Odisséia Grega
25 Capítulo 25
Notas iniciais
— Teve um soninho gostoso? — Perguntei olhando para o meu anjo que estava sentadinho no seu berço, com a mão dentro da boca, babando tudo. Heitor sorriu para mim alegre e mostrando-nos orgulhoso todos os seus dentinhos já conquistados. A coisa mais gostosa da minha vida! Seus olhinhos castanhos brilhavam de contentamento e não pude resistir quando ergueu os braços agitados pedindo colo, peguei-o para mim soltando um gritinho de animação e felicidade em finalmente segura-lo após tantas horas separados.
— Mamãe! — Ele gritou de volta a sua palavra favorita quando o ajustei com cuidado em meus braços — Lienda! — Rosalie e eu rimos com sua tentativa de pronuncia e ela chegou perto para acariciar seu cabelo castanho que na realidade estava ficando mais bronze a cada manhã.
— Acordou cheio de energia, príncipe! Que delícia. Vem aqui com a tia, vem? Estava morrendo de saudade do meu pimpolho lindo! — Ela chamou-o com as mãos e ele já acostumado com isso, inclinou-se em sua direção, para que fosse pego, esquecendo totalmente da mãe aqui. Rosalie segurou-o com todo o cuidado do mundo, sendo até um pouco exagerada e seu sorriso era imenso. Por incrível que pareça, a mesma cena repetia-se todos os dias nos últimos 17 meses. Mas quem sou eu para julgá-la? Eu não consigo pensar na criança sem sequer me derreter toda.
A verdade é que nada me prepararia para experimentar o amor de mãe.
Admito que foi simplesmente assustador entender que alguém estava sendo gerado dentro de mim e que eu era responsável por aquela vida a partir daquele momento até quando Deus determinasse.
Isso assustou a merda para fora de mim. Uma criança! Eu fiquei com raiva de mim mesma por ter sido descuidada e estúpida. O que eu havia feito de errado, afinal? Não conseguia achar uma brecha para ter resultado nisso. Quando a raiva passou, eu entrei no estágio do medo. Minha nossa, eu não era nenhuma adolescente, mas eu sentia que não tinha vivido quase nada ainda e minha experiência com crianças era mínima. Sempre fui filha única.
Puta merda, Renée enlouqueceria quando soubesse que eu a fiz avó antes dos 45.
Mas então, o medo também passou e ao colocar mão sobre o meu estômago plano, percebi então que eu tinha feito aquela coisinha com o mais puro amor sem sequer me dar conta. A sensação de andar pelos lugares sabendo que nunca mais estaria sozinha, que por muito tempo ele estaria ali dentro, protegido e me acompanhando em cada situação, era simplesmente incrível.
Mais incrível foi ver o seu rostinho na tela embaçada durante o ultrassom e eu posso dizer o mesmo de cada hora dos seguintes meses até o nascimento. A sensação de segurar o seu filho nos braços pela primeira vez é a coisa mais poderosa que eu já experimentei, Renée havia me alertado e Charlie também, mas como eu disse, nada me prepararia para sentir algo daquela intensidade. Daquele dia em diante foi como se eu dependesse daquele pequeno ser e não ele de mim.
E isso segue até o presente.
Se um dia eu achei que conheci o amor e nada poderia ser tão bom quanto aquilo quando correspondido, não tinha ideia de que algo mais poderoso pudesse existir, porque por aquele pequeno garoto, eu seria capaz de tudo. Faria até o impossível se fosse preciso para mantê-lo feliz e seguro. Eu daria a minha própria vida com o maior prazer.
— Huh... Bella? Ele está atacando os meus peitos. — Ouvi Rose dizer e voltei ao presente dando risada da cena que se desenrolava ao meu lado. O meu filho procurava com urgência um meio de se livrar do sutiã da tia, porque o decote, ele já tinha escancarado com suas mãos pequenas e gordinhas.
