Oculta

36 Arremate


Notas iniciais
Oin! Tudo bem? Espero que sim. :) Enfim, chegamos ao fim. Gostaria de agradecer imensamente a você que acompanhou a história até aqui, seja um comentarista nato, leitor assíduo, tranquilo, fantasma, obsessivo, assassino, maligno, etc. Só o fato de ter lido já é legal pra mim. Saber que se interessou é gostoso demais pra mim. Então, novamente, muito obrigada mesmo. Para finalizar de vez, ressalvo que prosseguirei escrevendo outro projeto que prometi dar continuidade após o término de Oculta: chama-se "Mnemônico" (entra no meu perfil e corre pra aba de histórias, tá lá). Por que mencionar isso? Bom, simples, pois também tem temática yuriana, orange e tudo que é de bom e, claro, se gostou de minha escrita, provavelmente se interessará por outros de meus projetos, não é? Fechô? Fechô. Até mais. ♥

Percebi uma das piores coisas que se pode acontecer na vida de alguém. E pode até parecer simples.

Ver quem você mais ama chorar... da maneira que vi Bethany chorar... Se há algo pior, eu não sei. E nem quero saber.

É doloroso demais. E muito mais doloroso saber que não posso conter isso.

A dor da perda é horrível. Sua única cura é só o esquecimento. E, para isso, leva-se tempo. Muito tempo. E infelizmente não são todos que alcançam este objetivo, então estou com medo por Bethany. E não sei se posso ajudá-la.

Realmente desconheço sentimentos como tais. Meu pai foi assassinado por detentos enquanto cumpria sua pena por estupro, pedofilia e cárcere privado. Talvez não seja viável comentar desta forma, contando com o fato de que a vítima fui eu e que, até certo tempo atrás, tinha receio de relembrar sobre. Mas isso mudou com Bethany.

Aprendi a aceitar. O que aconteceu fez quem sou, mas não agradeço. Só aceito.

Eu poderia muito bem ter me suicidado. Ou matado outras pessoas; vingança por terem uma vida pacífica, talvez. Há numerosas possibilidades para as atrocidades que poderiam ser feitas por minhas mãos — e as de outros também.

Porém, considero não ter culpa sobre o que aconteceu e as outras pessoas também não. Exceto as envolvidas, óbvio.

Aliás, até hoje não encontraram aqueles rapazes — amigos de meu pai. Eu também não dei muitas pistas, pois não me lembrava de muita coisa.

Só sigo em frente. Em busca de algo que valha a pena para continuar. Não vejo lucro em terminar tudo de maneira tão insignificante. Não sofri tudo aquilo para morrer de jeito medíocre. Eu, Mia Cortês Delilah Montenegro, não aceito esta blasfêmia contra o meu próprio ser, seja lá por que diabos estou aqui. Isso é o que não aceito. Mas algo sempre me perturbou.

Por que pessoas tão importantes para nós nos machucam tanto?

E não me refiro à Bethany. Não desta vez.

Refiro-me à minha mãe. Sarah.

Por quê? Eu nunca entendi, sinceramente. Todo este tempo, em meus dezenove anos, questionei e nunca cheguei a uma conclusão. Nenhuma hipótese. Nem esboço — como costumo fazer no início de meus desenhos. Nada. Apenas nada.

E por que questiono sobre isso e não questiono sobre Evan ter me feito aquilo? Também não sei. O ódio contra ele é permanente, na verdade. Evan fez de minha vida um inferno por um bom tempo. Ele era doente. Só isso é válido para que eu não questione.

Como eu compreenderia um doente?

Mas como a natureza age? Eu não sei. O que fazer com o desejo que sentia? Nosso corpo não corresponde a certas políticas do bom senso, ética, moral. Senão não haveria guerras. Não haveria pessoas passando fome. Também não haveria a possibilidade maravilhosa de Bethany ser minha.

Somos ruins. O problema é: em quais pontos de vista somos ruins?

O seu? O meu?

O deles? O nosso?

Quem decide o que é certo e o que é errado? Como saber se é realmente certo ou errado?

