Odisséia Grega

26 Capítulo 26


Notas iniciais
Voltei, voltei. Trouxe mais leitura para iniciar o domingo de vocês. Nos vemos nas notas finais como sempre. Até lá! :)

Entrei na minha casa me sentindo meio perdida. Não sabia ao certo nem o que fazer primeiro. Joguei minha bolsa e as chaves na mesinha próxima à porta e após dar alguns passos para a direita, soltei um grito ao tropeçar em um dos muitos carrinhos espalhados pelo chão. Senti uma ardência no meu pé esquerdo e levantei o mesmo para então descobrir que tinha cortado a meia calça e me ferido. Merda. O Heitor deveria mesmo poder brincar com essas coisas?

Heitor, o meu menininho. Que saudade que eu estava dele! Olhei o meu relógio de pulso e pouco passava das 18h. Ele já deveria estar faminto dado o horário. Lembro de ele só ter comido papinha com suco pela manhã, porque já saí atrasada de casa e então deixei o lanche da tarde e suas frutas favoritas com a Rosalie, mas eu odiava ficar sem amamenta-lo.

Pensei em tomar uma ducha rapidamente antes de busca-lo e lavar os meus cabelos. Sentia a minha cabeça pesando uma tonelada e sabia que um tempo embaixo da água me faria ficar decente em alguns instantes, mas aquela angustia falou mais alto e decidi que eu precisava tê-lo seguro nos meus braços para enfim ter calma e conseguir me orientar melhor.

E a ideia falar com alguém com urgência sobre o que tinha acontecido também parecia ótima. Apesar de ter conseguido não agir feito uma lunática na presença de Esme, seria bom ouvir uma opinião sobre como seguir com ela nos próximos dias.

Chutei os brinquedos para o canto da parede para não me machucar outra vez na volta e deixei a porta apenas encostada ao sair. Passei pelo corredor soltando um choramingo baixo porque o meu pé estava mesmo doendo. Girei a maçaneta prateada da porta do apartamento dela e empurrei, entrando sem a menor cerimônia porque nós apenas não precisávamos de besteiras como aquela.

— Rose, você não vai acreditar no que me aconteceu hoje! Estava eu lá na empresa e então.... — Comecei a contar empolgada para saber qual seria sua reação sobre as novidades, mas foi só virar para então perder a voz, o fôlego, a compostura. Absolutamente tudo.

Bem na minha frente, sentado no sofá vermelho e desnecessariamente chamativo, ao lado de Rosalie com meu filho brincando aos seus pés, estava Emmett McCarty e todos seus músculos.

Mas que porra! Que merda é essa agora?

Fiquei alternando o meu olhar entre os dois sem saber se acreditava no que os meus olhos mostravam para mim. Emmett parecia extremamente aborrecido comigo, tão sério como eu nunca vi antes e me encarava com frieza sem um só traço de humor no rosto que não mudara quase nada nos últimos anos. Já a mulher ao seu lado olhava para mim com uma careta sutil como se soubesse que o teto estava prestes a se partir sobre a sua cabeça, o modo como o seu corpo estava encolhido apenas me mostrava o quanto ela estava amedrontada no momento.

Mas afinal, quando alguém ia abrir a boca para me explicar que porcaria estava acontecendo aqui?

Se Rosalie tivesse planejado essa merda, eu juro por Deus que eu não olharia em sua cara tão cedo. Ela sabia que isso ia acontecer, que ele estaria aqui e não me falou nada de propósito? Enquanto eu estava trabalhando com a Esme e praticamente tremendo sobre as pernas, ela estava derramando em Emmett a vida do meu filho pelas minhas costas? Filha de uma cadela! Isso seria uma tremenda sacanagem. No mínimo uma péssima brincadeira ou uma abordagem forçada demais para o meu gosto.