Heitor tem 1 ano e 4 meses, prestes a fazer 5. Nasceu às 08h32 do dia 23 de setembro com 3,200 kg. Um garoto perfeitamente saudável e com pulmões fortes que berrou no segundo que saiu do conforto do meu útero me fazendo chorar ao ouvir o mais lindo som que um humano poderia produzir.
É um bebê cheio de energia, dengoso e muito esperto. Seus olhos são réplicas perfeitas dos meus, mas realmente é só isso, porque todo o resto... é apenas dele. O pai cujo o meu filho nunca conheceu e provavelmente nunca irá, mas um dia vai saber que ele existiu e que o teria amado se o conhecesse. Eu não agiria como aquelas mães que mentem para os filhos, dizendo que o pai cafajeste era na verdade um herói e morreu salvando a vida de alguém em um assalto. Também não o faria odiá-lo por vingança, dizendo que ele sumiu no mundo quando soube que eu estava gravida.
Não.
Ele saberia da verdade no momento certo e quando tivesse idade suficiente para isso, decidiria se iria procura-lo ou não, pois eu não via a menor possibilidade daquele homem cruzar o meu caminho outra vez a essa altura do campeonato.
Quero dizer, um raio não caí duas vezes em um só lugar, certo?
Eu tinha plena consciência de que ter omitido a existência da criança não foi a atitude mais certa a tomar. Por um longo tempo, eu fiquei confusa demais. Estava perfeitamente bem com a ideia de ser mãe solteira e que o ruivo estava reconstruindo sua vida bem longe de mim, mas nas veias daquele bebê corria o sangue dos Cullen e não havia nada que eu pudesse fazer para mudar isso.
Eu levei uma tremenda bronca de Charlie também. Ele como homem, ficava possesso só de se imaginar na mesma situação onde teria um filho vivendo pelo o mundo sabe se lá como, sem que ele não tivesse a mais remota ideia.
— Você não sabe como é crescer sem um pai, Isabella. Eu estive lá por você em cada momento que precisou. Vai mesmo fazer isso com esse garoto? Os problemas que você teve com o Cullen são apenas de vocês dois. Ele não precisa sofrer as consequências disso! — Ele disse e eu engoli em seco assimilando cada palavra com cuidado.
E foi assim que eu decidi que estava sendo egoísta. Era direito do pai conhece-lo, então eu daria a chance para que Edward decidisse o que fazer desde que eu tivesse a minha consciência tranquila.
Mas então eu a vi. Durante a primeira pesquisa na internet sobre eles em busca de algum telefone para entrar em contato, eu achei uma matéria de pouco menos de duas semanas onde em um evento beneficente, estava Elizabeth e Tanya Denali representando os Cullen.
Ela estava lá deslumbrante exibindo o seu anel de noivado para os fotógrafos, sorridente ao anunciar o casamento para o mês seguinte. A tão falada Tanya Denali! Uma loira morango lindíssima com os azuis quase turquesa... e bom, eu deveria culpa-lo por escolhe-la? Ela era muito perfeita. Apenas.... era assustadoramente parecida com a mãe dele.
O que diabos eu estava pensando? Ele iria casar com ela, criar seu filho com ela e eu jamais submeteria o meu bebê a qualquer humilhação que aquela família pudesse lhe fazer. E se fossem todos como Elizabeth? Meu menino não seria um bastardo e nem acusado de estragar o futuro do casalzinho! Acariciei minha barriga de sete meses e expliquei baixinho para Heitor que seriamos felizes mesmo assim, que eu seria exatamente tudo que ele pudesse querer na vida.
Desde esse dia não procurei saber sobre eles e ignorei qualquer fato novo que surgia com o tempo. Também não permiti que ninguém mais se metesse em minhas decisões. Eu sentia que estava fazendo a coisa certa naquele momento e se estivesse errada, teria tempo de sobra para me corrigir no futuro. Por enquanto, nada mais me importava.
