Odisséia Grega
28 Capítulo 28
Notas iniciais
— Edward... — Chamei baixinho, mas ele não voltou. Eric entrou segundos depois e me olhou com pena ao ver as lágrimas escorrendo por minhas bochechas — Fique com ele só um instante, sim?
Saí da biblioteca limpando o rosto com as mãos da melhor maneira que conseguia. Caminhei pela grande e espaçosa casa sem saber exatamente qual direção tomar. Tantas portas. Tantas curvas. Para onde ele teria ido e por que diabos de repente eu me sentia tão culpada? Eu estava bem com tudo que fiz e não me arrependia. Mas vê-lo daquele jeito me perturbou tanto!
As palavras de Charlie vieram em minha mente e eu quase pude ouvir sua voz, me julgando por ter envolvido a nossa criança em uma briga que não era dele. Edward tinha ficado com tanta raiva e tão magoado. Como diabos eu poderia saber o quanto isso era importante pra ele?
Mas talvez eu devesse mesmo saber. Quero dizer, Renée sempre me contou sobre como papai ficou nas nuvens quando soube que eu estava a caminho. Eu me apaixonei pelo bebê desde que soube que ele, ainda pequeno como um feijão, estava dentro de mim, então por que ele também não o amaria, não é? Maldição. Eu estava mais confusa do que quando cheguei aqui.
O que ele faria a seguir? Será que tentaria me machucar de volta? Tirar o Heitor de mim?
Merda, não. Não!
Que ele não se atrevesse...
— Eu não sei o que você quer que eu diga — Ouvi a voz de Esme dizer com certa impaciência assim que cheguei à sala. Ela estava sozinha, usando o telefone sem fio. A porta da sala estava entreaberta e fazia com que o barulho do burburinho lá de fora chegasse até nós, mas isso não me impediu de ouvi-la falar — Ele não pode atende-la agora e nem acho que irá querer depois. Edward está nervoso e hoje não é dia para os seus caprichos — Continuou e passou a mão pela nuca. Acho que estava suando. Pensei em sair e lhe dar alguma privacidade, mas então o meu estômago apertou ao ouvir aquele nome — Tudo bem, Tanya. Eu vejo o que posso fazer.
Eu não conseguia explicar a raiva e inveja que se apoderava do meu corpo toda vez que aquele nome era pronunciado. De repente, toda a vontade de me explicar para o Edward e pedir desculpas se esvaiu. Ora, que se dane! Que ele pensasse o que bem quisesse! Heitor não pertencia a ele e muito menos eu.
Não teve consideração por mim quando fez o que fez. Ele mentiu e omitiu coisas tão importantes e essenciais que perdeu totalmente o direito de me julgar por querer ficar longe dele e proteger o meu filho da corja que eram os Cullen.
Mordi o interior da boca ao lembrar do quanto Esme tinha se mostrado diferente, autentica e boa. Ela não merecia estar inclusa em minhas ofensas, mas eu estava irritada demais para me arrepender de qualquer coisa. Pro inferno com essa casa, com essa gente, com o Edward e a sua queridinha esposa! Eles com suas belezas extravagantes se mereceriam.
Que o casal desfrutasse da família que formaram e deixassem o meu filho em paz, pois se tinha uma coisa que eu podia afirmar com certeza, era de que aquela mulher jamais chegaria perto do Heitor sendo ela esposa do pai dele umas mil vezes, que fosse.
— Wow. Calma aí! O que foi? — Eric perguntou quando tomei um Heitor meio bêbado de sono de seus braços — Você conseguiu explicar pra ele direitinho?
— Não. E também não pretendo! — Gritei de volta e Heitor resmungou no meu colo, dando-me um tapa fraco na cara por estar perturbando o seu sono. Ainda mais essa — Engole esse riso e vamos embora daqui. Já fiz a minha obrigação, agora posso seguir com a minha vida como estava fazendo antes de Emmett aparecer e ninguém vai voltar a pegar no meu pé.
— Calma, Bella. Também não seja exagerada — Eric me repreendeu observando o meu estado — Ele não vai querer ver o menino antes de irmos? Talvez passar um tempo...
— Eu não estou nenhum pouco interessada nas vontades dele nesse momento, Eric — Interrompi antes de ouvir mais besteira — Vamos embora daqui, por favor.
Eu estava despenteada, com a maquiagem bagunçada e suada ao chegar no carro. Tinha acabado de prender o meu garoto em sua cadeirinha, quando ouvi que o meu celular estava tocando em algum lugar. Ele pegou a manta macia para colocar ao lado do rosto, amassou e então voltou a cochilar. Fechei a porta sem bater muito forte e me sentei no banco do carona, vendo Eric tamborilar os dedos impacientemente no volante.
O celular tocou outra vez e bufando de raiva, comecei a vasculhar a bolsa até achar o aparelho. Gemi ao ver o nome de Emmett na tela.
— O que foi, Emmett? Já estamos de saída.
— Para onde você pensa que vai com o meu filho, Isabella? — Edward gritou. Ora, inferno! De novo não... — Já não basta a merda toda que você fez? Vem na casa da minha família, mostra o menino e o leva embora como um fodido troféu? — Continuou gritando enquanto vozes ao fundo pediam para ele se acalmar — Só veio esfregar na minha cara como me fez de imbecil todo esse tempo, não foi?
— Edward...
