Odisséia Grega
22 Capítulo 22
Notas iniciais
— Bella! Ah, graças a Deus... — Ouvi ele suspirar de alivio, mas não levantei o rosto. Ele parecia meio assustado — O que foi que aconteceu aqui? Eu passei a noite de ontem te ligando, o que houve com o seu celular? Por que você não está falando comigo, Bella? — Sua voz e as perguntas uma atrás da outra denunciavam o seu nervosismo. Ah... certo. Será que ele estava preocupado com o estado do apartamento ou o meu? Queria ter tido o privilégio de dormir e acordar achando que aquilo podia ser um pesadelo, mas nem isso... eu ainda lembrava de cada detalhe — Isabella?
— Sim, Edward?
— Você está chorando. Por que você está chorando, amor, o que aconteceu? — Ele agachou-se na minha frente e eu comecei chorar ainda mais sem controle. Que porra, quanto de água ainda restava no meu corpo? Edward parecia genuinamente preocupado comigo, veio e segurou o meu rosto com delicadeza, tentando limpar as lágrimas gordas com a expressão de quem não estava entendendo nada, mas não me encheu de perguntas outra vez — Shh, calma. Eu estou aqui. Eu já voltei.
Deixei que ele me abraçasse pela última vez e me consolasse porque eu era fraca. Porque era a nossa despedida e eu queria senti-lo só mais um pouquinho ali onde só haviam nós dois e nenhum problema. Ele podia ter sido um cretino comigo, com ela, mas ainda era o único homem por quem eu me apaixonei, apesar disso, deixa-lo ainda seria como perder o meu braço direito, não podia negar.
Ele estava sentado ao meu lado acariciando o meu cabelo meio emaranhado, minha cabeça descansava em seu peito e eu soluçava de desgosto, estremecendo em seus braços como uma garotinha. Sua camisa estava úmida por minha causa, mas ao invés de reclamações, recebia caricias gostosas na cabeça e nas costas para me acalmar. Estava quase funcionando e eu estava muito grata por isso, nós precisávamos conversar como adultos e eu não podia ficar berrando feito um bebê que teve sua chupeta roubada.
Precisava conseguir me controlar e ficar firme sobre a minha decisão.
Ambos ouvimos quando a porta foi aberta com uma violência desnecessária. Eu me assustei e pulei no lugar, mas Edward continuou me segurando como se nada tivesse acontecido. O barulho de saltos batendo no piso se aproximou de nós e eu gelei ao virar o rosto e enxergar a imagem de Elizabeth bem na nossa frente, impecavelmente arrumada como sempre, sem um fio de cabelo fora do lugar e ela parecia irada com a nossa pequena cena.
— Você! Por que ainda está aqui? — Apontou para mim e eu percebi o que estava fazendo. Merda, isso era errado. A coisa menos errada que já tinha acontecido ali, mas ainda era. Eu me separei de Edward, limpei meu rosto e nariz com as costas da mão, sentando melhor no sofá enquanto tentava fungar decentemente.
— Eu que deveria te perguntar isso. Quem te deixou subir? Aliás, quem disse que eu ainda tenho alguma coisa para tratar com você? Vá embora, Elizabeth.
— Eu vim te buscar. Nós precisamos voltar pra Atenas e eu já comprei as passagens e falei com o Jorge, está tudo certo na empresa, não se preocupe. Ah e claro, eu fiz o seu servicinho sujo, está tudo certo. — Repetiu cantarolando toda debochada.
— Do que está falando? Que serviço? — Edward parecia mais perdido que cego em tiroteio e seria cômico se eu não soubesse do que tudo se tratava. Ela tinha se livrado de mim.
— A Isadora. Eu já expliquei que o casinho de vocês acabou, que você tem uma noiva e que irá mais do que satisfeito para Atenas encontrá-la comigo, querido. — Elizabeth falava devagar como quem explica algo para uma criança. Eu olhei pro Edward na hora e seu rosto perdeu toda a cor.
