Odds - INTERNATO SALVATORE

2 Sob o mesmo céu azul


~ Hope Mikaelson - Casa da família à beira rio ~ Nova Orleans

Abri os olhos e levantei da cama num pulo ágil. Acordei com a nítida impressão de que alguém estava me observando, mas olhando em volta, vejo que o quarto está vazio e que as cortinas, leves e esvoaçantes, roçam as laterais da janela, com o cheiro de terra molhada invadindo o quarto. Sorri. Talvez tenha sonhado. Escolhi ignorar essa sensação e, em vez de me enrolar de novo na cama, acordei para a vida. Afinal, se o meu quarto está vazio, isso significa que Jo e Liz já estão perambulando por aí. Nunca vou entender como minhas melhores amigas acordam com tanta disposição logo de manhã cedo. Estamos de férias e elas continuam acordando no horário do colégio, parecem filhas de militares!

Também não é de admirar, Caroline é um verdadeiro general com cara de anjo. Às vezes, eu até tenho um leve medinho dela. E sendo filha dos meus pais, fui criada para não ter medo de ninguém. Muito pelo contrário, as pessoas é que deveriam ter medo de mim. Só que eles não conhecem Caroline como eu conheço. Eles conhecem a Caroline do tempo deles, mas não fazem ideia quem é Caroline, a Diretora. Sempre faço gracinha comparando-a com a Dolores Umbridge, de Harry Potter. Não é para tanto, admito: Caroline não é cruel; ela é justa. Mas não queira estar no caminho dela num dia ruim. Nunca. Meu pai concordaria comigo. O que eu chamo de um leve medo, ele chama de um profundo respeito. E aconteça o que acontecer, ele sempre defende o lado dela.

Minha tia Rebekah vive implicando com ele, dizendo que, no fundo, ele queria que Caroline fosse minha mãe. Na primeira vez que eu ouvi isso, me ofendi um pouco pela minha mãe, mas ela não. Pelo contrário, ela achou graça e me explicou que não foi isso que minha tia quis dizer: só que meu pai gostaria de ter um filho da Caroline. Minha mãe e o Tio Elijah adoram quando Tia Becky começa com essa história. Eles se juntam para azucrinar meu pai. Tia Caroline parece ser um ponto fraco, porque ele nem se defende. As gêmeas e eu descobrimos que nossos pais tiveram um romance quando já estávamos no terceiro ano da escola, na primeira vez que precisei convencer Caroline a deixá-las passar as últimas semanas de férias aqui em Nova Orleans. No que se refere ao Alaric, ele surtou legal. Ele odeia o meu pai. Tipo, bastante.

Nunca me explicaram muito bem essa história, mas Alaric não gosta muito que eu seja amiga das filhas dele; então também foi uma guerra convencê-lo a deixá-las vir. E nós achávamos que Caroline ia ser difícil. Mal sabíamos o que nos esperava... Precisou o tio Elijah se envolver para conseguirmos. E uma vez dada a autorização, se tornou um ritual de final de férias! Todo o final de verão, minha mãe vai buscar as gêmeas em Mystic Falls, e depois meu pai nos leva de volta, alguns dias antes do primeiro dia de aula.

Quando eu entrei para escola, tinha 7 anos, as gêmeas, cinco. Eu era Hope Mikaelson, filha de um casal de híbridos, dona de um potencial incalculável e tinha zero habilidades em controlar meus poderes. Josie e Lizzie, filhas dos donos da escola, eram sifões de nascença. Ou seja, se eu me descontrolasse, bastava que elas estivessem por perto para “abaixar meu fogo”. Elas conseguem drenar qualquer força sobrenatural de qualquer um, ou qualquer coisa. Para algumas pessoas, isso pode ser assustador, ou até uma sentença de morte, para mim foi uma solução para vários problemas. E assim começou nossa amizade improvável, que fica mais forte ano após ano. Por isso, nossos pais tiveram que se adaptar. Eles poderiam ter proibido, mas isso podia ter dado muito errado. Talvez Lizzie acatasse, já que ela é obediente e detesta se meter em confusão, mas eu e a Josie somos feitas de outra massa, e teríamos literalmente tacado fogo no cabaré.

Eu sou a mais velha, e a que mais arruma confusão naquela escola. Minha proximidade com Caroline vem, em primeiro lugar, das vezes em que eu fui parar na diretoria. E Josie não fica atrás, normalmente eu até levo as culpas em vez dela, porque ninguém merece enfrentar a própria mãe na diretoria. Isso devia ser contra a lei. Não tem como você se defender! Adoro que a Josie não tem filtro: ela sai metralhando a verdade o tempo todo. Não existe segredo nem vergonha com ela. Você perguntou, ela responde. É frustrante, às vezes, mas o cérebro e a língua dela não conversam muito um com outro, sempre muito distraída com os milhares de outras coisas que acontecem na cabeça dela ao mesmo tempo. É engraçado, de vez em quando. Para Lizzie, é um terror.