— Eu esperava esse tipo de coisa de qualquer pessoa, menos de alguém que se mostrava tão honesta e com princípios — Ele me interrompeu com a voz carregada de sarcasmo e eu apertei o celular em meus dedos — Eu posso ter sido um cretino ao ferrar com o que tínhamos, mas você me superou, porque tudo o que fiz foi para te proteger e tudo o que você fez, foi por egoísmo! Você me traiu da pior forma possível! E quem diabos é Eric Northman e por que você usou o sobrenome dele para entrar aqui? Isabella, se você tiver feito o meu filho acreditar que o pai dele é outro, eu juro por Deus...
— Edward, por favor... — Ouvi uma voz masculina e desconhecida chama-lo.
— Eu não quero conversar com você agora. Na verdade, eu quero distância. Quanto mais longe estivermos de você, mais satisfeita eu vou ficar.
— Traga-o para mim. Eu quero o meu filho, Isabella. Traga-o de volta agora! — Sua voz estava rouca, parecia ter chorado, mas isso não amenizava a grosseria com a qual ele falava comigo e tanto quanto aquilo poderia até magoar, no momento apenas alimentava a minha raiva.
Ele não tinha o fodido direito de me dar ordens.
— Escuta bem o que eu vou te falar, Edward Cullen, eu o carreguei por nove meses em minha barriga. Sofri por 8 horas naquela sala de parto, amamentei e passei noites em claro. Então trate de se conformar, porra, porque as decisões sobre Heitor quem toma sou eu — Gritei de volta. Tomei fôlego e vi Eric meio engasgado ao terminar de fazer a curva — Não vou ficar aqui ouvindo você berrar comigo só porque fiz algo que você não concorda. Era minha vida, minha escolha! Assim como você escolheu ir embora. Não era a minha maldita obrigação ir busca-lo! Essas foram as consequências das suas atitudes de merda. Agora se você tem um pingo de vontade de ser um pai para o seu filho de agora em diante, pare de agir como um bebê chorão e lide com isso como homem, porque vá por mim, você não está mais mexendo com a mesma estúpida garotinha aqui.
— Bella...
Desliguei o telefone o joguei sobre o painel do carro sem me importar com a força que usei. Encostei a cabeça no banco, sentindo-a latejar e implorar por paz e talvez um pouco de silencio. Abri meus olhos minutos depois para encarar o Eric com sua expressão engraçada. Ele parecia assustado e orgulhoso, abriu e fechou a boca por tantas vezes sem emitir um som, que acabou desistindo e concentrou-se apenas na estrada.
Suspirei fechando os olhos outra vez. Eu precisava de um tempo de toda essa bagunça.
A primavera estava batendo em nossa porta e o domingo foi de sol durante a maior parte do dia, nos forçando a usar roupas leves. Naquela manhã eu apreciei a companhia de uma amiga e seu filho no shopping. Mil vezes melhor do que passar o dia trancafiada e chafurdando sobre ontem.
Renata é uma bonita morena de olhos castanhos esverdeados, ortopedista e tinha um lindo menino de três anos. Ele e o meu garoto se davam bem desde que puseram os olhos um no outro como se tivessem saído do mesmo útero. Tinham uma ligação surpreendente, apesar da diferença de idade.
Nós paramos para almoçar e Henry estava o tempo todo empolgado nos contando coisas sobre a sua namoradinha da creche, Samantha. Eu achava adorável o jeito que o sorrisinho tímido dele se abria sempre que Renata lhe perguntava algo sobre Sam e apesar de mal ver a hora de conhecer a pessoa por quem o meu bebê mostraria interesse, eu gostaria que demorasse o suficiente para que eu pudesse aproveitar o máximo de sua infância. Não me sentia nem remotamente pronta para dividir o meu ruivinho tão cedo.
Dividir.
Lógico que essa questão me lembrava a ele.
Na volta para casa, Eric veio me questionando sobre o que eu faria se Edward lutasse para ter a guarda do meu filho, pois poderia haver essa possibilidade. Principalmente se ficássemos em pé de guerra. Tudo bem, eu admito agora que fui inconsequente em definir que os dois ficariam separados até o Heitor ter idade para procura-lo. Eu iria querer matar o desgraçado que me separasse por tanto tempo da minha criança.
Porém, Edward não tinha nada para usar contra mim em um tribunal. Eu trabalhava, vivia em um bom lugar, tinha uma família que me apoiava e nenhum antecedente criminal. Antes de ir embora, Eric me assegurou – para que eu não ficasse paranoica – de que ele jamais ganharia uma causa contra mim, porque nenhum juiz tiraria o bebê de uma mãe para entrega-lo a alguém que só surgiu em sua vida há dias.
A não ser que seu dinheiro fosse envolvido e eu não tinha ideia se ele seria baixo a esse ponto.
Está certo que ele agiu como um tremendo filho da puta quando resolvi ir embora, mas o que eu esperava? Se sua reação foi tão explosiva, era porque ele se importava. Eu deveria me sentir mal caso o visse tratando do assunto com indiferença e estivesse diante da rejeição que tanto temi. Isso eu não suportaria.
A verdade é que Edward pareceu destruído com ideia de ter um pedacinho dele pelo mundo e não ter estado ciente disso, mas não aparentava querer buscar vingança. Na verdade, ele tinha plena certeza de que se alguém se mantinha rancorosa sobre o passado, esse alguém era eu.
Que tipo de mulher ele achava que eu era? Pensando que eu o afastei da criança para puni-lo?
Não que naquele período a ideia de revê-lo me agradasse. Meus hormônios estavam loucos e tanto quanto tinha dias em que eu sentia saudade dele como se fosse um membro que havia sido amputado, em outros eu era uma cadela revoltada que o desejava as coisas mais horríveis. Era tudo muito recente para que eu pudesse pensar com clareza e ser politicamente correta.
Merda. Talvez eu tenha mesmo feito isso...