Ele me olhou de volta assustado e se houvessem dúvidas sobre o que a mãe havia me dito, teriam sido confirmadas ali mesmo. Fitei-o com desapontamento exalando por todo os poros, até que me assustei outra vez, dessa vez foi com o grito que ele deu.
— Você não tinha o direito! — Rosnou puto. Elizabeth deu um pulo para trás e eu pensei que o Edward voaria em seu pescoço no mesmo instante. Porra. Entrei no meio dos dois e tentei afasta-lo dela, mas ele era muito mais forte que eu e empurrava o corpo para frente, para alcança-la — Que inferno! A cada vez que você aparece, só fode com a minha vida. Some daqui de uma vez por todas! Bella... eu posso explicar tudo, eu juro.
Certo, ele não poderia me poupar pelo menos do clichê? Essa era definitivamente a minha deixa. Eu não ia ficar ali e enfrentar aqueles dois juntos. Não mesmo! Não tinha ânimo, não tinha paciência ou nervos para nada daquilo. Apenas fiz um gesto com a mão, calando-o e fui atrás da minha bolsa.
— Isabella, espera! Não é bem assim. Eu juro. Eu ia te contar, mas eu tinha medo da sua reação... eu prometi que ia contar antes de ir, você lembra? — Ele começou enquanto eu olhava cada canto da sala meio desorientada enquanto procurava a maldita coisa — Por favor, me ouve. Bella, eu fui um...
— Um covarde! É o que te define, Edward — Gritei — Que tipo de homem é você, hein? Aconteceu o mesmo com outras que você levou pra cama? Souberam no último minuto quem era o cretino com quem dormiam? — Explodi. Elizabeth nos olhava agora com cara de tédio, suspirando e isso só me irritava mais. Era normal pra todos eles fodem com os sentimentos dos outros assim?
— Não, não era desse jeito, Isabella... deixa só eu te falar...
— Negue. Vamos, negue que não tem uma mulher esperando por você em Atenas. Negue que ela não está nesse exato momento achando que vocês vão casar! — Desafiei empurrando-o para trás enquanto batia em seu peito com violência. Ele parecia angustiado e desesperado – o que me causava uma minúscula alegria pois demonstrava que ele se importava comigo e com o que eu pensava – para falar algo que me convencesse e até mesmo me tocar, mas não se atreveu a negar e era só disso que eu precisava. Eu queria que tudo não passasse de mal-entendido.
Mas não. Estava tudo certo. Ele havia mentindo compulsivamente pra cima de mim durante todo esse tempo, enquanto fazia nós duas imbecis de otárias enquanto caímos de amor pelos seus encantos adquiridos a custo de outras pobres coitadas.
Elizabeth ofegou quando ouviu e viu o tapa que dei no rosto do seu filho. Edward cambaleou para o lado com a força que usei e me olhou pesaroso. O filho da puta sabia que merecia. Ah, ele viu isso vindo! Ele olhou para mim com lágrimas nos olhos e eu atingi o outro lado da face. Dessa vez ele não se mexeu e eu comecei a tremer de cima abaixo de puro ódio.
— Ora, sua selvagem! — Ela gritou comigo, mas foi ignorada por nós dois — Deixa-a ir, Anthony. Deixe! Temos coisas mais importantes para lidar no momento. Oh, minha nossa, nós temos tanto o que fazer... eu preciso voltar para a Grécia, sua noiva precisa de mim e o meu netinho também.
De novo o meu coração perdeu uma batida e eu acho que minhas pernas enfraqueceram. Dei dois passos vacilantes para trás como se tivesse sido atingida. Agredida. Implorei aos céus que tivesse ouvido errado. Por favor. Ah, não, por favor.
Ela disse mesmo neto? Mas que porra é essa de neto agora? Aonde que ela tem um neto? Edward tem um filho em algum lugar? Puta que pariu.