Viver é relativo. Morrer é certo. Compreende? Isso não se pode mudar. E talvez sejam minhas únicas certezas. Podemos estender um lado, adiantar o outro e o fim é o mesmo.

Espere, não quer dizer que eu compreenda o meu pai e nem aceite essas coisas como desculpa. Sabe por quê?

A liberdade, a verdadeira liberdade, não é certa se fere a de outras pessoas.

Ninguém deve se sentir mal ou ser maltratado por outrem porque ninguém deseja isso para si — não em plena consciência, não em um raciocínio comum. Então, se o inferno existir, espero que Evan queime nele até que o último grão de poeira de seu corpo desapareça.

Sarah sumiu. Por quê? O desgraçado também a violentava? Possível. Ele a ameaçou? Possível. Fugiu com medo e esqueceu-se de mim? Possível, mas inaceitável.

O que, por que, para quê?

Talvez fosse melhor que ela queimasse no inferno também?

Válido.

Faz tempo que não penso sobre essas coisas. Pergunto-me por que, logo neste momento, o qual Bethany necessita de mim e de minha atenção, me encontro em pensamentos tão medíocres e cheios de neblina.

Estou com raiva.

— Meu anjo, vai ficar tudo bem. Juro pra você, querida. Vai ficar. — tranquilizava a vó de Bethany. Eu não poderia abraçá-la agora. Seria estranho. Já aparento ser intima demais. Não posso abusar.

Mas este desejo era mais forte que eu. Muito mais forte. Diabos, eu estava machucando as palmas de minhas mãos de tanto pressionar as unhas nelas com força — as quais, por influência de Denise, deixei crescer demais.

Ela continuava chorando. Eu realmente nunca a vi chorar tanto. Doía. Doía muito vê-la assim.

Doía a ponto de querer chorar também.

A vó consolava sem deixar uma lágrima cair. Eu olhei em volta, aos irmãos e pai de Bethany presentes. O clima estava frio, transparecendo as sensações atuais, aparentemente.

Michael sentou-se numa espreguiçadeira e pousou a cabeça entre os joelhos. Seus ombros tremiam e fungava alto. Jason aproximou-se e pressionou as mãos densas nos ombros do irmão. Seus olhos estavam vermelhos. Parecia lutar contra si mesmo para não embalar com Michael.

O pai de Bethany estava sentado próximo ao avô dela. Ambos olhavam para o chão, entorpecidos.

Aos poucos, Bethany foi se acalmando. Sua vó a puxou e a fez sentar-se em uma espreguiçadeira próxima. Esta então me fitou, dando um pequeno e breve sorriso, se aproximando em seguida.

— Olá. — cumprimentou quase em um sussurro. — Você é?

— Sou Mia. Ally, não? — pronunciei com receio.

— Allyson. Mas gosto que me chamem de Ally. — admitiu, dando um sorriso muito caloroso. Gostei de Ally. E isso era estranho. — Você é muito linda. — comentou, sem vergonha alguma. Eu engoli em seco. — Por acaso, é modelo?

Ouvi uma risada abafada, mas não consegui identificar de quem era.

— Por ironia do destino, sou sim, senhora. — afirmei, e não pude deixar de esboçar um sorriso. Ela me olhou surpresa.

— Senhora não! — exclamou em tom repreensivo, dando-me um tapinha no ombro. Eu não estou acostumada com este tipo de proximidade por desconhecidos logo de primeira, então realmente me sobressaltei. Allyson pareceu se controlar para não rir. — É um bom investimento, querida. É namorada de Jason?

— Eu queria dizer uma coisa — pronunciou-se Bethany, sem mais nem menos, fazendo-me sobressaltar novamente. Mas este ninguém percebeu. Foi mais interno.

— Aqui, Beth — murmurou Michael, aproximando-se e entregando um copo d’água. Seu rosto estava um pouco inchado. Bethany aceitou o copo, mas não bebeu de imediato.

— Me desculpem pelo que eu fiz. — começou ela. Eu não entendi. Todos pareciam estar da mesma forma. Allyson se virou e se aproximou de Bethany, afagando sua cabeça.