— Bella, eu acho que ele está com fome. Ficou tão agitado de repente. Você vai dar de mamar? — Rose questionou quando já estávamos de volta à sala. Ela ajoelhou e depois sentou-se no chão da melhor forma que seu vestido lhe permitiu e espalhou brinquedos por toda a parte, querendo que o sobrinho desse alguma atenção para algo que não fosse o seu decote.
— Não. Eu preparei uma papinha um pouco antes do jantar. Mais tarde, se ele ainda tiver fome, eu amamento. Traga-o para a cadeirinha em cinco minutos, sim?
Eu admito que no começo da gestação tive medo da amamentação e de quanto tempo eu teria que fazê-lo. Não que eu fosse fútil ou vaidosa demais, mas eu sempre ouvi rumores a vida toda que isso causava certas mudanças nos seios das mulheres. Mas bastou ver o meu anjo alimentando-se de mim uma única vez que eu mandei aquelas inseguranças para o inferno. A verdade é que até hoje não houve mudanças muito significativas, eu produzo menos leite no momento e eles continuam um pouco maiores do que antes, mas fora isso, tudo certo.
Esse tempo todo tentando fazer o Heitor comer papinhas e outras coisas, tem sido uma experiência fofa e engraçada. Ele aceita quase tudo satisfeito e demonstra muita empolgação para provar de tudo um pouco e já até memoriza suas comidas favoritas.
Abri o potinho da papinha que fiz com batatas, abobrinha e frango e com uma colher, despejei quase tudo no pratinho verde dele. Logo após a sala e antes da biblioteca, havia um cômodo aberto que foi decorado todo para o lazer de Heitor. Eu não tinha mais nada para fazer com ele e decidi presentar o meu filho com um lugar fora do quarto onde pudesse se divertir e que eu conseguisse manter meus olhos nele com muita facilidade.
Rosalie já estava lá mantendo-o entretido na cadeirinha. A comida logo chamou sua atenção assim que eu coloquei o pratinho na sua frente junto da colher com a cabeça de girafa na ponta. Heitor bateu o punho fechado dentro do prato e fez a papinha voar longe, mais precisamente, no meu rosto. Fechei os olhos e fiz careta ouvindo a risada da loira atrás de mim.
Segunda vez nesta semana...
— Isso aí, meu garoto! Fala pra ela “eu quero tetas, eu não quero essa porcaria verde aqui, eu quero tetas!” — Rose disse imitando uma voz fina de criança, mas com a entonação forte, como numa ordem.
— Rosalie! Não o ensine essas coisas. Já imaginou se ele começa a falar essa palavra com T por aí? O que é que eu ia fazer? Ia sobrar para você. — Repreendi e ameacei-a, fazendo a rir ainda mais.
— Mas seria tão engraçado! Eu filmaria e ficaríamos os três famosos no Youtube.
Ah, francamente. Às vezes ela soava como uma pré-adolescente. Apenas ignorei e depois de limpar o resto com o pano de prato, fiz aviõezinhos carregados de comida para o meu bebê, com direito a efeito sonoro, performance e tudo – o que o deixava empolgadíssimo.
Algumas colheradas mais tarde, ele parecia satisfeito e louco para sair dali. Limpei-o outra vez e liberei sua saída, apenas para ver outra vez a agilidade com que ele caminhava com suas perninhas gordas de volta aos seus brinquedos, chutando e se divertindo ao ver as coisas espalhadas.
O meu tratorzinho estava pronto para mais uma rodada de diversão.
Heitor começou a dar seus primeiros passos aos 9 meses, mamãe disse que eu havia esperado completar um ano para começar, então eu só podia deduzir que aquela pressa de independência era mais uma herança genética do pai.
Rosalie e Charlie me ajudaram a arrumar o apartamento de forma que fosse segura para ele, com o máximo que o meu orçamento permitia. Usei por muito tempo o carro que havia ganhado de presente, mas assim que me mudei, vendi-o por um preço bom e comprei um modelo mais atual no começo do ano, um Toyota Corolla Preto que era bonito e até mais espaçoso, hoje ele estava equipado com CDs de música infantil, DVD, uma cadeira confortável no banco de trás, ursos e bonecos.
