Ocean Motion

2 Capítulo 1 - Caso Complicado


Notas iniciais
Não me contive, as teorias de vocês me deixaram com vontade de postar de novo. Aproveitem

Caso Complicado

O barulho da porta abrindo com violência despertou-me do transe que me envolvia sempre que a lembrança da última vez que vi meu melhor amigo vinha em minha mente.

—Swan! O que você foi fazer no setor de costura? — A voz irritadiça de Edward se aproximou até que eu pude notá-lo bem ao meu lado. — Fofocar? Não tens serviço para fazer, não? Posso arranjar para você, rapidamente! – Edward me olhou com cara de poucos amigos.

—É claro que tem – rebati fitando-o duramente. — Sempre tem e você sabe disso!

—Por que, então, você foi jogar conversa fora com as costureiras?

—Conversa fora? — repeti ultrajada. — Fui lá ensinar algumas delas a fazer o próprio serviço! Que culpa eu tenho se você contrata mulas no lugar de gente?!

Ele bufou e olhou para a minha mesa de trabalho fazendo uma careta ao notar a pilha de paetê candy white que eu separava. Ele sabia que aquilo ficaria reservado para sábado.

—Volte a fazer suas coisas e deixe que eu e Alice cuidamos das costureiras. Você não é paga para ensinar merda nenhuma a ninguém, muito menos em um setor que não seja este – falou já se virando. — E não se esqueça que amanhã virão pessoas para os testes, portanto hoje sua produção…

—Deverá ser acima da média – terminei a frase com desânimo. — Não se preocupe, chefe— retruquei com escárnio -, eu trabalho aqui a tempo suficiente para saber o que fazer. Então, se me der licença, preciso deixar isso separado para sábado e procurar algo para fazer.

Bufando novamente, ele foi caminhando pelos caixotes de serviço e eu voltei minha atenção à ordem de produção em cima da mesa. Tentei não pensar no homem que arrumava e desarrumava as pilhas de caixas atrás de mim. Ele geralmente fazia isso porque tinha vontade. Não que a atenção dele fosse exclusividade minha. Edward mexia na empresa inteira e ninguém podia reclamar. Ele era o dono.

—Faça essas pilhas aqui – ele chamou minha atenção. — São fáceis, rápidas, produtivas e leves.

O último adjetivo foi prolongado por seus lábios como se estivesse instigando minha objeção. Eu conhecia essa pose arrogante dele, e aquela sobrancelha erguida era minha maior inimiga durante o tempo que trabalho aqui.

—E se fossem pesadas, você poderia simplesmente abaixá-las para mim, não é? — Ergui uma sobrancelha também. — Como se você não fizesse exatamente isso!

—Não comece, Swan – ordenou de cara fechada. — Fará isso e pronto!

—Não lhe prometo nada. Farei o que achar melhor.

—Isabella… — ele estendeu meu nome em tom de aviso.

—Cullen… — imitei-o para irritar mesmo.

—Dane-se – ele se virou bruscamente para a saída.

Essa era minha deixa.

Eu já estava cansada de trabalhar nessa porcaria de empresa. Meu problema era que meu querido, atencioso e amável patrão – ironia em pessoa estava presente em meus pensamentos -Edward Cullen, não queria me dar a conta!

—Se não está satisfeito com meus serviços, procure outra para ocupar meu lugar, chefe! – Rosnei em resposta.

Com isso, ele deu alguns passos na minha direção, um rosnado parecia brotar dele, contudo isso não me assustava mais. Isso nunca me assustou, na verdade. Ele estava furioso, apenas isso.

—Venha cá, sua impertinente, você sabe muito bem que precisa desse emprego!

—Só porque você é o dono, não quer dizer que eu não possa arranjar coisa melhor lá fora! — encarei-o com a mesma fúria.

—Não vou ficar discutindo com uma criança birrenta. Volte ao seu trabalho.

