal.


Ela precisava de normal antes de saber como lidar com o resto.


Às sete e dezoito a campainha soou.


Ela sabia antes de virar.


Nolan entrou com o casaco cinza e o gorro e o cabelo levemente úmido de treino, e havia algo diferente em vê-lo agora, entrar na cafeteria como se fosse qualquer outra manhã de qualquer outra semana.


Ela virou pra máquina.


Preparou o americano sem precisar de pedido.


Pousou na bancada sem olhar muito tempo demais.


— Bom dia — ela disse, com a voz profissional de sempre.


— Bom dia. — A voz dele estava controlada, aquela voz calma e neutra que não entregava nada pra quem não soubesse ouvir.


Ele sentou no banco de sempre.


Não disse nada além disso.


E havia algo que doía de uma forma que ela não tinha previsto. Não era frieza, ela tinha pedido aquilo, ela sabia que era o certo, mas havia uma diferença entre saber e sentir, e sentir era estar do lado de cá do balcão servindo café pra alguém que dois dias atrás tinha se entregado de corpo e alma numa cabana no inverno.


Ela arrumou coisas que não precisavam ser arrumadas.


Ele bebeu o café.


Deixou a gorjeta de sempre.


— Até amanhã — disse ele, no tom de sempre.


— Até amanhã.


E foi embora.


A campainha soou.


O salão ficou com aquele barulho normal de manhã de semana — o homem do jornal chegando, as universitárias com laptops, a vida seguindo — e Lara ficou parada por um segundo do lado de cá do balcão sentindo aquela ausência de algo que estava lá e foi.


Priya apareceu na entrada da cozinha.


Ficou olhando pra ela com aquela atenção que lia tudo.


— Dói um pouco — disse Lara, antes que ela perguntasse. — Mesmo sabendo que eu pedi.


— Eu sei. — Priya ficou quieta por um momento. — Pode ir na dispensa pra mim? Preciso de mais canela, deve estar em alguma prateleira.


Lara assentiu, tirou o avental e foi.


A dispensa era pequena — fundo do corredor, depois da cozinha, com prateleiras de madeira dos dois lados e aquele cheiro característico de lugar que guarda especiarias e café.


Ela foi até a prateleira de baixo.


Agachou pra procurar a canela.


— Não é a canela que ela precisa.


Virou devagar.


Nolan estava na entrada da dispensa, encostado no batente, com o casaco ainda aberto e com uma expressão diferente da anterior — era a outra, a que ela conhecia de dentro da cabana e de quando estavam dentro do carro.


— Achei tivesse ido embora — disse ela.



— Saí pela porta da frente. — O traço de humor, mas quieto. — Entrei pela dos fundos. A Priya “deixou” aberta.


— Priya…


Ele assentiu confirmando.


Lara ficou olhando pra ele por um segundo, com a canela ainda na mão, processando a conspiração silenciosa entre ele e a amiga.


— Isso foi planejado?


— Uns cinco minutos depois. — Ele se aproximou, devagar, até ficar a um passo dela na dispensa pequena. — Eu tentei ir embora. Sério. — Ele ficou olhando pra ela de frente. — Mas aí você virou pra máquina e preparou o café sem me olhar e eu fiquei sentado naquele banco pensando que dois dias atrás eu estava na cabana com você e agora estava fingindo que não sei como você dorme.


Ela abriu a boca.


Fechou.


Ele deu o último passo que faltava.


Não havia mais espaço entre eles, a dispensa pequena e ele grande e ela encostada na prateleira com a canela numa mão e nenhuma saída disponível que ela quisesse usar.


A mão dele foi pra cintura dela primeiro, direta, sem a cautela de sempre, com uma firmeza que era diferente das outras vezes, como alguém que passou a manhã inteira se controlando e chegou no limite, a puxou, colando os dois de uma vez, sem espaço pra dúvida sobre o que era.


Ela deixou a canela cair.


O beijo não começou devagar.


Começou do ponto em que o do carro tinha parado, intenso, com a língua encontrando a dela quase imediatamente, a mão dele que estava na cintura subindo pelas costas e a outra indo pro cabelo dela, segurando com uma firmeza que ela sentiu por todo o corpo.


Ela agarrou o casaco dele com as duas mãos.


Não pra puxar, pra se segurar, porque a prateleira atrás dela e ele na frente eram as únicas coisas sólidas disponíveis e ela precisava das duas.


Ele a pressionou levemente contra a prateleira, e ela ouviu o próprio respiro mudar contra a boca dele, aquele som que escapava antes de poder ser filtrado, e ele fez um som baixo em resposta que ela sentiu mais do que ouviu.


Quando ele se afastou foi devagar, como alguém que está saindo de um lugar onde preferia ficar, a testa encostando na dela, os dois sem fôlego.


— Isso foi… — ela começou.


— Eu sei — ele disse, a voz completamente rouca.


— Na dispensa da cafeteria. Meu Deus! — falou colocando as duas. Mãos no rosto.


— Eu sei disso também. — O traço de humor chegou, mas diferente, mais quente. — Eu tentei me conter, juro.


Ela riu, ainda sem fôlego, com o casaco dele ainda entre os dedos.


— Sua contenção estava ótima lá fora.


— Estava me matando lá fora.


Ela soltou o casaco devagar, alisando o tecido com as palmas como se precisasse fazer alguma coisa com as mãos.


— Vai — disse ela, baixinho. — Antes que a Priya invente outra desculpa pra me mandar aqui.


Ele beijou a testa dela — aquele gesto que era só dele, sempre no mesmo lugar, sempre com a mesma calma — e foi.


Ela ficou parada na dispensa por um momento, com o cheiro de café e canela e ele misturados, ouvindo a porta dos fundos fechar com o som suave.


Olhou pro chão.


A canela estava lá, como lembrete do que tinha acontecido.


Ela se abaixou, pegou devagar, e voltou pro salão com aquele calor no rosto que ela não ia conseguir esconder de Priya nem tentando.


Não tentou.


Priya estava atrás do balcão com aquela expressão de inocência completamente elaborada.


— Encontrou a canela? — disse ela.


— Você não precisava de canela.


— Precisava muito. — Priya pegou o potinho da mão dela sem piscar. — Obrigada.


Lara ficou olhando pra ela.


Priya olhou pro rosto dela, o cabelo levemente fora do lugar, o rosto ainda claramente corado, a expressão de quem acabou de sair de alguma situação suspeita.


— Demorou um pouco pra achar — disse Priya, com um sorriso que mal cabia no rosto.


— Estava na prateleira de baixo — disse Lara, com uma dignidade que não tinha mais fundamento.


— Claro que estava.


Lara foi trabalhar sem responder.


Mas havia algo diferente agora — mais leve, mais vermelha, com aquele beijo ainda presente, e ela sabia que ficaria relembrando o resto do dia.


A manhã continuou como qualquer outra manhã.


Só que não era.


Você chegou ao fim do livro. Parabéns!