→ AVIÃO QUE SEGUIA DE PARIS

PARA NOVA IORQUE CAI NO MAR

→ SOBREVIVENTES PROSSEGUEM

SENDO RESGATADOS EM ACIDENTE

DE AVIÃO NA FRANÇA

→ QUANTIDADE DE PESSOAS

DESAPARECIDAS APÓS QUEDA DE

AVIÃO CHOCA INTERNAUTAS

→ EQUIPE DE SALVAMENTO PASSA APUROS:

AVIÃO EXPLODE EM ALTO MAR

→ MUITOS FERIDOS APÓS EXPLOSÃO EM

TRAGÉDIA RECENTE DE AVIÃO

→ POPULAÇÃO DA FRANÇA PRESTA

HOMENAGENS ÀS VÍTIMAS

→ FAMÍLIAS DAS VÍTIMAS INICIAM PROCESSOS

CONTRA COMPANHIA AÉREA

— Caralho, não quero isso. — bufei. Em vez, digitei “Denise Cortês” no Google.

→ EM ACIDENTE DE AVIÃO, MORRE DENISE CORTÊS,

FUNDADORA DA CORTÊS INC.

→ CORTÊS INC. CONFIRMA MORTE DE

DENISE CORTÊS, FUNDADORA DA MESMA

→ AOS 39 ANOS, MORRE DENISE CORTÊS,

FUNDADORA DA CORTÊS INC.

→ MARCA FAMOSA DE VESTUÁRIO TEM

FUNDADORA MORTA EM ACIDENTE DE AVIÃO

AOS 39 ANOS, MORRE DENISE CORTÊS, FUNDADORA DA CORTÊS INC.

Chocante! Vítima de um acidente aéreo, Denise Cortês Raymond, fundadora da CORTÊS INC., empresária, fashionista e estilista, faleceu nesta sexta-feira. O voo, que seguia de Paris, França à Nova Iorque, Estados Unidos, caiu em alto mar deixando, incluindo a mesma, muitas outras vítimas e feridos.

Dona de uma fortuna que deixa uma incógnita por não ter jatinho privado, Denise jazia na primeira classe, inclusive sem nenhum acompanhante, segundo informações diretas da companhia aérea. Viajou a trabalho com alguns membros de sua equipe — incluindo a renomada Mia Delilah, tão mencionada em nossos artigos recentemente. Foram mencionadas, também, informações de que sua filha, Bethany Cortês Taylor, também teria ido a Paris e voltou antes de sua mãe, junto de Delilah. A imprensa ainda não obteve informações sobre o que causou o terrível acidente [...]

De repente, o notebook desligou. Eu franzi o cenho, não entendendo — havia acabado de tirar o carregador porque a bateria estava completa. Até que olhei para cima e lá estava Mia. E sua mão na lateral do equipamento. E algo me diz que em cima do botão de desligar.

— Por que prossegue pesquisando essas coisas, Bethany? — questionou, sentando-se ao meu lado.

Ela estava vestida de maneira casual: camiseta preta, jeans, um sapatênis preto de camurça; os cabelos soltos, caindo sobre os ombros e meio bagunçados.

Entretanto, e nunca me imaginei dizendo algo do gênero: Mia estava péssima. Não me refiro à suas roupas, claro. É que suas olheiras estavam bem visíveis e o seu semblante mais sério que nunca; os olhos sem brilho algum e até o cabelo perdeu a essência de cor (e sei que nunca o pintou). Mas eu não podia comentar muito, pois seria como não olhar para o próprio umbigo.

Faz quatro dias. Quatro dias enfiada em meu quarto — e não de meu apartamento, mas meu antigo quarto. Na casa do meu pai.

O cômodo se encontrava da mesma maneira que deixei ao fugir, inclusive. Era bizarro. Eu tinha enjoado do álbum “1989” da Taylor Swift há séculos, mas um pôster enorme de sua capa prosseguia colado em minha porta. Porém, calma, não havia teias de aranha nem nada. Estava tudo bem limpo.

Quatro dias. Quatro dias em que uma pessoa muito importante para mim deixou o mundo.

E como estou? Eu realmente não sei como estou.

