Notas iniciais
Uma sugestão é escutar as músicas que foram citadas durante a leitura.

O ano era 2010.

Foi quando pela primeira vez o Eduardo pôs os olhos em Donnie, foi numa escola em que era novato; rapidamente tornaram-se amigos, melhores amigos, por razões simples de compartilharem o mesmos gostos, não sexuais, mas por quadrinhos. Eduardo sempre foi um bom desenhista, enquanto Donnie era um bom escritor. Mas havia um detalhe que faz com que Donnie fosse especial em relação ao outros amigos do Dudu: Ele foi o primeiro amigo. As pessoas tinham receio de aproximar-se dele com esse jeito recluso e às vezes tímido, dava-o o ar de um esquisito para a maioria e Donnie foi quem lhe estendeu a mão e o levou para os outros.

Eduardo considerou essa época o começo efetivo da vida dele.

No ano seguinte, algo aconteceu que separou os dois, Eduardo entrou em uma forte depressão que o excluiu ainda mais do mundo.

Eu estava transparente, invisível.

Após encontrar-se num fundo do poço no final de 2013, ele entrou em reclusão social total, acreditava-se que tudo acabaria ali.

Então ele conheceu Frederich. E apaixonou-se perdidamente por ele, e isso foi recíproco; depois de sete meses de amores secretos, Frederich se declarou para o Eduardo e este o pediu em namoro com a condição de ninguém saber disso. Ninguém conhecia a sexualidade dos dois. Nessa época eu já era amigo do Frederich e tinha uma mania de bisbilhotar as suas coisas, até que descobri um tal de Eduardo; fui conhecê-lo, gostei dele e fiz um objetivo: "Eu vou ficar com esse cara pelo menos uma vez até o final desse ano". Estávamos em 2014.

Até aqui eu não tinha importância nenhuma nessa história; Eduardo apresentou Frederich ao Donnie, na qual havia retomado contato por celular, e pouco tempo após, suas brigas com Fred começaram.

Estava pronta a cama de gato.

8 de Outubro, 7h54 da manhã.

No retiro de adoção de animais Eduardo procurava por Ellis, mas o lugar parecia vazio -nenhum cão nas jaulas- e a garota não estava a vista. Achando que estava sendo feito de trouxa, começou a disfarçar olhando para o chão, pegando a neve em suas mãos e continuava a dar curtos passos. A camada estava cada vez mais fina, isso é bom, afinal os 45cm de neve de antes atrapalhavam e muito a vida, o verdadeiro problema era por ser uma marca histórica nessa região, e toda essa água congelada quando derreter terá de ir para algum lugar.

– Ei, fofo! Aqui, eu to aqui! — ouviu-se gritos ofegantes como se estivesse correndo, a voz era familiar, era a Ellis. Ao olhar para trás, Eduardo a viu correndo em sua direção com um husky numa coleira. Quando finalmente se aproximou, parou para recuperar o fôlego e explicou: — Desculpa, não tenho permissão para reservar algum animal, se ele estivesse nas grades seria de quem chegar e se interessar primeiro, daí tive que esconder ele... Toma! — entregou a parte de segurar da coleira.

– Por que fez isso por mim?

– Te achei fofo, interessante. — dizia com um sorriso que Eduardo sempre invenjou e apreciou nas pessoas, um sorriso espontâneo, mas como ela estava claramente interessada nele, respondia curtamente, como um tímido sem saber o que mais falar.

– Ah, sei...

– Seu nome é Eduardo, não é? Ta a fim de sair esta noite, Eduardo?

– Sair? Para onde?

– Algum restaurante, comida chinesa, que tal? Conheço um por aqui que é de comer rezando em mandarim! Daí eu te apresento a cidade!

– Hã? Como sabe que não sou daqui?

– Tua pele é bronzeada e teu sotaque não é daqui, e é bastante carregado, com certeza mora aqui há pouco tempo, estou certa?

– Tão certa que assustiar... — às vezes, por culpa da timidez e nervosismo, Eduardo enrolava a língua e as palavras ficavam esquisitas.

– O que você disse?

– Ai, desculpa, ignora isso, esquece... Eu topo sair contigo sim.