Ouvi Rose bocejar e lhe aconselhei a ir para casa, passava das 21h e estávamos ambas acabadas. Ela despediu-se do meu filho com muitos beijos e cheirinhos, me deu um beijo na testa e saiu batendo a porta. Com toda a preguiça de mundo, fui até lá e tranquei. Depois cobri as janelas com as cortinas e desliguei a TV que gastava energia à toa. Coloquei Heitor para brincar dentro do seu cercadinho e só sai de lá quando me certifiquei que ele não conseguia abri-lo se tentasse. Isso que dava ter filhos inteligentes, você tinha que se superar nas artimanhas para controla-los.
No meu quarto, comecei a tirar a roupa. Sentia meu corpo grudando, implorando por um banho. Gostaria de ficar algum tempo na banheira, relaxando. Deus sabe o quanto eu precisava, mas tinha que ser rápida. Não gostava de ficar aqui e ter o meu bebê longe dos meus olhos, então segui direto para o box. Lavei meu corpo com cuidado e depois foi a vez do meu cabelo. Ainda usava o mesmo shampoo de morango, já considerava aquele cheiro uma marca minha.
Vesti um roupão e enrolei os cabelos em uma toalha da mesma cor.
A babá eletrônica reproduzia a risada dele e assim, pude me arrumar tranquila sabendo que estava tudo bem. Passei hidratante no corpo, um pouco de perfume e vesti uma camisola que ia até os meus joelhos, com um elástico abaixo dos seios que junto com o decote, deixava meus peitos bem em evidencia. Penteei os fios, escovei os dentes e estava pronta para dormir.
O que, claro, Heitor não deixaria tão cedo.
Ele ainda estava cheiroso do banho mais cedo, então apenas lhe limpei, troquei sua fralda e pus um pijaminha. Depois de brincarmos juntos por algum tempo, levei-o para o quarto. Sentei na cadeira de balanço com ele no meu colo, o coloquei em uma posição confortável e lhe contei uma história para nina-lo.
“Numa bela manhã de Primavera, entre os altos canaviais que cercavam o ribeiro, nasceram três porquinhos a quem a mãe pôs os nomes de Mico, Chico e Pico. Durante vários meses viveram muito felizes ao lado da senhora porca, que tinha um aspecto imponente e uns presuntos monumentais. Nessa altura, toda a ocupação que Mico, Chico e Pico tinham era correr de um lado para o outro ao lado da mãe, escavar a terra em busca de batatas e raízes e rebolar na lama. Mas, logo que ficaram fortes e crescidos, decidiram afastar-se e percorrer o mundo (...)”
Eu sabia que o garoto não entendia boa parte do que eu falava, mas ele simplesmente adorava me ouvir lendo aqueles livros ou apenas conversando. Ao terminar a história, Heitor já tinha seus olhos fechados e a boquinha entreaberta, dormindo calmamente nos meus braços. Coloquei o livrinho em cima da cômoda e lhe apertei em mim para sentir o seu calor, beijei sua cabeça e inspirei aquele cheiro gostoso de bebê, para depois colocá-lo no berço.
Depois de posicionar a babá eletrônica no lugar de sempre, apaguei a luz e rumei para o meu quarto, pois os olhos pesados mal conseguiam manter-se abertos. Foi instantâneo, uma vez na cama, apaguei.
Os dias que se seguiram não foram muito diferentes, recuperamos a motivação na empresa e aceitamos trabalhar com e para uma arquiteta de algum lugar do sul da Europa. Ela e seu marido haviam mudado para cá há pouco tempo e comprado uma grande casa em uma área afastada do centro da cidade e queriam nossa ajuda para reformar alguns espaços. Eu fui encarregada da administração do projeto. Escolhi a equipe e já tinha ido olhar a residência. Era magnifica, apesar de malcuidada em algumas áreas do lado de fora e mesmo assim deveria ter custado mais do que eu conseguiria juntar com esse trabalho durante a vida inteira. Não tive a oportunidade de conhecer os donos ainda, mas em breve eu me encontraria com a senhora para falar sobre o que ela queria e o organizar o orçamento.