— O que ele está fazendo aqui? — Perguntei ríspida. Após o susto inicial, a presença daquele homem começou a me causar uma irritação fora do comum. Não que eu tivesse me tornado uma pessoa amargurada e rancorosa sobre o que aconteceu no passado, mas também não tinha tido amnésia! Tê-lo no mesmo ambiente que eu parecia fazer com que as memórias ficassem ainda mais vívidas. Como se estivesse escrito por toda a sua testa os motivos que nos levou a pararmos de nos falar. Ele foi um cretino filho da mãe comigo e agora eu não iria simplesmente deixar para lá, permitindo que ele fique perto do meu menino e agir como se fôssemos velhos amigos que ficaram anos sem se ver.

Ah, tenha dó! Não seria tão fácil assim.

— Bella, eu posso explicar. Eu juro. Apenas... — Ela levantou-se usando as mãos para fazer gestos como se pedisse para eu me acalmar. Calma? Nesse exato momento? Até parece. A minha vontade era enxotar aquele sujeito para fora daqui a pontapés e tirar essa carranca de seu rosto na base do tapa, mas eu não estava na minha casa para ter esse direito.

— Mamãe!

A voz de Heitor quebrou o silencio que parecia pesar quilos sobre nossos ombros. Sua feição iluminou-se enquanto olhava para mim parecendo só agora dar-se conta de que eu estava finalmente ali. Seus bracinhos levantaram-se e ele fechou e abriu as mãos diversas vezes, me chamando como sempre. Fechei os olhos por um instante ignorando o familiar tranco que o meu coração dava sempre que o ouvia me chamar daquele jeito e respirei fundo.

Sem pensar duas vezes, corri em sua direção, abaixei-me o suficiente para pega-lo e apertei o meu menino nos meus braços como se há dias não o visse e por mais besteira que fosse, conferi sua roupa, sua pele e todo lugar que meus olhos puderam alcançar, para ter certeza de que ele estava exatamente como eu deixei.

Notei que as minhas mãos tremiam levemente ao toca-lo e então era oficial. Eu estava tomada realmente pela raiva e o medo. Não tinha ideia dos pensamentos de Emmett diante daquilo.

Não que eu me importasse sobre o que ele pensava de Heitor ou de mim naquele momento, mas eu não podia deixar de me sentir acuada com toda aquela gente invadindo o meu espaço de repente.

— Explique-se, agora! — Exigi olhando com fúria para uma Rosalie nervosa que retorcia as mãos em seu colo, aparentemente sem saber o que dizer. Então ela tinha mesmo planejado isso?

Cacete, Rose.

— Se alguém deve explicações aqui, esse alguém é você, Isabella. — Ouvir a voz de Emmett pela primeira vez em tanto tempo fez meu corpo estremecer involuntariamente. Era como se eu tivesse sido levada para outra época... uma que eu tanto lutei para esquecer.

— Eu não te devo nada! Você fugiu do país com o rabo entre as pernas como o covarde que era e acha que pode apontar o dedo na minha cara e exigir alguma coisa agora? — Rosnei incrédula — Ela, sim! Nós somos melhores amigas há anos, Rosalie, você é como uma irmã para mim. Por que diabos fez isso com a gente? — Perguntei sem entender.

Heitor estava inquieto no meu colo, mexendo na minha orelha e puxando o brinco, provavelmente sentindo a tensão e o medo no meu corpo.

— Bella, não foi de propósito. Você é louca? — Começou meio chorosa e eu a encarei sem esboçar qualquer reação — Há uns 1 ou 2 meses, Emmett e eu voltamos a manter contato, coisa boba. Só conversa fiada na internet, sabe? Eu fiquei com medo de te contar. Você sabe como eu me sinto em relação a ele e nós duas sabemos porque você não quer nenhum deles por perto, então eu preferi esperar um pouco para te preparar... — Suspirou passando a mão sobre a testa.

Como ela conseguiu me ver dia após dia durante todo esse tempo e simplesmente escolher não me contar sobre algo assim? Eu não podia evitar me sentir traída naquele momento. Obviamente, eu não tinha nada a ver com o que Rose escolhia fazer na sua vida amorosa, mas ele não era qualquer cara, porra.

Será que eu não merecia ao menos um aviso de que ela estava trazendo o melhor amigo do Edward para as nossas vidas novamente? Minha opinião não importava?