— Então você apenas foi embora. E o resto da família não estava por perto? Não notaram o que estava acontecendo? — Renata questionou parecendo confusa.
Eu tinha acabado de contar sobre toda a confusão de ontem – omitindo a ligação onde eu surtei – simplesmente porque precisava desabafar com alguém e Rosalie não estava disponível, mas com prazer eu repetiria a coisa toda depois. Ela ficaria orgulhosa ao saber que eu coloquei o Cullen em seu lugar.
— Não exatamente — Respondi dando de ombros. Henry resmungou sobre seus tênis estarem machucando os seus pés e ela o pegou no colo — Pelo o que eu percebi na saída, Carlisle estava trancado em algum lugar com Emmett e Edward e os outros, eu não cheguei a ver.
A verdade é que eu saí de lá como uma fugitiva, evitando olhar até para os lados. O lugar era grande o suficiente para que as chances de esbarrar com Alice ou Jasper fossem pequenas. Lembrei-me de Tanya e perguntei-me onde ela estaria. Na Grécia? Mas por que se estavam todos na cidade para celebrar o aniversário?
Ao chegar em casa, o meu ruivinho já havia adormecido por completo. Fez uma manha enorme para acordar, com direito a choro e coisas sendo atiradas para longe, mas ele estava suado e precisava de um banho antes de encerrarmos o dia.
Depois de limpo e alimentado, nós dois fomos para a minha cama. Estava cedo, mas eu me sentia exausta. Toda essa bagunça mexia muito com o meu psicológico e eu estava certa de que não queria mais episódios como esse em minha vida. Tive a necessidade de sentir Heitor junto a mim durante o sono, queria dormir com aquele cheirinho de bebê por perto e acordar com seus chutes inocentes em minha barriga, resmungando com fome. Queria ter certeza que ele estaria lá.
E então no dia seguinte, recebi a segunda ligação de Edward. Ele ligou diretamente para a minha casa porque alguém lhe deu o número e eu podia apostar dinheiro no idiota do Emmett. A agradável noite de sono me fez mais calma, mas ele parecia não ter pregado os olhos, uma vez que estava quase tão rabugento quanto ontem. Nós não gritamos um com o outro mais uma vez, mas também não estávamos nenhum pouco amigáveis. Edward queria saber se eu permaneceria em casa durante o dia com o seu filho – provavelmente amedrontado que eu sumisse no mundo depois do episódio de ontem. Lógico que eu o alfinetei sobre ele não ser nada além de pai biológico do Heitor e é claro que ele esfregou na minha cara que não foi lhe dado a opção de ser mais que isso.
Isso resultou em mais uma breve discussão cheia de acusações e palavras ferinas. Então ele falou que quanto mais ouvia as minhas explicações ridículas, menos sentia-se capaz de me perdoar por toda aquela merda. O meu coração deu um solavanco com a ideia de tê-lo para sempre ressentido comigo. Eu gostava da ideia de que pelo menos ele foi embora do país gostando de mim. Eu ficaria bem sendo vítima do ódio de Edward Cullen?
— Você é egoísta em tantos níveis que...
Inferno, sim! Eu ficaria.
— Ora, eu não preciso da porra do seu perdão! Você sobreviveu esses anos todos sem o meu, certo? Não deve ser uma tarefa tão difícil.
Bati o telefone em sua cara outra vez e ignorei as demais chamadas seguidas. Está certo que eu também não facilitava as coisas em alguns momentos, mas isso precisava acabar aqui e agora. Não podíamos ficar nessa disputa ridícula de quem é mais culpado ou quem se fodeu mais. Onde diabos isso nos levaria? Precisávamos agir como os adultos que éramos. Eu deixaria que ele tomasse o seu tempo e então estaria disposta a conversar assim que ele voltasse a si.
Recebi o convite de Renata cerca de duas horas depois, querendo nos levar para dar uma volta, o que foi uma bênção. Eu precisava tirar a minha mente daquela gente toda, do nosso futuro incerto e da minha vontade de acertar as bolas do Edward com suas próprias bolas por diversas vezes. Um pouco de distração seria bom, sim.
Nós mudamos de assunto após não ter mais o que falar sobre a situação de Heitor e ela me contou como andavam os últimos acertos para o casamento. Seu noivo enfrentou um divórcio difícil, pois a ex esposa dificultou como pode para que os dois não oficializassem o relacionamento, mas há 3 meses ele era legalmente um homem livre e não via a hora de trocar alianças com ela.
Tanto que o grande dia estava bem aí. Eles formariam uma família incrível.
— Você não faz ideia de como eles crescem rápido, Bella! Eu já precisei me livrar de tanta coisa, que o meu bolso dói na hora de repor. — Queixou-se enquanto olhávamos algumas bermudas para meninos de 3 a 4 anos.
— Eu venho percebido isso. Ainda tenho algumas coisas do Heitor desde o seu nascimento, deixarei umas de recordação, mas pretendo doar o resto e abrir um espaço na cômoda. — Respondi pegando algumas peças que havia separado para levar ao caixa e pagar por elas.
Já era quase noite quando chegamos em casa, eu estava com as pernas doloridas pelas horas de passeio e me xinguei por ter desistido da academia há tanto tempo. Trabalho, filho pequeno e treino, simplesmente não funcionava para mim. Olhei para Heitor que estava energético como nunca – talvez pelo açúcar no sangue devido a tantos doces – e gemi. Assim que ele pôs os pés no chão, correu por todo o apartamento, fazendo barulhos altos com a boca e espalhando bonecos.
Eu não entendia a sua necessidade de tirar tudo do lugar, mas pelo menos isso diminuía as chances de tê-lo desenvolvendo algum tipo de TOC no futuro.
