Três meses atrás...

Vendo o helicóptero içar voo e cortar o céu, a sombra, escondida por trás dos escombros do ataque de sua estimada cobra gigante, avançou em direção a um dos corpos estendidos próximo a um carro. O corpo moreno do jovem leonino morto ainda parecia intacto. A sombra se aproximou e avançou contra ele. Os olhos do garoto, que, antes, jazia morto, se abriram revelando um negro fundo sem vida, até se adaptar à cor original dos olhos de Thomas. Sentindo-se vivo de novo, Thomas — ou seu corpo servindo de hospedeiro para um parasita muito estranho — se levantou e olhou para seu próprio corpo sorrindo. Analisando por último a palma da mão esquerda, o símbolo de leão de antes mudara para um símbolo diferente que, a olho nu, ninguém jamais tinha visto: A letra U com um traço curvo cortando-a.

* * *

Gotas de água atingiam o chão com grande intensidade. Produzia-se um rastro por onde os eremitas passavam, apressadamente, com uma tábua enorme na mão.

— Gente por que essa montanha tem tantos corredores assim? — pergunta-se Vitor, o autor das gotas, com uma toalha na mão.

Há poucos minutos havia pulado no poço para pegar uma placa na qual acreditavam ser uma profecia. Fiorin levou os novatos de volta aos dormitórios e, junto com Vivaldo, Jean e Alexandre, Vitor ia atrás de Americo, que possivelmente ajudaria a desvendar a profecia que aquele monte de símbolos formava.

Após alguns minutos, chegam à sala da Amara, onde Americo admirava a pulseira que Felipe o entregara.

— Só pra você saber, isso não é nada fashion — disse Alexandre ao entrar na sala.

Americo riu e respondeu:

— É a pulseira de alarme do Protocolo de Defesa.

— Protocolo de Defesa? — perguntou Vitor.

— É um sistema de defesa que os capricornianos, leoninos e taurinos estavam montando.

— Ficou pronto? — perguntou Vivaldo.

— Sim, Felipe, Fernanda e Maiara estão distribuindo as pulseiras nesse momento. Mas, bem. O que fazem acordados tão tarde? O que é isso? — perguntou, olhando pra placa nas mãos de Vitor. — E por que você está todo molhado?

Vitor explicou a Americo tudo o que acontecera, desde quando ele suspeitou de que haveria algo importante na Sala dos Quadros até o momento que encontraram a placa no Poço de Iniciação. Com a inscrição em dizeres estranhos nas mãos, Americo analisou cada símbolo, todavia, nem seus atributos poderiam ajudá-lo a entender o que dizia aquela placa. Mas lembrou de alguém que conseguiria:

— Os globinos. Eles são habitantes da montanha há milênios, devem saber traduzir.

— Se duvidar, foram até eles mesmos que escreveram.

— Não viaja, Vitor — pediu Alexandre.

— Pra falar a verdade, não sabemos muita coisa sobre eles — disse Americo —, então, tecnicamente, eles poderiam sim ter escrito. Vivaldo será que você conseguiria invocar algum globino?

— Nunca tentei, mas...

Americo assentiu colocando fé no amigo. Vivaldo fechou os olhos concentrando-se nas presenças das inúmeras criaturinhas que rodeiam a montanha e ele jamais os viu. Em pouco tempo, Jean pode anunciar que um globino adentrava a sala. Falando uma língua que ninguém na sala entendia, ele tomou a placa e pôs aos pés do globino e pediu que ele lesse. Enquanto o globino lia as inscrições, o garoto traduzia para os colegas na sala:

— “O ciclo nasce junto à vida

Ao fim do nono mês, atravessa o sol pela segunda vez

E a sombra ressurgirá

Para quebrar o céu.

O declínio das estrelas há de vir.

Aquele que carrega a marca da serpente

Invoca o mestre, tão inocente,

Um ritual secreto se inicia,

Com o sacrifício do encarregado,

Leva o mestre e seu reinado

Para o lugar onde pertencia.”

— Eu disse que tinha serpente — disse Alexandre.