— Eu não tinha ideia de que ele estava na cidade até encontra-lo semana passada na rua mesmo. Foi o inferno de uma consciência. Bella, eu juro por Deus — Engoliu seco e respirou fundo — Nós conversamos um pouco e agindo por impulso, eu acabei dando o meu endereço para que ele me pegasse para um jantar, pra... você sabe, nos resolver. Mas acabou que não deu certo e eu não imaginava que ele fosse aparecer justo hoje, ainda sem avisar!

— Tudo bem, agora se vocês terminaram com a DR, eu gostaria de deixar claro que estou tão puto com ela quanto também estou com você, Isabella. Ia esconder essa criança de nós por quanto tempo ainda? Porque vai por mim, ninguém que conheça o Edward e olhe para esse menino poderia ignorar a semelhança e você sabe! — Emmett exclamou falando alto e se aproximando de nós dois.

Heitor continuou se remexendo nos meus braços até que começou a se irritar e abriu o berreiro. Meu bebê chorava como se soubesse que algo estava errado e era exatamente esse tipo de situação que eu queria evitar que ele presenciasse. Acariciei seu cabelo cheiroso para acalma-lo e balancei o meu corpo de um lado para o outro cantarolando em seu ouvido para lhe dar alguma segurança.

— Francamente, Emmett, eu não tenho obrigação alguma de me explicar. Pense o que você bem quiser. Eu não vou mais bater boca com nenhum dos dois, meu filho precisa de mim. E você — Disse apontando pra Rose — Não apareça mais na minha frente hoje! Estou avisando. — Dei meia volta indo em direção à saída e bati a porta com força, sem me importar de estar deixando todas as coisas do bebê para trás, só queria sair dali o quanto antes.

Entrei no apartamento estressada e chutando tudo que via pela frente. A raiva e o nervosismo eram tão grandes que a dor no pé foi facilmente ignorada. Fui direto para o quarto do meu filho e respirei fundo algumas vezes antes de entrar ali, pois odiava trazer esse tipo de energia para a minha casa.

O cheirinho dele era forte por todo o cômodo e imediatamente senti uma onda de calmaria me envolver. Peguei uma manta limpa na gaveta da cômoda, fui para a cadeira de balanço e sentei, acomodando-o nos meus braços em seguida. Heitor procurou avidamente o meu peito e eu ri com sua afobação enquanto puxava a alça da blusa para baixo. Ele não demorou a encontrar sua fonte de comida e começou a mamar enquanto espalmava a mãozinha no outro peito coberto.

Deixei a minha cabeça descansar no encosto da cadeira e permiti a mim mesma aproveitar aquele momento sem pensar em todos o stress do dia de hoje. Gemi baixinho quando o Heitor mordeu o meu peito sem querer e então abriu os olhos dando um sorriso maroto como se pedisse desculpas por ter me machucado. Precisei sorrir de volta, porque ele era extremamente adorável e com apenas um gesto, já me tinha rendida.

Algum tempo depois de alimentar e fazê-lo arrotar, eu preparei a banheira. O banho em si foi uma alegria só. Era uma das coisas que Heitor mais gostava de fazer, ficar sentado na água morna e cheirosa, brincando com a espuma e tentando banhar-me também. Demorei mais que o normal naquela tarefa, aproveitando a sensação de quietude além da alegria do meu bebê que começou a me contagiar.

Enxuguei seu corpinho macio, lhe vesti a frauda e então o pijaminha que o vovô Charlie tinha trazido de presente na última visita. Era branco e azul marinho, com estampas ridiculamente fofas do Mickey. Me sentindo novamente como a Bella de ontem, cansada, mas com tudo sob controle, decidi não o colocar para cochilar dessa vez. Heitor havia dormido muito tarde na noite passada e esse foi o motivo do meu atraso de hoje, então levei-o para o seu cantinho para que fosse brincar até que sua tendência ao hiperativismo o cansasse.

Aproveitei seu momento de distração e corri para o banheiro sentindo falta de Bree ao lembrar que só era capaz de tomar um banho longo e sossegado durante o dia quando ela estava por aqui. Lavei os meus cabelos de maneira bem relapsa sem direito a condicionador. Meu estômago começou a dar sinais de vida, então me enxaguei e voltei para o quarto.

