Oceans
1 Capítulo único
— Aproar ao vento, deixem as velas como estão! — A capitã do barco ordenou em voz alta, o suficiente para que seus tripulantes escutassem em meio as ondas turbulentas e aos trovões da tempestade.
Não era a primeira tempestade que o navio Raposa dos Mares passava. A tripulação já estava preparada para o mar do norte, traiçoeiro e gelado desde a última viagem, em que percorreram a mesma distância rumo ao continente congelado de Velhi, uma terra prometida com tesouros escondidos em suas geleiras.
Quando retornaram ao ducado portuário de Címia, foram recebidos com parabenizações, prêmios e Farah, a capitã, condecorada como a pirata de prestígio da região. Címia era conhecida por seus habitantes serem, em maioria, piratas e pescadores. Ali, qualquer pirata era bem visto, quanto mais longe fosse com suas embarcações, melhor.
Farah e seu irmão-gêmeo, Finley, nasceram e cresceram por ali, a família toda composta por pescadores e comerciantes de pérolas. Conforme os anos se passaram, viram piratas contando de suas aventuras em alto mar e de terras distantes e mágicas com fadas, sereias e elfos. Os irmãos, maravilhados e curiosos, decidiram que dali em diante se esforçariam para se tornarem piratas reconhecidos e claro, tão ricos quanto.
A condecoração para Farah foi como a realização de um sonho. Agora, além do seu cabelo longo e alaranjado, seu chapéu de capitã adornado em penas vermelhas e seu casaco longo e reforçado com detalhes em dourado, também usava a medalha de condecoração como broche. Todos esses eram detalhes que a tornavam única.
— Se seguirmos o vento iremos para o leste, capitã — Finn, o co-capitão, ressaltou ao lado dela.
— Não temos outra alternativa. Se continuarmos para o norte nessa tempestade iremos naufragar em uma das geleiras. Podemos fazer um desvio. — Explicou, tentando transparecer confiança.
A verdade é que mesmo conhecendo aquelas águas, uma parte de si não confiava que pudessem chegar sãos e salvos em terra firme dessa vez. Só seu conhecimento em navegação não seria suficiente, precisariam de sorte também.
— Dependendo da grandeza da tempestade, podemos acabar em Maire. Eles estão em guerra! — ele completou, exasperado.
— Estão em desacordo Finn, não em guerra — Farah corrigiu, suas vestimentas e as dele encharcando com a chuva forte.
— Mas podem entrar em uma a qualquer momento. Você sabe o que os seres mágicos pensam da gente.
Ele não estava errado. Desde que a presença dos piratas ficou mais frequente nos últimos anos no continente de Dara, onde viviam a maioria dos seres mágicos, estes pensavam duas vezes antes de deixar que piratas entrassem em seus territórios.
Afinal, piratas saqueiam. E mesmo que essa não fosse a intenção deles no continente, era melhor evitar.
A garota o abraçou de lado e sorriu.
— Vai dar tudo certo. Já passamos por isso antes. — assegurou, mais para si que para ele.
Finn abriu um sorriso, não totalmente seguro se acreditava nela.
Em meio às trovoadas e as ondas chocando-se com o casco do barco, a capitã ouviu um sussurro melódico.
— Ouviu isso? — perguntou, desvencilhando-se do abraço.
— Isso o quê? — ele retrucou, confuso.
Farah sentiu um arrepio percorrer seu corpo, suspeitando que o que temia estava acontecendo. Pediu a Finn que se recolhesse com o restante da tripulação, ficando apenas ela e alguns marinheiros que cuidavam das velas e do leme no convés.
Perguntou a eles se tinham escutado algo, e com a resposta negativa, respirou fundo. Menos mal, a criatura só estava afetando a ela.
Decidiu seguir o som, ficando mais alto conforme se aproximava da proa do barco, esgueirando-se pelas beiradas para não perder o equilíbrio.
Quando seu olhar desceu para o mar agitado abaixo, conseguiu distinguir uma figura que nadava no mesmo sentido do barco. Por instinto, puxou o revólver que carregava consigo e apontou para a criatura. Seu barco não seria mais um afundado por sereias, e Farah garantiria isso a todo custo.
A sereia tornou a olhá-la, seu nado ficando mais lento. Ou seria ela que fazia parecer que o tempo passava mais devagar?
Não demorou para a capitã começar a escutá-la em sua mente:
“Eu não faria isso se fosse você. Estou aqui para te ajudar.”
