Oculta
30 Dolência
— Là! — [Aí está!] ouvi Wallace dizer quando cheguei à sala de estar. Ele vestia uma camiseta polo azul, calça jeans desfiada, sapatênis branco e dava um sorriso de galã ao homem desconhecido à sua frente. Havia outro rapaz junto a esse, o qual segurava duas maletas pretas sofisticadas, uma em cada mão.
— Mia Delilah! Que prazer em conhecer a senhorita! — O homem à frente de Wallace aproximou-se e estendeu a mão para me cumprimentar. Era lindo, é claro. Sorriso simétrico e deslumbrante, cabelos castanhos com um charmoso penteado, rosto quadrado e viril, olhos verdes (nada comparado aos de Bethany, no entanto) e vestia um terno preto de muita classe.
— O prazer é meu. — falei, dando um sorriso formidável. — Senhor...?
— Leroy Dilermando, senhorita. — apresentou-se ele e apontou o indicador ao rapaz que segurava as maletas. Podia falar inglês, mas o sotaque francês era evidente. — Este é Othon Petit.
Othon se vestia da mesma forma que Leroy, mas aparentava não ser quem falava da dupla, pois apenas assentiu após a pronúncia do parceiro.
— Não sabe o quanto estamos felizes por aceitar realizar esta entrevista. É realmente um prazer!
— Fico feliz em falar com os senhores também. — disse eu, de forma simpática. Denise me chutaria mais tarde se eu agisse erroneamente nesta entrevista. — Senhor Petit, não quer colocar seus pertences aqui? — Apontei para a mesinha de acrílico posta ao centro da sala.
— Ah, sim! Othon precisa organizar as coisas. — disse Leroy, sorrindo com animação. Othon não disse nada, assentiu outra vez e depositou as maletas em cima da mesa. Eu sinalizei para que ficasse à vontade e assim o mesmo iniciou seus serviços.
— Querem algo para beber, queridos? — perguntou Wallace, educado. Ele fitava Leroy com uma fissura que parecia querer descascá-lo. Com certeza simpatizou com a figura.
— Não, senhor Armand! Estamos ótimos por hora. — respondeu Leroy, sorrindo em agradecimento. — Senhorita Delilah, se já permite perguntar... Você tem alguma rede social ativa no momento? Site ou algo do gênero?
— Por enquanto não, senhor Dilermando. Particularmente nunca tive interesse para essas coisas. — respondi, sentando-me no sofá, sinalizando para que fizesse o mesmo, e assim fez. Vi Wallace desaparecer para a cozinha, e algo me diz que não voltaria tão cedo.
— É que postamos uma prévia em nosso site e também em outras mídias ao publicar uma matéria nova. Se a senhorita tivesse um perfil de Facebook, Instagram ou Twitter, seria bom para divulgar. — explicou ele de maneira calma. — Mas como não tem... Por enquanto, certo?
— Algumas pessoas já me sugeriram há algum tempo... — comentei, lembrando-me de Bethany. — e se é bom para que me localizem, provavelmente providenciarei em breve.
— Divino, senhorita Delilah!
— Vous voulez commencer, Leroy? — [Quer começar, Leroy?] falou Othon pela primeira vez no recinto. Sua voz era bem grave. E não entendi nada do que disse, obviamente.
— Tudo bem para a senhorita se começarmos agora? — questionou Leroy, sorrindo meigamente.
— Prossiga. — respondi, dando de ombros.
— Certo, certo... — murmurou Leroy, mostrando alguns pequenos sinais de nervosismo. Othon se aproximou e lhe entregou um tablet. — Mia Cortês Delilah Montenegro. A senhorita realmente não tem nenhum parentesco com Denise Cortês?
— Nenhum. Só a simples coincidência de mesmo sobrenome. — respondi, já acostumada com tal questionamento.
— Quando surgiu o interesse para tornar-se modelo?
— Muito por acaso. Uma tentativa às cegas. — respondi. Mal sabe ele que naquelas palavras havia tanta história. — Nunca me imaginei fazendo o que faço. Mas não me arrependo da escolha.
E assim seguiu. Othon quieto, digitando atentamente no notebook que retirou de uma das maletas; Leroy fazendo perguntas sobre mim, meus interesses, hobbies, gostos, sobre a empresa, sobre Denise, vez ou outra comentando uma opinião particular, mas de maneira muito simpática e respeitosa, sem fugir do foco.