O sonho da Liz é ter um botão de desliga que controle a Jo. Talvez a professora Bonnie pudesse ajudar nisso, mas é claro que Liz nunca pediria algo assim. Ela se limita a sonhar... e reclamar eventualmente. Liz é tão quieta que fico imaginando se é difícil para ela aguentar a gente. Ela gosta muito de ficar sozinha, volta e meia foge da gente e se esconde num canto com seus livros. Tio Elijah diz que a gente não devia implicar com ela, porque, quando formos mais velhas, ela vai ser perigosa. Tia Becky disse que ele fala assim porque se identifica com ela.

Saio do quarto de banho tomado, cabelo molhado e ainda calçando o segundo sapato, pulando que nem um saci e gritando por Lizzie. Não que funcione, se ela estiver lendo — e com certeza está. Eu poderia ser esquartejada e me esgoelar de gritar no processo que ela nem piscaria os olhos até chegar ao final do capítulo. Passo pela mesa e engulo rapidamente duas fatias de pão e meio copo de suco, guardo uma maçã no bolso e saio. Quando meus olhos se acostumam com a luz e eu volto a enxergar, vejo Lizzie sentada na rede, lendo, como era previsto. Meu tio Elijah está concentrado, olhando para minha mãe na sua forma loba e Josie está rindo. Como algumas crianças gostam de brincar na piscina, vendo quanto tempo conseguem ficar embaixo d'água sem respirar, Jo gosta de ver até onde consegue manter um feitiço de barreira contra minha mãe. Josie tem só 14 anos, mas ela leva os treinamentos a sério. Não porque deve fazê-lo, mas porque ela se diverte, até mesmo quando se machuca. Ela adora uma surpresa, seja boa ou má.

Minha tia Rebekah aparece entre as árvores da floresta, alguns momentos depois de mim, vestida de preto, calça de couro e botas altas. Ela é loira. Linda. Poderosa. Mas tem o olhar mais doce que eu conheço. Ela é minha tia preferida, a que mais me ajuda a conseguir o que quero quando as coisas ficam difíceis para o meu lado. Vou na sua direção e recebo um beijo na testa, e um segundo na bochecha. Ela fica tensa por um segundo antes de anunciar para todos:

— Hora de ir para a cidade, pessoal. Nik nos espera – ela para para fazer uma pausa dramática e segue dizendo – E Caroline também.

Minha mãe entra em casa e volta na sua forma humana terminando de se vestir no caminho, Tio Elijah se aproxima e até Lizzie larga sua leitura e foca na tia Becky.

— O que minha mãe está fazendo aqui? Aconteceu alguma coisa em casa? Com meu pai? Com a escola? – Josie questiona em questão de microssegundos e não para por aí. – Nós fizemos alguma coisa de errado? Estamos sendo castigadas? Minha mãe está bem?

Antes que ela possa formular as milhares de outras perguntas pipocando na sua mente, tia Rebekah responde, focando o olhar do tio Elijah.

— Não aconteceu nada de errado, meninas, só uma pequena mudança de planos. Está tudo bem em Mystic Falls, com a escola e com seus pais, Josie – ela responde, agora olhando para ela, de um modo bem mais seguro do que quando olhou para meu tio. — Sua mãe precisava de algumas coisas para Bonnie e veio aqui ver se encontrava. Eu vim buscar vocês para almoçarmos juntos.

Eu e Josie nos olhamos rapidamente e, por um segundo, eu me senti a gêmea dela. Lizzie revirou os olhos quando, sem dizermos nenhuma palavra, entendeu o que pensamos.

Hora de ver o circo pegar fogo! Caroline e meu pai juntos em Nova Orleans? Almoço em família? Tia Becky não vai deixar passar essa oportunidade de zueira. Eu até estiquei as mãos para me controlar e não bater palmas. As gêmeas e eu vivemos confabulando maneiras de fazer nossos pais conviverem mais. Temos esperanças de que as implicâncias da tia Rebekah não sejam só histórias e que eles gostem mesmo um do outro e acabem juntos. Embora não veja isso acontecendo. Eles parecem mal se suportar na presença um do outro, chega ser constrangedor nos raros encontros que presencio, mas seria legal ter uma espécie de parentesco com elas. É um sonho egoísta, porque só queremos isso para proveito próprio, mas isso é uma história para outro momento. Agora é hora de ver esse shipp navegar! Já estou rindo por dentro. Esse almoço vai ser no mínimo engraçado. Tia Becky sorri como o Garfield. E depois as crianças somos nós...

Revisão:

Drika Landim, Guilherme Rodrigues e Katti Vianna.