De: Leah Clearwater +(630-821-3909)
Hora: 13:04 p.m.
“Ela está aqui! Emily finalmente está aqui! Deus, Bella... eu pareço uma criança chorona, não consigo segura-la sem me desmanchar em lágrimas. Gostaria que você estivesse conosco. Agora eu entendo o porquê de você não conseguir calar a boca sobre o Heitor antes, isso é tão... wow!”
Fiquei emocionada ao receber duas mensagens da minha amiga algum tempo após voltar para o trabalho. A segunda continha a foto da pequena Emily bocejando nos braços do pai. Uma minúscula coisinha cor de rosa em meio aqueles músculos e tatuagens. Malditamente adorável. Respondi rapidamente e em seguida liguei para Renée, pedindo que comprasse e enviasse um buquê de flores com um cartão carinhoso e alguns balões para o hospital.
Cocei a nuca ao olhar para o porta-retrato em minha mesa, onde toda a minha família estava reunida e por algum tempo encarei a figura da minha amiga. A única coisa meio estranha no momento era a mudança drástica no comportamento de Rosalie. Eu já havia notado algumas diferenças, mas de um tempo para cá ela parece me evitar. Diminuiu a frequência com que vai ao meu apartamento e quando quer muito ver o Heitor, pede para a Bree leva-lo até ela.
Cheguei a aborda-la, pois não tinha a menor ideia do que poderia ter feito para ela. Mas Rose apenas sorriu e disse que estava tudo bem, que era impressão minha. Eu notava que às vezes ela parecia se segurar, como se quisesse me dizer algo mais, como se juntasse coragem, mas não dizia e me deixava frustrada para trás.
Situação mais que ridícula!
O que ela estava aprontando? Seria um namorado novo ou algo com sua família?
Tivemos alguns dias de normalidade quando Renée e Charlie vieram nos ver. Expliquei aos meus pais que não teria como largar tudo e passar o aniversário lá, eles foram muito compreensíveis e deram a ideia de vir até nós, passar algum tempo visitando a cidade e depois voltariam. Achei maravilhoso, porque o meu anjo seria muito bem cuidado pelos meus pais e eu ainda poderia dar uns dias de folga para a sua babá.
Eles chegaram um dia antes da data, grudaram no Heitor e decidiram não fazer mais nada além de o mimarem com tudo que podiam. Tiramos um tempo para almoçamos no apartamento de Jacob. Ele não era a pessoa mais social do mundo, dado os últimos acontecimentos em sua vida, mas ele jamais seria ingrato ou recusaria uma visita de Charlie e Renée que lhe ofereceram todo o tipo de assistência que estava ao alcance deles quando o acidente aconteceu.
— Como você se sente? — Perguntei ao retirar os pratos da mesa. Ouvi um xingamento quando ele tentou mover a sua cadeira e esbarrou na mesa, fazendo-a mover-se do lugar.
— Eu não sinto. O problema é esse — Respondeu com amargura dando um forte tapa na perna direita que parecia pesada demais para se mexer. Fechei os olhos buscando paciência onde não tinha, pois odiava aquelas ceninhas — Não me olhe com essa cara. Você não sabe como é...
— Corte essa merda agora mesmo, Jacob! Eu posso não precisar estar numa cadeira dessas, mas estive por meses aqui com você quando teve que deixar o hospital. Aguentei seus choros, sua revolta, ignorância, o desperdício de comida e até o seu cheiro de cachorro molhado quando decidiu que era constrangedor demais me ter te ajudando no banho e simplesmente parou de tomar! — Jake me olhava furioso, mas aquela não era a primeira vez. Eu não aguentava as besteiras dele e nem deixaria que ele desse chilique na frente dos meus pais como um pobre coitado. Ele estava paralítico e não morto — Será que podemos passar uma tarde amigável? Charlie estava com saudade de você. Heitor também.