Era uma situação estranha, mesmo que eu agisse como se já tivesse feito aquilo diversas vezes em minha vida. Sei que era tudo porque chamei atenção. Chamei a atenção de uma pessoa ou mais pessoas. Elas querem me conhecer. Saber como sou, algo que vá além das aparências. E então me avaliar. Idolatrar. Amar.
E julgar.
Por que aceitei? Gostaria que fosse apenas pelo trabalho, como sempre digo. Não sabe o quão gostaria que fosse apenas isso. Mas estaria mentindo mais uma vez.
Mas quero que isso vá muito além do que só à França. O mundo inteiro, talvez. De ponta a ponta. Atingir muitas pessoas. E então, talvez... possa chegar até ela.
Se não estiver viva, com certeza será um problema. Minha tentativa insana e muitíssimo bem formulada — certo, nem tanto — será em vão. Mas o que tenho a perder, não é?
Nunca tive nada a perder.
— E há alguém especial em tua vida no momento, senhorita Delilah? — ouvi Leroy perguntar, me despertando dos breves devaneios. Fitei-o pensativa.
— Refere-se a que tipo de pessoa especial? — perguntei. Claro que sabia do que se tratava. Mas enrolar é interessante nessas horas. Ele deu uma risada curta.
— Ora, querida Delilah. Sabe bem ao que me refiro! — Ele levantou as mãos para o alto, dando um sorriso desconfiado. Depois de tantas perguntas, acho que tinha liberdade suficiente para conversar comigo de tal maneira.
— Foi uma pergunta inofensiva. — falei. Ele riu outra vez. — Sim, há.
— E pode comentar um pouco sobre como ele é? — questionou Leroy, realmente curioso. Eu meneei a cabeça. — Não precisa dizer o nome ou descrever a aparência. Comente sobre sua personalidade. Nem ao menos isso?
Eu ponderei. Se corrigir o “ele” para “ela”, traria atenção demais. Essas pessoas sabiam muito sobre a minha vida sem que ao menos eu revelasse algo. Imagine se desse corda.
— É uma pessoa inteligente, alegre, espontânea e extremamente linda. Mas não temos nada em comum. — respondi e não passaria disso.
— Você não facilita nenhum pouco, não é? Gosto disso! — dizia Leroy, alegre como uma criança. Ele fitou o tablet de novo, mas agora franziu o cenho e me olhou por um longo momento. — Querida Delilah... Deve imaginar que fazemos uma pesquisa a fundo sobre quem produzimos as matérias, mesmo que a entrevista vise buscar informações, mas também serve para validá-las. Mas, admito: não achamos muitas coisas sobre você.
— Mas acharam algo? — questionei, atenta. Agora estou desconfortável.
— Um registro de emancipação. Sabemos que fora feito por um tutor. — murmurou ele, com cautela. — E sobre seu pai. Nada mais que isso. Seria um assunto interessante a comentar, mas cogito que senhorita não compartilhe conosco.
— Por que pensa assim, senhor Leroy? — questionei, curiosa.
— Pelo modo que respondeu às perguntas anteriores. A senhorita é muito reservada. — Sorriu ele. Não demonstrava achar que aquele ponto em minha personalidade fosse ruim. — Gostaria de me arriscar, porém não tenho uma pergunta formada.
— Eu só posso lhe dizer uma coisa, senhor Leroy. — murmurei, me inclinando em sua direção e fixando os olhos nas órbitas de esmeralda.
— E o que seria, senhorita Delilah?
— O encanto está no oculto. — falei e sorri da maneira mais cínica possível. Ele gargalhou e depois bateu palmas.
— Foi um grande prazer conhecer a senhorita, com certeza!
XXX
— Beth... — ouvi alguém sussurrar.
Ignorei e resmunguei, sem abrir os olhos. Não havia dormido muito bem na noite passada, ainda que aquela cama fosse melhor que a do meu apartamento, com certeza. Porém, de madrugada, observar Mia dormir era muito melhor que dormir.
Ela, deitada de barriga para baixo com o rosto relaxado e a respiração mais lenta que o normal; os cabelos escuros espalhados pelo rosto, ombros e costas; os olhos fechados e os lindos cílios mais destacados — e sempre enormes. A pele bem tratada e lisa. A curva do cobertor por cima de si, destacando a área lombar e as coxas. Tudo nela era perfeito.