Acho que Edward leu toda a dor e confusão no meu rosto e soltou um gemido alto de agonia enquanto apertava com força o cabelo já tão bagunçado. Eu nunca vi um homem torturado daquela forma, parecia que o chão estava se abrindo aos seus pés, mas eu não podia me importar menos com isso agora. Eu tinha que ser firme antes que fosse tarde demais para mim. Caramba... a minha cabeça estava um caos.
— Fica quieta, porra, você não está ajudando em nada... — Rosnou para a mãe e a minha cabeça começou a latejar. Merda, merda, merda, quando foi que deu tudo errado? Eu só queria sumir daquele lugar — Amor, deixa eu falar pra você, ela não sabe o que está dizendo, acontece que a Tanya-
— É claro que eu sei! — Elizabeth interrompeu e outro golpe foi acertado no meu estômago naquele momento. Além de uma noiva, ele tinha um filho também? Isso era fodido demais. Eu não estava mais consigo respirar. Eu precisava de ar fresco, era isso. Só um pouco de ar e então...
— Não, não... Bella, acredita em mim. Bella, eu te...
— Cala a boca! Cala a porra da boca! — Gritei — O que você quer? Me deixar insana? Edward, você é um monstro! Eu não consigo imaginar que tipo de homem você é por baixo dessa pele de cordeiro... e-eu n-n-ão — Solucei tentando recuperar o ar — Você tem uma mulher e... ela tem um filho seu, meu Deus do céu... — Gemi desesperada. Minha vista estava turva das lágrimas. Eles agora eram apenas silhuetas borradas.
— Eu não tenho mulher nenhuma, acredita em mim — Edward implorou vindo para perto e eu dei outro passo para trás, me sentindo sufocada com a presença dele, com o choro, com tudo — Você tem sido, você é a única pra mim, me deixa te provar isso... eu juro que tudo tem uma explicação.
— Anthony, por Deus. Já chega! A garota quer ir embora — Elizabeth se meteu pela milésima vez, parecia realmente irritada em presenciar aquela DR — Exatamente, Isadora. Ele é comprometido há anos e está prestes a se casar e também há um filho que-
— Sua desgraça mentirosa! — Edward gritou interrompendo-a e foi com passos duros em direção a mãe que arregalou os olhos de medo. Eu não quis ficar para saber o final daquela história.
É isso. Já chega.
Com filho ou sem filho. Com noiva ou sem noiva, eu queria distância de cada um deles.
Não suportando ficar mais nenhum segundo na presença dos dois, corri e peguei a bolsa que estava no chão, ao lado da poltrona e fui em passos apressados em direção a saída ignorando os gritos roucos de Edward chamando o meu nome.
Merda.
Eu não conseguia cessar os soluços fortes e altos. Parecia que alguém tinha morrido, que algo tinha precioso tinha se quebrado dentro de mim e eu não tinha controle do meu próprio corpo. Me abracei dentro do elevador tentando parar e ignorei a presença de uma senhora com uma menina que me olhava assustada. Deveria mesmo estar em um estado de assustar.
Eu tinha chegado lá embaixo transtornada, o porteiro arregalou os olhos para mim e me ofereceu ajuda. Pedi para que ele me providenciasse um meio de sair dali o quanto antes e logo ele estava chamando um táxi. Ofereceu-me sua cadeira e também um copo de água bem geladinho. O liquido não me acalmou, mas confortou. O homem olhava o tempo todo para o meu corpo, me avaliando, provavelmente para ver se eu tinha sido agredida ou estava machucada de alguma forma para estar agindo daquele jeito.
Foi só quando eu estava há dois quarteirões de casa que meu celular começou a tocar. Ignorei totalmente, imaginando de quem se tratava. Assim que botasse minha cabeça no lugar, iria dar um jeito de bloquear o número dele. O número de todos eles.