— Você comeu hoje? — perguntou Mia.

Mia é muito inteligente, aliás. Tenho que reconhecer.

Meus irmãos e meu pai vieram conversar comigo no primeiro dia, e eu até escutei por alguns minutos. Mas a partir de certo momento, suas vozes pareciam me irritar, ainda que estivessem bem preocupados.

Michael chorava muito. Jason, apesar de ser o menos sensível entre nós, também chorou bastante. Até meu pai, a frieza em pessoa, chorou pela ex-mulher. Todavia, choravam ainda mais quando me fitavam.

Pois viam que eu não chorava.

Não, não estou brincando. Eu não derramei uma lágrima sequer. Nenhuma. Nem ao menos quando me forcei a chorar.

Aliás, quase esqueço de dizer o porquê de eu achar a Mia tão inteligente. E isso é só uma prova de como estou agindo ultimamente.

É inteligente porque não pergunta se estou bem. Ela sabe a resposta. Ou não, eu acho. Nem eu sei. Nunca pensei que fosse tão estranho não sentir... nada. Não sentir nem tristeza, nem felicidade.

Parecia que Denise não valia nada para mim. Como se não tivesse sido minha mãe, aparentemente.

Acho que meu cérebro não processou corretamente o fato de que esteja morta.

— Comi não faz muito tempo. — respondi. Na verdade, eu não lembro qual foi o horário em que me alimentei. Nem quando acordei também. E Mia não deixaria isso passar, com certeza.

— Está com fome? — perguntou, tirando o notebook de cima do meu colo e o depositando em cima da mesa de estudos. Eu a observei. — Não pesquise mais sobre isso.

— Por que não? Quero saber o que realmente aconteceu. — rebati, puxando os fios de cabelo para trás que teimavam cair em frente aos meus olhos. Não fiz o melhor dos coques.

— Saber o que aconteceu mudará o que aconteceu? — argumentou. Permaneci quieta. — Seu silêncio diz não.

— Da mesma forma que seu silêncio diz — Deitei-me na cama, fitando o teto. — que voltou pra empresa mesmo tendo solicitado, inclusive, para a falecida, sua demissão. Seus interesses mudaram bem rápido, não é?

— Meu pedido de demissão não foi oficializado, Bethany. Não foi formal.

— E o que te impede de formalizar?

— Eu me senti na necessidade de não efetivar isso...

— Parabéns pra você e seu coração grande. — ironizei, fechando os olhos.

— Faz bem lembrar que é este coração grande que acoberta você quando foge de casa, te dá comida e também abrigo. Espero que não tenha esquecido disso. — ressaltou. Eu revirei os olhos, mesmo fechados.

— Se quer jogar suas boas ações na minha cara, fique à vontade. Eu tô pouco me fudendo pra isso.

— Está mesmo. Faz tempo desde a última vez em que transou comigo. — rebateu. Eu comecei a rir.

— Uau. Não esperava ouvir isso de você. — comentei, esfregando os olhos. A luz forte do sol vindo da janela deixava minhas pálpebras incomodadas.

Senti o colchão afundar. Algo que cheira muito bem se aproximou de mim, ou melhor, ficou sobre mim. Mas não senti seu toque, nem sua pele. Só senti próxima.

— Até quando vai descontar em mim? — ouvi sua voz grave questionar. O hálito quente bateu com tudo em meu rosto. Engoli em seco, mas não me mexi e mantive os olhos fechados. — Sei que está sofrendo. Sei que não estou sendo presente o suficiente neste momento, mas será que não percebe?

— Perceber o quê?

— O quão está sendo egoísta? — Mia suspirou antes de voltar a falar. Eu engoli mais seco. — Acha que estou bem? Denise era minha chefe. Eu passei tanto tempo com ela quanto passei com você. Acha que está tudo bem para mim? Saber que uma pessoa tão próxima não está mais aqui? Que, além disso, essa pessoa é mãe da minha namorada que passou a não demonstrar nada de uma hora para outra, e eu realmente não sei o que fazer numa situação delicada como essa? Voltei para a empresa, mesmo não querendo, porque senti que era o certo a ser feito. É algo que você deveria se importar. Você é a herdeira. Voltei por sua causa também.