E sei, eu sei. Eu estava apaixonada. Muito apaixonada.
Agora, senti algo pousar ao meu lado. Permaneci quieta, repassando a imagem de uma Mia adormecida várias e várias vezes na mente. Váaarias vezes...
— Acorde, amor. — ouvi sussurrar outra vez. Senti aquelas palavras como seda. Dava mais sono ainda.
Sua voz sempre foi aveludada, um pouco rouca também, mas quando falava tão baixo, soava muito gentil. Não que soasse de maneira ruim normalmente. Muito pelo contrário.
Eu estava com preguiça de falar, preguiça de abrir os olhos e de muito menos me mexer. Mas movimentei um pouco um dos braços, encostando nela. Parecia estar debruçada sobre mim. Então abri os olhos.
Sim, estava bem perto. Tão perto que eu conseguia ver as linhas de seus lábios. Só que eu não a beijaria agora. Devo estar com um bafo terrível. Mas a analisei melhor.
Ainda estava vestida com o terno, só não estava com o casaco. As mangas da camisa estavam dobradas e levantadas até o cotovelo. O cabelo estava solto novamente. E suas unhas — bem compridas, aliás — contornavam o meu rosto, causando-me certo arrepio.
Mia me fitava como se me apreciasse de novo. E eu fazia o mesmo. Só que, com certeza, ela era muito mais linda.
Por que não a contemplei desde o início? Que tempo perdido.
— Esses olhos. — murmurei, suspirando pesarosamente.
— Essa boca. — sussurrou ela, fitando minha boca com uma lerdeza que me fez revirar por dentro.
— Esse corpo... — sussurrei e pude contemplar suas pupilas dilatarem no mesmo instante. — Transa comigo, por favor.
— Agora? — Ela me puxou para cima, rapidamente. Eu me ajustei em seu colo, já cega de desejo.
— Agora. — falei, começando a beijar seu pescoço.
— Não podemos... — murmurou, mas sem nenhuma menção de querer me afastar.
— Por que não podemos, Delilah? — inquiri, arranhando suas costas de leve. Ouvi um suspiro pesaroso em retribuição.
— Não agora. Eu tenho que sair...
OK, eu estava extremamente excitada, mas essa frase me secou.
— Eu não posso ir junto? – questionei, mas queria mesmo é que ficássemos agarradas uma a outra o dia inteiro, sem fazer mais nada.
— E quem disse que não irá? — Mia franziu o cenho. Eu a fitei bem surpresa.
— Sério? Mas não é coisa do seu trabalho? — questionei, cogitando Denise presente lá.
— É sim. — murmurou ela, ainda sem entender minha cara de espanto. — Mas não, Beth. Sua mãe não estará lá.
Permiti que meus pulmões puxassem o ar novamente.
— Okay. — Suspirei aliviada. Mas não resisti em olhá-la maliciosamente. — Mas certeza que não quer...?
Mia me deitou de súbito e começou a fazer cócegas. Meu Deus. Eu estava sendo sufocada com o meu próprio riso.
— Se fizermos agora, não sairemos tão rápido. — disse, sem parar com as cócegas. Eu estava quase mijando nas calças!
— Para! PARA! Eu entendi! Pelo amor de Deus... — clamei, então ela parou. Fiquei ofegante por alguns segundos, mas contemplei um sorriso travesso em seu rosto. Pelos céus, como podia ser tão linda? — Mas agora? Não tá cedo demais?
— São quase seis horas da tarde, Beth. — murmurou Mia, alisando minhas panturrilhas. Eu arregalei os olhos outra vez. Dormi tanto assim? — E obrigada por arrumar o quarto.
— Ah... Por nada. — murmurei, sem graça. Mia continuava alisando minha pele com uma atenção exagerada. — Foi tudo bem na entrevista? Te encheram muito o saco?
— Foi tranquila. Nada demais. — respondeu. Eu a encarei, desconfiada. Mia suspirou alto. — Está tão visível assim? — indagou, franzindo o cenho.
— Na verdade, não. — Gargalhei alto. Mia não é tão transparente. Ela revirou os olhos desta vez. — Eu só queria saber o que tinha acontecido, e agora quero saber mesmo!
— Não houve nada, Beth. — repetiu, levantando-se da cama.