* * *

— Sensores? — pergunta Bruna, enquanto observa pequenas pulseiras prateadas nas mãos de Felipe.

— Sim, isso fará com que vocês, Conselheiros, consigam sentir quando algo ruim está se aproximando — diz Fernanda, eremita de Touro, entregando uma pulseira ao seu Conselheiro, Yuri.

— Como funcionam? — Yuri observa o material feito de metal, admirado.

— Basicamente, quando alguma ameaça se aproximar desse radar que está embutido na pulseira, ele vai começar a apitar e brilhar — Maia explica, enquanto entrega as demais pulseiras.

— Isso é incrível, parabéns – Babi coloca a pulseira.

Satisfeitos, os Conselheiros se armaram com suas pulseiras e enviaram os eremitas aos seus dormitórios. Juntos, fizeram algumas escalas de sentinela a começar por aquela madrugada. Lucas e Brenda seriam os responsáveis por aquele fim de noite.

— Vou voltar ao laboratório para ver se Mattheus já se recuperou da queda — anunciou Luisa, Conselheira de Virgem.

— Que queda? — perguntou Brenda.

— Ele, Enio e Eduardo inventaram de saltar de asa-delta no último andar — explicou Stefani. — O garoto pôs fogo numa delas enquanto voava e caiu quebrando um braço.

Luisa seguiu para o laboratório e Stefani rumou para o Centro do Pico, patrulhando pelos corredores. Chegando ao laboratório, a Conselheira ouviu ruídos estranhos por trás de umas das cortinas que separam as macas no canto direito. Empurrando-as para se certificar do que se tratava, ela deu de cara com Jake e Auster aos beijos.

— Eita, desculpa — disse ela, tentando conter a vergonha de ter atrapalhado. Mas, pelo que pareceu, os meninos estavam mais envergonhados do que a moça e logo se despediram. Auster saiu sem sequer olhar para Luisa ou dizer alguma coisa.

— Desculpe por isso — pediu Jake.

— Relaxe — respondeu ela. — Como ele está? — perguntou apontando para a cama de Mattheus.

— Melhor. Apliquei-lhe um sedativo e pela manhã pretendo liberá-lo. Barbara também vai estar boa logo pela manhã — completou ele, referindo-se à canceriana que desmaiara no início da noite quando sentiu o Pico com medo.

— Bom, Hanna, Rodrigo e Fiorin já foram dormir. Você pode ir também. Obrigada por ficar até tão tarde.

Ele sorriu e deixou o laboratório. Luisa checou os sinais vitais de Amara e Daniela nos leitos ali próximo e logo em seguida, seguiu para o dormitório também.

No meio da noite, Mattheus, ainda grogue sob o efeito da morfina em seu corpo, abriu os olhos e a meia-escuridão não lhe permitiu enxergar muita coisa. Mas viu, mesmo com sua vista embaçada, um vulto sair pela porta do laboratório. Sem disposição para investigar, se rendeu ao sono e voltou a dormir.

* * *

— Me desculpa, eu... — Gorran tentou explicar seu ato impulsivo de beijar Vittoria logo após se afastar. Ele mal conseguia olhá-la nos olhos. — Eu não sei o que me deu.

Ela o interrompe com outro beijo rápido. Ele nem notou quando ela se afastou novamente deixando-o com um sorriso nos lábios. Um silêncio se fez por uns segundos, até que Vittoria o quebrou:

— Vamos dar uns rolê — chamou ela levantando e estendendo a mão para Gorran. Ela o acompanha e o recém-casal faz a tradicional volta pela Caverna. Eles conheciam cada lado daquele lugar e, aparentemente, eram os únicos que sabiam da existência do mesmo. Caminhando e conversando, chegaram novamente ao muro que descobriram no primeiro dia. O muro com os nomes dos eremitas. Desde os primeiros eremitas até os atuais. Os riscados indicavam os que já haviam morrido enquanto que os intactos ainda estavam vivos. Vittoria parou para analisar os nomes com mais atenção, até notar algo que, da primeira vez, havia passado despercebido por ela.