— Você não precisa sempre fazer as coisas pelos outros.

— Bethany Cortês Taylor, será que dá para pelo menos uma vez olhar nos meus olhos!? — enraizou, me chacoalhando pelos ombros. Eu a fitei assustada. Seus olhos pareciam esfumaçar. Nunca a vi com tanta fúria. — Eu fiz uma escolha, Bethany. Não sei se lembra, mas escolhi amar você. Essa foi a minha escolha. A partir desse momento, aceitei qualquer consequência. — desabafou. E então seus olhos mudaram outra vez.

Pareciam nublados, baixos.

Frios. Sem vida.

O que estou fazendo?

— E sabe qual é a pior parte? — acrescentou, fechando os olhos em seguida. — Eu não sei se faria o mesmo por mim.

Ah, não.

— Você ENLOUQUECEU? — berrei, sem querer. Mia permaneceu imóvel, sem me fitar, em contrapartida. Mas se afastou, sentando-se em cima da minha pélvis.

Agora eu é que estava furiosa.

— Não, não enlouqueci. — afirmou. Sentei, com ela em meu colo, ainda pulsando de raiva. Tive que olhar para cima para fitar seus olhos. Continuava implacável.

Como conseguia ser assim? Parecia imune a qualquer coisa. Como se nada pudesse a ferir, como se nada a abalasse.

Como conseguia ser tão forte mesmo que não parecesse confiante a tal ponto?

— Se quer que eu enxergue as coisas que realmente sente, demonstre. — declarou.

— Por que diz essas coisas? Parece que gosta de me machucar. — desabafei. Senti um gosto salgado na boca. Não, agora não. Preciso de mais tempo.

— Algumas pessoas dizem que o amor machuca.

— E machuca mesmo. — concordei, pousando a testa em seus seios. Eu estava começando a soluçar.

— Não, não machuca.

— Machuca sim. — afirmei de novo. — Eu faria qualquer coisa por você. Não ache que... que as coisas diminuíram o que sinto por você. Me desculpe.

— O amor não machuca, Bethany. — repetiu, levantando o meu rosto para fitar o seu. — A falta dele sim.

Ela me deu um beijo. O primeiro em dias. Admito que nunca senti tanta saudade em ter seus lábios sobre os meus.

Quando nos separou, pude ver seus olhos brilhando. Eram lindos de qualquer forma, é verdade. Mas assim eram muito mais.

— Desculpe pelo o que eu disse, Beth. É a sensação que sinto, mas não é a verdade e eu sei que não é. Não controlamos o que sentimos, amor. Preciso que prove que é verdade sempre que tiver chance. Não é um feito complicado.

— Desculpe. Desculpe mesmo, Delilah. — pedi, sentindo as lágrimas virem mais fortes do que nunca.

— Lembro-me da primeira vez que chorou na minha frente. — sussurrou Mia, acariciando minha cabeça. — Só não chore por nossa causa. Pense em Denise. Você está suja, então chore bastante.

Eu ri. E uma risada no meio de um choro é a pior coisa que você pode presenciar, devo ressaltar.

— “É o único jeito pra limpar essa sujeira”. — recitei o que havia me dito não muito tempo atrás, mas pareciam milênios.

Eu sentia as lágrimas descerem pelas bochechas, minha pele ficando úmida, grudenta, e molhando a camiseta de Mia.

Só deixei aquela maré ir.

Finalmente ir.

XXX

— Ela ainda tá no quarto? — questionou Jason, sentando-se na bancada da cozinha enquanto eu preparava o almoço de Bethany. — Não precisa cozinhar. A gente tem uma pessoa pra isso, querida. Falando nisso... Cadê a Deise?

— Está sim. E, sobre a mulher que estava aqui antes, eu disse a ela para descansar até eu terminar tudo. — murmurei, entendendo que quem perambulava por cá mais cedo era Deise, chefe de cozinha da família de Bethany.

— Será que Beth ficaria com ciúmes se te contratássemos no lugar dela? — brincou Jason, dando risada. — E seria pedir demais se eu pudesse pegar um pouquinho? Tô com fome também.