— Geeeente! A Nathalie combinou às oito horas. — gritou Wallace na porta do quarto. Ele levou a mão à boca em seguida. — Eita! Deveria ter batido, né? Se bem que a porta tava aberta e vocês não estão fazendo nada... — murmurou ele, sorrindo maliciosamente para mim. Eu tive que rir, lógico. Mas franzi o rosto ao constatar o nome estranho que havia pronunciado.
— Nathalie? Quem é? — questionei.
E agora, lembrando do questionamento de Wallace ao adentrar o recinto, me surgiu a dúvida: será que nos ouviu noite passada? Porque seria bem constrangedor. Muito constrangedor.
— Ah, coisas da empresa, amor. Seria entediante pra você se eu explicasse. — abanou Wallace, dando de ombros. Ele direcionou o olhar para Mia, ainda de pé, o fitando. — Desde aquela hora vestida desse jeito? Não tá incomodada, não?
Eu fitei Mia. Suas roupas estavam amarrotadas e os cabelos um tanto desgrenhados. Também estava descalça. OK, continuava linda, isso não se discute. Mas... me deixou intrigada.
— Eu estava desenhando. — respondeu ela, simplesmente. Olhou para mim e depois para Wallace. — Irei tomar banho então.
Dito isso, se livrou da camisa numa facilidade que me deixou perplexa — e com um pouco de ciúmes, pois Wallace estava tendo a mesma visão de seu abdômen, obviamente — e caminhou até o banheiro, adentrando-o e fechando a porta em seguida.
Eu fitei Wallace. Ele me olhava da mesma maneira: com um enorme ponto de interrogação na testa.
— Olha, se você que é namorada não entende, que dirá eu. Usa o banheiro do outro quarto pra se arrumar, amore. Ela já disse que vai levar você, de um jeito ou de outro. — disse ele, mandando um beijo ao ar e dispersando-se após.
Eu realmente não estou entendendo nada.
XXX
Que dor de cabeça infernal. Parecia pender para um lado depois para outro. Era como se um caminhão tivesse passado por cima de meu cérebro.
Até, em um leve momento, considerei deixar de ir à festa, mas havia prometido a Denise que iria, já que ela estaria ocupada com outros afazeres. Por conta disso, felizmente poderei levar Bethany, então não preciso me preocupar com a possibilidade de deixá-la sozinha. Entretanto, em realidade, eu mesma me sinto na súbita necessidade de ficar sozinha.
Sai do banheiro com os cabelos ainda pingando d’água, mas já os secava com a toalha. Não avistei Bethany no recinto e não imaginei onde pudesse estar. Talvez falando bobagens com Wallace.
Abri uma de minhas malas. Peguei roupas intimas — um sutiã e uma calcinha branca sem demais detalhes —, tirei o roupão felpudo exclusivo do hotel e as vesti. Agora trataria de procurar uma vestimenta ideal à festa.
Eu realmente detesto procurar coisas para vestir. Nunca tive este costume; sair para festas sociais e coisas do gênero... E não acho que será algo que me acostumarei com facilidade, como em muita coisa desde que minha vida ficou do jeito que está.
Optei por algo simples, ou melhor dizendo, a primeira coisa decente que avistei na mala: um vestido preto rodado de mangas compridas. E, bom, vejamos...
Nessas horas, tento pensar como Denise. O que acrescentaria neste visual? Muita coisa com certeza, afinal, é Denise. Mas não me aprofundarei demais em seus gostos.
Talvez uma meia-calça.
Fui em busca dela em minhas demais malas. Na realidade, havia trazido apenas uma, mas por conta das coisas que Denise, Richard e Wallace compraram para mim — com o meu dinheiro, aliás —, tive que comprar outras três malas. Inclusive... tenho que comprar mais uma.
Vejamos novamente. O que mais?... Acessórios.
Relógio? Não. Detesto relógios de punho, me incomodam. Pulseiras também.
Colar? Seria viável. Mas onde devo ter um colar nestas benditas malas? Tudo bem, desisto. Nada de acessórios.
Aliás, não quero calçar saltos. Meus pés doem depois. O que tenho para calçar que não sejam saltos? Mas a única coisa que parece agradar com este tipo de roupa são saltos. Certo, irei com os saltos. Os outros calçados fazem meus pés doerem mais ainda mesmo...
Estou impaciente e transpirando um pouco, mas pelo menos meus cabelos estavam totalmente secos agora. Diria que meu comportamento tem sido um pouco... inquieto nos últimos tempos. O motivo ainda se faz desconhecido a mim.