Vesti uma calça de yoga marrom folgadinha e uma regata branca simples. Mandei muitos beijos para o meu menininho quando passei por ele e ganhei uma risadinha gostosa e acenos alegres. Acabei tendo que rir junto do seu bom humor e fui para cozinha preparar algo para comer.

Peguei pão de forma, maionese, alface e tudo que precisava para fazer um sanduíche de frango desfiado e presunto. Quando pronto, levei para sala e comi com suco de abacaxi e hortelã enquanto assistia a um episódio de Unforgettable – uma serie que eu adorava, mas que cancelaram umas 2 vezes e aí tive que parar de tentar acompanhar por causa do trabalho – até que quando dei uma outra olhada no bebê, a campainha tocou. Estreitei os olhos para porta e pensei seriamente sobre não atender.

Eu sabia que ainda era cedo, mas quem quer que fosse poderia entender a falta de resposta como “ela chegou cansada e já foi dormir”, certo? A campainha soou outra vez fazendo Heitor dar um grito alegre jogando peças de montar para cima e eu gemi percebendo que lá se foi o meu plano nada original... levantei do sofá e enquanto caminhava até a porta, pedia a Deus que não fosse Rosalie do outro lado.

Além de não estar disposta a ouvir mais conversinha fiada, eu não fazia ideia do que fazer sobre ela nesse exato momento. Estava calma, mas minha mente ainda fervilhava sempre que eu desocupava e eu apenas sabia que acordaria bem melhor amanhã e com os pensamentos em ordem o suficiente para perdoa-la, mas agora, eu seria perfeitamente capaz de dizer-lhe umas coisas nada educadas e manda-la sumir da minha frente. Então era melhor darmos um tempo.

— Será que podemos conversar? Civilizadamente, eu prometo.

E minhas preces foram atendidas... em partes.

Não era Rosalie e sim o namoradinho insuportável dela. O que ele queria agora? Aparentemente abaixou o nariz para voltar a falar comigo, o que já era alguma coisa. Na minha casa, ele não levantaria a voz para mim independente do seu tamanho assustador.

O que diabos eu diria para ele, afinal? Por quanto tempo eu ainda poderia adiar esse confronto? Talvez eu devesse acabar com isso de uma vez por todas. Eu provavelmente estava de novo empurrando com barriga, uma situação da qual não poderia fugir por mais tempo.

Não respondi nada, mas abri a porta por completo e sai do caminho, esperando Emmett passar. Imaginei que seria bom praticar com ele, porque aquilo com certeza não era nada comparado ao que me esperava com Edward.

Não pude impedir o meu corpo de estremecer com a ideia.

Ele não se fez de rogado e passou os olhos por todo o apartamento. Provavelmente conferindo como eu venho vivido nos últimos tempos ou se havia algo que desse a entender que mais alguém também vivia por aqui. Emmett era tão previsível que eu senti vontade de rir. Tomei a iniciativa e sentei no menor sofá, ajustei a regata de modo que não ficasse grudada nos meus peitos. Sabia que deveria ter vestido algo mais decente, então por que não vesti? Sim, porque eu ia dormir, claro.

Enquanto Emmett se fazia confortável no sofá à minha direita, o maior, me questionei se deveria ser gentil e oferecer-lhe algo para beber, uma vez que ele chegou visivelmente mais bem-educado e disposto a me ouvir. Seu olhar encontrou o meu e fez sinal para que eu começasse.

Ok, direto ao ponto. Está bem assim.

— Huh... eu... o que quer saber? — Gaguejei.

— Você já sabia que estava gravida quando estava com ele? Se não, como foi?

— Não! Nossa, se eu soubesse, teria sido tudo diferente... — E era verdade. Se naquela época eu soubesse que o meu bebê já estava dentro de mim, teria feito algo para tentar dar-lhe uma família como a que eu tive — Pouco mais de um mês, talvez quase dois, após a partida de vocês. Eu precisei ser submetida a alguns exames e tive uma baita surpresa com os resultados.