E, sem me deixar responder à altura, ele saiu do meu espaço. Digo espaço porque sou a única que trabalha nesse setor, embora ele tenha sido projetado para suportar quatro pessoas espaçosas. Bem no fim, fiz exatamente como ele tinha ordenado. Não por obediência, mas porque eu não tinha mais nada a fazer. O que eu faço? Reviso peças vindas do corte, etiqueto-as e libero-as para a costura. O nome correto é etiquetadora de tecido. Tecnicamente, era apenas para eu colocar as etiquetas separando tamanho, nome e quantidade, logo passá-las para os outros setores. Era para ser simples e rápido, mas a realidade era diferente, é claro. Havia muita coisa que vinha errado do corte e eu tinha que arranjar tempo para arrumar. Fora as ordens de produção para revisar e repor peças. Essas vinham aos montes. Como o nome do cargo é grande para ficar falando, e, como eu mais reviso do que qualquer outra coisa, chamo a mim mesma de revisora. Edward que não me escute! Ele odeia que eu me chame assim.

Vim parar nessa enrascada quando mudei de cidade e conheci a irmã desse horror em pessoa. Sou Isabella Swan, tenho vinte e três anos e trabalho na Ocean Motion Ltda. Eu era nascida em uma cidade chamada Forks, mas minha mãe foi enganada e veio para Chicago quando eu tinha dias de vida. Vivi até meus cinco anos aqui, então meu pai conseguiu contatar minha mãe. Eles haviam caído em uma armadilha para a separação e estavam dispostos a voltar a viver juntos. Tive que deixar as pessoas mais importantes da minha vida aqui e ir com minha mãe morar naquela cidade minúscula. Depois que comecei a frequentar a escola, ansiei por aprender a escrever o mais rápido possível para poder fazer cartas ao meu príncipe Thony. Bem, as cartas nunca chegaram ao seu destino porque aos oito anos, depois de muito insistir, fomos procurá-los e eles não estavam mais morando lá. Os donos não sabiam dizer para onde tinham se mudado os antigos moradores. Uma vizinha chegou a falar que acontecera uma tragédia e eles se mudaram poucos dias depois. Porém, ao olhar em meus olhos, ela desconsiderou a ideia de contar que tipo de tragédia acontecera.

Voltei arrasada para casa e prometi vir morar aqui quando crescesse. Eu queria estar por aqui quando ele viesse procurar por mim. Claro, isso foi há muito tempo. Não tenho mais certeza se Thony virá, mas sinto que essa cidade me prende. Meus pais ainda moram em Forks, juntos e felizes, porém, vim para Chicago, há exatos 4 anos, tentar a sorte. De início foi difícil. Ninguém gostaria de empregar uma recém-formada no ensino médio vinda do fim do mundo. Assim que consegui um emprego mais ou menos em um drive-through, encontrei Alice e minha sorte mudou... talvez.

Alice Cullen é uma baixinha espevitada que ama moda. Ela é rica desde que se conhece por gente, mas tem seus surtos de pobreza – cabe à minha pessoa avisá-la quando isso acontece – e é uma bela amiga. Ela é diretora do RH, o que fez com que eu fosse admitida com rapidez. Infelizmente, o único setor que necessitava, urgentemente, de funcionários era esse, pois a garota estava grávida e a outra mais faltava do que aparecia. Voltando à Alice, ela é uma boneca. Sabe? Daquelas antigas, de porcelana. Sua pele é claríssima e seus olhos de um azul arroxeado. Os cabelos até a cintura viviam presos em um coque, mas, quando soltos, eram cascatas de cachos castanhos e brilhantes.

Edward, já, não. O horror em pessoa era o empresário mais novo e galinha que eu conheço. Ele tinha aquele jeito arrogante, presunçoso e idiota sempre. Sabia da beleza que carregava em cada poro do corpo e se achava bom demais para qualquer uma. Também pudera. Com aquele cabelo cobre – estranho – desalinhado, o maxilar quadrado, os músculos definidos e a voz que acompanhava os 1,95 de altura, era de se esperar que as mulheres matariam por ele. Ainda mais porque aquele idiota conseguia dar conta de toda a empresa, sozinho! Ele ganhava uma fortuna e meia a cada mês. Depois das péssimas comparações que fizeram com o sucesso de meu chefe e a aparência de Christian Gray, ele ficou ainda mais prepotente. Eu o odiava. Simples assim.