— Se gostar de Strogonoff, fique à vontade, Jason. — falei, dando-lhe um singelo sorriso, me sentindo leve. Depositei o arroz num prato, junto do feijão e despejei o caldo com a carne do Strogonoff. Aproveitei para acrescentar algumas folhas de alface e pedaços de tomate também.

— Ó glória! Eu amo Strogonoff! — glorificou Jason, saindo rapidamente da bancada em busca de um prato. — E me chame de Jay, por favor.

— Acho que vou colocar um pouco para mim também. — comentei, sentindo a barriga roncar. Eu não havia jantado desde que cheguei do serviço. Exato, jantar. E Bethany não havia nem almoçado.

— Aliás... — murmurou Jason, depositando o prato na mesa. Eu o fitei com atenção. Não havia tantas semelhanças entre ele e Bethany, ao menos não tão visíveis quanto o cabelo dourado e os traços dos olhos. Até as fendas que se faziam entre as sobrancelhas eram parecidas quando as franzia.

Antes de prosseguir o que ia dizer, arregaçou as mangas do moletom que vestia, puxando suas madeixas louras para trás e pegando o prato novamente.

— Obrigado por cuidar dela, Mia. A situação... Nenhum de nós tá sabendo lidar...

— Sua irmã é importante para mim. Não precisa agradecer, Jason.

— Caramba, você é tão formal. — comentou, rindo consigo mesmo. Eu inclinei a cabeça para o lado. Lembro-me de Bethany sempre dizer o mesmo. — E eu sei, mas agradeço mesmo assim. Quando soube que ela havia ido embora... Cara, quase tive um piriri. Quis correr atrás, e fui mesmo atrás, mas, bem... Sem sucesso, claro. Contratamos até um detetive particular, pra você ter uma ideia.

— Você entende o porquê de ela ter ido embora? — questionei, curiosa.

— Entendo sim. — murmurou, desviando o olhar. Mais uma semelhança entre irmãos localizada. — Meu pai... Ah, querido papito. Não posso comentar muito, sabe. É desconfortável até pra mim. Bem... Ele é uma pessoa muito impulsiva. E Bethany sempre foi a mais sensível. E também a mais rebelde.

— Eu não sabia disso. — comentei.

— Quê? Era a Bethany que iniciava as rebeliões em casa. Contrariava meu pai, e principalmente Denise. Elas, discutindo, era a melhor coisa de se ver e alegrar uma peste como eu. Parecia briga de gente adulta mesmo. — comentava ele, sorrindo meio distraído. — Mas Bethany nunca discutia à toa. Não fazia birra. Só não gostava de injustiça. Não gostava quando a proibiam ou censuraram sem explicações, quando não a deixavam fazer o que queria sem dizer o porquê. Eu e Michael aceitávamos tudo, em vez. Era o que devíamos fazer quando crianças, né. Mas ela não. A bicha batia boca mesmo.

— Isso parece algo que ela realmente faria. — ponderei, sorrindo.

— Denise não é minha mãe, sabe. Não sei se Bethany chegou a contar pra você. — continuou ele, porém mais cauteloso desta vez. Eu assenti. — Mas por um tempo ela foi. Nos considerou filhos, mas a gente não deu muita bola. Me sinto mal ao lembrar disso agora. O que você acha?

— Por que quer saber o que eu acho?

— Porque parece que você é boa em dar conselhos. — respondeu ele, sorrindo. Jason era muito juvenil, por mais que fosse mais velho que eu, até. Adorável, devo admitir.

— Infelizmente não podemos mudar o passado. — falei, analisando bem as palavras antes de me manifestar. — É compreensível que você e Michael não tenham aceitado Denise de bom grado. Não tinham essa obrigação, por melhor pessoa que ela fosse. Não teriam, também, nem se fosse realmente mãe de vocês. Na minha concepção, sangue não é um laço assim tão forte. Por exemplo, Denise era minha chefe, mas às vezes eu a via como uma mãe. — disse, relembrando-me. Isso me causou uma pontada no peito. — Alguém só é importante quando você mesmo define esta pessoa como tal. Se não definiu, talvez não fosse o momento ou talvez não tivesse tido tempo suficiente para isso. Porém, creio que é grato pelas coisas que ela fez e pelo que tentou se tornar para você. Acho que vale de alguma coisa. Tente perdoar a si mesmo por não ter retribuído, se é por este o motivo que esteja se sentindo mal, Jason.

