Ocean Eyes

4 Capítulo 3 - Ódio gratuito


São Paulo era sempre movimentada, sempre cheio de vida. As luzes ficavam acesas 24 horas por dia, mantendo-a sempre iluminada. As ruas sempre dos principais centros estavam sempre cheias, as pessoas chegavam e saíam com muita frequência e em qualquer hora do dia. Como todos diziam, era a cidade que nunca dormia. Claro que tudo isso era durante todo final de semana. De sexta a domingo. De segunda a quinta-feira havia toque de recolher, todos os cidadãos deveriam estar em suas casas até as dez da noite. Exceto os moradores que trabalham de madrugada, porém esses deveriam sempre andar com seus crachás, identificando-os com o nome, nome da empresa e o horário do turno. O toque de recolher foi instaurado nas grandes metrópoles para tentar diminuir a violência, o tráfico de drogas (que sempre acontecia nos horários noturnos) e a série de roubos pela cidade.
Conforme Mark dirigia pelas avenidas, adentrando a cidade, indo em direção a Av. Paulista, os seus olhos observavam tudo o que acontecia pelas ruas. São Paulo é uma cidade com milhares de comunidades, várias e várias favelas. De forma a manter controle sobre essas comunidades, o governo havia começado uma grande obra pra cercar essas favelas com muros e portões. Haviam guardas por todos os lados, sempre tomando conta dos portões. Não haviam noticiários sobre isso, mas eu sabia que não tinha sido fácil no começo. Houve muitas mortes, os moradores e os bandidos não aceitavam isso e o governo foi impiedoso e cruel. Invadiu as comunidades e foi a caça dos bandidos. Essa era a história que corria pelo colégio. Ser filho de gente importante ás vezes lhe garantia algumas informações que eram proibidas de sair na mídia.

“Isso tudo é terrível, o que estão fazendo aqui no seu país.” Mark disse em um tom de voz baixo e cuidadoso.

Fiquei confuso por um momento.

“Jura? Meu pai disse que foi devido a essas medidas que o país começou a dar bons frutos, que éramos um país afundado, que o comunismo havia …"

Mark me encarou com um lamento estampado no seu rosto.

“Você tem dezassete anos, certo?”. Ele não tirava os olhos da rua.

Respondi que sim e ele continuou a falar.

“Não conheço muito sobre seu governo, pois não moro aqui e não posso dizer com prioridade o que se passa aqui, mas isso de isolar as pessoas pobres do restante da população, isso é segregação e isso é terrivelmente errado”.

Fique em silêncio, absorvendo aquilo que ele falava.

Mas isso trouxe ordem ao nosso país”. Tentei argumentar.

“Ordem? O que adianta um governo que governa apenas para os ricos? Seja sincera comigo, você acha que essas pessoas saíram da pobreza?”

Novamente fiquei em silêncio.

Eramos ensinados na escola de que tudo isso havia sido feito pelo bem de todos. De que a violência e a criminalidade seriam contidas e que tudo melhoraria. Mas pensando agora no que Mark havia perguntado, o que seria feito das pessoas lá dentro? Elas ainda viviam na pobreza, só que viviam isolados pra lá daqueles muros. Viviam isolados do mundo afora dos portões cercados por policiais.

“Sei que não é sua culpa, você provavelmente nasceu quando isso tudo já estava acontecendo. Sei também que vocês sofrem censura e não possuem acesso a todo tipo de informação na internet...”

Ele continuou falando e eu fui ficando cada vez mais desconfortável. Sempre achei que havia algo de errado em muitas coisas que acontecia no governo, sobre leis e sobre como nós, cidadãos, eramos obrigados a seguir essa lei sem questionar. Eramos desencorajados a questionar. Questionar significava punição. Poderiam até achar que você fosse uma espécie de terrorista e um perturbador da ordem.

Mark percebeu que eu havia ficado em silêncio.

Olhando pra frente e com as mãos apoiadas nos meus joelhos, senti o toque quente de uma das mãos dele sob a minha. Arregalei os olhos e puxei a mão com tudo, num gesto nada premeditado. Foi apenas impulso.

“Me desculpe …" Ele sussurrou, olhando pra mim com ternura. “Eu não deveria estar falando sobre essas coisas com você, é muito errado da minha parte”.

Seria errado mesmo? Passei tanto tempo vivendo dentro daquela redoma, daquela casa, daquela escola, daqueles pensamentos. Nunca gostei da forma que meu pai pensava, sobre pobres, negros, mulheres, homossexuais. Sempre tive dúvidas. Porém nunca pude questiona-las com ninguém. Era proibido.