Conheci-o no dia de minha entrevista. Ainda podia lembrar de como o escritório dele era organizado e bonito...

[…]

O local era iluminado, amplo e bem arejado. Haviam quadros de rosas brancas, perfeitos, por quase toda uma parede – no outro dia, Alice contou que a mãe deles os fez para ele lembrar-se dela – e eram todos com molduras escuras e detalhadas, combinavam com os móveis escuros e o tapete felpudo marrom claro. O chão e quase todas as paredes eram brancas, exceto a parede das rosas, que era chumbo. O homem que esperava-me em pé, atrás da mesa, era lindo e sorria torto.

—Bem-vinda, senhorita Swan – ele estendeu a mão e, depois do cumprimento, gesticulou para que eu me sentasse. – Como encontrou a vaga na Ocean? Geralmente, nossas vagas são internas.

—Uma amiga me indicou, senhor. — corei, baixando a cabeça para a mesa com a minha ficha.

—E qual seria o nome desta? Ela receberá uma bonificação por ter recomendado.

—Alice Cullen – sussurrei.

—Perdão? – Ele não havia entendido.

—A senhorita Alice, senhor. Não sei se ela precisará da tal bonificação, por ter metade da empresa, mas foi ela quem disse para que eu tentasse a sorte aqui. Ela disse que o senhor é bastante compreensivo.

—Diga-me, então, três razões boas, para que eu te dê a chance do teste.

—Primeiro: Sou muito esforçada e perceptiva, aprendo rápido; Segundo: esse horário é bom para mim por causa da faculdade e tem bastante conciliação com minha graduação; e, por último, mas não menos importante: Sei que vocês perderam várias funcionárias nas últimas semanas. Portanto, vocês precisam de gente o mesmo tanto que eu preciso de emprego – sorri confiante.

Naquele instante, Edward ainda parecia um cara legal. Ele ergueu as sobrancelhas, incrédulo, com a minha resposta imediata. Com certeza, ele não imaginou que eu teria a língua tão afiada, vindo de um buraco tão esquecido como Forks.

—Muito bem – ele sorriu grandemente. – Vou conduzi-la ao teste.

O lugar era bem grande e apenas duas pessoas trabalhavam ali. Eles estavam mesmo precisando de gente. Edward deixou-me nas mãos de uma garota um pouco mais nova do que eu e foi ajudar a gestante a carregar as peças de uma ordem de produção. Ele mostrou-se bastante cavalheiro nesse instante. Enquanto ele ajudava a mulher, eu era ensinada, mais ou menos, pela menina. Sorte que eu aprendo rápido e me foco mais rápido ainda. Em poucos minutos, eu já tinha terminado a ordem da menina, uma outra pequena e estava ajudando a gestante também. Logo que estávamos quase terminando de separar, pediram-me para tirar os tags e ir amarrando os pacotes enquanto Edward conversava com as duas para saber o que achavam.

[…]

Obviamente, eu fui aceita. Naquela época, eram duas pessoas em cada turno, e havia muito serviço acumulado, por causa do peso que a gestante não podia erguer, do pelo que era uma bosta e do paetê que tinha que revisar folha por folha. Depois que eu entrei, uma das meninas do segundo turno desistiu e fui mandada para cobri-la. Logo após, a gestante teve o bebê e pediu o benefício. Edward, carinhosamente, pediu para que eu fizesse um turno e meio e eu comecei a fazê-lo.

Depois de um tempo, percebi que as meninas estavam começando a atrapalhar a produção. Uma delas, Jéssica, vivia em outros setores e voltava com fofocas e mais fofocas, não ajudava em nada. A outra, Lauren, fazia muito corpo mole e vivia cheia de remédios... ou era o que elas contavam.

Cheguei, na cara de pau, e bati à porta do Edward, exigindo que ele autorizasse a Alice a demiti-las. Ouvi com exatidão a voz dele me dizendo: “O que você está propondo é a retirada de duas funcionárias, em função da produtividade que você, sozinha, consegue fazer? Isso é irracional!” e foi aí que começou a ficar grosso demais, além de pegar no meu pé constantemente. Ele fez o que eu pedi e a produção aumentou! A partir daí, Edward e eu somos um caso complicado. Aparentemente, era incompreensível que eu pudesse dar conta de três turnos inteiros sozinha.