A capitã destravou a arma e tentou atirar, sem sucesso. Como se uma força invisível a impedisse de apertar o gatilho.
“Não precisa ser assim. Deixe-me ajudá-la, posso te tirar da tempestade. Tudo que precisa fazer é me deixar entrar no seu barco.”
A proposta era tentadora, mas a que custo? Farah conhecia histórias de barcos com centenas de tripulantes afundarem devido a uma única sereia. O que garantiria que com ela fosse diferente?
Quando percebeu, tinha guardado sua arma e estava a caminho de sua cabine, que possuía uma saída secreta direta para o mar. Farah nunca soube exatamente para que servia, mas para o momento parecia a alternativa perfeita para a sereia, que controlava seus movimentos abrindo a saída e amarrando a ponta de uma corda náutica que encontrou em um nó apertado antes de jogar a outra ponta para que ela subisse a bordo.
A capitã acordou de seu transe, levando alguns segundos para perceber que seu corpo estava de volta ao seu controle. Ela procurou pelo canivete em sua bota e tentou cortar a corda desesperadamente, em uma tentativa falha de tentar compensar o que tinha acabado de fazer.
— Não acho que isso irá funcionar — ela escutou uma voz atrás de si. Familiar e ainda sim inumana, melódica demais.
O olhar da ruiva dirigiu-se à fonte da voz. A sereia, se é que podia chamá-la assim, agora tinha pernas, das quais ela parecia estar familiarizada.
E estava nua.
Farah desviou o olhar no segundo que percebeu.
— Pode soltar isso aí, eu não vou te machucar. Como eu disse, eu vim ajudar. — Ela sentiu um toque frio abaixar sua mão que segurava seu canivete na direção dela. Ela não se lembrava ao certo em que momento fez isso.
— Como posso ter certeza disso? — a capitã perguntou, seus olhos focados no piso de sua cabine, seus dedos brincando com o canivete.
— Se eu quisesse, já teria afundado seu barco sem nem precisar entrar. Você sabe disso — a voz da criatura estava estranhamente calma.
— Como… Eu… achei que sereias não tivessem pernas.
— Não temos, mas podemos ter se nos for necessário. A única condição é que precisamos tomar água salgada se ficarmos muito tempo fora da água.
— Por que você… — Farah começou, olhando para a criatura nos olhos, mas distraindo-se da sua pergunta enquanto a analisava.
Seu cabelo era de um azul céu. Estava solto e úmido, mas parecia secar mais rapidamente que um cabelo humano. Sua pele era mais branca e pálida que a sua, talvez até levemente azulada. Seu rosto era marcante, com as bochechas altas, o nariz fino e as sobrancelhas que lhe davam um ar de seriedade. Seus olhos eram monólidos e de um castanho escuro, e a analisava com uma curiosidade mútua.
— É um prazer conhecer você, capitã Farah — ela começou, apontando para a placa em sua mesa, com seu nome e função escrito. — Meu nome é Skye.
A sereia estendeu a mão para cumprimentá-la, mas Farah manteve-se imóvel, seus olhos fixos no olhar da outra.
— Certo. — ela recolheu a mão, sem graça. — Precisam ir 45 graus norte. É o caminho mais rápido para sair da tempestade.
A capitã não tinha uma opção melhor. Suspirou, engoliu o orgulho e até chegou a pensar que ter se rendido a ideia da sereia ainda era controle mental dela. Guardou o canivete de volta à sua bota e retirou seu casaco, estendendo a criatura.
— Vista e fique aqui. Não quero que ninguém te veja.
— Não é o tipo que divide, gosto disso — Skye provocou, vestindo o casaco e abrindo um sorriso quando a outra lhe dirigiu um olhar sério antes de sair.
Farah se encaminhou pelo convés até o timão e mudou a direção do barco, recebendo um olhar confuso do garoto que o dirigia até então.
— Mantenha assim — pediu para o garoto loiro que controlava até então. Se não estivesse enganada, seu nome devia ser Villem.
— Sim, capitã.
— Marujos, seguimos sentido nordeste. Recolham velas se os ventos estiverem nos desviando — bradou, seguida de murmúrios de confirmação.
— Ei, qual o motivo para a mudança repentina? — Finn surgiu do aposento detrás deles, a sala de reuniões.
