October

11 Nothing Else Matters


Notas iniciais
Façam uma boa leitura lindas. *-*

#11

– Paul você dormiu por acaso?- Brenna perguntou ainda meio sonolenta, enquanto via seu marido já a cozinha preparando o café.

– Claro que sim, querida. Bom dia. – desejou lhe dando um selinho.

– Vi você com o celular ontem de madrugada...

– Só estava verificando se estava tudo bem, entende?

– Sei... E estava?

– Ela disse que sim, acho que deu tudo certo. – respondeu enfim, abocanhando sua torrada. – Combinei com o Jim de ir buscá-la... Quer ir?

– É, acho uma boa idéia...

O som do telefone soou alto pela extensão da cozinha. Engolindo em seco o gole do café que havia acabado de dar, Brenna fora atender. Mas seu rosto ao escutar as primeiras palavras de quem quer que estivesse do outro lado da linha, absolutamente não foi o melhor. As expressões antes animadas foram rapidamente substituídas por uma mais preocupada, e Paul já adivinhara o que acontecera. Empurrando o prato para o lado e repousando a caneca de leite morno sobre o mármore novamente, ele sentiu um desespero particular se manifestar silenciosamente dentro de si.

– Vamos logo buscar a Tober! – Brenna disse séria, engolindo o nó na garganta.

– O que aconteceu com ela?! – ele praticamente gritou, saindo da cozinha a procura de seus chinelos.

– Aquela desgraçada daquela menina de novo!

Depois disso o desespero se concretizou dentro de si. Não ligando para as roupas de dormir que ainda vestia, saiu feito um furacão acompanhado de Brenna. O carro se arrancou cantando pneu pelas ruas, ele só precisava ver sua filha o quanto antes.

Não se importou com os sinais vermelhos, ou com a velocidade excessiva logo pela manhã. Com as coordenas, essas meio atrapalhadas pelo nervosismo, de sua esposa, ele logo estava estacionado à frente do prédio luxuoso de Stacy.

– É o décimo quinto andar. – Brenna avisou assim que adentraram o elevador, sem se importarem com os resmungos do zelador.

Aquele mesmo corredor que havia adentrado com sua filha no dia anterior, parecia mais longo ao que se lembrava. Guiando o marido até a porta certa, ela bateu violentamente na madeira maciça.

– Oi... – Evelin atendera com a expressão tão preocupada quanto à deles. Vestida a um roupão denunciava que havia acabado de acordar também.

– O que aconteceu por aqui? – Brenna perguntou sem se importar se estava sendo mal educada, não havia ido com a cara daquela mulher mesmo. Paul também não dando valor para os bons modos apenas adentrou o apartamento da mulher, vendo Tober sentada sobre a mochila num canto do hall ali.

– Filha! – ele a chamou e ela não fez nada mais do que correr em sua direção, com o rosto molhado em lágrimas. — O que elas fizeram com você? – perguntou desesperado, passando a mão pelos cabelos da menina, agora curtos.

– A Casey cortou o meu cabelo, papai. – contou meio aos soluços, apertando ainda mais seus bracinhos em volta do pescoço dele.

– Como foi acontecer uma coisa dessas? – Brenna perguntou incrédula com o que estava vendo. O cabelo de October era sedoso como o dela, longos tanto quanto.

– Se acalme... Eu já tomei as providencias necessárias. A mãe de Casey chegará a qualquer momento. – Evelin tentou manter controle, mas Brenna estava muito nervosa para simplesmente levar em conta que, definitivamente, não estava em sua casa para aumentar o tom de voz.

– Vamos embora. – Paul disse ríspido, passando pela porta com October em seu colo. Brenna entendendo que nada mais poderia ser feito, pegou as coisas da filha e fez o mesmo, saindo em passos apressados atrás de Paul.

Ele se impôs no banco de trás com a garota, fazendo-a deitar sobre seu colo. Os soluços de Tober, desta vez, eram mais controlados. Ela estava sentindo seu interior se aliviar com a presença de seus pais ali, finalmente.