Sai do quarto em busca de Wallace. Não sei o que fazer com o meu cabelo e é nestas horas que é bom tê-lo por perto.
Seu quarto era, basicamente, ao lado do meu, e mesmo assim me irritei com o barulho que os saltos faziam na caminhada curta. A porta estava aberta. Adentrei sem cerimonias, constatando uma cena um tanto... estranha. Alguma parte do meu estômago afundou e depois voltou ao mesmo lugar.
Bethany sentada na cama. Wallace sentado em uma cadeira à sua frente. Seu rosto próximo ao dela. Por um pequeno momento pensei... Pensei em algo ruim. Muito ruim mesmo.
— Ô estátua! Entra aí! — disse Wallace com seu jeito despreocupado de sempre enquanto mostrava algum tipo de lápis em mãos.
Meu corpo pareceu relaxar, me senti até meio quente agora. Não compreendi de primeira o motivo de me chamar de estátua, até perceber que estava realmente parada em frente à porta do quarto.
Bethany estava com os olhos fechados. Ao abri-los, me analisou de cima a baixo. A sensação do estômago afundando voltou, mas agora era por outro motivo.
Ela estava absurdamente linda. Nunca a vi tão linda, sinceramente.
Usava um vestido de seda dourado, rendado em branco nas laterais, tendo a barra um pouco abaixo dos joelhos. Combinava com suas madeixas de mesma cor. A luz do recinto batia no tecido e fazia reflexos meio prateados. Os cabelos presos em um rabo de cavalo alto, a maquiagem forte destacando os olhos, deixando-os mais profundos do que já eram e realçando ainda mais o fabuloso verde de sua íris, as quais me fitavam da mesma forma que eu as fitava: à deriva. E espero que também cheios de desejo.
— OK, se eu for esperar as duas pararem de se comer com os olhos, isso vai demorar. Então: que porra você fez com o teu cabelo, Mia? — ouvi Wallace pronunciar. Pobre Wallace. Mal o reparei em seu elegante terno cor de salmão. Estava lindo, claro. Como sempre.
— Eu não fiz nada. — respondi, desviando lentamente o olhar de Bethany para ele. — Preciso de ajuda.
— Aff. Não tem vergonha de ser assim na frente da tua namorada, não? Sempre pede ajuda pro cabelo. Jesus, hein. — resmungou ele. Apenas ignorei. Já estava acostumada com suas reclamações.
— Eu arrumo pra você, Delilah. Senta aqui. — ofereceu-se Bethany, levantando da cama. Eu demorei o olhar sobre ela antes de assentir, caminhar e me sentar logo depois.
Eu não estava conseguindo me controlar, realmente. Nenhum pouco. Ela estava muito linda. Isso estava me distraindo com uma facilidade preocupante.
— Ai, Beth. Você é um anjo mesmo, gatinha! — Wallace deu-lhe um beijo na bochecha, batendo as palmas em seguida. — Eu vou pegar uma bebida, gente! Já vou ir daqueeeeeele jeito! — dito isso, Wallace saiu do quarto, sem mais nem menos.
— Não vamos ter que cuidar dele se ele ficar loucão, né? — questionou Bethany, pegando um pente jogado em cima da cama. Inclusive, havia muita coisa jogada em cima da cama. A pergunta: é dela, de Wallace, de ambos, meu ou nosso?
— Vamos. Ele vai ficar chateado se o abandonarmos. — respondi, a observando. Aquele vestido realçava deliciosamente suas curvas. Ela parou por um momento e me fitou.
— Você nem usou maquiagem e tá linda desse jeito. Me deixa até um pouco indignada, sabia? — murmurou, me dando um beijo.
Ficamos com os rostos próximos por um instante. Uma nos olhos da outra.
Eu estava começando a ferver.
— Você está linda com este vestido. — elogiei, engolindo em seco. — E ficaria bem melhor sem ele.
— Uau. Isso foi direto. — riu ela, levantando meu queixo com os dedos. Suas unhas eram um tanto afiadas. Senti como se a ponta de uma agulha estivesse sob minha pele. — Não me provoca. Tô por um fio de arrancar esse vestido de você.
— Arranque. — sussurrei. E eu poderia até desenhar claramente o que vi: seus olhos ficando realmente selvagens.
