Oculta

2 Plano Novo


Acordei incomodada. Um barulho de zíper sendo aberto, cheiro de café, luz vindo de algum lugar e contemplando o meu rosto que só desejava a escuridão no momento. Derrotada, esfreguei os olhos e me sentei lentamente.

Quando pude observar melhor, me deparei com Mia vestindo uma calça jeans qualquer, uma blusa encardida e um blazer cheio de marcas escuras desagradáveis. Sério, meus olhos ardiam com aquilo. Mesmo não sendo feia em absoluto, era tão estranho como desnecessário uma pessoa se vestir tão mal.

— Bom dia. — cumprimentei, tentando ser educada. Kiara ainda estava deitada em cima de mim, então a movimentei cuidadosamente para o chão sem que a acordasse. Não deu certo. A gata saiu apressada para perto da dona.

Mia me fitou por alguns segundos e assentiu. Eu não sei se aquilo era retribuir o meu "bom dia", mas de cara era percebível que não era de falar muito.

— Você ouviu o quanto ela miou de noite? — comentei, puxando assunto.

— Não. — respondeu Mia, calçando um tênis que desviei o olhar para não ter espasmos lembrando de sua falta de ética à moda.

— Sério? Foi bem alto.

— Eu tenho o sono pesado. — respondeu, indo em direção à cozinha. Trouxe uma xícara consigo e me ofereceu. Era café com leite. Aceitei de bom grado, mesmo tendo certos problemas com café.

Mia se sentou em cima da mesinha de madeira e, como antes: séria, inexpressiva e braços cruzados.

— Por que fugiu?

— Bom... Sabe... meu pai quer que eu faça faculdade de economia. Mas de jeito nenhum... — comecei, sem saber como explicar corretamente.

— Você fugiu de casa porque não quer fazer faculdade? — questionou confusa.

— Não, eu quero! Mas não disso, ué...

— E sua mãe?

Travei. A palavra “mãe” me causava desgosto. Olha, sendo direta... É horrível confiar, se espelhar, amar uma pessoa e ela te decepcionar. Não tem sensação pior. Descobri meu defeito de confiar com facilidade nas pessoas desde então. Certo, no caso, era a minha mãe, mas...

Veja bem. Mal conheço esta mulher, Mia, e confio nela apenas por ter me ajudado uma única vez. Isso é muito errado. O bom é que, pelo menos, reconheço isso.

— Não tenho contato com ela há alguns anos. — respondi, não querendo me aprofundar. Mia me fitou com cautela. Aquele olhar realmente causava calafrios. Era muito estranho. Ela não parecia ser tão velha, mas seu olhar passava essa sensação. A sensação de uma pessoa muito “experiente” te examinando e pontuando todos seus erros mais discretos. Eu só consigo recordar da minha vó me olhando desse jeito.

— Somos obrigados a aceitar e conviver com o que os pais impõem mesmo sem concordância. É o que faz de nós filhos. — argumentou, levantando-se.

— Mas não quero viver aceitando tudo que meu pai acha ser o certo. — respondi indignada.

— A partir do momento que você não paga suas contas, sua opinião não existe.

Procurei algo para rebater, mas nada veio. O modo que me olhava fazia a frase realmente ter sentido. E, por mais que eu não concordasse, fiquei quieta.

— Não quer dizer que eu concorde com ele. Entendo a sua posição, por mais que não esteja me contando tudo. — acrescentou, me deixando confusa. Como sabe que estou omitindo algo? — Mas e depois?

— Depois? Como assim? — questionei mais confusa ainda.

— Até quando vai fugir? Não posso deixar que viva aqui para sempre. Você pode voltar, mas não quer. O que fará a respeito?

Eu não tinha pensado nisso antes de fugir. Certamente, estou na merda. Quer dizer, eu só não queria pensar, na verdade.

Bom, não dá para ficar por muito tempo e eu muito menos queria ficar. Mas que alternativa me resta? Eu não voltaria para casa. Já decidi isso há tempos.

Mas, aparentemente, a moça da salvação não me aturaria por muito tempo também.

— Eu não sei...

— Qual a sua idade?

— Dezesseis. — respondi meio sem jeito.

Por um milésimo de segundo pude ver um canto da boca de Mia se movendo para um “mini-meio-sorriso”. Eu juro.

— Comece pelo básico: sustento. Um emprego. E estude. O resto pode esperar um pouco. Compreende agora?

Eu assenti. Mas como diabos arranjaria um emprego com tanta facilidade?

— Você fala como se fosse fácil... — Deixei escapar.

— A questão é que, independentemente de ser fácil ou não, você tenta. A tentativa já lhe torna uma pessoa melhor do que alguém que simplesmente deduz as coisas. — rebateu.

OK, ela realmente era uma pessoa ignorante. Mas eu não queria ser despejada tão rápido, então me mantive quieta.

— Eu vou te matricular no meu colégio. Se comprometa a estudar e ajudar nas despesas se ficará aqui por um tempo, certo? — inquiriu ela. Apenas assenti com a cabeça.

— Você trabalha lá? — questionei, curiosa.

— Trabalhar? — indagou, franzindo o cenho para mim. Assenti para ela, enfatizando o que estava perguntando. Ela meneou a cabeça. — Não. Eu só estudo lá.

Ela era estudante? Estou apatetada.

— Você tem quantos anos? — perguntei, por fim.