Não se lembrava de ver Casey por perto de si na noite passada, e nem de implicâncias depois de que Stacy falara ríspida, ainda dentro da sala. Mas sabia que aquilo estava sendo bom demais pra ser verdade; Conhecia Casey e ela não pararia nunca com todo aquele rancor, que pra falar a verdade não havia motivos. Ela nunca a deixaria em paz, e agora que tinha a amizade de Stacy, as coisas tendiam a piorar, isso era fato. Mas cortar os seus cabelos? Aqueles fios longos que tanto adorava... Ela tinha passado dos limites, definitivamente.

– Tudo bem filha, papai está aqui... – Paul tentara acalmá-la, passando as mãos pelo seu cabelo desproporcional.

October não mencionara nada a mais. Seu rosto estava enterrado no meio da barriga do homem que a acolhera. Não havia choro, apenas lágrimas cálidas, que molhavam aos poucos o tecido fino da camiseta de Paul. O percurso fora assim, talvez não tivesse nada a dizer de fato. Só ela podia explicar o que estava sentindo naquele momento: Raiva, tristeza, vontade de simplesmente se trancar no quarto e nunca mais sair. Aquele conforto todo que a presença de seus pais lhe proporcionava, pela primeira vez, não era nada comparado àqueles fios lhe batendo na altura do queixo. E levando em conta mais uma vez aqueles sentimentos desprazerosos que lhe tomava, subiu as escadas diretamente para seu quarto quando chegou em casa. Sem se importar com os dizeres doces de seu e mãe, bateu a porta, trancando-a em seguida. Só precisava de um tempo para absorver os fatos, este que pela primeira vez na vida teria os cabelos curtos. Ela não gostava, ela não estava se gostando naquele momento.

– Acho que ela só precisa de um tempo, sozinha... – Paul concluiu para a esposa, descendo as escadas novamente.

– Eu não consigo acreditar que ela foi capaz de fazer isso... Sinceramente. – disse meio aos soluços, tentando engolir o nó na garganta que se formara. Mãe é mãe, e ela podia sentir a mesma dor que incomodava sua filha.


°°°

– Ela não sai do quarto... Está trancada lá o dia inteiro. – Paul falava ao telefone com James, este que ligara para perguntar especialmente o motivo do amigo não ter passado a sua casa mais cedo, para buscar October, como combinado.

– Daqui a pouco eu to aí com a Cris... Temos presentes pra ela, talvez se anime.

– Tudo bem, te espero então.

Paul passara a tarde tentando conversar com a filha, mas nada a fazia sair de seu confinamento naquele quarto. Brenna havia saído para fazer compras, talvez chocolate para tentá-la convencer, ou simplesmente tentar a fazer se sentir bem. Não queria interferir nos sentimentos da filha naquele momento, no fundo ela sabia o que se passava, mas ver a pequena Gray trancafiada em seu quarto, quando na verdade não era fácil esquecer-se da imagem da menina pelos corredores da casa, super imperativa, a fazia sentir o peito doer.

Paul naquele momento torcia para que os presentes de Jim e Cristina, vindos da Itália, a ajudasse com seu mau humor; Entretanto o desespero era tão grande que ele não pode evitar ligar, também, para seus amigos, esses que conseguiram dar atenção num Domingo, é claro.

– Onde ela está? – Craig perguntou assim que adentrou a casa do amigo, vendo-o com uma expressão preocupada e cansada acima de tudo.

– Lá no quarto ainda...

– Eaí caras! – Sid adentrou a casa de Paul, fazendo-o arquear as sobrancelhas.

– O que você ta fazendo aqui? Tentei ligar pra você mais cedo, mas seu celular dava na caixa postal e ninguém atendia na sua casa.

– E sua cara ta horrível! – Craig completou.

– Eu acordei num Motel aqui perto, resolvi dar uma passadinha pra fazer uma boquinha. To com fome. – falou passando a mão na barriga, enquanto se dirigia até a geladeira de Paul.

– Wilson, se você já não tivesse passado dos trinta, eu lhe avisaria que era melhor se cuidar para não morrer antes. – concluiu o arrancando de dentro de sua geladeira pela gola da camiseta amarrotada.

– Vem, vamos lá comigo tentar fazer a Tober sair daquele quarto. – Craig disse, fazendo sinal para que ele o seguisse. Mas Sid parou a meio fio do caminho, o encarando sério.

– O que aconteceu com ela?