Antes de seguir para o elevador, dei uma ordem muito clara para o meu porteiro que aquele homem cujo ele via visto me visitando de uns tempos pra cá e qualquer um de sobrenome Cullen, estava proibido de subir. O apartamento estava vazio, mas o perfume de Rosalie estava forte. Devia ter saído há pouco tempo. Fui direito para o banheiro e tomei um longo banho de banheira, fiquei de molho ali como se de alguma forma as impressões de Edward na minha carne, na minha alma, fossem sair na água suja. Ah, quem dera.
As horas daquele dia pareciam se arrastar de propósito para me enlouquecer. O apartamento parecia menor do que o normal, me causando claustrofobia e nem na minha cama eu tinha sossego, porque os nossos últimos momentos ali foram tão incríveis que... ah, inferno!
Preparei comida no horário do almoço. Não ia me matar de fome só porque meu coração estava latejando de dor. Ele não merecia tudo isso, certo? Comi sem sentir o gosto, mas comi tudo. Tentei trabalhar um pouco, mas depois de ler 4 vezes o mesmo paragrafo de um artigo, percebi que não ia sair nada de futuro dali, então fui limpar a casa. Cada minúsculo centímetro do apartamento foi espanado, limpo e encerado. O quarto de Rose estava um brinco de tão limpo, não me deu trabalho. Seu banheiro já era outra história... lavei as roupas sujas também. E algumas limpas, que tinham o cheiro dele. Como as fronhas dos travesseiros.
“Vá em frente e feche as cortinas, porque tudo o que precisamos é da luz das velas.
Você e eu, e uma garrafa de vinho. Vou te segurar esta noite.
Bom, nós sabemos que eu estou indo embora.
Como eu gostaria... gostaria que não fosse assim.
Então, pegue este vinho e beba comigo! Vamos atrasar a nossa desgraça...”
O cantor dizia na música e eu fazia uma careta com a verdade da letra, sentindo o peito dolorido como quem recebeu um tiro. O coração ficando cada vez menorzinho. Cantava alto Save Tonight do músico Eagle-Eye Cherry quando Rosalie entrou no apartamento. A maioria das luzes estavam apagadas, algumas velas estavam acesas, espalhadas em pontos estratégicos para não ficar claro demais e uma garrafa de vinho pela metade descansava na minha axila enquanto eu estava jogada de qualquer jeito no sofá.
— Save tonight! And fight the break of dawn... come tomorrow. Tomorrow i'll be gone!
Cantei e chorei. De tristeza e frustração. Fiz de tudo para que meu corpo cansasse e o sono me levasse para longe daqui por pelo menos 32 horas, mas nada deu resultado, exceto o Grumello Buon, safra 2008 que já começava a me deixar suave. Rosalie acendeu a luz bem na minha cara e eu fiz uma careta. Ouvi o som ir diminuindo de volume e resmunguei para que ela parasse de se meter no que não era de sua conta. Talvez eu devesse mudar de apartamento.
— Bella, querida? O Emmett me ligou... eu já fiquei sabendo de tudo — Anunciou com cautela.
— Ah, foi mesmo? Eu sabia que aquele monte de músculos e merda iria atrás de você — Disse com a voz meio embolada — Ele te contou da sacanagem que fizeram comigo, Rosalie? O seu ursão te contou que me fez de trouxa como todo mundo?
— Sim, minha linda, nós conversamos, mas olhe... Bella, solte essa garrafa. Aqui, me dê isso... Bella, já chega! Você vai acabar passando mal. — Nós brigamos por segundos até eu desequilibrar e quase derrubar a garrafa no chão, mas ela foi mais rápida e segurou.
Hum. Bons reflexos.
— Olhe, eu não quero saber, ok. Eu ralei a minha bunda o dia inteiro pra me distrair, pra não me acabar de chorar ou fazer uma besteira, ok. Não quero ter noticia daquela gente. Por mim, eles podem embarcar no primeiro avião e se chocarem direto no Monte Rushmore, ok. — Falei fazendo um beicinho que tremia com a vontade de chorar, dessa vez, por puro dengo.