Eu poderia parecer estar sendo cruel por sua situação frágil, mas eu já passei da fase de trata-lo como uma criança doente. Jacob estava afundando rumo a uma depressão e quanto mais eu bancava a compreensiva e cedia às suas vontades, sentia pena e lhe dava um tratamento “especial”, pior ele ficava. Seus médicos concordaram comigo.
Jacob conseguia ser mais teimoso que Heitor algumas vezes e fazia com que eu me sentisse responsável por dois bebês ao invés de um só. O homem precisava de limites.
— Tudo bem, Bells — Assentiu parecendo mais calmo. Ele ficava incrivelmente mais bonito quando seu rosto se suavizava. Lembrava-me ao jovem viciado em pizza de calabresa que tentava fazer o meu filho gostasse dos Lakers — Estou feliz por vocês terem aparecido. Você anda sumida.
— Mas é claro! Alguém precisa trabalhar por aqui, senhor. Estou até mais magra. O que você acha? — Perguntei dando uma voltinha exagerada à sua frente, fazendo poses ridículas que lhe arrancaram risadas — Quem precisa de academia quando se tem um filho para correr atrás por todo o apartamento?
Ele sorriu grande para mim e eu senti falta de ver suas covinhas sutis na bochecha. A pele estava coberta por uma barba que não me agradava, mas isso era assunto para outra hora. Terminei de lavar a louça contando-o sobre as últimas novidades e iniciamos uma conversa sobre sua adaptação ao Julian, seu enfermeiro. Um ótimo cara já bem acostumado com sujeitos mal-humorados como o nosso Jacob.
No aniversário dos meus pais, eu os levei para jantar depois de voltar para o trabalho, apenas nós e Rose. Fomos também assistir a uma peça que estava sendo comentadíssima entre os meus colegas e me diverti em cada segundo, já que o garoto dormiu feito pedra e não interrompeu nenhum instante. Renée que antes parecia só ter olhos para o neto, de repente estava enchendo a minha cabeça sobre como a minha vida estava solitária sem uma companhia... masculina.
— É realmente uma pena que o Eric esteja com aquela moça — Começou bebericando o seu coquetel de frutas vermelhas — Eu sempre achei que vocês formavam um belo casal. Não como era você e o pai do Heitor, mas...
— Tem certeza que não colocaram álcool aí? — Perguntei fazendo graça. O meu tinha e era exatamente por isso que eu não estava me importando de ela tocar naquele assunto. Nós meio que tínhamos um acordo de tocar no nome do Edward apenas quando era extremamente necessário, mas vez ou outra acontecia — Eric está muito bem com a Maggie, ela é ótima e eu estou feliz em tê-lo como amigo e padrinho do meu filho. Agora chega, huh?
Renée fez um gesto de desdém com a mão parecendo conformada e entrou no assunto em discussão entre Rose e papai que já nem prestavam atenção no meu filho tentando escalar no colo dela e enfiar o guardanapo dentro do prato de comida no centro da mesa.
Chamei sua atenção e lhe dei uma bronca que me rendeu um bico de choro que era simplesmente a coisa mais linda do mundo, mas logo consegui distrai-lo antes que ele ficasse mesmo com raiva de mim. E então o que a minha mãe falou anteriormente passou por minha cabeça.
É meio ridículo que eu só tenha estado com o pai do meu filho durante todo esse tempo e não ia negar que sentia falta de ter alguém, contato humano, calor de outra pessoa. Sentia até uma certa... inveja quando via casais ou as minhas amigas recebendo propostas de casamento, mas não havia ninguém no momento que pudesse me proporcionar momentos como esses. O único homem na minha vida era o Heitor e ele me amava o suficiente para que eu estivesse bem.
Eu acho.