— Marco Aurélio? — exclama.

— Quê? — diz Gorran se aproximando.

— Olha, é o nome do meu pai — diz ela apontando o nome riscado.

— Seu pai já foi um eremita, que maneiro — responde ele.

Ela olha em volta e percebe uma proximidade grande do nome do seu pai com o de uma mulher:

— Jurema. Essa deve ser minha mãe — exclama Vittoria.

— Por que acha?

— Intuição — responde ela.

— Vamos perguntar pra Giu — sugeriu Gorran. — Se você foi criada pelo seu pai, provavelmente ela foi criada pela mãe de vocês. Juntas, quem sabe, vocês descobrem o porquê de terem sido separadas.

— Não vai adiantar muita coisa, Gorran — exclamou.

— Ora, e por que não?

— Você esquece que eles estão mortos — explica ela.

— Mas uma coisa vocês têm em comum que nenhum outro eremita tem. — Ele a deixou pensativa, mas prosseguiu pouco tempo depois. — Nenhum eremita tem pais que foram ex-eremitas, acredito eu.

— Como você pode saber?

— Intuição. — Ela não leva muita fé no instinto intuitivo dele. — Os nomes dos meus pais não estão nesse muro, me dê um crédito, vai — pediu.

— Vou conversar com a Giu. Só pra ter certeza.

Decididos a subir novamente para o Centro do Pico, eles se viraram para a entrada da caverna para ir embora, quando um estalo os fez olhar para trás. Vestida com a túnica que usava na cama do laboratório, Daniela, descabelada e aparentemente perdida em si, saía das sombras da Caverna.

— Dani? — chamou Gorran. — Você tá legal?

Vittoria olhou para a perna da amiga e a ferida que a infeccionou parecia ter piorado, desde o joelho até próximo do pé, apresentando uma cor roxa. Eles tentaram se aproximar, até que Gorran notou, enquanto Daniela caminhava, gotas de um líquido pastoso e vermelho sendo derramado ao lado dela.

“Sangue” – pensou Gorran.

Estendendo a mão ensanguentada, Daniela se aproximou do muro dos nomes e tocando a parede escreveu uma palavra estranha ao lado de outros tantos nomes de eremitas ainda vivos: SERPENTÁRIO. Gorran e Vittoria olhavam perplexos e sem ação. Na curva do último “o”, a menina desmaiou.

* * *

Vitor anotou todas as palavras num papel e repetiu novamente, enquanto Jean agradecia ao globino e o dispensava.

— “Ao fim do nono mês, atravessa o sol pela segunda vez”? — indaga Vitor. — Mês nove é novembro né?

— É setembro, seu burro — respondeu Alexandre.

— Não — exclamou Americo.

— Como não?

— Vejam a inscrição na placa — diz ele mostrando o símbolo da estrela com os símbolos de cada signo. — Não acho que estejam falando de meses como conhecemos hoje em dia e sim dos ciclos zodiacais.

— O nono mês, então, seria o ciclo de... — Alexandre movia os dedos contando os meses — Sagitário? — perguntou.

— Não — exclamou Vitor.

— Olha, tá chato já, não quero mais brincar — disse Alexandre sentando-se na mesa de Amara.

— Lembro das histórias do meu pai sobre o Zodíaco antigo. Reza a lenda que existiam 13 signos ao invés dos 12 que conhecemos.

— O 13º signo! — exclamou Vivaldo. — Então, é verdade? Será que ele existe?

— Quem, gente? — perguntou Alexandre — To me sentindo um poser, por essa água de Jesus. Me ajuda, Lusiano!

— Chamam de Serpentário — começou Vitor — ou de Ophiucus, já que é a estrela que rege a constelação de Serpentário. Cada constelação tem uma estrela alfa. A principal, a que brilha mais, o centro do signo.

— Por favor, não diga isso para nenhum leonino — pediu Alexandre. Todos riram ao perceberem o trocadilho com o fato de que todo leonino é egocêntrico.