— Primeiro, pare de falar “ok”. E segundo, eles vão para a Grécia, Bella. O Monte Rushmore fica na Dakota do Sul, então não seja absurda — Ela soltou uma risada fraca — Terceiro, você está fedendo! Vamos tomar um banho e depois quando estiver mais sóbria, nós conversamos.
Rosalie foi extremamente paciente comigo. Ela me deu banho mesmo quando eu a empurrei, xinguei-a de vadia falsa e disse que seu cabelo não era natural. No final, ela ficou tão molhada quanto eu e teve que trocar de roupa também. O efeito do álcool já não me comandava tanto assim. Eu odiei. Odiei mais ainda a Rosalie por me deixar sóbria e lhe disse isso.
— Já viu as fotos do seu show de ano novo na internet? — Ela perguntou dando uma risada alta como se lembrasse de algo divertido e eu gemi quase na mesma altura. Mas que merda, eu sabia que aquela briga ia ser registrada... ah, mas quer saber? Foda-se.
— Que se dane. Eu não ligo — Respondi emburrada, com os braços cruzados embaixo do peito — Espero que saia mesmo em todo lugar e que a mulherzinha dele veja o que ele faz e com quem faz quando está aqui!
— Bella! — Exclamou indignada — Já não basta a mulher ser corna por todo esse tempo, você ainda quer passar na cara dela com fotos em que o noivo estava em pleno réveillon com outra?
— Eu também fui traída aqui, dá licença? Será que eu posso agir como uma cadela ciumenta e invejosa ao menos por hoje? — Perguntei irritada, levantando a voz e ela abaixou o nariz optando por um silencio amigável. Isso aí, atitude inteligente.
Já passava da meia noite quando ela fez um chá para nós duas e sentou na cama comigo. Eu não sabia exatamente o que lhe dizer, então comecei contando sobre a doce visita da bruxa ontem. Contei em detalhes como ela me destratou e jogou aquela bomba no meu colo. Falei do confronto com Edward e como eu esperava uma reação diferente, mesmo que ele tivesse feito merda, eu esperava que ele dissesse que a outra era passado e que agora estávamos juntos, mas ele não disse nada disso.
Só repetiu desculpas e mais desculpas feito a porra de um gravador.
— Você também não o deixou falar, Bella. Minha conversa com Emmett foi muito limitada, as coisas não estavam calmas por lá... ele não pode me falar muito, mas aparentemente o Edward não sente nada por essa mulher. Soou como se o casamento fosse arranjado.
— Se ele não sente nada por alguém que ele conhece desde criança, imagine por mim, Rose! A verdade é que ele tem um compromisso com ela e a traiu comigo. E nada me tira da cabeça que se não tivesse sido eu, teria sido outra. Apenas isso. Se eles são noivos há tanto tempo, compromissados, como ele podia estar na companhia de tantas mulheres no passado como você mesmo viu? Eu me enganei, Rose, eu me iludi e deixei-me levar pela ilusão do primeiro romance...
— Eu não sei, Bella. Você pode estar certa, mas também errada. Algo me diz que há bem mais nessa história do que nos foi contado. Não acha que vale a pena tentar descobrir, tentar falar com ele quando a poeira baixar?
Por que ela tinha que dar essas ideias? Sua obrigação era concordar comigo, xingar Edward em todos os palavrões existentes nessa língua, me proibir de pensar nele e beber. O que tinha de tão difícil em seguir a merda do protocolo? Só podia ser influência de Emmett... aquele canalha mentiroso de covinhas irresistíveis.
— Eu não sei. Preciso ficar bem, Rose. Preciso cuidar de mim. Foi de tanto pensar em Edward e no bem-estar dele que eu estou desse jeito — Declarei e ela engoliu seco, concordando com a cabeça em seguida — Você e Emm?
— Ainda não brigamos, porque eu precisava colher o máximo de informações sobre tudo, mas nós vamos com certeza — Afirmou deixando a postura mais rígida. Sim, claro que ela também estava irritada. Emmett havia omitido tudo por amizade ao Cullen — Nesse momento só estou preocupada com você.