Dois dias depois, eles se foram e eu voltei para minha rotina. Exceto que eu tinha que sair correndo do trabalho pois Bree havia pegado uma virose terrível e apesar de não estar de cama, nem eu nem ela queríamos correr o risco de o bebê pegar alguma coisa também, então quanto menos ela ficasse com ele, melhor. De qualquer forma, eu tinha consciência de que o Heitor tomou vacinas há menos de um mês e estava bem protegido, mas era sempre melhor prevenir.
Hoje em especial, acordei com uma coisa estranha. Quase como um frio inexplicável na barriga, como se eu estivesse nervosa ou ansiosa para algo, quando não havia nenhum motivo para nada disso. Eu pedi pra Rosalie ficar com Heitor durante o dia, porque era sua folga e Bree merecia um descanso pelo o bem de sua saúde e ela aceitou prontamente, muito animada em passar o dia com o seu sobrinho favorito – e único. Fez uma pequena bolsa com tudo que ele podia precisar e levou-o para seu apartamento.
Na empresa, eu finalmente iria conhecer a arquiteta. Chamavam-na de Esmeralda Platt e ela parecia ser muito boa como pessoa e no que fazia, ninguém tinha nada de errado para falar sobre a mulher e eu já estava gostando da energia boa que se espalhava na empresa mesmo sem a presença dela.
Mas qual foi o tamanho da minha surpresa ao entrar naquela sala e me deparar com a mesma mulher que estava na fotografia do escritório de Edward em carne e osso olhando-me com aquele seu tão familiar sorriso? Acho que engasguei com ar e virei motivo de risada por alguns segundos, mas logo ela veio toda amável se apresentar para mim.
O que a mulher da foto estava fazendo ali? E em Chicago? No meu trabalho?
Ela era a mãe de Alice, certo? Puta merda. Eu estava tão perdida.
Ela apresentou-se como Esme Platt, era seu nome de solteira e o qual as pessoas ainda usavam para reconhece-la quando estava trabalhando, não gostava de que seu sobrenome de casada chamasse atenção de interesseiros e pediu para chama-la apenas simplesmente de... Esme.
Casada. Então ela era mesmo a esposa de Carlisle Cullen, mãe de Alice e madrasta de Edward.
Que mundo pequeno do caralho!
Enquanto eu me chutava mentalmente por ter escolhido justo aquela cidade para viver, estava também respondendo às perguntas e concordando com tudo que a... a avó do meu filho queria. Era muita loucura! Lógico que ela não fazia a menor ideia de quem eu era e estava bom dessa forma, se ela soubesse, então ele também podia ficar sabendo, então não. Nem pensar!
Descobri naquele dia inteiro juntas o quanto ela era talentosa. Esme não se achava melhor do que ninguém ou descartava as ideias dos novatos, pelo contrário, qualquer novidade era mais do que bem-vinda e até nas ideias mais absurdas, ela encontrava algum detalhe positivo.
— Você tem certeza? Eu estaria perfeitamente bem em fazer isso por você — Entrei no elevador e a encontrei falando no celular. Esme abriu um lindo sorriso para mim que fez seus olhos apertarem e então soltou uma risada — É um dos privilégios de ser mãe, ora essa! Sim, querido, é claro que eu entendo.
Querido? Estaria ela falando com Carlisle ou... Edward? Não. Eu já estava paranoica demais. Poderia ser com qualquer pessoa. Balancei a cabeça após pressionar o botão que nos levaria para fora dali e tentei ocupar os meus pensamentos para lhe dar alguma privacidade, mas algumas palavras e um “eu te amo” depois, ela finalizou a ligação e voltou a sua atenção para mim.
— Olá outra vez! Eu gostei muito de você, Isabella, no segundo que entrou naquela sala. A minha filha diz que sou muito intuitiva com as pessoas e posso ver de longe o seu bom coração. — Ela disse segurando as minhas mãos e sorrindo daquele jeito materno. Era tão adorável.