Às 19, eu fui para cozinha preparar o jantar. Confesso que apesar de adorar cozinhar qualquer coisa, não tinha nada de animador em fazer comida para uma só pessoa, por isso mesmo reclamando às vezes, gostava quando Rosalie estava aqui para dividir comigo.
Senti vontade de ligar para saber como estava sendo o seu dia e foi o que fiz. Rose ainda estava pisando em ovos comigo e eu estava tentada a me aproveitar da situação para tê-la fazendo uma ou duas coisas por mim esta semana. Não me sentia mais brava sobre aquilo, mas ela não precisava saber disso ainda, certo?
Eu lhe contei o resumo de um resumo sobre ontem e ela tentou manter-se imparcial. Gritou quando eu repeti as palavras que usei contra o Edward, mas não pirou com as atitudes dele por entender que esse momento era no mínimo delicado. Conversamos por alguns minutos sobre Emmett também. Rosalie sempre foi estupidamente apaixonada por esse cara, mesmo tentando arduamente disfarçar por um longo tempo. Nenhum outro homem tirou isso de sua mente ou do seu coração e eu estava feliz com o avanço dos dois. Esperava que eles chegassem a estabelecer uma rotina saudável para ela, porque suas farras no final de semana e casinhos de uma noite enquanto solteira não me agradavam em nada.
— O quadrado azul. Onde coloca ele, amor? Hein? — Perguntei segurando o objeto e apontando para a caixa com seis aberturas em seis formatos diferentes. Entre eles, o quadrado, uma estrela e bola — Aqui. Tem que encaixar no espaço do quadrado para poder guardar.
— Sim! — Heitor gritou quando ensinei outra vez, como quem diz “já entendi, mãe”.
Mais alguns movimentos e eu suspirei, ficando impaciente de vê-lo tentar encaixar o bendito quadrado no espaço do coração. Estava prestes a interrompe-lo quando ele mesmo se aborreceu, levantou a tampa da caixa e jogou o objeto lá dentro, fechando em seguida com um sorriso babado altamente satisfeito nos lábios. Eu não segurei a gargalhada.
— E não é que você é um espertinho, garoto? — Elogio ainda rindo e ele me acompanha entendendo bem que havia quebrado a regra para chegar aonde queria.
Brincar com o meu filho é sempre muito divertido. Me espantava que ele fosse tão inteligente, quando nessa idade eu tentava comer a tinta descascando da parede lá de casa. Os bonecos grandes enchiam seus olhos, mas o seu brinquedo favorito era um teclado colorido, onde na sua concepção, ele produzia as músicas mais lindas. Era uma cena fofa de se ver.
Naquela noite, ele não conseguiu esperar pelo final da história de João e Maria e adormeceu nos meus braços. Após colocá-lo no berço, fui correndo arrumar a bagunça. Uma vez que os brinquedos estavam nos lugares, a cozinha limpa e a sala decente, eu fui tomar um longo banho.
Ignorei meus cremes, optando pelo perfume mais leve, vesti uma camisola simples de malha e fui para sala com meus óculos de grau e um livro que havia iniciado há algum tempo.
Deitei confortavelmente no sofá, deixando a TV ligada apenas para não ficar aquele silencio estranho ao redor, mas algumas páginas mais tarde os conflitos dos personagens começaram a me cansar. Coloquei o livro de lado e comecei a prestar atenção no filme que passava na TNT. Era suspense e eu preferia romances, mas antes mesmo que eu percebesse, já estava com uma tigela de frutas entre as pernas assistindo a Nicole Kidman correr pela casa escura com uma espingarda em mãos para proteger as crianças em The Others.
Sinto um friozinho na espinha, aquela sensação de expectativa. Alguma coisa estava prestes a acontecer e qualquer um poderia dizer.
E então de repente... BAM!
Puta que pariu.
Pulei de susto quando a porta da casa no filme fechou-se bruscamente no mesmo momento em que tocaram a campainha daqui. Deslizei o dedo na tela do celular e estreitei os olhos para o horário. Visita tarde da noite? Torcendo que não fosse qualquer notícia ruim, abaixei o volume e caminho até a porta. Ponho as mãos na madeira, me inclinando e quase tenho um troço ao ver pelo o olho mágico os fios rebeldes tão acobreados quanto os do meu filho.
Merda, era o Edward.
Respirei fundo algumas vezes sentindo medo do que sua vinda poderia significar. Pigarreei levemente tomando coragem e abri a porta bem devagar. Ele estava com a cabeça baixa, mas seu olhar foi subindo dos meus pés descalços, pelas minhas pernas de fora – onde ele demorou um pouco demais – busto e finalmente o rosto. Edward parecia não ter dormido nadinha, estava com olheiras embaixo dos olhos e a expressão cansada, mas ainda assim, malditamente lindo.
— Será que você me daria uma chance de pedir desculpas e conversar?
— Se eu deixa-lo entrar...
— Eu não vou causar problemas a você. Juro por Deus.
Desviei o olhar por um momento, pensando em minhas opções, mas cheguei rapidamente a conclusão que se ele estava disposto a isso, eu também deveria estar. Assenti e me afastei, dando espaço para ele passar.
Deixei que Edward observasse todos os detalhes do apartamento que seus olhos puderam alcançar e então tossi suavemente para chamar a atenção. Ele deu um sorriso pequeno e envergonhado por ter sido pego, eu apontei para o sofá e seguimos em silencio até ele. Sua presença atrás de mim me desconcertando completamente. Eu sentei meio de lado enquanto ele ficava de frente para a mesa de centro, encarando a TV sem realmente prestar a atenção no que passava.