Assenti. Eu também estaria preocupada se fosse ela. Não tinha ideia de como eu estaria mais tarde quando o efeito do álcool passasse por completo e a ficha caísse. A possibilidade de deixar Edward se explicar ainda não havia sido cogitada, porque a fúria e a tristeza que me dominaram queriam deixa-lo o mais distante de mim possível. Eu estava muito vulnerável ainda, tenho certeza que se fosse sua intenção, Edward me enrolaria fácil e eu não queria passar a mão na sua cabeça como se estivesse tudo bem outra vez, ignorar tudo que soube ontem cedo e me ferrar lá na frente.
Por fim, eu decidi que ia esperar. Que pensaria a respeito, mas não prometia nada. Talvez alguns dias sozinha me fizessem ver que eu não precisava dele tanto assim. Que não machucaria pra sempre e aí, quando me sentisse pronta, o confrontaria. Não para reatar, mas para concluir aquela fase da minha vida, que apesar de como terminou... sempre seria especial.
— Quem era? — Perguntei ao chegar na sala, Rose estava com uns papeis do hospital no colo, duas pastas e uma caneta, mas assim que cheguei, ela voltou a colocar o telefone na base. Eu nem sequer tinha ouvido tocar.
— Era Alice...
— Oh... — Vi quando ela mordeu o lábio e seus olhos pareciam implorar para que eu perguntasse o que Alice tinha a dizer, mas eu não queria saber. Ela não era a minha pessoa favorita no mundo nesse momento — Espero que ela não tenha te enrolado com alguma desculpa mentirosa sobre a sacanagem que eles todos fizeram comigo — Frisei em bem “eles” porque isso incluía o Emmett também — Certo?
— Ela não queria me dar desculpas, Isabella, queria saber de você — Respondeu com amargura na voz — Alice parecia realmente arrependida e muito preocupada com o seu estado. Claro que falou algumas coisas sobre como tudo poderia ter sido diferente se Edward tivesse a ouvido, mas nada muito claro. — Deu de ombros e voltou a atenção para os seus papeis.
O que será que ela quis dizer com isso? Eu interpreto que ela tenha pedido ao irmão para me contar a história de uma vez. Mas ela faria isso no intuito de que ele fosse honesto e ficasse comigo ou era para fazê-lo terminar tudo de uma vez e voltar para a noiva grega?
Senti uma pontada na lateral da cabeça e apertei ali com delicadeza tentando fazer o incomodo passar. Minha nossa, eu precisava seriamente de algum descanso.
Acordei assustada no meio da noite. Tinha tido um sonho terrível e é claro que ele estaria envolvido. Estávamos os dois em frente a um lago esverdeado muito extenso e bonito. Eu estava descalça e sentia a grama verde pinicando os meus pés, usava um vestido florido e delicado demais para o meu gosto, ele usava uma blusa branca com um decote em V e uma bermuda jeans, nas suas mãos, algumas pedras cinzas faziam barulho chocando-se uma com a outra. Ele tirava uma delas da palma da mão, olhava para algum ponto do lago e a atirava longe. Soltei uma exclamação surpresa ao ver a pedra atingir vários lugares diferentes da água antes de afundar.
— Você está pronta?
— Para o que? — Perguntei sem entender. O que íamos fazer?
— Para o casamento, sua boba — Respondeu sorriso e o meu rosto congelou em uma expressão confusa. Qual casamento? O dele com aquela mulher? Meu Deus. Edward me trouxe aqui para assisti-lo trocar votos com a outra!
Ele me puxou pela mão e de repente eu estava sozinha em frente a um tapete vermelho. Estava em um jardim. Notei que haviam algumas fileiras de cadeiras do lado direito e esquerdo preenchidas com pessoas que eu não conhecia. Minhas mãos agarraram o buquê com força.
Buquê?
Rosas vermelhas. Vermelhas demais. Pareciam pintadas de sangue.