— Eu… É intuição — ela disse, evitando o olhar dele. Eram gêmeos, sabiam bem quando um estava mentindo, e ela precisaria se esforçar se não quisesse que descobrissem sobre a sereia em sua cabine.
Finn a observou por um instante.
— Você seguiu o canto de uma sereia? — arriscou um palpite. — Cadê seu casaco?
Farah precisou pensar rapidamente.
— Não, e eu senti calor. Confie em mim, minhas intuições por acaso já nos levaram para uma enrascada? — questionou, sendo respondida com um movimento negativo de cabeça.
Depois de uns segundos em silêncio, Finn brincou:
— Se estiver certa, me lembre de te pagar uma boa caneca de hidromel quando voltarmos.
— Eu irei!
Os irmãos sorriram. Enquanto o navio seguia na direção que pediu, ela e Finn adentravam a sala de reuniões.
— O que planejou até agora? — ela perguntou.
— Bem… — Finn apontou para uma geleira à direita da que exploraram na viagem anterior. — A geleira que pretendo ir é essa aqui, 90 quilômetros a leste. Seth diz que não vamos demorar mais de 3 dias lá.
— Segundo minhas pesquisas, vão ser menos tesouros e mais difíceis de achar, mas também serão mais valiosos — Seth se pronunciou. Era um de seus tripulantes mais antigos e pesquisador. Encontrar itens valiosos era sua especialidade.
— Quanto você estima que vão valer? — a capitã perguntou, seu olhar focado no mapa esticado na mesa que se apoiava.
— O triplo do tesouro anterior, no mínimo.
Farah sorriu. Estava feliz de que seu plano iria dar certo mais uma vez.
— E se entrássemos mais no continente? — ela continuou, atraindo o olhar dos dois presentes.
— Bom… não é impossível, mas levaríamos semanas para mapear o terreno e garantir que é seguro explorar. Além de que não teríamos recursos para todos esses dias.
A capitã assentiu, processando a informação. Talvez… só talvez, poderia pedir um favor à sereia, só precisava pensar em uma moeda de troca.
Depois de mais alguns debates dos três, o mar já tinha se acalmado, apesar da chuva ainda continuar. Quando saiu da sala de reuniões, os tripulantes presentes no convés parabenizaram a capitã por conseguirem enfrentar mais uma tempestade. Farah agradeceu e sorriu enquanto atravessava por todo o barco até sua cabine.
Encontrou a figura sentada em sua cadeira lendo alguns de seus documentos.
— Isso é confidencial. — exclamou, indo de encontro a ela.
— Então não deveria me deixar sozinha aqui por tanto tempo — a sereia soltou os documentos e pegou um compasso da mesa. — É sério que vocês ainda usam isso?
— Poderia parar de mexer nas minhas coisas? — Farah arrancou o objeto das mãos dela, que deu de ombros. — Se queria me ajudar a sair da tempestade, já fez. Não precisa ficar aqui.
— Mas eu quero ficar aqui. Não é todo dia que encontro um barco pirata com uma capitã bonita.
A ruiva olhou para ela sem acreditar. Iria dizer algo, mas a de cabelos azuis continuou.
— Vocês vão para Velhi, não é? Eu olhei a rota — Ela apontou para um mapa na mesa. — Eu conheço a costa sul de lá. Faz fronteira com Maire, posso pedir para fazerem vista grossa para seu barco passar.
A ideia não era ruim, e ela tinha tirado as palavras da sua mente. A costa sul do continente congelado era perigosa justamente por fazer fronteira com o ducado de sirenas, não havia relatos de algum humano que tenha conseguido pisar lá, muito menos sair vivo. Ao contrário de outros seres mágicos, sereias não eram das mais amigáveis.
E estava com uma logo à sua frente.
— O que você quer em troca? — a capitã perguntou.
O rosto da figura se voltou para ela com uma expressão de desgosto.
— Eu não sou dessas, Farah. Só quero ajudar.
— O que você ganha com isso?
— Mais tempo com você — Skye respondeu simplesmente.
— Isso não é uma resposta válida, você… não me conhece. Eu nem deveria estar falando com você. — Farah evitou seu olhar, acreditando que isso pudesse deixá-la com os pensamentos em ordem.
— E qual o problema nisso? Podemos nos conhecer se você se abrir.
— Eu não…
— Quando foi a última vez que alguém flertou com você? Porque você não parece entender como um flerte funciona — interrompeu a sereia, levantando-se da cadeira.