— Não fez nada de errado, Beth. — Quem se pronunciou, pela primeira vez, foi seu avô, de voz grossa e áspera. Ele se levantou e foi ao encontro da afilhada, agachando-se em frente a ela. — O que aconteceu não foi culpa sua, sabe disso.

— Não me refiro a isso. — Sua voz pareceu, agora, um tanto irritada. Bethany então se levantou e, ignorando seu avô, caminhou em minha direção.

O que você está fazendo, Bethany?

— Me desculpe por aparecer daquele jeito. Por causar problemas e responsabilidades desnecessárias pra você. Você foi uma pessoa muito boa, mas não precisava ter sido. Jamais mereci a atenção e ajuda que me concedeu.

— Bethany, não foi uma-

— Calma, deixa eu terminar. — Cortou ela. De repente, sentia-me muito ansiosa. — É sempre você quem fala, e... não que eu não goste disso e... você também fala tão bem, mas deixa eu falar agora. Por favor, Delilah — pediu, fitando-me com os olhos brilhantes.

Eu não disse nada. Só conseguia olhá-la admirada. Tinha o rosto tão bonito que parecia que eu o via pela primeira vez.

— Eu realmente não mereci nada daquilo. E ainda não mereço nada vindo de você. Por isso agradeço. Por tudo. Eu não sei o que faria se não tivesse você pra abrir meus olhos. Ficaria naquela cama ainda por muito tempo, na verdade. Me desculpe pelas coisas ruins que fiz ou disse que te chatearam ou qualquer coisa. Nunca tive a intenção de machucar você. Me impressiona sempre, ver você sendo quem você é, alguém tão maravilhosa, apesar de tudo que já passou. Me inspiro em você, Mia. — Ela suspirou, fechou os olhos e acrescentou: — E... continuo, a cada segundo que passa, me apaixonando mais ainda por você.

Antes que eu respondesse, Bethany se virou e encarou os restantes. Sabia que tirava sua coragem de algum lugar, mas não sabia de onde. Só continuei observando enquanto deixava uma parte de sua alma à reveria. Ela precisava disso.

Você consegue, Bethany.

— Me desculpem por preocupar vocês. Por ser uma criança estúpida e confusa. Algo realmente sério poderia ter acontecido e eu não me dei conta disso. — Ela apontou para Jason e Michael. — Eu estava chateada com vocês. Sabe por quê? Porque queria ser como vocês. Vocês não ligavam se Denise estava presente ou não, ou se William estava. Viviam numa boa com isso enquanto eu me torturava todos os dias. — Agora, apontou para seu pai. — Por muitas, muitas vezes, você foi cruel o suficiente pra não me ouvir. Mas sempre me protegeu como pôde. E pai, olha, não adiantou muito. Eu me ferrei várias vezes ainda mesmo com seus escudos. — admitiu, com a voz embargada. — Vô e vó, vocês não têm culpa de nada. Sempre me agradaram e sempre gostei de visitar vocês. Me desculpem por se deparar com essa bagunça.

— Querida, tá tudo bem-

— Não tá tudo bem — pronunciou o pai de Bethany, levantando-se em seguida. Eu engoli em seco. — Apaixonada por ela? Qual o seu problema, Bethany? Mais um distúrbio de adolescente?

— De tudo o que eu disse, você só considerou isso? — questionou Bethany, meneando a cabeça. — Tá vendo como não me ouve? Você nunca me ouve!

— Olha o absurdo que você me faz ouvir, garota! — berrou William, irritado, se aproximando de Bethany com uma menção que eu conhecia muito bem.

Agora chega.

— Pare. — Puxei Bethany para trás de mim, fitando William com severidade. — Se tocar nela, irá se complicar.

— Ninguém tem o direito de dizer como devo educar minha filha. — rosnou William.

— A menos que queira arcar com um processo e aparecer em todas as manchetes dos Estados Unidos, é melhor se manter parado no lugar. — falei com a voz calma, fitando Jason e Michael em seguida. — Vocês. Se imponham. São crianças, por acaso?