E então eu estava diante de Edward vestido totalmente de branco. Ele me olhava radiante, os olhos brilhando de entusiasmo e felicidade. Deixe-me levar por sua reação ao me ver ali. Nós íamos nos casar? Ele havia deixado ela para ficar comigo? Por que não lembro das coisas?
O pastor aproximou-se de nós dois e sorriu pequeno para mim. Edward virou-se e frente pra ele e eu imitei o seu gesto. O homem pigarreou para começar a falar, quando alguém tocou o meu ombro com a ponta do dedo. Me virei e uma mulher em um vestido de noiva exageradamente grande e exuberante me observava com um sorriso doce, forçado até demais nos lábios.
— Obrigada por cuidar dele até aqui. Agora é a minha vez de assumir.
Novamente eu fui jogada para outro lugar sem que pudesse evitar, mas no mesmo ambiente. Agora eu parecia ser a penetra naquele matrimônio. Quis poder ver o rosto dela, mas o véu cobria e quando Edward o retirou, ela estava de costas para mim, mas ele estava tão... merda, tão feliz!
Gemi tentando ignorar a lembrança. Era só o que me faltava! Nem dormir ele me deixaria mais? Ótimo. Resmunguei algumas coisas ao levantar da cama e senti a cabeça um pouco pesada. Fui até o meu armário do banheiro e peguei duas aspirinas. Por que ninguém inventou algo assim para as dores emocionais? Esse cara ficaria trilionário rapidinho.
A casa estava quase toda escura, apenas um abajur na sala estava aceso. Sentei no sofá e liguei a TV. Hum, ainda era cedo. Estava passando aquele jornal das três da manhã. Troquei de canal e deixei no filme. Indiana Jones. Aquele de 84. O templo de alguma coisa... não foi o George Lucas que escreveu? O mesmo de Star W... ah, não, Edward!
Balancei a cabeça para espantar o pensamento enquanto desligava a TV e peguei meu notebook que estava largado no outro sofá. Abri e esperei que ligasse pacientemente. Abri uma página da internet. Em uma das minhas redes sociais, ignorei as notificações e cliquei para ver as solicitações de amizade. Duas de um pessoal lá do trabalho e outra... que eu não fazia ideia de quem fosse.
Quem diabos era E. James Northman? No seu perfil não dava para ver muita coisa, mas cada postagem em público tinha no mínimo 170 a 200 curtidas. A foto do perfil não me era familiar em nada, mostrava metade do rosto de um homem usando um chapéu de cowboy e atrás... muita neve. Uma cerca o separando de uma casa toda de madeira, pequena, simples e bonita.
Aceito o pedido.
Vasculho o perfil uma outra vez e... puta merda, é o Eric!
Eu ri pela primeira vez no dia. Que cara mais doido.
Oh, ele tem a Rachel também. E a Zoe! Tudo bem, ele não é um chefe perseguidor maluco, tem outros funcionários entre os amigos. Menos mal. Suspirei e passei os próximos 15 minutos olhando as fotos de suas últimas férias com a família. Eric é a cara da mãe. Uma senhora de meia idade ou talvez um pouco mais, aparentando ser muito gentil. E quantos irmãos, minha nossa! 5 ao todo. Todos loiros de olhos claros... ótima genética, patrão.
Bocejei me sentindo sonolenta outra vez. Uau, fiquei tão exausta de repente. Aproveitei aquele breve momento ali para excluir os perfis dos Cullens e do McCarty. Privei para novos pedidos e desliguei a coisa. Fui para casa sorrindo pequeno ao pensar na distração mais que necessária que ele me proporcionou. Eric seria um bom amigo, eu esperava de todo o coração que ele não tentasse nada... inapropriado, principalmente nesse momento, pois não saberia como iria reagir. Haviam muitos sentimentos em conflito dentro de mim e abrir a minha vida para outro homem me bagunçar, estava fora de cogitação.
Eagle-Eye Cherry — Save Tonight
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