Ode ao céu

1 Persiste — a tua imensidão.


Notas iniciais
Olá a quem chegou aqui. Primeiro, quero deixar claro que isso é um ensaio, ou seja lá do que você queira chamar. Eu escrevi só por escrever, surgiu na cabeça e agora está aqui. Mesmo assim, espero que goste ♥

Fazia tanto frio que os dedos estavam dormentes. Gabriel tossiu e enxugou o nariz com as costas da mão, limpou no calção de moletom. Preferia aquelas noites escuras e frias pra caralho, em que tudo o que se vê são os milhares de pontinhos no céu e as centenas de janelas dos apartamentos. Quando não via nem asfalto nem concreto. Pacífica. Encostou-se na sacada da varanda, passou a língua pela seda que enrolava e fechou.

— Não encontrei o isqueiro — Luis avisou. Não havia problema. Foram até a cozinha, que de tão abafada se tornava aconchegante naquele frio, e acenderam no fogão mesmo. Sentaram-se os dois, lado a lado, como se acostumaram a fazer depois de tantos anos, para fumar contra a grade de proteção da varanda, os pés pendurados para fora.

— Você terminou o livro? — enquanto soltava a primeira tragada, Gabriel perguntou.

— Quase chorei com o fim.

— Heh. Eu sabia que você iria chorar.

— Eu disse quase.

— Vontade de chorar já é praticamente chorar. — Pegou o cigarro de volta. Sabia que Luis sorriria e não insistiria, assim como sabia que ele costumava pôr os sapatos ao lado do sofá quando chegava em casa, e que não bebia vinho branco.

— Você não lavou as vasilhas da gata, né?

— Merda.

O enrolado trocou de mão até começar a queimar a ponta dos dedos, então foi apagado contra a grade e jogado lá de cima, descendo seis andares antes de se espalhar pelo piso do estacionamento. Deitaram para trás, sobre os lençóis e almofadas que deixavam ali especialmente para horas como aquela, e observaram os pontinhos perdidos no céu em silêncio. — Precisamos de uma frigideira — Gabriel comentou, quase num balbucio, de olhos fechados. Já estava bem longe.

— O que aconteceu com a nossa?

— O cabo daquela porcaria quebrou.

— Hum... — Luis suspirou antes de responder. — Ok. Podemos procurar uma no sábado.

— Amanhã ainda é quarta?

— Uhum.

— Minha nossa... estamos tão velhos.

— Tanta dor nos ossos.

— Nem sei como ainda estamos vivos.

Gabriel estralou os dedos e suspirou. A cabeça afundada no chão nada se parecia com a consciência que flutuava calma e acolhida, o corpo inteiro num transe sonolento. Fazia com que as grades do mundo desvanecessem. Tão calmo que as pontas dos dedos frios de Luis queimaram sua pele quando deslizaram pelo seu braço quente. Acendeu até sua última intenção, trazendo-o de volta num calor confortável.

Olharam um pro outro com as pupilas dilatadas de uma fome exigente. Sorriram antes de se beijarem, devagar como se nunca fosse amanhecer. Inconscientemente guiaram um ao outro até que fizessem amor de frente pra noite fria com milhões de pontinhos no céu escuro. Adormeceram sobre as almofadas que escolheram juntos, como se acostumaram a fazer depois de tantos anos.

Notas finais
Obrigada a quem leu ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!