— Olhe bem como fala na minha casa, imun-

— Já deu, William! — berrou Michael. — Acha que vai mudar alguma coisa!? Olha pra ela, idiota. Acha que ela realmente liga pro que pensa? Acha que tua opinião fútil vale de alguma coisa? Você é pai, não é Deus.

— E acha que Deus está de acordo com isso, rapaz? Acha que sua irmã está certa? Michael Sunnin Taylor! — berrava William, indignado.

— E desde quando eu me preocupo com o que Deus acha? — rebateu Michael. Ele realmente era muito parecido com seu pai. Pareciam irmãos a este ponto. — Só você liga pra isso nessa casa. Ninguém é obrigado a seguir tuas crenças. Se Deus proíbe, proíbe você que o segue. Não eu. Não Bethany. Nem nenhum de nós.

William ficou encarando Michael por um momento. Quer dizer, minutos. E depois, sem olhar para ninguém e sem dizer uma palavra, se retirou.

Bethany desabou no chão, de joelhos. Começou a chorar outra vez. Seu choro era estridente agora. Corri e a abracei.

Seu corpo estremecia, rebatia contra o meu como uma onda de agonia. Abracei o mais forte que podia. Tomei cuidado para não a machucar. Ela gritava. Meus ouvidos doíam com isso, mas eu não sairia dali. Não tendo consciência do que berrava.

Não tendo plena consciência do que era sentir isso.

— EU NÃO TENHO PAIS! EU NÃO TENHO PAIS!

XXX

— Ainda querem falar com você. Na verdade, comigo também — comentou Mia, inquieta.

Fitei-a de canto de olho. Seus cabelos pareciam realmente negros naquele ambiente. Algumas folhas teimavam em se prender aos fios. E, devo admitir, também gosto de me prender a eles.

— E daí? Liga pro Clemente. Pede pra tirar eles daqui. — falei, voltando a fitar o túmulo.

Michael não queria, de jeito nenhum, que houvesse uma janela no caixão para visualizar o rosto de Denise, ao contrário de mim, que queria a qualquer custo. Queria muito visualizar seu rosto uma última vez. Briguei muito por conta disso, pois não era só ele: meus avós também não queriam. Quase perdi por ser a minoria.

Mas quando se tem alguém como Mia ao seu lado, saiba que sempre convencerá a todos. Ela, sem opinar, apenas ressaltou que eu tinha “um parecer relevante por ser a única filha de Denise, sendo inadmissível não levar isso em conta neste caso”.

Até nessas horas ela me ajuda. É incrível.

Durante o funeral, ao menos, vi pessoas conhecidas e agradáveis. Clarissa, Christopher, Julian. Desagradáveis também: Ricchard, Wallace. Mas isso só foi a ponta do iceberg.

Vi Bryan de longe por um instante. Após, quando quis ir à caça para expulsá-lo dali de alguma maneira, me informaram que havia ido embora sem falar com ninguém.

Vi Agnes e Matheus também, amáveis como sempre. Ficaram ao meu lado desde o início, meio empurrando/afastando meus amigos do Ensino Médio (anteriores e anteriores aos anteriores (?)) durante todo o processo. Depois se despediram plenamente, dizendo que me visitariam no dia seguinte.

Conheci a namorada de Michael; Johanna. E que péssima hora para a conhecer.

Revi Herbert, vizinho do antigo apartamento de Mia. Péssima hora para revê-lo também — mas pude matar a saudade.

Bem, meus irmãos e avós tem me evitado um pouco. Dando espaço, acho. E Mia tem estado em meu encalço mais que o normal, no entanto.

Inclusive, descobri algo interessante sobre a minha mãe. Ela era bissexual. Mas nunca admitiu aos meus avós.

Ally só sabia porque havia visto uma vez, Denise, quando mais nova, e sua melhor amiga no quarto dela se beijando. Desde então, esperava que minha mãe dissesse algo. Esperou, esperou bastante. Não queria forçar, nem questionar, pois nunca teve esta fobia.