— Certo, eu acredito. Mas você precisa entender, isso é muito fodido. Eu quase tive um infarto ao ver o seu garoto mais cedo, a possibilidade de você ter gerado um filho dele nunca cruzou a minha cabeça. Acho que nem da do Edward, mesmo ele querendo. — Respondeu sem me olhar e eu mordi o meu lábio inferior, mastigando-o nervosamente.

Então ele já tinha pensando sobre sermos pais? Juntos? Lembro de uma breve conversa sobre o quanto ele ficou radiante quando Carlisle lhe contou que Alice estava a caminho. Apesar de ser uma garotinha e ele querer um irmão para brincar e ensinar coisas, disse que os anos seguintes ao nascimento, foram os melhores de sua vida.

Ficamos em um pequeno silêncio desconfortável enquanto Emm passava os dedos na barba áspera de seu novo cavanhaque parecendo pensar ou refletir sobre a situação em que nos encontrávamos. Eu não podia julga-lo. Na verdade, imagino o quanto Rosalie teve que se esforçar para mantê-lo calmo e sem respostas até que eu chegasse.

— Mas o que diabos te deu na cabeça depois disso? Você decidiu que seria mãe solteira como se tivesse ido a um banco de esperma?

— Não seja grosseiro! — Repreendi e ele remexeu-se desconfortável no sofá, fazendo uma coisa com a boca e então assentiu em concordância — É lógico que eu pretendia procurar o seu amigo. Demorei algum tempo para aceitar o fato de que havia uma criança sendo gerada aqui dentro, que eu seria mãe sem realmente querer aos 24. Estava no sexto ou sétimo mês quando decidi que era hora de procurar... Edward, mas acabei desistindo.

— E por que disso? Estamos falando de uma criança, caramba! Não de um paletó velho que ele esqueceu com você. Eu sinto muito, Bella, estou tentando, mas está difícil não ficar contra você aqui...

— Eu sei, ok?! Eu tentei encontrar um meio de entrar em contato com eles, mas eu vi que ele estava oficializando a relação com aquela mulher e não queria aparecer gravida como uma oportunista. Tem noção do que a mídia ia falar de nós se eu aparecesse de oito meses em um momento daqueles? Eu não conhecia ninguém da família dele além de Alice e aquela lá não é de confiança! — Expliquei tentando não me exaltar e estiquei o pescoço, tentando ver se Heitor continuava com sua brincadeira quietinho — Quem me garantia que não fossem rejeitar o meu menino? Tentar tira-lo de mim ou coisa parecida?

— Mas os Cullens jamais virariam as costas para vocês, Bella. Nenhum deles. É bom que saiba disso. — Emmett afirmou com afinco. Acredito que falava até por si mesmo. Ele conseguia me irritar como uma dor na bunda, mas eu sabia que ele não era um sujeito realmente ruim.

Não era à toa que ele estava tão aborrecido de não ter conhecido o Heitor antes. Quero dizer, se ele soubesse que Edward não se importaria com o filho, não estaria aqui fazendo toda essa questão, certo?

— E ainda tinha a noiva. Edward a traiu descaradamente comigo durante todo aquele tempo em Atlanta, então quando ele finalmente resolve fazer a coisa certa e assumi-la, eu apareço e arruíno tudo para ela de novo? Não parece justo para mim. Quero dizer, que vaca eu seria, Emmett!

— Santo Cristo. Vocês mulheres só usam a cabeça quando é conveniente, não é? — Perguntou soltando uma risada em seguida e balançando a cabeça como se estivesse incrédulo — Se Edward voltou correndo para casa para ficar com aquela mulher, por que diabos eles só marcaram o casamento quando você já estava quase para ter o bebê?

Oh, isso.

Bom, ele tinha um ponto curioso aqui. Por que esse pensamento nunca cruzou a minha mente? Que diabos...

Emmett olhava para mim como se esperasse que eu matasse uma grande charada, mas apesar de ser suspeito que o amigo não tenha a levado ao altar nas semanas seguintes ao voltar para Grécia como o planejado, eu não conseguia descobrir o motivo. Por minha causa não era, eu estava fora da equação há algum tempo.