Eu estava cursando modelagem na época e isso ajudou bastante a colocar os erros em seus devidos setores. Como todos sempre culpavam a liberação do corte, o meu setor, por cada erro encontrado em outros setores, eu consegui mostrar que não era bem assim. Isso rendeu várias mudanças nas funcionárias. Eu conheci quase a empresa inteira e o que cada setor fazia, assim percebi que meu trabalho era bastante simples e necessário para os processos seguintes. Contudo, ainda era um tanto pesado para uma pessoa só. Eu concordava nisso com Edward, mas nunca admitiria baixar a guarda. Eu pedi para Alice contratar alguém para me ajudar, mas ainda ninguém conseguiu ocupar o cargo vago. Isso era dedo de Edward, eu tinha certeza.

E eu aqui, com meu modesto salário que dá para pagar as contas e comprar comida. Para piorar, eu estava sem minha bicicleta – companheira fiel de trajetos meio longos – e tinha que ganhar carona com esse ogro. Sim, ele morava no apartamento à frente do meu. Não, não era o melhor apartamento da cidade. Era só porque era o mais acessível para ir até a empresa e eu podia pagar. Eu não fazia ideia das razões de Edward morar lá, mas ele quem devia saber da vida dele.

Alguns minutos mais tarde, ouvi um leve ruído do lado de fora do setor fechado. O pessoal do primeiro turno estava saindo. E o do segundo começaria em 5 minutos... a tolerância. Eu ficaria ali, naquela sala, sozinha, por mais quatro horas. Não que eu trabalhasse em outro turno, nem nada, mas eu, somente eu, tinha um horário único. Meu horário era de 12 horas por dia. Lembro-me do dia da mudança do contrato e da confusão que isso se tornou.

[...]

Alice tentou ver como faríamos com meu salário. Tecnicamente, eu deveria ganhar mais do que qualquer um ali, todavia achei injusto. Então ela disse que eu teria “bônus salarial” de 50% do salário-base. Também reivindiquei. Era mais injusto ainda!

—Vai me pôr em maus lençóis, mocinha! – Repreendeu-me. – Então faço o seguinte: coloco seu “Bônus” em uma poupança em seu nome e, quando precisar, você vai lá e pega.

—Mas, Alice! Isso é tão errado!

—Aqui não estou sendo sua melhor amiga, Isabella – seus olhos faiscavam de teimosia. – Eu vou fazê-lo. Se quiser, deixe intocado, então, quando tiver um filho, passe para o nome dele! Mas, se eu não te beneficiar com alguma coisa, poderemos fechar a Ocean! Você quer que 5 mil pessoas, direta e indiretamente, percam seus empregos por causa de falha com uma funcionária? É justo assim?

Suspirei pesadamente e deixei que ela fizesse como achasse melhor. Desde que, o dinheiro na poupança não ultrapassasse o salário de ninguém ali.

[...]

Perdi-me em lembranças novamente por um momento, ainda revisando aquele bendito paetê candy white. Portanto, levei um baita susto quando a baixinha deu um salto ao meu lado, sorrindo matreira.

—Como está a minha melhor amiga de todos os tempos? – Gritou ela, fazendo meu ouvido doer.

—Bem – dei de ombros.

—Vamos lanchar – ela pegou a peça da minha mão e puxou-me para o elevador.

—Só prometa-me que aquele estúpido não estará no refeitório!

—Vish, já vi que alguém recebeu visitas por hoje – ela fez uma careta. — Conta tudo.

Respirei fundo e fui colocando nos dedos a ordem.

—Uma peça voltou da costura toda cheia de furinhos, de tanto que fora costurada, a costureira alegou que não havia capacidade alguma de costurar aquilo...

—Por meio de papel, imagino – interrompeu-me ela.