— Nossa... obrigada! Eu também, Esme. Sinto que a conheço há mais tempo e não esperava que você fosse tão... adorável — Que outra palavra para descreve-la? Ela começou a rir e abraçou meus ombros, nos guiando para o estacionamento assim que as portas abriram — Nos vemos em alguns dias, certo? Iniciaremos o trabalho o quanto antes, não se preocupe.
Suspirei e pude dar uma boa olhada na mulher que caminhava junto comigo. Esme ainda parecia a mesma mulher que eu vi no escritório dele naquele dia, mas tinha os cabelos bem mais curtos. Passavam poucos centímetros abaixo do queixo e os fios castanhos puxados para o cobre tornavam-se cachos cremosos nas pontas. Ela havia feito um tremendo regime, pois estava quase tão magra quanto eu, mas era linda. E elegante. Seus olhos tão verdes quanto os de Edward brilhavam a cada nova expressão doce em seu rosto com formato de coração.
— Ah, eu não estou! Confesso que estou ansiosa para ter aquela casa finalmente do meu jeitinho, falo disso o tempo todo e até já fui encomendar algumas tapeçarias... — Ela falava sem parar, visivelmente empolgada e eu apenas ria encostada à porta do meu carro — Carlisle tem tanta paciência comigo. Tenho sempre muitas ideias na cabeça. Você não imagina como fico elétrica com essas coisas. Oh! Você tem filhos?
Seus olhos arregalaram-se em expectativa e eu juro que meu coração deu um salto com aquela pergunta. Como ela... ah, merda! Os brinquedos. Havia alguns ursos e um celular colorido no banco de trás do carro e claro que a cadeirinha também não era nada discreta. Os vidros eram fumê, mas o lugar era tão bem iluminado que era possível ver todas essas coisas, se prestassem atenção. Então pigarreei e apenas sorri amarelo, assentindo sem lhe dar mais detalhes.
— Que maravilha, querida. Aposto como deve ser uma criança muito amada. De qualquer forma, eu já estou atrasada. Nos vemos em breve, sim? Talvez possamos almoçar juntas depois. Tenha uma boa noite, Isabella. — Ela sorriu outra vez e acenando com a mão, foi para o seu carro há uns quatro ou cinco metros de distância da minha vaga.
Deixei aquele estacionamento nervosa e preocupada, mas ao mesmo tempo tranquila. Isso era sequer possível? Me permiti dar um sorriso ao lembrar daquela mulher e sua agradável companhia. Eu pude observar várias manias de Edward nela e vice-versa! Como aquela coisa de passar os dedos no cabelo e empurra-los para trás. Ela fazia o mesmo o tempo todo em sua franja. E o jeito em que seus olhos se estreitavam para algo quando estava muito concentrada?
Sorri mais ainda ao pensar que da mãe biológica ele não tinha praticamente nada. Como era possível parecer tanto com alguém que apenas o criou? Será que havia algum parentesco entre eles, mesmo que pequeno? Hmm. De qualquer forma, era bom saber que ele teve aquela doce senhora para ser uma forte influência em sua vida, do contrário teria ficado igualzinho a cascavel loira.
Estremeço só de imaginar uma versão masculina daquela mulher. Ela me assustava feito o diabo.
Apertei o volante em minhas mãos e estalei o pescoço com o pensamento em mente de que ninguém naquele lugar tinha detalhes do meu passado e pouquíssimos sabiam sobre a minha vida pessoal, então não havia a menor chance de Esme ficar sabendo mais sobre Heitor, a não ser por mim mesma. O que já era alguma coisa, pois aplacava um pouco a preocupação que vinha corroendo o meu cérebro pelas últimas horas.
Ela claramente veio para morar com o marido. Ambos estão para reformar a casa, ora essa! A casa que eu fui visitar sem fazer ideia. Oh, meu Deus... eu precisava ter calma. Precisava de calma para agir com frieza e torcer. Torcer muito para que eles fossem os únicos Cullens na cidade. Respirei fundo e soltei todo o ar de uma vez.
E enquanto dirigia para casa, pensava, será que esse dia pode ficar ainda mais louco?
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