— Olha... para! Uma coisa de cada vez, certo? Não é com a vida conjugal do Edward que eu estou preocupada no momento. Ele saiu da cidade comprometido e com filho — Ignorei quando ele riu dizendo “segundo a Elizabeth” e continuei — Eu quero saber é de você. O que vai fazer agora que sabe da existência do Heitor?

Fiz então a pergunta de um milhão. Não que eu já não imaginasse a resposta, mas a esperança era sempre a última a morrer, afinal de contas. Se ele me desse apenas mais um pouco de tempo...

— Bom, o Edward chegará na cidade nos próximos dias, está de mudança assim como eu. Apenas Alice e Jasper vão continuar vivendo em Atenas. — Ele suspirou e passou as mãos pelo rosto, parecendo repentinamente cansado.

— Você vai contar para ele?

— É certo que não! Ele tem andado tão puto ultimamente que é capaz de sobrar até para mim. Você vai contar — Afirmou me olhando e o nervosismo voltou. Apenas cocei a nuca permitindo-me por um segundo me imaginar em um daqueles programas de TV onde revelavam a paternidade dos pais com DNA. Merda, o que será que ele faria? — Dia 27 é aniversário de Carlisle e sua esposa está planejando uma festa intima seguida de um jantar.

Esme daria uma festa? Quando ela decidiu? Isso só poderia significar que a reforma seria adiada por uns dias. O lugar era grande, mas não seria interessante trazer convidados com materiais de construção espalhados ao redor.

— Coisa intima, só para conhecidos e família. Todos vamos estar lá para comemorar, inclusive ele. Eu acho que você deveria aparecer e colocar as cartas na mesa de uma vez.

Espere, o que? O que foi que ele disse? Acho que a minha cara falou por mim mesma, pois ele apenas confirmou com a cabeça sorrindo como quem achava graça. O desgraçado estava se divertindo as minhas custas! Ora, que amor.

Mas isso não ia dar certo. Estaria trabalhando com a Esme durante toda a semana e no sábado eu chegaria na maior cara de pau em sua casa para lhe apresentar o neto? Claro, Emmett não sabia nada sobre esse detalhe ainda, mas como ele não via o quanto isso era absurdo?

— Emmett, você quer causar um infarto no seu pai de criação? Porque é exatamente isso que vai conseguir — Brinquei ainda nervosa — Vou chegar na casa de um homem que não sabe da minha existência, no dia se seu aniversário, com um neto que ele não imagina que tenha?

— Carlisle não é tão velho. Ele aguenta — Brincou de volta e então bocejou, cobrindo a boca com a mão fechada em punho — Eu sei que colocando assim, parece meio louco, mas o fato é que o melhor momento para pegar a família reunida e contar tudo para eles. Eu não vou conseguir esconder isso de Edward por muito tempo, ele não me perdoaria por isso. Não estamos lidando com um segredinho estúpido aqui, tem uma pessoa em jogo... uma criança, sangue do seu sangue.

— Puta merda. Porra, Emmett! Ele vai me odiar, não é? É isso. Na verdade, ele vai surtar comigo. Conosco. Ele vai achar que eu fiz de propósito... Oh, Deus — Gemi sentindo que estava à beira de ter um ataque de pânico — Eu posso vê-lo me acusando de arruinar seu casamento, o aniversário do pai, seu retorno... de só ter causado problemas desde que apareci em sua vida.

— Ora, pare com isso. Eu acho que ele não seria capaz de destrata-la nem um milhão de anos. Ele está em dívida com você e agora você também está com ele. Vão arranjar um jeito de acertarem as coisas, lógico que não será do dia para a noite, basta ter paciência aqui que eu farei o meu melhor do lado de lá quando chegar a hora, ok? Apenas não fique paranoica sobre isso. E por Deus, Bella, não existe esse negócio... — O choro de Heitor preencheu o apartamento interrompendo o que Emmett dizia. Levantei às pressas e corri até o meu bebê, que estava sentado no tapete chorando inconsolável com os olhinhos apertados.