—Edward nunca permitiria que eu tivesse um telefone no setor – revirei os olhos. – Enfim, peguei a peça, pedi o tecido, talhei outra e fui lá ver com a costureira burra como aquela peça não estava encaixando. Essas horas, eu já estava com vontade de matar um por ter atrasado todo o meu trabalho. Ensinei a tonta da costura a juntar as partes e coube perfeitamente. Respondi com grosseria que, se ela não soubesse fazer o trabalho dela, que deixasse a vaga para quem sabe. Assim que coloquei os pés em meu setor, seu amado irmão estava lá, me esperando, para ter respostas. Juro, Alice, algum dia você vira filha única! – Enquanto eu falava, Alice tentava segurar o riso, soltando risadinhas curtas e baixas. No momento em que terminei, ela gargalhou.

—Ah, Bella, um dia ainda caso vocês dois! E, não se preocupe, a garota não fará nada contra você.

—Por favor, Alice, demita-me logo! – Implorei, mas ela apenas riu, passando a mão pelo meu braço.

Ao chegarmos no refeitório, relaxei o corpo tenso. O lugar estava vazio. Assim que peguei meu lanche, vi uma rosa branca. Imediatamente, lembrei-me do escritório de Edward, tão visitado por mim depois de 2 anos e meio, e o dia da contratação.

—Bella? – Ouvi minha amiga me chamando – Alô? Planeta Terra chamando Isabella?!

—Estou ouvindo, Alice! – Resmunguei voltando a comer meu lanche.

—Ah, então está bem – ela deu de ombros. – Se não se importa, nem falou nada, então, sente-se, maninho!

Ao ouvir isso, ergui rapidamente a cabeça para dar de cara com o meu inferno pessoal. E ele tinha a cara de pau de me sorrir torto, olhando diretamente para mim, enquanto se sentava à minha frente.

—Sobre o que falavam, meninas? – O intrometido sorriu grandemente olhando para nós duas.

—Minha viagem às Bahamas – Alice deu de ombros.

Infelizmente, bem na hora que eu dizia:

—Minha admissão na GAP.

Edward deu um olhar debochado para minha resposta, a cara endurecida voltara.

—Muito engraçado, Swan. — Então voltou-se para Alice. – Quando pretendes viajar?

—Carter queria ir ao final do mês, mas acho que vai ficar muito corrido para mim, por causa dos pagamentos dos funcionários.

—Alice, já te falei que posso fazer casca grossa com as meninas do RH – ele soltou aquela voz compreensiva e cansada.

Minha amiga apenas ergueu uma sobrancelha e voltou a comer seu sanduíche natural. Obviamente, a atenção do Cullen voltou-se a mim. Com o máximo de rapidez, olhei para minha comida enquanto quase engolia inteira. Pela visão periférica ainda pude ver Edward dar uma risadinha. Idiota.

O lanche saiu tranquilo. Alice tentou falar de coisas normais, puxar assunto com os dois, mas eu só olhava para ela e voltava a comer. Edward ainda falou sobre algumas coisas de família que eu nem prestei muita atenção, porque, embora eu amasse tia Esme e Tio Carlisle como meus pais, não era da minha conta. Assim que terminei de comer – já que eu estava devorando tudo sem nem prestar atenção – já fui me levantando. Isso atraiu a atenção dos dois.

—Mas, já, Bellinha? – Alice fez cara de cachorrinho sem dono e Edward arqueou aquela sobrancelha.

—Alice, tenho que separar as coisas do terceiro turno – falei sem emoção alguma. – Não posso deixar ninguém sem serviço – acrescentei duramente olhando Edward.

Ele deu o bendito sorriso torto e eu saí pela porta quase marchando. Fora do refeitório, respirei fundo. Edward mexia com a minha pessoa de um jeito que eu não entendia. Em certas horas ele era o maior cavalheiro da face terrestre – quem sabe o último? – E nas outras, ele era um arrogante prepotente que achava que mandava na vida de todo mundo.

Voltei para o meu espaço enquanto via todos trabalhar. Uns bocejando, outros se arrastando, mas quase todos conversando. Essa era a pior parte. Eu estava sozinha. Não tinha ninguém para conversar, me distrair um pouco. Trocar o trabalho da cabeça. Mas a solidão era mais suportável do que aquele bando de gralha fofoqueira com quem eu convivi durante alguns meses.