Ele ficou me fitando por tanto tempo que me senti desconfortável, sinceramente. Então começou a balançar a cabeça, parecendo concordar com as minhas palavras.

— Jesus. Eu tenho uma cunhada foda e ela não é namorada do Michael. Que loucura. — comentou exasperado. Não pude deixar de rir com isso. — Sério, obrigado, Mia. Pelas palavras e por estar com a gente, principalmente com Beth. Agora leva o rango dela antes que esfrie, né. Tô te prendendo aqui há séculos.

— É algo a considerar. — sorri e peguei a bandeja com a refeição e um copo de suco de morango. — Bom apetite, Jay.

— E obrigado pela comida também! Ufa!

XXX

Bati três vezes na porta antes adentrar o quarto. Tudo bem, era o quarto de Bethany, mas sentia-me muito estranha ao estar naquele lugar.

Era muito pessoal. Muito diferente do quarto de seu apartamento. Acho que não havia adicionado tantas informações lá como neste.

Era tudo bem decorado e vivo, mesmo com a luz apagada. Não era tão delicado ou “menininha”, como costumam nomear. Era só diferente e gracioso. E isso, de certa forma, me lembrava de Denise. Se foi Bethany que planejou este local, com certeza puxou muito mais que a aparência de sua mãe.

Porém, admito que não gosto de mexer em nada. A menos que Bethany peça. Na verdade, ajo da mesma maneira em seu apartamento também. Sou curiosa, mas muito mais observadora. Exploro melhor com os olhos do que com as mãos. Mas, tratando-se de Bethany, prefiro explorar com tudo o que meu corpo disponibiliza.

E não sei a partir de que momento me tornei tão carnal. Mas aceito este fardo.

Pousei a bandeja com sua refeição em cima da escrivaninha prateada, onde jazia seu notebook que tomei mais cedo, alguns livros didáticos e cadernos escolares. Todos seus cadernos tinham capas com nebulosas, galáxias ou universos, coisas do gênero. Era bonito.

Havia pôsteres com mais destas imagens espalhadas pelo quarto também — até seu papel de parede do celular, se me recordo bem —, além de algumas outras coisas estranhas com rapazes ou mulheres. Pareciam capas de algo, como as de revistas.

Voltando para a escrivaninha, havia ainda um abajur posto no canto e, próximo a ele, um caderno pequeno e simples com capa de cor sólida preta. Devo admitir que em mim há uma enorme vontade de espiá-lo desde a primeira vez em que o vi. É simbólico estar afastado dos outros materiais daquela forma. Era como se pedisse para ser lido.

Deixando isso de lado, fitei Bethany, ainda deitada e esparramada na cama, como sempre. Uma perna um pouco erguida e afastada, enquanto a outra permanecia esticada. Os dois braços colados ao peito, meio prensados. O rosto parcialmente coberto pelos cabelos dourados, agora meio acobreados pela pouca luz presente que vinha de uma fresta da janela.

Bethany sempre foi muito branca, mas às vezes parecia papel. É uma boa distração quando pressiono uma parte de seu corpo com os dedos, fazendo um vermelhão surgir rápido ali e desaparecer na mesma velocidade. Sempre me vem em mente uma analogia clichê entre a cor de sua pele e porcelana.

Entretanto, porcelana quebra com facilidade se você não tomar cuidado. Eu cuido de Bethany mesmo sabendo que nunca se quebraria tão facilmente.

Aproximei-me devagar, tentando não fazer barulho. Queria acordá-la para se alimentar, mas me peguei outra vez a apreciando. Sentei vagarosamente ao lado contrário onde seu rosto jazia e me debrucei para poder tirar as madeixas espalhadas pela face.

Não resisti em acariciar sua cabeça também. Seu cabelo é macio. É gostoso fazer isso. Aproximei meu rosto dele e o cheirei. Era o cheiro de Bethany. Só isso: “cheiro de Bethany”. E eu não conseguia compará-lo com qualquer outro cheiro que exista. É único como ela.