“Tudo bem...” Eu disse, por fim. “Há muitas coisas que sempre tive dúvida e nunca tive ninguém que pudesse falar abertamente sobre isso”. Finalmente criei coragem o suficiente para olha-lo nos olhos e então dessa vez eu que coloquei minha mão sobre a dele.

Mark esboçou um sorriso. Abaixou o olhar para a minha mão na dele. Meu coração batia como um tambor. Parecia que todo meu interior estremecia com cada ribombada que ele dava. Respirei fundo e permaneci ali, com minha mão sob a dele. Ele continuou dirigindo, dessa vez voltando a atenção para a rua. Permaneci olhando para fora, em silêncio, com meu pensamento a mil. Seria Mark confiável para que eu pudesse conversar abertamente sobre todas as coisas que me assombram? Estaria ele contando tudo ao meu pai, seria um teste ou algo do tipo? Balancei minha cabeça para tirar da cabeça tais pensamentos. Seria muita tolice achar que meu pai teria tempo de armar algo do tipo para mim. Não teria motivos e nem razões para isso.

* * *

Mark conseguiu estacionar o carro em uns dos milhares de ruas adjacentes á Avenida Paulista, e então decidimos ir andando. O meu relógio de pulso marcava 7:48 da noite. Estava uma noite quente e abafada, o ar estava parado e não havia uma brisa sequer para livra-los daquela sensação do calor. Uma fina linha de suor transparecia pela camiseta azul escuro que o americano estava usando. Conforme ele andava, eu percebia a camiseta grudar nas suas costas.

“Esse calor daqui é o mesmo que o de lá?” Perguntei, andando lado a lado com ele, quase tocando nossos ombros.

“Não, aqui é como o inferno!”

Rimos os dois juntos. Risos altos e exagerados.

Permanecemos subindo uma das ruas até que enfim chegamos na avenida Paulista. Por alguns momentos, Mark permaneceu parado e olhando tudo ao redor. Ele estava maravilhado, eu sabia apenas de olhar para os olhos azuis que brilhavam com as luzes da avenida. Como já estava noite, tudo ali brilhava. Os prédios gigantes com seus shows de luzes, imagens que se movimentavam e pulavam de um prédio pro outro. O grande prédio com a luz rosa estava magnificamente lindo e iluminado. Começamos então a andar, sem rumo, apenas olhando todo aquele mundo colorido. Vira e mexe eu observava ele desviar o seu olhar das luzes para mim, e então eu me pegava tentando sustentar aquele olhar, porém sem sucesso. A energia que emanava de nós dois ali era surreal. Me senti alegre e feliz de uma forma que eu não entendia como e nunca tinha sentido antes.

“Que tal a gente procurar algum café ou lanchonete que possamos comer e conversar?”. Mark sugeriu.

Concordei com um aceno da cabeça e então andamos por mais alguns metros, até encontrarmos uma lanchonete com uma fachada bem agradável. Cadeiras de madeira foram dispostas junto com as mesas pela calçada e várias pessoas se sentavam, conversando, rindo e comendo ou tomando alguma coisa. Encontramos uma mesa desocupada, uma mesa um pouco mais afastada da multidão de pessoas que faziam questão de se sentar uma perto das outras. Nos sentamos e ele pegou o cardápio, olhando, virando as folhas e fingindo que sabia ler e que entendia tudo o que ali estava escrito.

“Ok, isso é completamente inútil!”. Ele disse por fim, jogando em minha direção, me analisando com aqueles seus olhos azuis, sempre com a sombra de um sorriso para aparecer em seus lábios. “Me indique a coisa mais brasileira e gostosa ao qual eu deveria experimentar”.

Revirei as páginas do cardápio, olhando item por item e olhando para ele de forma pensativa. Todos os estrangeiros amam caipirinhas, porém elas foram proibidas a venda em locais abertos como essa lanchonete. Qualquer bebida alcoólica deveria ser consumida em ambientes fechados, proibidos para menos de 18 anos. Voltando então minha atenção para o cardápio, avistei algo que é muito brasileiro e que ele iria amar. Ou pelo menos eu achava que ele iria amar. Fiz sinal com a mão para um dos garçons disponíveis e fiz o pedido.

“O que você pediu? Quero saber, me diga por favor!”. Mark começou a dizer e a praticamente implorar.

Eu apenas balancei minha cabeça negativamente e disse.

“Surpresa”.

Ele chutou minha perna por debaixo da mesa, brincando.