— A Astrologia, como ciência, explica que a esfera celeste possui uma linha eclíptica que rodeia a Terra e o Sol atravessa essa linha durante o ano. – Vitor andava de um lado a outro finalmente feliz de poder contar as histórias que seu pai lhe contava podendo ajudar a resolver muitos mistérios rondando a montanha. — De acordo com os povos antigos, não eram as constelações que determinavam as características das pessoas e sim, energias cósmicas regidas pelas estrelas alfas de cada constelação. A constelação de Serpentário é uma das mais extensas e, por isso, não possui uma característica centrada que a define. Além disso, o ângulo de 360° que o Sol faz em torno da Terra seria bem mais dividido para 12 do que para 13. Portanto, foi decidido, em uma conferência de Astrologia há anos, que o ciclo zodiacal seria dividido nas 12 regiões zodiacais que conhecemos hoje e Serpentário foi excluído do Zodíaco.

— Tá, mas, mesmo que Serpentário existisse, ele seria o 13º do ciclo — conclui Americo. — O nono mês continuaria Sagitário, não?

— Não — respondeu Vitor. — A constelação de Serpentário fica entre as constelações de Escorpião e Sagitário. O nono mês é o da nossa querida Ophiucus.

Os veteranos não conseguiam acreditar que um novato como Vitor pudesse conhecer tanto de Astrologia, por isso, não levavam muita fé no garoto.

— Para provar minha teoria, vejam aqui — continuou ele, apontando para o papel onde escreveu as palavras da profecia.

— “Aquele que possui a marca da serpente” — leu Alexandre. — O que isso quer dizer?

— Serpentário é caracterizado pela sombra de um homem que comanda uma serpente. A marca do signo é uma cobra.

Americo lembrou-se do ataque em Santos e da cobra gigante que enfrentaram.

— Ele já vem nos procurando há tempos, mas por quê?

— “A sombra ressurgirá para quebrar o céu” — leu Vitor. — Ele vai fazer uma zona na linha eclíptica.

— “Aquele que carrega a marca da serpente invoca o mestre, tão inocente” — Alexandre dizia, lendo.

— Alguém possui a marca de Serpentário e essa pessoa será responsável por um “ritual secreto” — deduziu Vitor, usando seu atributo intuitivo. — “Com o sacrifício do encarregado, leva o mestre e seu reinado para o lugar onde pertencia.” — Ele pausou e seu semblante era de puro pavor.

— O que foi? — perguntou Americo, preocupado.

— Ele quer voltar ao Zodíaco — respondeu —, e o que carrega a marca da serpente será sacrificado. Ele veio para matar alguém. A profecia está para se cumprir.

* * *

Sentindo a energia cósmica, ele admirou o céu roxo e o brilho das estrelas se perdendo. Seu olhar desceu e pousou sobre a montanha. O Pico do Cristal. Ele conseguia vê-la de todas as formas possíveis, na água, no fogo, no pensamento e as inscrições no chão indicando o caminho até ela. Ele era um eremita agora e, assim como qualquer outro, se aproximou da parede da montanha e, tocando-a com sua palma esquerda, abriu a passagem e entrou.

— Acorda, viado — Brenda sacudia Lucas, que tinha encostado na parede e cochilado.

— QUÊ? QUEM MORREU? — berrou ele, despertando.

— Morreu minha mão na tua cara — respondeu ela.

Ele se sacudiu para espantar o sono.

— O que houve?

— Olha — disse Brenda apontando para a pulseira em seu braço —, acho que tá com defeito.

Lucas olhou para sua própria pulseira que, assim como a da Brenda, brilhava intensamente, mas não apitava como Felipe disse que aconteceria.

— Temos que procurar o Felipe, urgente — concluiu Lucas.

Saíram por um corredor estreito à esquerda. Próximo dali, uma porta se abriu e a silhueta de Thomas adentrou a montanha. Sorrindo e com seus olhos mudando de castanho para avermelhado, ele seguiu pelo lado oposto.

* * *

Os dormitórios se encontravam em silêncio na madrugada fria que rodeava o Pico, a maioria dos eremitas estava dormindo, mas havia um movimento ali atrás dos dormitórios — um movimento bem quente.