Para Ally, se as pessoas não dizem, é porque não querem dizer e é só isso. Era uma pessoa que sempre viveu afastada de tudo, sabe? Se bem que pessoas como ela tendem a ser bem mais conservadoras. Mal sabe que a coisa é bem problemática.

E, por fim, minha mãe morreu sem admitir para nenhum de nós quem realmente era. Nem para mim. Bem... Nem eu sei muito bem o que sou. Bi, lésbica, aventureira? Este processo de “auto-rotulação” é mais complicado do que parece. As pessoas costumam perguntar e tudo mais, então é interessante ter algo em mente, senão, pensarão que você é indeciso e blá blá blá.

E se eu ser? Afinal, que diferença faz?

Digo, não, não sou indecisa. Eu quero a Mia e a amo demais. Mas me relacionei com rapazes e não tenho problemas com isso. E já achei mulheres atraentes antes. Porém, sei que não existe essa coisa de apenas homens e mulheres. É mais que isso. É um bagulho muito louco e complexo.

E já cheguei a uma conclusão interessante. Posso me considerar... Miassexual? Pois, sinceramente... eu não tenho olhos para mais ninguém.

Enfim, eles foram embora. Não vi meu pai, mas questionei a Michael e Jason. Disseram que ele veio. Porém, eu não iria querer vê-lo, de qualquer forma.

Todos já haviam ido embora, realmente. Só haviam repórteres irritantes achando que é uma ótima hora para solicitar uma entrevista ou depoimento para a filha da falecida. Bom senso não foi incluído na grade deles, sem dúvidas.

Sobrou eu, Mia e Clemente, mas o mesmo com certeza se encontra longe dali, cuidando da imprensa. Minha mãe deixou algo que vale mais do que qualquer coisa que tenha escrito em seu testamento: um guarda-costas.

Sentia-me tão desgastada, fala sério. E cansada de ficar em pé.

Então sentei na grama, em frente à sepultura.

DENISE CORTÊS RAYMOND

FUNDADORA — CORTÊS INC.

✫ 15/12/1978

✞ 22/05/2016

— Por que se tortura tanto? — ouvi Mia questionar. Desviei o olhar da sepultura e observei a natureza um pouco.

Tudo era verde demais. Tranquilo. O cheiro de terra era até gostoso. Acho que era a primeira vez em que me sentia acomodada em um lugar assim.

— Não estou me torturando.

— Faz duas horas desde que parou em frente a este túmulo. — ponderou. Agora redirecionei meu olhar a ela, observando sentar-se ao meu lado.

Estava frio. Senti seu calor emanar, mesmo não tendo encostado em mim. Eu podia ter a natureza ao meu redor, flores, árvores, mato, muito mato em geral...

Mas adivinha quem tem o melhor cheiro?

— E daí? — murmurei. Que diferença faaaaz, afinal? Não, não me refiro ao ótimo cheiro de Mia.

— Posso conversar com você? — sussurrou. Engoli em seco. — Não me olhou nos olhos desde que saímos de casa.

Sim, eu realmente demorei um pouco para virar e olhá-la. Não sei, mas hoje está tudo estranho. Olhar para ela está estranho. Comer está estranho. Movimentar-me está estranho. Respirar está estranho.

Viver está estranho.

— Não tem olhos no meu cabelo e nem na minha sobrancelha. — informou Mia, prendendo, carinhosamente, o polegar e indicador no meu queixo, aproximando o meu rosto do seu.

Havia uma distância interessante entre nossas faces agora. Eu conseguia visualizar as pequenas galáxias castanhas que se apoderavam de seus olhos. Continuavam, obviamente, lindos. Tinha que ressaltar isso a mim mesma sempre que os contemplava. Quantas vezes fossem necessárias.

