Ocean Eyes
2 Capítulo 1 - Feriado nacional
Hoje é feriado no Brasil. Hoje é dia vinte e oito de outubro de dois mil e trinta e cinco. No dia de hoje, todos devemos ir à igreja agradecer a Deus pelo dia em que o nosso país começou a tomar o rumo certo. O rumo certo, como costumava dizer o nosso ilustríssimo presidente, seria o rumo que Jesus aprovaria quando voltasse um dia. De acordo com nosso presidente, estávamos quase lá.
Estou do lado de fora da igreja, do outro lado da rua. Olho a movimentação de pessoas que chegam. Há homens e mulheres com seus filhos. Os homens vestem terno de cores mais comuns, preto, cinza ou azul escuro. As mulheres vestem saias sociais, cobrindo os joelhos. Para as mulheres, era obrigatório esse tipo de vestimenta. Saias que cobrissem os joelhos ou que fossem até seus tornozelos. Suas roupas de cima não podiam ser decotadas e nem escandalosas. Isso não caía bem aos olhos de Cristo.
“Paz o senhor, irmãos”. Se ouve muito isso conforme as famílias se encontram na porta da igreja. Na realidade, essa forma de comprimento foi aderida ao dia-a-dia comum na nossa sociedade desde que me conheço por gente.
“Hora de entrar, Rafael, venha!” Ouço a voz do meu pai me chamar, e então atravesso a rua e entro pela grande porta principal da igreja.
A igreja é um tanto grande, com fileiras e fileiras de bancos de madeira perfeitamente alinhados dos dois lados, deixando um corredor largo no meio do salão para que as pessoas pudessem transitar. As paredes são pintadas em um tom creme bem clarinho e não há figura ou imagem em canto algum. Diferente das igrejas católicas, que normalmente possuem imagens de Cristo na cruz em algum parte da parede de suas igrejas. Ali a igreja é bem neutra, com cores claras, bancos de madeiras e um púlpito bem grande e espaçoso para que o pastor pudesse caminhar livremente de um lado para o outro. Conforme eu seguia meu pai e minha mãe até o banco onde costumávamos nos sentar nos cultos, o bispo da igreja já estava se direcionando até o pedestal com um microfone que estava posicionado no centro do púlpito.
“Antes de nos sentarmos, gostaria que ficassem de pé em seus lugares para que possamos cantar o hino nacional do nosso país”.
Mais essa! Eu detestava cantar esse hino. Desde criança eramos obrigados a cantar todos os dias o hino nacional no colégio. Além de cantar no colégio, todo dia vinte e oito de outubro eramos obrigados a canta-lo, também, nas igrejas e nos cultos comemorativos. Meus pais não podiam me ouvir reclamar que logo me repreendiam. Diziam que aquilo era um crime grave e que não era pra eu repetir novamente aqueles dizeres. Eles não queriam que fossemos processados pelo estado por desacato a ordem presidencial. Assim que o bispo terminou de mencionar o hino nacional, todos ali presentes ergueram suas mãos diretas até o peito, mais precisamente pousando a mão em cima do coração, e começaram a entoar o hino juntamente com a música que berrava nos altos falantes da igreja. Eu não queria cantar, eu não queria repetir o mesmo gesto que todo mundo, porém meu pai me deu um cutucão dolorido e então fui obrigado a obedece-lo.
O culto foi demorado. Foram longas duras horas sempre da mesma ladainha. Sempre enaltecendo como o nosso Ilustríssimo Presidente foi escolhido pelas mãos do Senhor para que governasse nosso país, e como desde então, as coisas melhoraram. Não que eu acreditasse que aquilo era verdade, mas diziam que há pelo menos dezessete anos atrás as coisas não eram tão boas como são hoje. Meu pai sempre me disse que antigamente não havia mais respeito por nada. Alunos agrediam professores, bandidos roubavam e saíam impunes, dentro do próprio governo havia muita roubalheira de dinheiro e foi só depois que Belocardo ganhou as eleições é que as coisas começaram a mudar. Não há muitos registros sobre antes de eu nascer, parece que toda informação simplesmente foi apagada ou mudada, como diziam algumas pessoas. A história do nosso país parece ter sido esquecida, ou pelo menos foi assim decretado. Todos os livros de história do Brasil de antes das eleições de dois mil e dezoito foram proibidos e recolhidos para incineração. Além dos livros de história, grande parte de livros e autores foram vetados e proibidos de serem comercializados ou colocados dentro das escolas. Segundo a secretária da educação, tais livros não acrescentavam em nada a formação das mentes da nossa nova geração.
Após o término do culto, meus pais ficaram pra trás para se despedir de alguns amigos, enquanto me dirigi para fora da igreja. Estava descendo as escadas em direção ao estacionamento, quando uma mão pousou em meu ombro e me puxou para trás. Assustado, me virei rapidamente e dei de cara com meu amigo da escola, o Nicolas. Nós costumávamos chama-lo de Nick.
“Que susto, Nick!”. Bradei, inconformado em ser puxado daquela forma.
“Qual é, Rafa, não queria ter te assustado”. Ele disse, tentando segurar o riso. Nick era bem alto, tinha seus um metro e noventa fácil. Era ruivo, o cabelo cortado bem rente nas laterias e um topete bem grande penteado para trás. Seu rosto era todo sarapintado de sardas.
“Tudo bem, eu estava apenas distraído”. Eu disse, já me acalmando do susto.
“Topa ir amanhã na casa do Christopher pra gente poder estudar para a prova?”. Ele perguntou, me encarando com seus olhos verdes e sorrindo maliciosamente.
A última palavra que Nick havia pronunciado, tinha soado um tanto suspeita. Sabia que havia alguma segunda intenção pode trás da palavra prova. Sempre quando dizia que tinha que fazer algo na casa do Christopher, mesmo que fosse estudar, acabaria rolando alguma outra coisa. Da última vez os meninos haviam enchido a cara e ficado bêbados. Por sorte os pais de Christopher haviam viajado, então todos passaram o dia seguinte de ressaca lá antes de voltarem para suas próprias casas.
“Eu até gostaria de ir, porém amanhã meu pai vai receber um amigo estrangeiro em casa e ele gostaria que estivéssemos todos lá”.
Nick revirou os olhos e eu não pude deixar de fazer o mesmo. Por mais que soubesse que eles aprontariam algo, eu gostaria de estar presente com meus amigos. Mesmo que eles fossem quebrar algumas regras e leis (ingerir bebida alcoólica por menores era proibido), estar com eles era sempre muito divertido. Porém eu teria que estar em casa para receber o Mark, um amigo que meu pai fez há alguns anos quando viajou a trabalho para os Estados Unidos.
“Bom, você sabe onde estaremos, caso mude de ideia”.
Nick se despediu, me dando um tapa amistoso no ombro e uma piscadela rápida. Ele era bem atraente e malandro. As garotas no colégio sempre estavam brigando pela atenção dele. Sorri de volta para ele e então continuei meu caminho em direção ao carro dos meus pais, esperando que eles voltassem logo da igreja.
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