Por algum motivo, Farah desviava de seu olhar, mas seu corpo se mantinha próximo do dela.
— Está usando seu encanto em mim.
— Não estou, e nem preciso. — A sereia segurou seu queixo e tornou a virar seu rosto confuso para ela. — E você sabe.
A mente da capitã estava barulhenta até que sentisse os lábios dela nos seus. Sentia seu toque agora quente em seu pescoço, o polegar acariciando sua bochecha e um calor subindo por todo seu corpo.
Não é como se sua confusão tivesse sumido. Ainda não entendia como em questão de minutos estava beijando a sereia que achara ser um risco para sua tripulação, e de por que estava gostando tanto.
Que possuía atração por qualquer pessoa, Farah sabia disso a anos. Mas por sereias, era a primeira vez.
×××
Os dias passaram, cada vez mais próximos do destino. A capitã tinha aceitado que a sereia permanecesse próxima de seu barco, contanto que evitasse ser vista por outros tripulantes e que ficasse em sua cabine caso subisse a bordo. Em troca, receberia informações cruciais dela para seu trajeto, evitando tempestades e outras sereias ou seres da água que pudessem impedi-los. E também, conseguiriam ficar juntas por mais tempo se o relacionamento fosse um segredo.
Para a maioria da tripulação, Farah continuava a mesma. Já para Finn, ele sabia que tinha algo de errado, era sua gêmea. Não que sua irmã não pudesse ter sorte ou uma boa intuição para afastá-los de mares agitados, mas sua tomada de decisão brusca o deixava incerto.
Era a noite anterior ao grande dia e a tripulação festejava no armazém do barco com barris de vinho e garrafas de rum e muita música. Farah tinha aceitado se dar uma noite de descanso, bebendo com eles e deixando que as canções e a bebida tomassem conta do seu corpo.
Ela não sabia quanto tempo ficou por ali, e chegou a pensar que estava bebendo mais do que devia quando viu Skye com eles.
Mas ela não estava ali como a capitã achou que estivesse. Finn e mais três rapazes a continham. Estava com a muda de roupa que emprestara a ela da última vez, e seu cabelo estava molhado, o que indicava que não fazia muito tempo que tinha subido a bordo.
— Encontramos essa sereia cercando o navio. Pelo visto é mansa, não usou o canto para tentar escapar, até roubou umas roupas suas, irmã. — Escutou seu irmão dizer a ela. Não sabia dizer se era a bebida ou o choque por a voz dele parecer mais distante do que estava.
Até a música parecia ter parado, e conseguia sentir os olhares de todos ali presentes encarando, julgando, quem sabe.
A sereia, pelo contrário, a olhava com esperança. Sabia que isso não fazia parte do plano da ruiva, e torcia para que ela a tirasse dessa situação.
Abriu a boca para dizer algo, mas seu irmão tomou a decisão de levá-la às celas na parte de trás do casco do navio antes que conseguisse.
— Finn, espera!
Farah correu atrás deles, chegando tarde demais. Finn guardava a chave da cela no bolso do casaco semelhante à que ela usava, e a sereia estava agora atrás das grades.
O semblante dela não era dos mais felizes.
— Como se sente, capitã? — ele disse, um sorriso se abrindo em seu rosto. — É a primeira sereia que capturamos.
— Eu… — Ela dividiu o olhar entre ele e a de cabelos azuis, que cruzou os braços. — Claro. Parabéns, rapazes. — Desejou, os homens que o acompanhavam agradecendo e deixando-os a sós.
— Mais um motivo para comemorarmos hoje! Vem, vamos lá. — Finn a abraçou de lado, a guiando de volta para a festa.
A capitã olhou de relance para Skye, que tinha deixado de olhá-la e parecia decepcionada. Se ela quisesse mudar isso, precisava ser logo.
Mas é claro que quando envolve Finn beber, não acaba tão cedo assim. Por mais que tentasse — e lutasse contra a bebida em seu sangue — não conseguia tirar a chave do irmão. Finn tentava convencê-la a entrar em seus desafios ou começava uma conversa com ela e com algum tripulante, deixando-a sem jeito para interromper.
Quando a tripulação se encheu de álcool no corpo, organizaram-se em turnos para cuidar das velas e descansar, enquanto Finn garantia que ficaria de guarda da prisioneira.
Farah tentou fazer ele mudar de ideia, sem sucesso. Ele garantiu que estava consciente, mesmo que seu piscar de olhos estivesse lento e estranho, e que ela deveria dormir para o dia seguinte.