Não demorou para que o garçom trouxesse o que pedi. Duas grandes e deliciosas coxinhas foram dispostas em dois pequenos pratos de porcelana branca. O garçom posicionou um dos pratos para Mark e o outro para mim. O americano me olhou atentamente, desviando e alternando seu olhar para a coxinha. Permaneci em silêncio e com a mão, se guardanapos, peguei a coxinha e dei uma enorme mordida, revirando meus olhos de prazer. O sabor estava incrível e o salgado estava quentinho, tinha acabado de ser fritado provavelmente. Mark seguiu meus passos e pegou a coxinha com suas mãos livres de guardanapos, dando uma enorme mordida. Ele mastigou por alguns segundos e então pude perceber em sua expressão de deleite, que ele havia amado aquilo.

“Caramba! Que porra é essa?”. Ele perguntou, sem conseguir parar de comer sua coxinha.

“Nós chamamos isso de coxinha”.Acabei dizendo, esperando que ele terminasse de comer.

Mark havia devorado o salgado em menos de três minutos.

CoxinRÁ?”. A palavra saindo da boca do americano soou engraçada. Não consegui segurar a risada. Para eles era difícil a pronuncia das palavras com o NH nosso.

Tentei ensina-lo a pronuncia, porém sem sucesso algum. Mark estava se divertindo genuinamente e eu estava rindo descontroladamente. Rindo de uma forma que havia anos que não sabia como. Pela primeira vez, em minha vida talvez, parei para pensar em quantas vezes eu havia me divertido daquela forma. Sem medo. Sem opressão. Ali, naquele momento, naquela lanchonete, comecei a me dar conta da bolha em que eu vivi desde que nasci. Colégio militar, a minha vida toda estudei em escola militar, sendo ensinado que tudo o que acontecia no meu país era certo, que o governo estava certo, que todas as leis reformuladas foram para um bem maior. Quando Mark me perguntou se era justo para aqueles pobres, para aquelas pessoas que vivam cercadas por muros e por policiais fortemente armados, parece que finalmente minha ficha havia caído. Meus sentimentos não estavam errados. Me sentir atraído por Mark, da forma como me senti desde o primeiro momento em que o olhei, em que me afundei naqueles olhos da cor do oceano, não era errado...

“Terra para Rafael! Alô, tem alguém aí?”

Mark estalou os dedos na minha frente, e então acordei dos meus devaneios. Balancei a cabeça para me tirar do torpor daqueles pensamentos e então me levantei, tirando dinheiro do bolso e deixando em cima da mesa, para pagar nossas despesas.

“Vamos dar uma volta?” Perguntei, vendo a cara de confuso que ele fez, porém sem questionar, balançou a cabeça positivamente e levantou-se rapidamente.

Começamos a andar pela paulista, na altura do museu do Masp. O enorme e imponente museu estava fechado e abandonado havia algum tempo, então haviam pichações e ervas daninhas por todos os lados. A noite estava tranquila, bem movimentada e caminhamos por um longo momento sem trocar palavras. Mark eventualmente me olhava, agora sem sorrir, apenas com olhares enigmáticos. Pensei por algum tempo se ele havia se chateado por tê-lo tirado da lanchonete, mas logo a ideia saiu da minha cabeça. Por alguma razão o meu coração estava acelerado. As palmas da minha mão suavam e as palavras queriam sair da minha boca, porém eu não conseguia proferi-las.

“Está querendo dizer algo?” A voz de Mark quebrou o silêncio tão repentinamente, que parei de andar e fiquei encarando-o.

“Ah, eu... não sei bem, eu acho que”. Balancei a cabeça, me embaralhando no que queira dizer, e então olhei ao nosso redor de forma nervosa. Não daria para falar ali, com todas aquelas pessoas andando de um lado para o outro.

Continuei andando e indicando para Mark uma pequena rua lateral a Paulista. A rua ali estava menos movimentada e era mal iluminada. Antes que conseguisse dizer qualquer coisa, um carro da polícia ligou o farou e a sirene tocou. Meu coração pareceu subir até a boca. Olhei para trás a procura de Mark e ele estava paralisado alguns metros de distância de mim. A luz não poderia ter sido para nós, estávamos distantes um do outro. O que eles queriam? Minha mente girava e então me dei conta de que, num canto mais escuro da rua onde agora o farol da polícia iluminava, haviam dois homens juntos, de mão dadas. Nervosos, um deles acabou soltando a mão do outro e tentou correr, porém um dos policiais apontou a arma e gritou:

“Se você continuar correndo eu vou atirar!”.

Mark agora estava do meu lado.

Senti a presença dele, mesmo estando em estado de choque com toda aquela cena. Dois homens foram pegos praticando homossexualismo e todo o meu ser tinha noção de que eles não foram mortos ali mesmo por conta da minha presença e a de Mark. Assim que o policial gritou, o homem que correu parou, de cabeça baixa. Um dos policiais correu até ele, o pegou de forma brusca pelo braço e o juntou com o companheiro.