— Sei que eu devo me desculpar com você por muitas coisas ainda, Isabella, mas principalmente por todo o meu comportamento de ontem. Me envergonhou e também a meus pais. Eu sinto muito — Meu olhar caiu para as suas mãos entrelaçadas que se remexiam constantemente, mas eu estava concentrada em sua voz — As coisas que disse no telefone e hoje pela manhã também. Eu não queria, entende? Eu estava muito irritado e confuso. Achei que fosse explodir.
— Tudo bem. Eu estive fora da sua vida por anos e de repente reapareço com esse tipo de notícia. Apesar de não saber o que esperar de você, também não o condeno pela reação que teve.
— É muita generosidade sua pensar assim. Esme quase me bateu — Afirmou soltando uma risada e eu levantei a cabeça surpresa — Ela disse que eu tinha todo o direito de ficar chateado, mas não de ser desrespeitoso — Em seus lábios havia um sorriso divertido, mas ele não parecia alegre — Sabe que mal consegui fechar os olhos na noite passada? Tudo o que eu via era o Heitor chorando e assustado por minha causa. Não queria que ele tivesse esse tipo de memória sobre mim, Isabella.
Eu fiquei em silencio, pois não sabia o que dizer. Lógico que Heitor nem sequer lembrava daquele detalhe de ontem, mas estava feliz que ele se arrependia do seu comportamento explosivo. Aquelas palavras me deixaram louca de raiva, mas eu não era hipócrita, eu entendia o seu lado também. Sei que ele não agiu daquela forma por ser má pessoa. Eu nunca presenciei Edward destratar ninguém, com exceção de Elizabeth, sua própria mãe, mas aquela mulher merecia isso e muito mais.
Então que seja.
— E é claro que você tinha razão em cada coisa que me disse — Continuou — Tirei um bom momento para refletir e sei que não vou ganhar nada batendo portas e exigindo coisas de vocês. Que direito eu tenho sobre uma criança que nem sabe quem eu sou?
Nesse momento, o Edward parecia tão diferente. Arrependido e temeroso perto de mim. Era tão interessante ter o grego todo poderoso sentindo-se deslocado e com vergonha. Chegava a ser quase prazeroso de ver. Deus, eu era uma pessoa terrível.
Mas nisso ele estava malditamente certo. Iríamos aos poucos e com passos de bebê.
— Não pensei que fosse me procurar tão cedo — Tentei mudar o rumo do assunto — Isso quer dizer que não vamos discutir mais?
Edward me olhou e sorriu torto, mostrando aqueles dentes branquinhos e perfeitos, me deslumbrando totalmente por um momento. Sua mão esquerda saiu do seu colo e vagarosamente encaminhou-se para cobrir a minha que estava sobre o sofá. Estremeci ligeiramente com o contato e fechei os olhos permitindo que aquele toque me trouxesse boas lembranças.
— Eu não vim para brigar. Você merece o inferno de uma briga, mas não me trará o tempo perdido de volta e é isso que mais me incomoda — Ele disse apertando a minha mão e eu entortei a boca em desgosto, sentindo um caroço se formando na garganta por puro remorso. Ele me tinha emocionada muito fácil — Me conte como foi, Isabella. Me conte sobre ele. Onde ele está? Dormindo? — Perguntou olhando ao redor, parando mais tempo no corredor como se o garoto fosse surgir correndo dali a qualquer momento.
— Sim, ele adormeceu há algum tempo — Levantei e tentei não rir dos seus olhos fiscalizando as minhas pernas outra vez — Eu vou dar uma olhada nele para que possamos conversar melhor. Você aceita algo para beber?
Edward confirmou e eu lhe trouxe uma cerveja. Na volta do quarto do meu garoto, encontrei ele sorrindo e acariciando o rostinho gordo de Heitor em uma foto nossa que estava no porta-retrato em cima da mesa de centro junto com o meu livro.
— Ele é lindo demais. A coisa mais bonita em que já pus os olhos. — Constatou sorrindo. Edward tomou um generoso gole da cerveja, perguntando em seguida se eu não iria acompanha-lo e eu neguei dizendo que ainda amamentava.
As orbes verdes brilhavam e seu olhar se distanciou por um tempo. Talvez estivesse imaginando a cena. Essa possibilidade me fez corar por toda parte e sentir calor. Deus do céu, pensar em Edward e nos meus peitos nus não me levaria para um bom caminho de jeito nenhum! Agitei a cabeça para me livrar daquelas imagens perigosas e pensei sobre o que falar. Talvez o básico fosse um bom início.
— Heitor nasceu aos 9 meses. Na manhã chuvosa do dia 23 de setembro com 3,200 kg. É muito inteligente e agitado — Comecei atraindo sua atenção e lá estava ele olhando para mim como se eu fosse o seu programa favorito — Não tem alergias. Aprendeu a dar seus primeiros passos muito antes que eu mesma, sua primeira palavra foi mamãe, o que me deixou eufórica e chorona por 48 horas no mínimo! — Nós rimos daquilo e eu continuei lhe dizendo tudo que surgia em minha mente, me deliciando com os sorrisos de aprovação que ele dava a cada nova informação.
Edward também me pediu os detalhes sobre as complicações que tive na gravidez, já que havia feito uma tremenda confusão ao interpretar o que eu disse no sábado e isso me levou a lembrar de todos os motivos que me incentivaram a mudar de cidade.