— Tô em dúvida. Bebo esse ou esse? — ouvi a voz do Wallace pronunciar. — Nossa, espera aí. Fiquem assim, rapidão...
— O quê? — murmurei, sem entender. Mas prossegui parada.
— Ah, foto não, Wallace! — resmungou Bethany, tirando o polegar e o indicador do meu queixo para cobrir o rosto.
Direcionei o olhar para Wallace. Tinha uma garrafa de vinho numa mão e outra debaixo do braço — ambas minhas, inclusive — enquanto segurava o celular na mão livre.
— Ai, tava super sexy! Tô triste agora, então vo beber. — Deu de ombros, pousando uma garrafa em cima do criado mudo ao lado da cama e abrindo a outra.
— Não me recordo de lhe dar permissão para tomar meus vinhos. — murmurei. Bethany me fez virar de lado, começando a pentear meu cabelo. Wallace me mostrou o dedo do meio.
— Tô tão preocupado, nossa. — Revirou os olhos, dando uma longa golada. Eu franzi o cenho com o seu comportamento.
— O que houve, Wallace? — tornei a questionar.
— O que houve, Mia? Você sabe bem o que houve. — disse ele simplesmente, me olhando feio enquanto tomava outro gole da garrafa.
— Eu realmente não sei. — respondi, sem entender. Mas o jeito que falava e me olhava estava me deixando irritada. — Terei que adivinhar ou o senhor dirá?
— Como faz isso, hein? De verdade. Chega do nada, impressiona tudo mundo... Eu quero saber essa mágica, sinceramente. O que você pretende fazer da vida, Mia? — questionou Wallace, pousando a garrafa que segurava no chão.
Ele estava alterado. Totalmente. Era por causa da bebida? Mas acabou de sair do quarto para beber. Será que já estava bebendo antes?
— Wallace? — Bethany murmurou, parando de pentear o meu cabelo.
— Beleza, é o seguinte: a tua mãe, Bethany — começou ele, apontando para mim e me fitando com raiva. — ofereceu a ela um cargo bem alto. Digamos como uma “segunda Denise”.
— É sério, Delilah? — questionou Bethany, me fitando surpresa. Eu assenti, mas ainda não entendi o alvoroço de Wallace.
Levantei e fiquei frente a frente com ele. Por calçar saltos, isso me permitia fitar seus olhos sem precisar levantar a cabeça.
— Isso te incomoda tanto assim? — perguntei.
— É obvio que incomoda, porra. Você não me contou nada. E... eu trabalho a mais tempo na empresa que você e nunca sequer tive chance pra alguma coisa. — Wallace levantou as mãos para o alto, indignado. — Só quando você chegou. Era Delilah pra cá, Delilah pra lá. No fim, era sempre por sua causa. Eu não tô aqui porque tenho potencial pra algo, como imaginava. Tô aqui porque sou teu amigo e o único que consegue te aturar bem. — desabafou. Seus olhos lhe traiam um pouco. Ele estava prestes a chorar. — Eu dou o sangue aqui, caralho. Eu faço tudo e mais um pouco. E no fim, você sempre é a única que sai beneficiada e com o nome na capa das revistas.
— Você nos ouviu conversando? — questionei, confusa. Porém estava começando a me sentir realmente mal, de alguma forma.
— Espera aí. — murmurou Bethany, intrigada. — Quem decide isso não é minha mãe?
— É, né. Ela é a dona, Bethany. — respondeu Wallace em tom obvio e de deboche. Isso ferveu o meu sangue.
— Cuidado com o jeito que fala com Bethany, Wallace. — alertei, sem querer elevando a voz. Ele cruzou os braços.
— Ou o quê, xodó da Cortês? Até duvido que goste mesmo de Bethany. Deve estar usando ela pra chegar onde quer, né? Pode ser tudo mentira e que seja uma mercenária ridícula tanto quanto parece mesmo. Nem eu que pego o Ricch tenho ess-
— VOCÊ O QUÊ? — berrou Bethany.
Eu só senti minha mão estalar. E depois arder com intensidade. Mas, honestamente, foi glorioso descontar um tapa na face de Wallace.
Ele me fitou sem emoção no olhar. Em seguida, suspirou longamente e se virou de costas, caminhando em direção à porta.
— O único mercenário aqui é você. — rosnei.
— Tome cuidado com quem se apaixona, Bethany. — murmurou antes de sair do recinto.
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