Ellis riu bagunçando o cabelo de Eduardo com a mão e disse:

– Está nervoso? Você é muito fofo, Dudu! Quando for perto do horário eu mando uma mensagem pra você se arrumar e com o endereço, daí passa pro taxista e ele te leva até lá.

– Ah, claro, só não mande algo tão íntimo daquela jeito, meu noivo ficou com ciúmes e foi difícil de lidar...

– Noivo? Você é gay?

Com o silêncio que obteve com a pergunta, logo desapontou-se. Continuou:

– Então você é gay... Que desperdício, eu estava interessada. Bom, ainda podemos ser amigos, certo? Eu vou ligar pra você então, Dudu.

Era difícil acreditar, ele esperava alguma reação de repúdio, mas no fim deu tudo certo. Enquanto isso, Frederich estava sentado numa praça que estava incrivelmente bela com suas árvores congeladas e a paisagem branca; pôs o fone de ouvido e tornou a escutar a música "Exurgency" da violoncelista Zoë Keating, e fechou os olhos.

Na escuridão de suas pálpebras vinham imagens do passado: Da escola e escotismo comigo, das saídas com os amigos, da sensação de ser invisível na escola durante o fundamental, e de principalmente dos momentos com o Eduardo. Tudo mudava a cada nota da música, em seu ritmo leve e forte, agitado e calmo, trilhando a gota de lágrima que escorria teu rosto.

Apenas uma gota.

Logo, enxugando a lágrima, abriu os olhos, em seguida levantou-se e com as mãos no bolso tomou o caminho de volta para casa. Entretanto, no caminho, avistou Eduardo -que não havia notado a presença de Fred ainda- e permaneceu calado, observando-o sem mudar a expressão facial, decidiu aproximar-se lenta e discretamente e quando deu por si já estava lado a lado.

Eduardo ainda não o notou.

– Esse cachorro vai morar com a gente?

Num susto ao olhar para o lado e ver justamente Frederich quase o fez soltar o husky, e teria soltado se Fred não fosse ágil e agarrasse a mão de Eduardo na hora, este não soube como reagir, apenas recuperou a postura e respondeu:

– Sim, é.

– Tu não tinha ido pegar ele ontem? O que aconteceu?

– Quantas perguntas, por que está falando comigo?

– Só me sinto um pouco sozinho. Não que sua companhia me agrade, é desagradável e irritante, mas não conheço ninguém aqui.

– Sozinho? — riu. — Quando você me abandonou de repente, eu descobri o que é fi-

– Não vamos falar disso. — interrompeu.

A rua estava movimentada e os dois então ficaram em silêncio, Eduardo em especial se sentia mais incomodado e desabafou:

– Senti sua falta...

Sem nem olhar para ele, Frederich adiantou os passos tomando a frente e dizendo:

– Eu vou na frente.

E a música no fone de ouvido mudou para a famigerada "Shiver" de Lucy Rose.

[...]

Em casa, Eduardo trancou-se no quarto com o cachorro e pegou o celular, havia uma mensagem de Donnie.

Donnie: Quando voltar me avisa.

Eduardo: Voltei.

Donnie: E então?

Eduardo: Está muito difícil pra mim... Quero que ele morra, não aguento mais!

Donnie: Mas é o segundo dia dele aí não é? Fique calmo. :(

Eduardo: Não consigo, ele puxou assunto comigo hoje, ele fica me provocando com essas aproximações para me deixar confuso e destruído! Ele pensa que sou um boneco dele?

Donnie: Realmente... Ele está sendo bem filho da puta. Mas tenta ignorar. O que ele está fazendo agora?

Eduardo: Não sei, to trancado no quarto.

Eduardo estava chorando.

Meio-dia e ponto eu cheguei para horário de almoço, a casa estava mais silenciosa do que eu esperava, e os dois estavam lá. Eu não sabia, mas a tempestade estava chegando.

Abri a porta do quarto com minha chave e lá estava o Eduardo dormindo e o husky ao seu lado, o quarto de Frederich também estava trancado, provavelmente esses dois brigaram novamente, pensei. Minha única preocupação na hora era acordar os dois para almoçarem comigo.

Então deite-me

Deixe que o único som

Seja o do transbordamento

Dos bolsos cheios de pedras.

LOOK HOW THEY SHINE FOR YOU

Notas finais
Próximo capítulo: Melancolia. Será lançado no dia 5 de março. Restam 3 capítulos.