Odeio Gostar
1 Eu odeio odeio gostar de você
O baixinho entrou na sala, praticamente correndo, um sorriso grande estampado em seu rosto infantil, encontrando o namorado sentado a ler uma revista qualquer. Keiyuu praticamente se jogou no colo de Shinji, recebendo um olhar de reprovação que fez questão de ignorar.
—Shinji-kun, hoje foram feitas as fotos para o novo single e... — parou de falar quando o maior o colocou no sofá, saindo da sala e o deixando de queixo caído e os olhos arregalados como pratos. Keiyuu suspirou, abaixando a cabeça e começando a brincar com os próprios dedos, sabendo que aquela não era a primeira nem a última vez que aquilo aconteceria.
Levantou-se e caminhou até a pequena cozinha, pensando no que fazer para o jantar. Shinji havia o desanimado, como estava acontecendo muito, ultimamente.
Olhou para os cabelos clareados. Suspirou. Queria que Shinji apenas o notasse, alguma vez, mas parecia que isso era impossível. Sabia que os olhos do maior sempre procuravam por outra pessoa que não ele, mas não se importava. Deu um pequeno sorriso, começando a preparar o arroz com camarão. Era com ele que o guitarrista estava; certo? Esforçar-se-ia ainda mais para que o moreno quisesse realmente ficar com ele, Keiyuu.
Mas algumas horas o pequeno se odiava por gostar de alguém que sequer lhe via de verdade. Odiava-se por alguém que nem ao menos era apaixonado por ele e o usava como uma boneca de plástico.
Não demorou muito para que o jantar estivesse pronto e a mesa bem arrumada, o vocalista rumando até o quarto e vendo o amante deitado na cama, de bruços, parecendo já estar dormindo. Aproximou-se, vendo a expressão serena e a respiração calma de Tora, dando um suspiro desanimado, desistindo de chamá-lo para jantar. Com certeza o outro ficaria furioso com isso, iria querer sua cabeça por tê-lo acordado.
Saiu do quarto, fechando a porta e voltando para a cozinha, começando a servir-se e ingerindo a comida sem vontade alguma, odiando ver que a mesma cena se repetia todos os dias. Ele comendo sozinho, Shinji fazendo qualquer outra coisa sem Keiyuu, o largando.
Ainda se perguntava por que o maior estava consigo. Ah, claro, sexo sempre que queria. Alguém em quem descontar a frustração por não ter quem desejava... Apenas um brinquedo. Keiyuu sentiu o rosto molhado e engasgou-se em meio a um soluço desesperado, empurrando as tigelas para longe, debruçando-se sobre a mesa e as mãos pequenas puxando os cabelos em um acesso de raiva.
Raiva de si mesmo por não conseguir se desvencilhar do outro; por não conseguir dizer "não" para os avanços dele; por não saber como ir embora sem deixar o coração ali, preso ao guitarrista.
Os soluços ficaram ainda mais altos, mas o pequeno os reprimiu, mordendo o lábio inferior, o corpo balançando desesperadamente. Odiava deitar na mesma cama que Tora e não receber sequer um abraço; esperá-lo todas as noites e nem mesmo uma explicação receber. O que estava fazendo ali, afinal? Por que não percebera ainda que tudo aquilo era somente um artifício para que fosse embora?
Levantou, segurando-se na borda da mesa e esperando o equilíbrio voltar para que pudesse caminhar até o quarto e pegar uma mala de viagem grande, começando a recolher suas coisas, não se importando se o maior iria acordar. É, iria embora, pediria abrigo na casa de Mai até que encontrasse algum local para se ajustar.
Procurou tudo, para que não restasse nenhum motivo para voltar até o apartamento do outro. Deu um sorriso triste, pensando em como ficara feliz quando Shinji o chamara para morar consigo. Sentira-se realizado, realmente amado, mas nem tudo eram flores, logo que se estabelecera com o maior, começara a ver o afastamento.
Tão perto e tão longe...
—Keiyuu? — Parou onde estava; quase deixando os livros em seu braço caírem, mordendo o lábio. Abaixou a cabeça sem dizer nada, voltando a guardar suas coisas. – Keiyuu, estou falando com você. O que está fazendo.
—Indo embora. — respondeu em um fio de voz, ignorando os movimentos do maior, que levantava e caminhava até si, segurando delicadamente seus braços, fazendo com que o encarasse.
—Como assim, indo embora? Por quê? — Keiyuu desviou o olhar. Se o encarasse agora iria desistir, iria se entregar mais uma vez e perder-se-ia ainda mais.
—Por quê? — riu sem humor, se desvencilhando e terminando de guardar suas coisas, não deixando nem mesmo a escova de dentes. -Porque eu estou cansado de esperar a noite inteira e você nem se importar. Estou cansado de deitar na mesma cama todas as noites e você sequer se mexer, Shinji e principalmente... Estou cansado de tentar ser quem você vê em seus sonhos e fora deles.
Keiyuu tinha a voz estrangulada, falando com dificuldade, tentando não chorar de ódio. Ódio por gostar de Shinji.
—Não é assim, Koi, você sabe... — O moreno ainda tentou dizer, mas precisou se desviar à tempo de um abajur voador. Viu o objeto espatifar-se na parede e os cacos de porcelana e vidro espalhados pelo chão do quarto.
—NÃO É ASSIM? CLARO QUE É, AMANO, NÃO ME CHAME DE IDIOTA! — o pequeno gritou, a voz potente ecoando pelo cômodo. – Sabe. Eu queria que você fosse um viciado, para que eu pudesse ser sua heroína, mas as coisas não são assim, não é? Olha pelo lado bom, agora você está livre de mim.
Tora olhava perplexo o (ex?) namorado fechar a grande mala e encaminhar-se para a porta, pegando o próprio chaveiro, retirando dali as chaves do apartamento e do portão do prédio, deixando-as no aparador, antes de calçar o sapato e abrir a porta, dando um sorriso triste e falando antes de sair.
—Agora você está livre, Shinji-kun. Procure Sakamoto-san e se declare. Não deixe a felicidade passar
—Mas... E você, Keiyuu... ? — Murmurou, ainda com medo de um outro ataque de fúria do baixinho, mas tudo que recebeu foi um negar de cabeça.
—Não finja que se importa. Certo? Você teve muito tempo para isso, mas... Eu vou me reconstituir. Ao contrário daquele abajur lá no seu quarto... Eu ainda tenho conserto, certo? — O pequeno saiu, andando até o elevador, respirando de forma aliviada pelo mesmo ainda estar no andar desejado, entrando e vendo as portas de metal se fecharem. Recostou-se nas paredes, lágrimas deixando seus olhos, os lábios entreabrindo para deixar um desejo do fundo do coração passar:
—Boa sorte, Shinji-kun... Seja feliz, por mim, certo?
Fale com o autor