Às vezes, sentia sem que sequer estivesse por perto e nunca sabia de onde vinha. Se não estava próxima, o que era? Nada dava indícios. Só definia mais o meu conceito de singularidade. É inexplicável.

E eu, agora, realmente estou com um desejo insano de tê-la. Mas...

Comida, Mia. Comida.

— Bethany. — chamei, respirando fundo. Ela resmungou. — Beth. Acorde, querida.

Ela se virou, ainda de olhos fechados. Mas num movimento súbito, me puxou para si, me fechando em um abraço forte e enfiando meu rosto na curva de seu pescoço. Eu quis dar risada, mas estava sendo um tanto sufocada no momento, então me afastei um pouco. Bethany não me prendeu nem nada do gênero.

— Comer, amor. — falei, a observando, ainda de olhos fechados. Ela bocejou e esfregou a cabeça em mim. Lembrou-me de Kiara ao fazer isso.

— Sabe que... — murmurou e esfregou os olhos, finalmente os abrindo. — não gosto de comer logo ao acordar. Minha boca tá com um gosto estranho.

— Você estava acordada quando fui cozinhar. Eu trouxe suco. Quer? — perguntei, alisando seu rosto.

Eu poderia acordar ao seu lado todos os dias e continuaria a admirar como uma deusa. Era tão linda, linda demais. Estou me controlando para não a agarrar, sinceramente. Mas preciso que coma antes, senão a comida irá esfriar, pois o que farei em seguida não será tão rápido assim.

— Quero. — murmurou, me abraçando de novo. Mas desta vez me afastei rápido. Se eu permanecer tão próxima, me renderei.

Pois então, me levantei, liguei a luz e peguei a bandeja, esperando Bethany se sentar na cama. Contive um sorriso, pois estava descabelada e com a cara inchada. Uma graça.

Pousei a bandeja em suas coxas e ela começou a devorar — fiz seu prato preferido —. Seus olhos até pulsaram ao constatar o que lhe esperava.

— Seu Strogonoff é sempre maravilhoso. — elogiou, enfiando uma colher cheia de uma vez.

— Coma devagar. — alertei. Ela assentiu enquanto tomava mais um gole do suco. — Está se sentindo melhor?

— Mais ou menos. — murmurou, depois de mais duas colheradas. Parou, engoliu e levantou o rosto, fitando o teto. — Essas coisas acontecem direto. A gente vê as notícias, sentimos algo, mas é só isso. — Parou de novo e enfiou mais três colheradas na boca.

— Devagar, Bethany. — alertei de novo.

— Desculpa. Eu tô com muita fome. — disse, antes de enfiar mais outra colherada. Em quantos minutos vai comer tudo? — Se tivéssemos ficado lá, teríamos pego o mesmo voo, Mia. Se tivesse vindo conosco, nada teria acontecido. Isso é... — pausou. Agora definitivamente parou de enfiar comida goela abaixo. Eu suspirei de alivio. — Puta merda, é revoltante. Eu me sinto furiosa. Não posso culpar ninguém.

— Não culpe ninguém. — falei, me permitindo devanear um pouco. — Ouvi Michael dizer que seu pai teve notícias de seus avós. Eles virão para cá.

— Por que vir pra cá? Não seria depois? — quis saber Bethany.

— Bem... É que... — Eu realmente não sabia como dizer isso em voz alta. Ela não parava de pesquisar coisas na internet por causa disso. Por que é tão difícil dizer?

— O quê, Mia? — encorajou, franzindo o cenho. Até que levantou as sobrancelhas, compreendendo o que eu queria dizer. Eu engoli em seco. — Bom... Finalmente. É o que nos resta dela. Foi uma sorte que não tenha se perdido no mar.

— Não fale assim, Beth. — murmurei, sentindo um aperto muito forte no peito.