O casal que ali se encontrava estava agarrado em uma frequência anormal, os dois se beijavam de uma forma quente, totalmente contrária à temperatura no ambiente, marcando -5°, porém eles nem ligavam, aquele momento estava tão quente que para eles estava marcando 30°.

Ney nem sempre fazia isso abertamente, pois podia encontrar seu parceiro só às vezes e sempre naquele horário, já que optaram por manter aquela "amizade colorida” em segredo.

— Isso é uma salsicha no seu bolso ou o que? — Ney diz, respirando lentamente.

— Salsicha? É tão fino assim? — indaga Thiago, parando de beijar seu pescoço e se sentindo ofendido.

Ele se afasta, mas logo Ney começa a rir e o beija novamente.

— Preciso ir — ele fala. — Amanhã preciso treinar com a Babi, e você também precisa!

— As coisas estão confusas, eu sei... Mas só mais um pouquinho.

Seus corpos se unem novamente, e eles selam seus lábios por alguns minutos até que Thiago os separa, se despedindo e deixando-a lá, no pequeno esconderijo dos dois.

Ney fica ali, pensativa, fadada a pensar que talvez tivessem um futuro juntos, mas logo caiu na real e viu que ele era só um ficante qualquer. Então decide voltar para o dormitório, em meio à noite escura, iluminada apenas pela grande lua que sorria para Ney.

De longe, um vulto a observava, passando rapidamente entre os lugares escuros e claros, Ney não percebeu, mas ouviu um barulho parecido com uma pedra caindo e, ao virar-se, deu-se de cara com uma figura alta e robusta, que olhava diretamente para ela, como se estivesse prestes a dar uma ordem. Não foi preciso nada além de contato visual. Os olhos de Ney, que, anteriormente, tinham uma cor acastanhada, se tornaram vermelho como sangue. A postura da garota mudou, já não era mais a mesma e agiria contra seus próprios princípios a partir de agora.

Não muito longe dali, Stefani, assim como alguns leoninos, ainda não tinham encontrado o famoso sono, que sempre sumia nas madrugadas frias. Então decidiu tomar um leite quente antes de voltar até o dormitório. Ney chegou discretamente no enorme refeitório e viu, de longe, a figura baixa com cabelos enrolados caídos em seu rosto, com um pequeno copo em mãos. Aproximou-se cautelosamente, com expressões frias e vazias, chegando cada vez mais perto, até que Stefani percebeu.

— Ney! Meu Deus, você me assustou de verdade — diz ela, pondo a mão no peito e respirando ofegante. A garota que havia lhe dado um susto não mostrava, entretanto, nenhuma feição exceto encará-la. — O que tá rolando? Você tá me assustando, sério.

Ney parecia uma psicopata e Stefani estava totalmente assustada com aquela situação, nunca havia visto algo assim. Numa fração de segundo, Ney mostrou suas garras para Stefani, indo para cima da garota que não teve tanto tempo para se desviar e acabou levando um enorme corte no ombro. Aquilo latejava, mas ela se levantou sem ligar para a dor, já que a sua resistência era muito maior que a de Ney.

— AH, MISERA, PERDEU O VALOR À VIDA, FOI?! — exclama Stefani. — Não sei o que há com você, mas se me atacar eu vou atacar.

Stefani foi para cima dela dando-lhe um soco na barriga, fazendo com que a garota saísse voando pra cima das inúmeras mesas, caindo inerte até que se recuperasse do baque. A escorpiana levantou com fúria em seus olhos, que lhes davam uma cor de sangue mais intensa. Lentamente passou a garra na parede enquanto andava, olhando diretamente para Stefani.

— Matarei todos que estiverem em meu caminho — diz. — Essa montanha não será mais a mesma, eu vou destruí-la — disse Ney, se aproximando de Stefani, que não entendia nada do que ela falava.