— Eu tinha essa amiga que trabalhava comigo, uma ótima pessoa, mas que se envolveu com o cara errado... o que é irônico porque ela faz o tipo que curte mulheres — Edward arqueou uma sobrancelha e eu lhe dei um tapa no ombro, como se fosse natural agir assim, lhe tirando uma risada sem graça — Rachel havia me dito que foi para cama com alguém e que desde então esse homem a pressionava muito para continuar vendo-a, o que obviamente não era do seu interesse. Ele fez algumas idiotices, como aborda-la no estúdio de yoga, ficar plantado em frente ao seu prédio e coisas assim até sumir de repente. Mas isso durou pouco. — Suspirei lembrando do quanto Rachel foi boa e me ajudou com o trabalho quando estive “doente”. O tal sujeito desapareceu do mapa por algum tempo e ela seguiu com a sua vida, voltando a sair como antes, inclusive comigo. Ela frequentemente me levava em restaurantes, barzinhos legais e ao cinema.
Eu soube que ela esteve saindo por duas semanas com uma moça aspirante a modelo que trabalhou para nós uma vez. A coisa parecia que ia ter futuro, mas em então na noite de uma quinta-feira, recebo uma ligação dela chorando e irritada feito o inferno dizendo que o tal Diego atacou as duas na esquina da rua em que ela mora. Ele não estava armado, por isso Rachel soube se defender, mas a outra moça foi machucada.
Eu lhe dei instruções severas para que entrassem e não saíssem até que os seguranças dissessem que era seguro. Liguei para polícia no caminho e assim que o meu táxi estacionou, eu vi que a confusão em frente ao prédio não tinha acabado. O porteiro parecia louco falando no rádio enquanto Rachel batia boca com um cara que tinha 2 vezes o seu tamanho, já moça loira estava atrás dela, encolhida e apertando o nariz que sangrava sujando sua blusa.
Percebi que a conversa entre os dois só estava se tornando mais agressiva, então achei que deveria intervir. O que apenas o meu primeiro da noite.
— Ei, cara! Vamos, pare com essa merda agora antes que a polícia chegue.
Tentei afasta-lo de perto delas, mas Diego se debateu com ferocidade, me fazendo imaginar que estivesse sobre efeito de álcool ou algo assim. Me xingou de coisas nojentas alto o suficiente para que todos por perto ouvissem. A adrenalina me fez medir forças com ele, mas o que eu realmente queria era ganhar tempo. Jamais imaginava que ele fosse me bater a troco de nada.
Mas foi exatamente o que ele fez.
Caí no chão no segundo em que sua mão pesada atingiu meu rosto com um soco. Em seguida vieram os chutes nas costelas e barriga. Tive um vislumbre de Rachel subindo nas costas dele e tentando puxa-lo para longe de mim ao mesmo tempo que outras pessoas corriam para ver ou ajudar, mas já era tarde. A dor continuou alucinante mesmo depois que ele já estava preso nos braços de um desconhecido. Rachel falou comigo algumas vezes, mas eu tinha muita dificuldade até para entender, estava atordoada. Eu nunca havia sentido algo assim antes.
Eu perdi a noção do tempo, mas em algum ponto a polícia já estava lá com aquelas luzes e sirenes altas. As vozes em volta eram distorcidas e todas desconhecidas. Meus olhos piscavam com lentidão e a última coisa que vi antes de apagar, foi o sangue que manchava a minha calça na virilha.
Acordei horas depois sentindo-me como alguém que havia sido atropelado por um ônibus. Um lado do meu rosto parecia inchado e eu quase chorei quando tentei me sentar. A porra da minha costela parecia que estava em pedaços. As costas doíam e a minha cabeça, minha nossa...
— Bem-vinda de volta, Srta. Swan. Como se sente? — Um senhor no auge dos seus 40 e tantos anos entrou perguntando. Era o médico e ele foi direto olhar as anotações no meu prontuário. Uma enfermeira com o sorriso gentil entrou logo atrás, veio até mim e acariciou o meu cabelo. Foi tão bom. Lembrei dos carinhos da minha mãe e me veio uma vontade estúpida de chorar.
Eu nunca tinha apanhado antes. Era por isso que estava tão sensível assim? Gemi tentando me virar na cama estreita e desisti no meio do caminho. Como eu sairia dessa merda?
— Dizer que estou dolorida seria um tremendo eufemismo. Há quanto tempo estou aqui? Está tudo certo com a Rachel e a namorada dela? — Perguntei lembrando-me de como aquele crápula nos tratou.
— Sim, as duas passam muito bem, apenas você continua internada. Você está aqui há cerca de 7 ou 8 horas, Isabella. Acordou algumas vezes, não falava nada coerente e logo voltava a dormir. O que está sentindo no momento é perfeitamente normal, mas não há nada quebrado, certo? Cuidamos dos seus machucados, fizemos exames, o seu sangramento foi contido assim que você chegou e é normal acontecer diante de uma agressão como a que você sofreu, mas está tudo sobre controle agora. Já lhe receitei antibióticos seguros para que tome. Seu atestado para tirar alguns dias de folga no trabalho também está pronto.
— Vou precisar ficar de repouso?
— Isso mesmo. Deve permanecer aqui por pelo menos 24 horas desde sua entrada, só por segurança. Sua e do bebê — A enfermeira falou pela primeira vez. Eu engasguei de susto e a olhei como se ela tivesse umas três cabeças saindo do pescoço. Seus olhos arregalaram-se de vergonha e ela se afastou — Oh, Deus! Você não sabia? Está quase de 7 semanas, querida.
Eu pensei que fosse começar a rir histericamente ou desmaiar, a minha sorte é que já estava deitada, então a tontura veio e foi embora com a mesma rapidez. Renée invadiu o quarto com uma Rosalie preocupada e chorosa. Ambas assustadas questionaram o motivo da minha palidez e o médico me olhou, como quem perguntava se tinha autorização de dizer.