“Vocês estão presos pelo ato de homossexualismo, serão levados até a presença de um juiz e serão julgados”.

Os homens choravam, imploravam para que os deixassem i, prometendo que eles nunca mais fariam aquilo. Um dos policiais pediu silêncio e eles continuaram a implorar e então o policial meteu um soco tão forte na boca do homem que implorava, que ele caiu no chão, cuspindo sangue e dentes. O policial o pegou novamente pelo braço, com uma força completamente desnecessária, fazendo o homem gritar.

“Você quebrou meu braço!”

“Tem sorte de eu não meter um tiro na sua cara”. O policial gritou.

Meu corpo tremia completamente. O choque era grande demais. Na minha vida, até aquele momento, nunca havia presenciado nenhuma cena dessa. Então era assim que os homossexuais eram tratados? Então seria assim se ao invés daquele casal, eu e Mark seríamos tratados se fossemos pegos naquele momento? Minha mente estava completamente perdida. Voltei a realidade quando Mark bateu com o ombro dele no meu, me chamando a atenção.

“Vamos voltar pro carro, vamos embora daqui”.

Assim que entramos no carro, Mark trancou as portas e apertou o botão que fazia com que os vidros escurecessem. Ficamos ali por algum tempo em silêncio. Meu corpo todo estremecia e a cena do policial agredindo um dos homens não parava de se passar pela minha mente.

“Você nunca havia presenciado isso antes, não é?”. Mark me encarou, com seus olhos azuis olhando nos fundos dos meus.

Balancei a cabeça negativamente.

Bom Rafael, essa é a realidade das minorias no seu país. Seus pais, como membros do governo, como pessoas de grande poder aquisitivo, mantiveram você a vida toda longe da realidade. Os bastidores dessa falsa paz que o seu governo trás está sendo escondido da nova geração.”

Continuei em silêncio e ele suspirou.

“Me desculpe, Rafa, me desculpe, talvez não seja o momento para essa repreensão. Você não tem culpa”.

“Não tenho culpa? Cresci com discursos machistas, homofóbicos, racistas. Dentro de casa, no colégio militar. Fui criado achando que tudo isso era certo. Nunca rebati, nunca critiquei, nunca questionei …"

Fui interrompido por Mark, que colocou um dedo sobre meus lábios, me silenciando. Arregalei os olhos por um momento e então ele tirou o dedo dos meus lábios. Meu corpo estava completamente retesado e então ele segurou minhas mãos, acariciando-as. Havia ternura em seu olhar. Relaxei por um momento e deixei que ele continuasse. Ele soltou sua mão direta e a levantou até meu rosto, segurando-o e acariciando-o. Meu coração acelerou. Era o que eu queria. Mark se aproximou cautelosamente, com medo da minha reação. Meu coração acelerava cada vez mais em eu estômago parecia estar preenchido por borboletas que se debatiam com suas asas contra meu abdômen. De repente minha mente foi inundada pela imagem da agressão e, num impulso, me afastei dele. Não poderia arriscar nossas vidas assim. Não poderia arriscar a vida dele assim. Eu não me perdoaria se algo de ruim acontecesse com ele.

“Saiba que você não tem culpa de nada disso, Rafa. Você apenas está sofrendo pelas escolhas dos seus pais e das pessoas que elegeram esse governo autoritário”.

Mark não estava bravo por eu ter me afastado daquela forma de seus toques e do seu rosto próximo ao meu. Ele entendia meu medo e de certa forma, pelo seu olhar, aquela era uma preocupação que o afligia também, porém ele era mais corajoso. Ele não se acovardava diante dessas situações como eu havia me acovardado. Antes eu estava querendo tomar as rédeas da situação, dos meus sentimentos, levando-o para um local mais deserto para que eu pudesse expressar meus sentimentos. Tocar sua mão e talvez beijá-lo, porém parecia que o destino não queria que fizéssemos aquilo naquele momento, no momento em que os policiais apareceram e pegaram um casal antes da gente.

Não respondi o que ele havia dito. Eu queria chorar, por pra fora toda dor que estava sentindo naquele momento, porém fiquei quieto. Fiquei olhando para fora da janela. Não fui capaz de encara-lo. A todo momento visualizava a cena, só que agora colocando a mim mesmo e Mark na situação. Sem trocarmos mais nenhuma palavra, Mark deu partida no carro e seguimos de volta para casa.

Notas finais
Comentem, por favor ♥
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.