— Esses são os meus olhos, certo? — disse e eu assenti com a cabeça. Ela deu uma pausa, apenas continuando a me olhar. Sinceramente, por que tive que namorar uma mulher tão linda? Isso me distrai. Muito. — Vai ficar tudo bem. Uma hora vai, Beth. — ressaltou, encostando sua testa na minha. — O que sente não é permanente. Mas não se esqueça de sua mãe. Foi uma grande mulher, independentemente de seus defeitos. Da mesma forma que tinha os dela, você tem os seus. Não se culpe pelo o que disse ou deixou de dizer. Nós não temos controle sobre isso, amor. Coisas acontecem.

— Eu sei que vai. Mas, Mia... — murmurei, não sabendo o que dizer em seguida. Eu não choraria de novo. Já chorei o suficiente. Minhas pálpebras ardiam só de lembrar.

— Eu sei que dói. Sinto o que sente. Dói ver a pessoa que mais amo sofrer. — murmurou, ao passo que passava os dedos por meus cachos com carinho. Eu gostava disso. Gostava de receber seu carinho. — Mas estou aqui e você pode compartilhar comigo. Pode dizer o que quiser, xingar alguém, me xingar... Apenas faça o que quiser, amor. Você tem o direito de liberar isso. Só lembre que te amo e quero continuar contigo, Beth.

— Eu nunca esqueci disso, Delilah. — retruquei, um pouco agoniada. Não gostava quando falava desse jeito. Era como se tivesse medo de me perder. E eu sei que era exatamente isso. Feria o meu coração. — Eu também te amo, Delilah. Não consigo viver se não estiver comigo. Não tenho forças pra isso. Eu queria tanto poder retribuir o que faz por mim, meu Deus...

— Se esse é tanto seu desejo, acharemos um jeito de realizá-lo. — disse ela, dando-me um beijo na testa. — Na verdade, já descobri um meio.

— Qual? — questionei, meio frenética, levantando a cabeça muito rápido. O fato é que isso fez com que Mia fosse para trás e, perdendo o equilíbrio, caiu de costas no chão. Eu arregalei os olhos. Mas comecei a rir. Não, a realmente gargalhar.

Misericórdia, eu estava em um cemitério. O que pensariam de mim?

— Amor, desculpa. — pedi, a puxando pelos braços para sentar-se de novo. Seu cabelo ficou com vários fiapos de grama. Mato é um saco. Comecei a limpar. — Foi sem querer.

— Não, valeu a pena. — murmurou enquanto eu tirava a sujeira de seu cabelo e roupa. — Faz tempo que não vejo você rindo e sorrindo deste jeito.

Eu não percebi que sorria até ouvi-la dizer. E fiquei sem saber o que fazer.

Ela desviou o olhar e enfiou uma das mãos no bolso do casaco. Parecia tão fino... e estava tão frio. E olha que eu estava de touca, luvas, botas, duas calças e um casaco bem felpudo. Tudo de cor preta, aliás.

— Preciso que aceite uma coisa que vai me deixar muito feliz. — disse, retirando algo do bolso.

Era uma porta aliança.

Paralisei. OK, isso é novo para mim. Eu nunca usei nada do gênero. Ai, caralho. CARALHO.

— Não estou te pedindo em casamento, por mais que eu queira, mas sei que não é o momento. Nem para mim e para você. — esclareceu, mas isso não me tranquilizou de forma alguma. — Precisamos de mais tempo. Mas sempre tive algo com você. Simbolizar seria uma honra. E quando soube que também queria... Foi a primeira coisa que fiz ao chegar em Paris.

— Eu lembro que você disse. — murmurei. Puta merda, ela comprou em Paris. A vontade de chorar veio à tona, mas, pelo menos, o motivo é outro. — Mia... Eu não sei o que dizer. Mas... posso- posso ver? — pedi, acanhada. Eu realmente não sabia o que dizer.

Ela deu uma breve risada.

— Beth, uma delas é sua, se quiser. — ressaltou, abrindo a caixinha.

Certo, eu definitivamente estava sem palavras. Eram lindas. Lindas demais. E o que surpreendia era o fato de serem douradas. Normalmente, douradas são para pessoas casadas, não? Eu estou confusa, mas fascinada.