– Umas meninas da festa do pijama... Cortaram o cabelo da Tober. – Paul contou tristonho, voltando a se sentar no sofá. Daria privacidade para seus amigos tentarem converter o humor de sua filha, com certeza, já que pela primeira vez as suas tentativas não surtiram efeito.

– Mas que putinhas...

Antes que pudesse xingar ainda mais aquelas meninas, de tudo qualquer nome, que definitivamente não seria adequado para aquele momento, já que estava a frente do quarto da garota, vendo Craig dar três batidinhas na porta.

– Tober... Sou eu, abre pra mim?

Ele esperou apreensivo alguma resposta da garota, mas nada vinha. Agora ele entendia todo aquele desespero do amigo.

– Tober, tem um gato aqui querendo entrar, abre. – Sid disse debochado, vendo o amigo ao lado revirar os olhos.

– Se você abrir te levo na casa do Corey pra gente encher o computador dele de vírus.

– Se ela não abriu para um gato, ela não vai abrir para um hackeador filha da mãe. – Sid sussurrou, rindo nasalado. Mas o som da porta sendo destrancada o fez desmanchar aquela cara de deboche no mesmo instante, vendo logo em seguida o dedo do meio de seu amigo.

Ao adentraram o quarto da menina, não viram nada. Quer dizer, não exatamente. Ainda tinha aquele bolo debaixo do edredom sobre a cama.

– Meu deus Sid, será que a October foi abduzida por extraterrestres?

– Extraterrestres? Puf. Dúvido muito! Será que foram fantasmas que abriram a porta pra gente?

Não esperavam que a piada sem graça surtisse efeito, mas aconteceu. Um risinho escapou entre as cordas vocais ainda finas da garota e sorriram um para o outro, aliviados por terem conseguido fazê-la dar sinal de vida. Trocando olhares cúmplices caminharam até a cama da menina, sentando por cima da elevação no edredom.

– Ai! – ela gritou ao senti-los em cima dela.

– NOSSA SENHORA, A CAMA FALA! – Sid gritou, se levantando dali num pulo, assim como Craig também o fizera. October não controlando mais os risos, saiu de baixo das cobertas, jogando-a para cima.

– Buuuuuu! – tentou assustá-los, e como bons comediantes fingiram ter dado certo, colocando suas mãos sobre o peito.

– Que susto, pensei que tinham raptado a minha mini Gray. – Craig falou respirando fundo, enquanto Sid se aproximava e a puxava para seu colo, deslizando-a para suas costas.

– Não quero descer. – disse manhosa, tentando se esquivar do outro. Só então perceberam que em sua cabeça havia uma toca, de seun pai talvez.

– Por quê? Posso ver seu cabelo?

– Não! Ele está horrível!

– Horrível? Mas ele já era... – Craig disse meios aos risos, vendo-a cerrar os olhos em sua direção – Eu estou brincando Tober!

Ficando cabisbaixa e se desvencilhando das costas de Sid, ela arrancou a toca de sua cabeça, engolindo em seco. Ao contrário do que imaginava, naquela mente frágil de criança, não viu ninguém rindo e nem a insultando.

– Que tal fazer um corte estilo David Bowie?

–Han? Quem é David Bowie? – perguntou franzindo o cenho.

– Você não sabe quem ele é?!

– Wilson ela só tem sete anos. – Craig avisou entediado, revirando os olhos.

– Eu sei, mas...

– Cadê a minha pequena?! – James logo após interrompera os demais, adentrando o quarto como um furacão. – Tober! – ele a pegou em seu colo, rodando-a no ar.

– Olha só que folgado... Chega do outro lado do país querendo colocar moral já. – Craig implicou, cruzando os braços.

– Vocês é que são todos folgados! A filha é minha que eu saiba... – Paul se intrometeu, também se inturmando com os outros dentro do quarto da menina.

No final das contas ela se sentiria bem. Talvez, de fato, aqueles fossem seus melhores amigos. Não tinha dúvidas que Stacy nenhuma trocaria o lugar daqueles caras. Só eles tinham o poder de arrancar risos de sua face, de arrancar toda a preocupação que ainda era cedo demais pra carregar as costas. Por um momento esquecera-se de seu cabelo, de Casey, da escola, de tudo. Nada mais importava quando aqueles marmanjos barbados se tornavam crianças também, apenas para vê-la bem.