Peguei meu pen drive com músicas aleatórias e coloquei em uma caixinha de música que eu tinha ali justamente para me fazer uma companhia. O ritmo de Linkin Park fez com que o sono que ameaçava me parar sumisse e meu serviço rendesse.

Ao sair, meu amável chefe esperava com a porta do carro aberta e um sorriso presunçoso na cara. Tive que engolir meu orgulho e entrar no ilustre carro dele. Sem uma única palavra, ele arrancou com o carro assim que coloquei o cinto. Edward tinha um cheiro bom, imagino que fosse perfume importado. Tinha notas amadeiradas e era tipicamente masculino. Contudo, abandonei o carro com um simples “obrigada” assim que ele parou na frente do nosso prédio. Ele faria uma jornada dupla, eu tinha certeza, portanto voltaria para a empresa.

—Não me espere acordada, pequena – ele disse quando fechei a porta com força.

Fuzilei-o com os olhos e ele riu fazendo o carro andar novamente. Bufei e voltei-me para o portão que o guarda, Jeffrey, segurava aberto para mim.

—O senhor Cullen é gentil, não é, Bella? — Jeffrey sorriu.

—Um poço de gentileza – respondi sarcasticamente enquanto passava por ele. — Boa tarde, Jeff. Como estão as crianças?

—Estão ótimas, obrigado!

Jeffrey Stewart era um homem com cerca de cinquenta anos, um metro e setenta mais ou menos. A pele era queimada do sol e seus olhos combinavam com o cabelo escuro quase preto. Ele tinha duas filhas. Uma de dez anos e outra de quinze. Julie e Jackie, respectivamente. Sua esposa era um amor de pessoa. Conheci-os em uma festa no condomínio patrocinada pelo meu adorável patrão. Algumas vezes saíamos para fazer compras, eu e as mulheres Stewart. Elas me acolheram como da família. Exatamente como os Cullen… bem, exceto por Edward.

Despedi-me de Jeffrey e fui para meu apartamento fazer uma breve faxina e responder alguns e-mails. Em seguida, fui para minhas redes sociais.

Minha mãe estava louca atrás de mim. Como sempre. Dona Renée não podia entender por que eu trabalhava tanto, mas o que eu poderia falar para ela? “Mãe, meu patrão é um babaca que não admite ninguém para me ajudar, então tenho que fazer serviço dobrado!” Era capaz de que ela viesse para tirar satisfação com Edward. E então eu estaria perdida.

Depois que meus pais voltaram quando eu tinha 5 anos, nunca mais se deixaram. Eu achava que aquele tipo de amor era muito lindo e, enquanto crescia, imaginei como seria quando eu e Thony nos encontrássemos novamente.

Suspirei respondendo a todos os acessos de desespero de minha mãe também aos comentários muito chorões de Alice. Prometi pegar férias o mais breve possível e marcar um encontro com meus amigos da reserva indígena perto de casa. Também falei com algumas amigas espalhadas pelo país. Por fim, tomei meu banho e segui para a cama. Assim que puxei as cobertas para cima, ouvi algo se chocando contra a porta do vizinho e uma praga sendo rogada.

Olhei para o relógio, constatando que se passava das dez da noite e agora que Edward estava chegando. Provavelmente bêbado ou mesmo cheirando a mulher… bem, eu não me importava, contanto que me levasse amanhã para trabalhar sem reclamar. Ou eu poderia mandar uma mensagem para Alice… se bem que ela me mataria por atrapalhar o sono da beleza dela.

Enfim, eu tinha que ver com Jeff se ele sabia quem poderia trocar o pneu de minha bicicleta. Eu tinha esquecido desse detalhe mais cedo e agora me arrependia. O que o Cullen faz com minha cabeça que eu não consigo nem lembrar de minhas maiores necessidades, como a locomoção?!

Minutos depois, ouço batidas na parede que liga o meu apartamento com o dele.

—Boa noite, Swan! — Edward grita do outro lado.

Reviro os olhos e não respondo nada. Viro para o lado, tentando achar uma boa posição, até que caio na inconsciência com alguns murmúrios aos quais posso ouvir pela parede.

Notas finais
E então, teorias??