— Oh, meu amor, não chore. Mamãe está aqui. O que houve? — Heitor na maior parte do dia era independente e já parecia um rapazinho, mas bastava estar sonolento que se tornava um grande dengoso. Notei que ele abria a boca e botava os dedinhos dentro — Pronto, já passou, anjinho, já passou. — Consolei balançando-o nos meus braços e sussurrando palavras de carinho em seu ouvido, até que choro foi diminuindo até sobrarem apenas os soluços.

— Dodói, mamãe. — Gemeu e fungou.

Ele havia machucado a gengiva, provavelmente usando algum boneco para aliviar o incomodo que mais um dentinho de leite lhe causava. Não víamos a hora daquilo cessar. Dada as circunstâncias, só notei que Emmett estava ao meu lado, visivelmente preocupado e com o celular na mão, como se fosse chamar a emergência a qualquer momento. Não aguentei e comecei a rir da situação. Imagina quando essa criatura tivesse o dele?

Heitor começou a cochilar nos meus braços após ser acalentado. Perguntei se Emmett gostaria de algo para beber ou comer, ele aceitou uma bebida e eu lhe indiquei o modesto bar ao lado da estante de livros. Enquanto se servia com um copo de whisky sem gelo, parecendo querer ficar acordado, eu lhe disse que poderia ficar à vontade, pois iria colocar o meu filho para dormir. Ele assentiu e no quarto, balancei o anjinho mais algumas vezes e foi só o que precisou para que ele agarrasse no sono e nem se mexesse enquanto o colocava no berço e o cobria.

Na sala, a ponta do iceberg dos meus problemas me esperava enquanto observava calmamente alguns porta-retratos espalhados por ali. Ele me olhou ansioso e eu sabia exatamente do que precisava. Emmett queria uma resposta e eu acabei por soltar um audível suspiro dando-me por vencida.

Não dizem que quanto antes enfrentar os seus medos, melhor?

— Está bem, Emmett. Conte comigo. Estaremos no aniversário de Carlisle.

— Boa decisão, Bella. Acredite, assim vai ser melhor para todo mundo — Todo mundo quem, pelo amor de Deus? Eu podia contar nos dedos das duas mãos os inúmeros imprevistos desagradáveis que poderiam acontecer nesse bendito jantar — E quanto a Rosalie... não seja muito dura com ela.

— Que seja. Você é um ótimo falador e já me convenceu a fazer o que queria, mas não vai mudar minha mente sobre isso — Expliquei ficando sem paciência. Falar sobre a minha amiga estava começando a me irritar outra vez, o que não era bom — Ela manteve-se fiel a você e não a mim.

— Não foi nada como isso que você está dizendo. Rose não mentiu, Bella. Ela não tinha ideia de que eu apareceria e jamais me deu motivos para imaginar que você estivesse na cidade e ainda mais com um filho de Edward — Ele tentou outra vez e eu mordi o interior da bochecha pensando a respeito. Continuava achando que Rosalie pisou na bola ao me esconder que ele estava de volta, porém me agradava saber que ao menos o nosso segredo, ela soube manter até quando deu — Ela havia me dito que aguardaria as coisas entre nós tomarem um rumo certo e confiável antes de te contar e então... aconteceu. Mas veja, deixei o meu número anotado ali na mesa do telefone. Me ligue nos próximos dias para falarmos melhor sobre sábado, ok?

Emmett se despediu depois fazer uma porção de elogios ao Heitor. Naquele instante ele parecia com o palhaço que conheci naquele jantar em Atlanta e convivi por tanto tempo. Mãe boba como eu era, fiquei mais que satisfeita do meu menino ter conquistado mais um e concordei com tudo o que ele falou. Ele foi embora alguns minutos depois, mas não sem antes me pedir outra vez que tivesse calma com a loira. Fez questão de contar-me sobre como ela ficou apavorada com a sua vinda e só o deixou na presença do meu filho ao ter certeza que ele não representaria nenhum mal. Eu quis rir de como um sujeito daquele tamanho comia na palma da mão dela sem precisar muito esforço.