Dei de ombros chocada demais para fazer qualquer outra coisa.
Elas gritaram e vieram me abraçar ao mesmo tempo, ignorando o meu corpo dolorido. Mamãe tinha lágrimas nos olhos e então foi a minha vez de chorar.
Eu estava gravida.
Edward ia manter-se de um jeito ou de outro comigo e agora eu teria para sempre uma marca da sua passagem na minha vida. Gravida.
— Mas que filho da puta! — Edward levantou-se nervoso do sofá me trazendo para o presente. Ele passava uma mão pelo cabelo e a outra estava em punho. As veias do pescoço só faltavam explodir — Me diga que ele está preso. Diga que o infeliz está na cadeia ou eu mesmo o mato!
— Não sei, Edward. Acho que não. Ele ficou preso durante um tempo por agressão, mas não sei onde esteve depois. Eu já estava com quase 8 meses quando ele reapareceu e me abordou na saída do trabalho. Eu fui assinar alguns documentos e...
— O que?! — Ele gritou me assustando – Ele fez o que? Repita isso! — Rosnou irado — Se eu tivesse posto as minhas mãos nesse desgraçado antes, eu duvido que ele pudesse ter feito qualquer coisa sem os malditos braços.
Deus, ele era sexy com raiva.
— Ele queria saber sobre Rachel. Um completo lunático. O susto foi horrível e eu passei um pouco mal.
— Amanhã mesmo eu quero toda informação que você tiver sobre esse sujeito. Eu vou ligar para o meu advogado para que ele faça algumas pesquisas. Quero ter certeza do que esse infeliz está fazendo da vida e se foi ou está sendo punido por toda essa merda.
— Eu posso te dar, eu só não vejo razão para isso, Edward. Ele deve continuar na Georgia. Não é como se pudesse me alcançar a qualquer momento, sabe? — Debochei um pouquinho e funguei.
— Deixe-me fazer isso, por favor? Pelo menos a partir de agora quero poder mantê-los em segurança. É para o seu bem. Não esqueça que ele quase nos tirou o Heitor — Ele aproximou-se e ajoelhou na minha frente, ficando com seu rosto bem perto do meu. Seu polegar enxugou as poucas lágrimas teimosas que escorreram pela minha bochecha enquanto eu pensava naqueles momentos de medo. Jamais poderia pensar na possibilidade do meu menino não ter aguentado passar daquele dia. Acho que morreria junto — Como a história acaba?
— Eu não tive mais notícias. Rachel passou muito tempo sentindo-se culpada por ter me envolvido nessa confusão e eu decidi sair do trabalho. Charlie achou melhor eu ficar em casa até ter o bebê e um tempo depois que ele nasceu, Rosalie recebeu uma proposta de emprego aqui em Chicago e eu decidi acompanha-la. Eric me ajudou em tudo que precisei — Dei de ombros — Resumidamente, foram essas as fortes emoções que você perdeu quando resolveu ir embora para se casar. — Falei a última frase amarga, sem conseguir me conter. O veneno inundava a minha boca quando pensava na maldita loira morango.
— Quem é Eric? — Perguntou endurecendo o maxilar e eu revirei os olhos. De tudo o que eu falei, esse é o único detalhe no qual ele se apega? Lembrei-me do seu surto no celular e contrai os lábios tentando prender um sorriso. Homens são tão territorialistas.
— Lembra daquele loiro bonito que estava comigo na casa do seu pai? É ele.
— Bonito? Eu deveria imaginar. Vocês estavam mesmo cheios de intimidade — Levantou-se irritado e foi para longe de mim. Eu lhe dei um olhar cético porque o cara havia ficado naquela sala por uns 40 segundos. Não tinha como ele deduzir isso — Você não me disse quem ele é. Seu namorado?
O quão tentador era deixa-lo pensar isso? Porém, sua reação me deixava extremamente curiosa. Ele parecia com ciúmes, mas não tinha direito ou motivos de senti-lo. Claro que existia a chance de que ele só tivesse preocupado sobre quem ficava perto do Heitor através de mim e eu não podia deixa-lo implicar justo com o Eric.
Eu expliquei resumidamente que o meu relacionamento com o Northman era antigo e de amizade. Que nosso vinculo se estendia até o nosso filho, uma vez que ele era padrinho do garoto. Edward bufou alto e torceu a boca exageradamente, mas eu não dei a mínima sobre ele estar satisfeito ou não essa situação. Eu tinha uma vida antes dele aparecer. Não ia modificar nada por sua causa.
Vi que tentou beber da sua cerveja, mas ela já estava vazia, então lhe ofereci outra e corri de volta para a cozinha. Aproveitei para lavar o rosto. A aparência de quem chorava nunca era muito agradável e aquilo ajudou a me acalmar.
Edward ainda estava de pé andando de um lado para o outro quando retornei à sala. Ele pegou a garrafa das minhas mãos, livrou-se da tampa com facilidade e logo estava com a boca no gargalo da coisa, me distraindo completamente. Eu não podia ignorar o ligeiro biquinho que seus lábios faziam enquanto ele sorvia a bebida. Que inferno. Eles pareciam tão macios...
E então o meu olhar caiu para os seus longos e bonitos dedos, mas havia alguma coisa errada com eles. Pisquei algumas vezes e a ficha caiu. Onde diabos estava a aliança?
— Cullen, por que não está usando a sua aliança? — Questionei verificando a mão direita que também estava tão nua quanto a outra.
— Por que eu teria uma, Isabella? — Perguntou de volta com o cenho franzido, mas parecendo estar se divertindo às minhas custas. Eu já podia sentir o meu rosto esquentando de raiva.