— Do que você tá falando, sua louca? — Stefani pega seu copo com leite quente e decide jogá-lo no rosto de Ney, que recua ao receber o jato do líquido em seu lindo rosto. A leonina aplica-lhe um golpe de Judô e a derruba. Com dois socos, deixa sua oponente desacordada.

Stefani saiu dali ofegante, procurando por ajuda.

* * *

Lucas e Brenda adentraram o dormitório da Terra e rumaram para a terceira porta com o símbolo de Capricórnio. Felipe, que tem um sono leve, acordou com o leve ranger da maçaneta.

— Quem está aí? — perguntou ele.

— É o Lucas, precisamos de você.

— Aquarianos... Sempre precisando que a gente resolva seus problemas — resmunga ele se levantando, indo até a porta e empurrando o Conselheiro de Aquário para fora. — Quê que vocês querem?

— Suas obras-primas estão quebradas — disse Brenda esticando o braço com a pulseira na direção do rosto do menino. — Tá tudo estragado e não tá apitando.

Ele viu a pulseira brilhando silenciosa e levou a mão nos olhos suspirando.

— Ai, eu perco a paciência com esses amadores, e ainda são Conselheiros — diz ele bufando.

— Viado, explica logo o que aconteceu — pede Lucas.

— Se não está apitando, é porque não é uma ameaça.

— O que isso quer dizer? — perguntou Brenda.

— Um eremita novato chegou à montanha. Vamos comunicar ao Americo, ele costumava ser um dos guias na chegada de novatos — disse o garoto indo até a sala de Amara, que se transformou no escritório do Conselheiro de Sagitário, seguido por Lucas e Brenda.

* * *

— “Atravessa o sol pela segunda vez” — lia Alexandre. — Isso não significaria a segunda vez pela qual o Sol passou pela constelação de serpentário? Tipo, nos primórdios da história? Já que o Sol rodeia a linha eclíptica uma vez por ano.

— Os povos antigos acreditavam que a Terra era o centro do universo e que o Sol girava em torno dela — explicou Vitor. — Nesse caso, penso que a segunda vez seria no segundo dia a partir do momento que o sol toca a constelação. “O ciclo nasce junto à vida”, o ciclo anual do Zodíaco recomeça com Áries, mas a vida daquele que carrega a marca de Serpentário nasce no segundo dia do ciclo do signo no Zodíaco.

— Que dia começa o ciclo de Serpentário? — pergunta Vivaldo.

— Dia 29 de novembro — responde Vitor — e vai até 17 de dezembro.

— Então, o segundo dia do ciclo é no dia... — começou Alexandre.

— 30 de novembro — exclamou Americo. — É o dia do aniversário das gêmeas.

A porta de repente se abre e Felipe adentra com Brenda e Lucas.

— Americo, o Protocolo de Defesa — gritou Lucas.

Ele olha para sua pulseira e nota que ela está brilhando.

— Caramba, eu nem percebi, mas por que não está apitando?

— Por que não é uma ameaça — explicou Felipe —, é só mais um novato.

Vitor, Vivaldo, Alexandre e Americo se olham assustados.

— Ele chegou — disse Vitor. — Ele está aqui, posso sentir.

— Vocês já conhecem o novato? – pergunta Felipe.

— Não é um novato, Felipe — responde Americo, pegando um arco e uma aljava de flechas. — É pior do que todos temiam — disse saindo pela porta, sendo acompanhado por Alexandre, Vitor e Vivaldo.

— Eu disse que tava quebrado — Brenda fala, deixando a sala.

— Como é estar errado? — caçoa Lucas sorrindo e correndo atrás de Brenda.

Felipe range os dentes com raiva e, sem entender o que deu de errado, segue os eremitas.

Americo e os outros correm pelos corredores, até que Lucas, Brenda e Felipe os alcançam. Em uma bifurcação, eles param e resolvem se separar.

— Brenda e Alexandre, corram pelos corredores à procura de qualquer um e os levem ao refeitório. Felipe, Vivaldo e Vitor, vão aos dormitórios, acordem todos e os levem até o refeitório também. Emitam um Alerta Vermelho e não deixe, que ninguém se disperse do grupo.