— Vou dizer de que forma, Delilah? — questionou, sem me fitar. Vi que seus olhos brilhavam. Eu não queria vê-la chorar de novo. Detesto vê-la chorar. — Não queria que só o corpo viesse. Na verdade, não sei, acho que é por isso que eu não sentia nada. Eu não vi o que é um corpo sem vida. Nunca vi. E isso acaba comigo. Tá acabando comigo, Mia. — admitiu, ainda sem me olhar. Eu sabia que estava se esforçando para não desabar. — É tanta dor que não tô conseguindo processar. Expressar pra fora. Chorar é comum numa situação dessas... Mas o que sinto é bem mais forte pra ser demonstrado só com isso. Eu realmente... — pausou, tentando segurar os soluços que já davam seu parecer. Eu respirei fundo. — não sei o que fazer. Como você consegue?

— Eu consigo o quê, Beth? — indaguei, sem entender.

— Não chorar. Você tem acompanhado tudo. Viu até meu pai chorar. Não sei como consegue ser tão firme. Sei que minha mãe era importante pra você também. — desabafou, fungando.

— Não é porque não choro que não sinto. Desde o momento em que liguei para Michael até agora, estou em constante atrito comigo mesma. Mas tenho que me manter firme. Tenho que cuidar de você. — falei, acariciando seu rosto. Sorri a ela para ver se lhe dava algum ânimo. — Tenho que ajudar a empresa. Conversar com seus irmãos, até com seu pai que até agora não faz a mínima ideia do porquê de eu ainda estar aqui e isso me fere um pouco também. Mas tenho outras prioridades, Bethany. Não posso ceder.

— Nem um pouquinho? — murmurou ela, como se pedisse algo. Eu a fitei e depois desviei o olhar. — Você sente vontade de chorar?

— Eu não gosto de chorar, querida. — respondi, tirando a bandeja de seu colo. Ela já havia comido praticamente tudo e não dava pistas de que comeria o restante. Não me impediu de retirar o prato, inclusive.

— E quem disse que eu gosto de sentir catarro na minha garganta? — indagou Bethany, me fazendo rir. — Gosto da sua risada.

— Eu também gosto da sua. — comentei, sentando-me de volta na cama. Bethany só me olhava. Diretamente nos olhos, sem desviar. Eu prossegui a olhando da mesma forma. Parecia ter se acalmado de novo. Ainda bem. — E dos seus olhos.

— Eu ia dizer isso. — murmurou, ainda sem desviar. Depois pegou a minha mão. — Obrigada por estar comigo, Delilah.

— Você me deu essa oportunidade. Não é você que deve agradecer. — murmurei e, pela primeira vez em um bom tempo, não consegui olhá-la nos olhos.

— Pode olhar pra mim? Ou quer que eu te chacoalhe também? — provocou Bethany, apertando minha mão.

— Desculpe por aquilo. Fiquei irritada à toa. — admiti, voltando a fitá-la e sentindo um pouco de culpa por isso. — Não exija algo que não pode cumprir, não é?

— Nem sempre. Eu exijo que me dê todo seu amor, mas às vezes não faço o mesmo. — disse ela, me puxando para perto. — Ih, acho que ando passando muito tempo contigo. Tô até falando coisas bonitas.

— Talvez eu me apaixone um pouco mais por você por isso. — sussurrei sem tirar os olhos dos seus. Aquela imensidão verde. Como eu amava me perder nela.

— Talvez? — repetiu no mesmo tom. Parecíamos hipnotizadas uma pela outra. Nos puxávamos uma a outra, mas nenhuma de nós parecia querer quebrar aquele contato visando algo além.

— É porque talvez eu esteja apaixonada por você o suficiente possível, Beth.

— Você sabe... — Ela me deu um beijo rápido. — nunca — Deu outro beijo. — vai — Mais um beijo. — ser — Mais outro. — o suficiente.

Eu a empurrei contra a cama, sentindo meu sangue ferver. Quando ia beijá-la, Bethany pousou ambas as mãos em meu rosto, parando por um momento.

— Me faz esquecer o que tá acontecendo, por favor. — pediu. Senti meu coração despedaçar ao ouvir isso. E pude constatar uma lágrima escorrendo de seus olhos. — Faz isso por mim?

— Eu faço qualquer coisa por você, Beth. — respondi, quase sem fôlego. Eu estou transbordando. Transbordando de amor por ela. — Faço qualquer coisa.