— Porque Tanya e você...
— Nós nunca nos casamos.
Espere aí. O que?! O que diabos esse homem estava falando agora?
Eu quis gritar.
A sensação era que havia um peso sobre as minhas costas de repente e ele estava prestes a fazer as minhas pernas cederem. Eu sabia perfeitamente que tinha ouvido direito, mas minha mente não conseguia processar como aquilo poderia ser verdade. Acho que continuei olhando para Edward sem dar sinais de sequer respirar. Meu inconsciente brigava comigo sobre como eu deveria me sentir aliviada e até feliz com a notícia, mas meu corpo não obedecia.
— Você está com essa cara — Ele franziu o cenho me avaliando — Eu pensei que já soubesse disso. A mídia não perdoa nada, principalmente quando é a própria RP da sua ex que faz uma publicação sobre o rompimento só para fazer sua cliente parecer a injustiçada da relação. — Edward soltou uma risada, bebeu outro gole da cerveja e eu senti vontade de enfia-la goela à baixo.
— Eu não estou achando graça alguma! — A verdade é que eu estava mesmo meio puta por não saber disso e principalmente porque a culpa era toda minha. Fui eu que decidi ignorar totalmente a vida dos Cullen depois que vi aquela infeliz matéria, afinal, era natural pensar que depois daquilo eles estavam oficialmente juntos.
Mas não estavam. O homem que eu amo. O pai do meu filho nunca se casou e passamos todo esse tempo longe dele talvez por irresponsabilidade minha? As lágrimas de frustração estavam pinicando e se acumulando em meus olhos a medida em que os segundos passavam. Eu estava tão irritada! Quanta coisa poderia ter sido evitada se eu tivesse a certeza de que aquela mulher estava fora da jogada?
Edward só percebeu que eu havia começado a chorar em silencio, porque virou para mim parecendo querer falar algo, mas logo seus ombros caíram e ele se aproximou, preocupado.
— Ei, por que você ficou assim? — Ele me puxou para um abraço e eu fui de boa vontade. Sentir aquele cheiro outra vez tão perto, o calor dele cobrindo o meu corpo, do jeitinho que era para ser, só fez minha crise aumentar — Bella, eu disse algo errado?
Estava tão chateada por não termos nos encontrado antes. Por não o ter procurado. Por ele não ter me procurado! Será que eu signifiquei tão pouco assim que mesmo sem ela, Edward preferiu ficar sozinho do que voltar para mim? Ou ele teria outra pessoa agora?
— Por favor, eu odeio te ver chorando. Me conte o que há de errado.
Saudade. Raiva. Culpa. Até ciúmes.
Tudo estava revirando dentro de mim. Não consegui responde-lo. Não podia dizer a verdade, obviamente. Até hoje de manhã estávamos brigando e sendo cruéis um com o outro, eu não tinha ideia de que sentimentos Edward nutria por mim.
Ele me abraçou mais apertado e eu não tive dúvidas sobre como aquele era o lugar perfeito para se estar no final do dia. Edward sempre tirava a minha capacidade de racionar. Era incrível que quando minha cabeça estava feita sobre algo e ele surgia, tudo se embaralhava e eu voltava à estaca zero. Agora eu não tinha a menor ideia de como essa informação alteraria a nossa situação.
— Parece que você tinha razão, afinal de contas. Eu f-fiquei insegura de leva-lo p-para a sua vida quando achava que estava recém-casado. Não queria atrapalhar nada e muito menos que chamassem o meu filho de bastardo. E por um medo meu, v-vocês... — Engasgava com os soluços enquanto ganhava carinho nas costas — Droga, Edward, você tem todos os motivos para me odiar agora. Toda essa bagunça poderia ter sido evitada.
— Eu nunca poderia odiá-la, Isabella — Respondeu me apertando mais — Todos nós temos inseguranças e é muito mais fácil ir para o lado que parece mais seguro. É claro que dói muito saber que perdi quase dois anos da vida do meu filho. Eu adoraria ter ajudado você na sua gestação, ter protegido vocês, visto ele vir ao mundo, decorar seu quarto, trocar fraldas, ajuda-lo com as cólicas, tudo que um pai deve fazer e tem direito... mas eu não sou idiota. Eu acredito em karma e acredito que se não tivesse errado primeiro, nada disso teria acontecido, então não se martirize tanto. — Beijou a minha cabeça e cheirou o meu cabelo delicadamente fazendo o meu coração aquecer.
Por que ele estava sendo tão compreensível comigo? Agora estava claro na minha cabeça que agi precipitadamente e fiz escolhas que não cabiam só a mim. A sensação de estar errada era amarga feito o inferno.
— Não foi o destino, Edward! Eu que...
— Vamos apenas concordar em discordar, certo? — Disse com uma risada e beijou a minha cabeça — A bola de neve foi aumentando com as nossas ações, Bella, mas fui eu que a construí em primeiro lugar.
— Foi muita informação em um único final de semana — Constatei mais calma após alguns minutos em silencio. Minha cabeça fervilhava. Nós chegamos a esse impasse onde ambos tínhamos feito besteiras em momentos e por razões diferentes, mas isso me levava a outra questão. Afastei o rosto de sua camisa, para poder olhar para ele e maldição, o homem era bonito — Onde exatamente isso nos deixa agora?
— Na mesma página ou a caminho dela, acredito eu — Ele piscou abrindo aquele sorriso — Temos muito o que acertar ainda, mas ficará tudo bem desde que você entenda que eu vim para ficar.
E ideia disso era assustadoramente satisfatória.
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