Com um suspiro e um plano sendo traçado, a ruiva saiu do armazém e esperou no convés até que tivesse certeza que seu irmão estivesse dormindo, já que ele não era dos mais silenciosos durante o sono. Quando retornou, seu gêmeo estava largado em uma cadeira um tanto longe da cela onde a sereia estava, provavelmente porque não aguentou levar a cadeira mais perto. Ele roncava alto por estar com a cabeça para cima e a boca aberta.
A capitã precisou usar toda a sobriedade que tinha para pegar a chave sem acordá-lo. Achou a oportunidade perfeita quando ele se moveu e recolheu as mãos em seu colo, ainda adormecido. Pegou a chave e andou devagar até a cela da sereia, tentando não fazer muito barulho.
— Finalmente, achei que ia me abandonar aqui — ela começou, a voz baixa.
— Eu não faria isso — Farah girou a chave na fechadura, emitindo um clique. As duas olharam na direção do co-capitão, que não reagiu.
Skye estava saindo da cela quando a ruiva a impediu.
— Escuta, eu tenho um plano. Você poderia… ficar aqui até amanhã? Você mencionou a costa sul e isso poderia ser interessante…
A de cabelos azuis a analisou por um segundo.
— Sua tripulação me prende no seu próprio navio e agora espera que eu te ajude?
— Bem, você sabia os riscos quando subiu no navio e decidiu ficar. — retrucou.
A sereia semicerrou os olhos, não parecendo muito feliz com a resposta.
— Tudo bem, mas você vai estar me devendo uma — A sereia completou, e recuou, apoiando seu peso em um dos lados da cela.
— Claro, faço o que for preciso! — A capitã respondeu, sentindo um arrepio pelo corpo, como se não devesse ter dito isso.
A sereia abriu um sorriso amigável.
— Então eu preciso ficar presa aqui até amanhã? Eu vou precisar de água até lá.
— Eu busco, é o mínimo que posso fazer.
Skye a olhou de cima a baixo.
— Tem mais uma coisa que você pode fazer — murmurou, a puxando para si e a beijando.
Farah relutou no começo, não só por seu irmão mesmo dormindo estar próximo, mas porque ainda não tinha certeza do que sentia. Não sabia dizer se ela estava usando o encanto dela ou se realmente estava apaixonada.
Era um amor diferente. Proibido, mas também empolgante. Uma adrenalina que não tinha sentido antes.
A capitã ficou junto dela durante a noite, buscando água quando foi preciso e cuidando para não acordar o irmão.
Quando o dia clareou, Skye não reclamou quando a fechou na cela. Farah sorriu para ela segundos antes de acordar o irmão, que despertou assustado.
— Ela fugiu? — perguntou de imediato, a voz rouca. Olhou primeiro para a irmã de pé ao seu lado, e depois para a sereia de cabelos azuis presa na cela. Suspirou em alívio e pigarreou. — Estou te devendo uma.
— Vê se não dorme em serviço da próxima vez — a capitã brincou.
De cima, no convés, ouviram comemorações da tripulação.
Isso só poderia significar uma coisa.
— Estamos chegando — Finn anunciou com um sorriso no rosto.
— Devíamos levá-la junto, ela pode ser útil para irmos além da costa sul. — Farah se encaminhou até a cela, mas Finn permaneceu ali.
Ele ficou em silêncio por alguns instantes. E conhecendo seu irmão, sabia que ele estava pensando demais.
— Eu vou ficar junto, por via das dúvidas. Seria uma pena se desse alguma coisa errada bem agora que estamos tão perto, não é?
A capitã analisou o irmão por um momento. Ela conseguia sentir o olhar da sereia em si.
— Claro…
Finn recolheu uma corda, pronto para amarrar os pulsos da prisioneira assim que a irmã a soltasse.
— Sabem que não consigo ajudá-los se ficar amarrada, não é? — A sereia indagou.
— E espera que a gente confie em você? — Finn retrucou.
Skye tornou a olhar para a ruiva.
— Sim, eu espero. — disse, o tom passivo-agressivo.
A capitã entendeu o recado. Não é que não confiasse nela, não confiava em como a sua tripulação reagiria a uma sereia solta.
— Deixe ela solta, Finn. Se ela quisesse nos atacar, já teria feito. — pediu ao irmão, que relutou.