— Dezoito. — respondeu, e seu semblante pareceu achar desnecessária a pergunta. — Eu vou precisar de alguns documentos seus. Em que ano está?

— Terceiro do médio. — respondi, ainda com uma cara de abestada. Eu podia jurar que ela tinha mais que 20, 22, 25 anos, no máximo. Mas fiquei aliviada com aquilo, de certa forma.

— Terceiro mesmo? — quis confirmar ela. Eu assenti em concordância e procurei minha mochila ao pé do sofá.

— Sim. É que entrei adiantada...

— Interessante. — comentou, apenas. Finalmente, achei minha carteira. Em seguida, entreguei o necessário para Mia. — Você tem vinte minutos.

— O quê? Pra quê? — questionei, totalmente confusa.

— Para se vestir. Se não tem roupas, posso arranjar algumas no meu quarto.

Sem nem ao menos disfarçar, dei uma boa olhada de cima a baixo para ela. A resposta veio como um flash: Definitivamente não.

— Mas por quê? Pra onde vamos? — perguntei, ainda sem entender.

— Para a aula. Já se passaram dois minutos. Está esperando o quê?

Estou indignada. Ela é a pessoa mais sem noção que nunca havia conhecido na vida.

Onde uma mulher consegue se arrumar em vinte minutos!?

E continuou me fitando, aguardando que me movesse para fazer o que designou. Ela realmente estava falando sério. Meu Deus.

Peguei minha mochila e corri para o banheiro.

Estava começando a achar que era melhor voltar para casa.

XXX

Caminhamos meio frenéticas — ou apenas eu, pois Mia permanecia com a mesma postura e face — até o colégio, felizmente próximo de seu domicílio.

Eu usava uma blusa cinza de lã com uma jaqueta de couro por cima, junto de minha calça skinning e tênis vermelhos — o único calçado que consegui enfiar na bolsa, além das sapatilhas que vieram comigo nos pés. Eu estava assando naquela roupa por causa do suor, mesmo sendo um dia frio.

Certo, admito: Nunca estudei em colégio público. Aliás, estudei em casa até os nove anos. Só depois me matricularam em uma escola particular.

A atmosfera era totalmente diferente. Eu podia ver a maior liberdade que os alunos tinham por conta da desorganização comum de qualquer coisa nomeada com o termo “público”. Mas eu não via aquilo como algo novo. Só não estava na lista de costumes.

O colégio era composto por dois prédios bem extensos, um de cor verde, muito desbotado e horroroso, e outro vermelho, que parecia mais cor de água de salsicha. Detrás destes, dava para visualizar uma parte do imenso campo de futebol e outros estabelecimentos maiores cobertos.

Acompanhei Mia até o prédio vermelho-salsicha e fomos ao que parecia ser a diretoria. Eu nem tinha materiais para estudar. Não consigo imaginar o plano que a garota tinha na cabeça.

Mia sinalizou para que eu permanecesse na recepção aguardando. Dei de ombros e fiquei. Alguns minutos depois, ela voltou com alguns papéis em mãos. Saímos então para o corredor, já vazio por conta da primeira aula ter iniciado.

— Entre na próxima aula. É de Educação Artística. — Mia me entregou um dos papéis em mãos. Mas já? Sério? — Acompanho você até a sala e o resto é por sua conta.

— Mas... – ia começar a argumentar sobre o material e disso tudo ser muito repentino, mas Mia parou de andar de repente. Tirou uma chave do bolso e se aproximou de um dos armários do corredor. Abriu o compartimento e só pude ver: livros, livros, cadernos, livros, canetas, lápis, cadernos, livros e... livros. Como cabia tudo isso em um armário daquele tamanho?

Ela retirou um caderno de lá, depois uma caneta, lápis, borracha e me entregou. Tudo estava em ótimo estado. Novos em folha, na verdade. Analisando melhor, todo o material do armário tinha uma boa aparência e aparentava boa qualidade também.

Agora compreendi o tipo de pessoa que Mia era. E acabei por admirá-la... ou invejá-la. Um pouco de cada, talvez. Nunca que eu gastaria grana com aquilo. Se é que necessitaria disso. Meu pai sempre me bancou em tudo mesmo.

— Use-os por enquanto. E lembre-se do que falei. — ressaltou, fechando a porta do compartimento.

— E você vai aonde? — perguntei. Nem a pau que eu ficaria perdida ao fim da aula.

— Espere próxima à porta da sala quando o sinal tocar que encontrarei você. — afirmou. Enfim, o sino então tocou. Alunos começaram a sair das salas, o clássico alvoroço se iniciando... Mia me pegou pelo braço e meio levou e arrastou junto de si. Caminhamos ainda por uns três corredores. Isso porque estamos só no primeiro prédio. Esse lugar é grande.

— Boa sorte. — desejou, parando em frente a uma sala. A maioria dos alunos já estava presente.

— Eu detesto essa aula. — desabafei muito apreensiva.

— Você é composta por cores. Elas molduram você e sua personalidade. Tudo que compõe cor ou traço é arte. — argumentou Mia. Eu a fitei sem entender o motivo daquele comentário. — Se detesta a arte, detesta a si mesma?

Continuei a fitando sem entender. Por que, em um momento como aquele, me diria algo assim?

Imaginei uma feição irônica, lasciva, algo que escondesse uma risada ou sei lá. Mas não.

Olhos sérios. Rosto inexpressivo.

Esta era Mia.

A moça da minha “salvação”.