Eram grossas e levemente foscas. Linhas e pontinhos percorriam o diâmetro do material, um tipo de entalhe, com pequenos diamantes azuis claros em alguns lugares. Formavam o que pareciam ser galhos, fazendo os diamantes parecerem flores. Era genial. Era puro bom gosto. Eu não sei se teria aptidão para escolher algo tão bonito quanto.

— Não sei se as cores e os desenhos vão te agradar. E eu sempre apreciei flores. Ao menos, acho que isso a maioria das pessoas gostam. — comentou. Eu olhei para grossas seu rosto, voltando a olhar para as alianças em seguida, depois fitando-a novamente.

Tive que beijá-la.

Tudo bem, a derrubei outra vez no gramado, mas, desta vez, amorteci a queda com meus braços. Meu Deus, como a amava. Ela era incrível. A melhor pessoa que existe.

Até esqueci que estávamos no cemitério, em frente ao túmulo de minha recém-falecida mãe e que tudo parecia estar desmoronando, mas... eu ainda tinha a Mia.

Então eu continuava tendo tudo.

— Obrigada, Delilah. Obrigada mesmo. — agradeci, distribuindo muitos beijos por seu rosto. Mas não consegui segurar mais. Comecei a chorar.

— Não chore. Mas pode chorar enquanto coloca a aliança. — sussurrou ela, fazendo-me rir abafado. Na verdade, saiu um som bem estranho por conta do choro, mas pareceu não ligar. Acho que já estava se acostumando com minha choradeira sem fim, sinceramente. Eu não me impressionaria com isso.

— Dá aqui. — pedi, enxugando meu rosto com as costas de uma das mãos. Ela entregou a caixinha e eu tirei delicadamente ambas as peças.

Entreguei uma em sua mão e deixei uma em minha mão esquerda, oferecendo a mão direita a ela. Mia me olhou com atenção neste momento. Parecia querer se certificar se eu realmente queria aquilo.

Eu sempre quis.

Lentamente, puxou minha mão para si, dando um beijo em meus dedos. Depois, inseriu a aliança no dedo anelar. E não sei descrever direito a sensação que senti. Talvez não tenha me sentido tão bem em toda minha vida.

Fiquei admirando aquela peça até perceber que deveria fazer o mesmo em Mia. Eu sou bem lesadona mesmo, de verdade. Mas ao fitá-la, me deparei com uma de suas raridades.

Pelo seu rosto lindo e perfeito, havia linhas brilhantes que desciam dos olhos ao queixo. Porém, havia um sorriso. Apesar de estar ou ter estado claramente chorando, estava feliz. E muito mais que feliz. Talvez o termo “feliz” nem se encaixe mais nesta situação.

Só pude sorrir a ela e torcer para que tudo dê certo. Torcer para que eu consiga ser o melhor para ela porque só merece o melhor. Sempre mereceu. Estou disposta a dar isso.

Puxei sua mão e a pousei na lateral do meu rosto. Em seguida, Mia se aproximou e me beijou. Um beijo tranquilo e meio salgado. Desci sua mão e inseri a aliança em seu dedo anelar da mão direita também, sem deixar de beijar os dedos finos e esguios. Ela sempre teve mãos elegantes.

— Posso te perguntar uma coisa?

— Pode me perguntar o que quiser, Beth.

— Por que gosta tanto de flores?

— Por que gosta tanto de moda? — questionou em vez. Eu franzi o cenho. Ela sabia a resposta.

— Você sabe. Minha mãe-

— E minha resposta é a mesma. — cortou ela. Eu a fitei por um momento. E tive uma ideia. Uma ideia bem doida.

— Você sabe se ela está...? — Eu não queria terminar aquela pergunta.

— Não. Eu não sei, Beth. — respondeu ela, desviando o olhar.

— Então já sei o que fazer pra te ajudar. Pra retribuir. — murmurei, dando um sorriso de orelha a orelha.

— O que quer dizer, Beth?

— Vamos procurar por ela. — afirmei, pousando ambas mãos em seu rosto. Ela me fitou surpresa. — Eu prometo que vamos achar, Delilah.

Notas finais
#FéNoPaiQueA2TemporadaSai
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!