— Farah, mas…
— É uma ordem, Finn.
O rapaz dividiu o olhar entre elas e soltou a corda, contrariado.
Assim que subiram no convés, a tripulação pareceu congelar, e não era com o tempo. Olhavam para a sereia como se fosse uma ameaça, e a capitã não poderia julgá-los, sabia como era a relação entre piratas e sereias, ela teria reagido assim também.
Farah avistou o continente gelado a poucos metros do navio. Estavam tão, tão perto. Finalmente tinham chegado, sãos e salvos. Só era preciso…
Os irmãos escutaram passos rápidos atrás deles, e antes que pudessem tomar alguma ação, só perceberam que a sereia tinha desaparecido quando escutaram o barulho de um mergulho.
A capitã correu para a borda, a mente tornando-se um turbilhão.
Ela não iria abandonar o navio tão de repente assim, iria?
— Eu disse a você para amarrar ela! — Finn protestou.
— Ela vai voltar! — bradou de volta. — Ela… precisa voltar.
A tripulação não soube reagir. Enquanto alguns seguravam as velas e o leme, outros apontavam suas armas para o mar, prontos para um ataque. Mantiveram o navio parado e o clima entre eles tenso até que Finn ordenasse que continuassem se aproximando de Velhi. Enquanto isso, Farah estava com os olhos fixos na água gelada, já sem tantas ondas.
Ela não conseguia acreditar. Skye tinha sido a única com quem se aproximou tão rápido, apesar de saber que não ficariam juntas por muito tempo. Farah esperava que tivesse mais tempo, que conseguisse fazê-la ficar, que pudesse mudar as coisas.
— Ela já deve estar longe, capitã. Vamos continuar, não precisávamos dela de qualquer maneira — escutou seu irmão dizer e se aproximar.
“Eu preciso”, pensou consigo.
A âncora do barco atingiu o solo, deixando a tripulação eufórica. Enquanto alguns recolhiam as velas, outros já desciam das cordas náuticas terra abaixo com a ordem positiva de Finn.
— Vamos lá, capitã. Os tesouros nos aguardam. — Finn a chamou, sem sucesso. O olhar dela parecia distante, perdido na imensidão do mar.
Ele apoiou-se na borda do navio como ela, incerto do que queria falar.
— Ela realmente te encantou, não foi? Nunca vi esse olhar seu antes. — Ele esperou por alguma reação da irmã, que não veio. — Bem, hoje é um dia especial, e eu acho que você deveria aproveitar. Podemos quebrar os blocos de gelo igual à última vez.
Farah não o respondeu. Seus dedos tamborilavam pela madeira desgastada em angústia sem que percebesse.
— Quer me contar como se conheceram? Porque eu desconfiava desde a tempestade.
A capitã o olhou, um sorriso tímido se formando em seu rosto.
— É, eu imaginei… Lembra do dia da tempestade? Ela apareceu querendo ajudar, e eu não confiei no começo, mas acabou que ela estava falando a verdade e deixei que ela viesse ao barco outras vezes contanto que não fosse vista pelos outros.
— E você deixou que ela subisse a bordo tão fácil assim? — Finn pareceu assustado de repente.
— Não! Ela… usou o encanto em mim. Mas foi só dessa vez.
O irmão a analisou por uns segundos.
— Eu sabia! Nunca que você ia tomar uma decisão tão arriscada igual aquela sozinha. — Finn comentou, e recebeu um tapa no braço da irmã. — Que foi? Eu não estou mentindo.
Farah revirou os olhos, incrédula da desconfiança do irmão.
— Aposto que você também não quer deixar a melhor parte só para eles — A capitã presumiu, sendo respondida por um aceno de cabeça do irmão.
Os irmãos desciam do navio quando um tripulante se aproximou apressado e com um sorriso no rosto.
— Capitães, vocês vão querer ver isso. — Villem avisou e, quando os capitães começaram a correr na direção de que veio, ele fez o mesmo.
O vento gelado soprava os cabelos ruivos de Farah, tanto que ela segurou seu chapéu para que não voasse. Seguindo pelas praias de Velhi, logo enxergou sua tripulação alguns metros à frente, alguns desenterrando tesouros da terra gelada com pás e outros quebrando gelos que apareciam na baía dali, vindo provavelmente das geleiras mais ao longe.
Não demorou para perceber que não tinham estado nestas praias da última vez. Eram partes que evitavam explorar, por estarem muito próximos da divisa com o reino de Maire.