Mas Emm estava com a razão. Disso eu não duvidava, Rose amava aquele menino como uma segunda mãe e a ideia de perdê-lo para os Cullens – se houvesse a chance – ou de ele sofrer algum insulto, qualquer rejeição, a enfurecia tanto quanto a mim.

Naquela noite eu deitei na minha cama e me senti exausta como não ficava há muito tempo. O dia foi repleto de emoções fortes e surpresas, então tudo que eu queria era que ele chegasse ao fim. Olhei para a babá eletrônica ao meu lado e pedi a Deus que Heitor não acordasse reclamando dos dentes ou sentindo-se mal outra vez, porque acho que explodiria.

Eu necessitava de uma boa noite de sono.

Refleti sobre como tudo que eu passei tanto tempo evitando, caiu no meu colo quando menos esperava. Tão de repente quanto um ataque cardíaco. E eu precisava ser forte. Se já tinha em mente que há uma parte de Edward que não conheci de verdade naquela época em que estávamos juntos, eu não tinha ideia da pessoa que ele era hoje.

Eu estava mais do que disposta a aguentar o que ele quisesse me dizer, pois talvez realmente merecesse por tomar decisões tortas e movidas por um coração partido, mas no minuto em que eu ao menos sentisse qualquer negatividade dele para com o meu filho, sumiria da sua vida outra vez sem pensar duas vezes. Foder com os meus sentimentos uma vez, não estava ok, mas era aceitável. Merdas acontecem. Mas mexer com o Heitor? Ah... eu o faria se arrepender do dia que pôs os olhos em mim.

Perto de adormecer, notei que eu estava preocupada apenas com o confronto de uma mãe com o pai do seu filho e não da mulher apaixonada com o seu ‘ex-quase-namorado’. Deus sabe do meu esforço para tirar aquele homem do meu coração durante todo esse tempo e sabe também dos meus fracassos. Hoje olhando para a minha vida amorosa inexistente, tinha plena certeza de que apesar de achar que nunca amaria alguém daquela mesma maneira, eu já não nutria os mesmos sentimentos por ele. E só me restava esperar até sábado para ter certeza disso.

Suspirei ao olhar a tela de bloqueio do meu celular. Uma foto minha com Heitor no colo na primeira vez que fomos até o IHOP ao visitar os meus pais em Atlanta. Sua boca exibindo um sorriso gigante coberta de calda maple. Era simplesmente a coisa mais fofa.

Bons tempos.

E então, uma ideia.

Para: Eric J. Northman +(630-842-3200)

Hora: 22:07 p.m.

“Querido, eu preciso de ajuda...”

De: Eric J. Northman +(630-842-3200)

Hora: 22:10 p.m.

“Estou à disposição, madame. Qual é a missão? ;)”

Sorri ao clicar em responder porque eu tenho a sorte de sempre poder pedir por reforços.

Notas finais
Antes que vocês decidam me apedrejar, eu juro que esse é o último capitulo sem notícias reais do grego. Para quem me perguntou, eu respondi que ele voltaria no 27, ou seja, no próximo – e não sairá mais das nossas vidas. Prometo também não demorar a posta-lo. Mas voltando ao presente... a maioria estava certa em suspeitar que a Rosalie tinha informações sobre Emmett. O “ursão” resolveu tomar a frente da situação, apareceu sem mais nem menos e encontrou um... sobrinho? Não se preocupem com B&R, a relação das duas está a salvo. Amigas discordam e brigam o tempo todo. Tudo ficará bem, até por que a moça não fez por mal. O que acharam da conversa entre a Bella e o Emmett? Eu achei que ele deu várias dicas nada sutis para que ela se ligasse, só não sei se ela pegou ou terá que ter os fatos esfregados na cara. E quando eu voltar, terá o tal aniversario. O retorno do furacão Cullen. Como vocês acham que ele vai reagir ao saber que tinha um filho por aí cuja sua existência foi escondida de propósito? Ansiosa pelas próximas reviews. Beijo pra vocês :)