— Espera, Americo — pediu Brenda. — Se falarmos isso, será difícil controlar a multidão. Diga a eles que haverá um treinamento pesado hoje e começará mais cedo e que precisam levantar para se preparar — disse para Felipe.

Ele assentiu e partiu com Vivaldo e Vitor.

— Certo — concordou Americo. — Lucas, você vem comigo.

Eles se dividiram e puseram-se a procurar. Felipe, Vivaldo e Vitor adentraram os dormitórios e emitiram o recado de Brenda, pedindo a alguns veteranos que os ajudassem a levar os outros em segurança pro refeitório. O dia já começava a clarear quando Alexandre e Brenda encontraram Gorran segurando Daniela no colo e Vittoria gritando desesperada por socorro.

— O que essa garota faz fora do laboratório? — pergunta Alexandre. — E onde diabos vocês estavam?

— Ela apareceu numa caverna que encontramos escrevendo uma palavra muito estranha na parede — explicou Vittoria. — Ela não parecia consciente.

— O que ela escreveu?

— Serpentário — respondeu Gorran. — Depois, desmaiou.

— Isso é mau. Brenda, vá com eles até o laboratório para deixar Daniela e depois acompanhe-os até o refeitório. Eu continuo procurando mais eremitas perdidos.

Brenda seguiu com eles e Alexandre continuou correndo até topar com Stefani.

— Xandy, pelo amor de Deus, me ajuda.

— Agora, não dá Ste, todo mundo precisa ir para o refeitório, agora.

— Mas, a Ney...

— Agora, Ste — Alexandre interrompeu-a e continuou correndo. Ela correu em direção ao refeitório pensando na loucura da escorpiana.

Americo e Lucas chegaram até a entrada principal do Pico e viram a porta aberta.

— Ele já entrou.

— De quem estamos falando, afinal? — perguntou Lucas.

Americo contou toda a história a Lucas enquanto corriam pelos corredores procurando pela sombra.

* * *

Brenda chega com Vittoria e Gorran segurando Daniela no colo.

— Ponha ela sobre essa maca — pede Brenda.

— O que está havendo? — perguntou Mattheus que acabara de levantar recuperado.

— Nada demais. Sente-se melhor? Ótimo, vamos para o refeitório, teremos um treinamento bem pesado hoje — diz ela usando seus atributos de persuasão no ariano.

Ele concorda e segue com Brenda, Vittoria e Gorran para onde a maioria dos eremitas se encontrava no momento.

De trás de uma cortina, Barbara sai com um sorriso maléfico. Seus olhos mudam de cor e um vermelho sangue toma conta de seu olhar.

* * *

Um tumulto fez com que Vanessa acordasse assustada e percebesse a movimentação de eremitas para fora do dormitório.

— Assim tão cedo?

— Disseram que vai ter um treinamento agora pela manhã, estão levantando todo mundo — explicou Vitor, fingindo-se de desentendido.

A pisciana levantou prendendo seus longos cabelos loiros e vestindo uma roupa. Todos os eremitas tinham deixado o quarto, exceto Vanessa e Vitor.

— Desvendamos a profecia — exclamou ele.

— E o que dizia?

— O céu vai quebrar, o brilho das estrelas vai cair. Estamos todos em perigo. Vá para o refeitório o mais rápido possível e não saia de lá — pediu Vitor deixando o dormitório.

Ela estranhou aquelas palavras. Terminou de se arrumar e correu para o refeitório. Na saída, uma presença à sua esquerda a fez parar. Ela sorriu ao reconhecer o rosto — ou quase — do jovem fantasma que a visitou meses atrás.

— Não sabia que conseguia te ver mesmo sem usar meus poderes — disse a garota.

O semblante do jovem era preocupante e Vanessa notou.

— O que foi?

— POR FAVOR, VOCÊ TEM QUE ME AJUDAR! — diz o fantasma, desesperado. Se pudesse tocar Vanessa, estaria chacoalhando-a. — NÃO É O BRILHO DAS ESTRELAS QUE VAI CAIR. TUDO VAI DESMORONAR!