Entre os tripulantes, Farah reconheceu a sereia de cabelos azuis, com as mesmas roupas que vestia da última vez que a viu.
— Você voltou — a capitã disse assim que se aproximou.
— Eu disse que iria ajudar — a outra respondeu com um sorriso ladino. — Agora vai ficar me devendo uma.
— Tudo bem, vou pensar como retribuir.
— Sabe, eu não acredito muito nas palavras de um pirata. — Skye brincou, e a ruiva pareceu ofendida.
— Bom, e nem eu com as palavras de uma sereia.
As duas riram e a sereia analisou a tripulação do navio em que era apenas uma sombra até o dia anterior.
— Você os convenceu a virem até aqui? — A capitã perguntou.
— Quase isso. Eu trouxe alguns dos tesouros que seus documentos mencionavam das geleiras mais ao sul. Só assim eu os convenci a continuarem até chegar aqui.
— Sereia esperta. — Farah elogiou, sendo respondida com uma piscadela.
Skye gostaria de ficar mais tempo ali, mas sabia que não poderia. Do contrário que tinha falado dias atrás, ela não tinha como simplesmente pedir a Rainha de Maire para deixar os piratas atravessarem a fronteira. Tinha um motivo para isso.
E mesmo que a governante do reino fosse sua amiga, não conseguiria fazê-la mudar de ideia tão de repente. Skye não era de pedir favores assim.
Sabia que precisava se despedir logo, antes que mais alguém de Maire descobrisse.
— Podemos falar em particular? — perguntou. A ruiva pareceu confusa com o semblante preocupado da outra, mas aceitou e se afastaram do resto da tripulação.
— O que aconteceu? — A capitã perguntou, tensa.
— Eu… preciso ir. Eu não tenho como convencer a Rainha para deixar vocês atravessarem a fronteira. Além do mais, estamos para entrar em guerra, e as patrulhas de fronteiras estão mais frequentes… E eu não recomendaria que vocês ficassem para esses lados por muito tempo.
A capitã processou as informações por um momento.
— Como você passou despercebida por essas patrulhas?
— Tenho meus truques. Eu consegui fugir do seu barco poucos minutos atrás, lembra? — rebateu, confiante.
Farah revirou os olhos, um sorriso se formando em seu rosto sem que percebesse.
— Quanto tempo temos? — perguntou, simplesmente.
— Uma hora. Duas, se eu conseguir distrair os guardas.
— É o suficiente. — A ruiva olhou para sua tripulação, ainda empolgados retirando seus tesouros e seu irmão ajudando-os a levar ao navio. Quando voltou seu olhar para a sereia, ela olhava para o oceano. — Então esse é nosso adeus?
Skye tornou a retribuir seu olhar, e por um momento pensou que iria cair em outro encanto dela, mas não. A sereia a abraçou firmemente, o cheiro de mar estando mais presente do que nunca. Ao sair do abraço, a sereia segurou o rosto da outra e depositou um beijo rápido em seus lábios.
— Eu poderia te encantar para ficar comigo, mas não teria tanta graça quanto nos reencontrarmos quando você voltar para esses lados.
— E quem disse que vou voltar? — A capitã brincou, e a sereia revirou os olhos, sorrindo.
— Eu sei que vai, Farah.
— Capitã! — Finn chamou, se aproximando. — Estamos finalizando. Continuamos para o sul?
— Na verdade, vamos precisar voltar.
— O que? Mas encontraram mais tesouros para lá, e…
— Precisamos ir logo. Os que recolhemos é o suficiente.
Finn não pareceu contente, mas nada disse.
— Ei, cadê a sereia?
Farah voltou a olhar para onde ela estava, encontrando nada além de areia e mar. Ela já tinha ido, e levado uma parte do coração da pirata com ela.
***
No retorno do Raposa dos Mares, Farah preferiu que seu irmão levasse a medalha de condecoração dessa vez. Ele quem tinha dado todas as ordens na volta para casa, além de toda a ajuda que ele ofereceu durante a viagem.
Os capitães e a tripulação preferiram manter em segredo o acontecimento com a sereia do público. Eles não precisavam saber, e para Farah, seria uma memória doce — ou seria salgada? — para guardar.
E a garota esperava que, na volta para as águas geladas, ela encontrasse a sereia de cabelos azuis para ser sua companhia de alguns dias mais uma vez.
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