Ocean

1 PARTE 1


— Eu sinto muito — disse Victoire. — Não posso me casar com você.

Victoire sentia os seus dedos tremerem e torcia para que os seus olhos parecessem marejados pelo bem do homem ajoelhado à sua frente, mas não conseguia mais mentir. Não sentia nada há muito tempo.

Ele parecia decepcionado, ainda que aliviado. Talvez desejasse se livrar de tudo aquilo tanto quanto ela; Victoire só queria que ele tivesse feito aquilo em um local mais reservado, onde não tivessem um restaurante inteiro os encarando com taças de champanhe em mãos.

— Mas… — disse Oliver, sentando-se novamente no estofado da cadeira. — Vi, eu não entendo…

— Não deveria ter acontecido — explicou ela, levantando-se. — Não deveríamos ter acontecido, Ollie. Você sabe disso.

Com um sorriso triste esboçado em seus lábios, a loira se aproximou e beijou a bochecha de seu ex-namorado. Uma última vez, afagou-lhe o ombro e, sem olhar para trás, foi embora, ansiosa para chegar em casa e despejar toda aquela história em seu piano.

[DOIS MESES DEPOIS]

Dois anos, três meses e dezenove dias.

Teddy estava separado de Victoire Weasley há dois anos, três meses e dezenove dias; mas quem estava contando?

Ele estava bem. Quer dizer, acreditava realmente que estava muito bem. Desde que a mais velha dos Delacour-Weasley se mudou para Paris, Teddy não falara com ela. Não mandou mensagens ou curtiu fotos nas redes sociais, não se engajou com os fãs de sua ex-namorada e nem com os seus próprios que, eventualmente, perguntavam-lhe sobre ela. Não foi às últimas premiações musicais as quais fora indicado pois sabia que ela estaria lá e se limitou a lhe oferecer apenas um sorriso tímido, nostálgico, no casamento de Rose Weasley e Scorpius Malfoy. O Lupin, na verdade, evitava até mesmo consumir qualquer mídia que envolvesse Victoire Weasley – pelo menos até aquele momento.

— Deus — resmungou ele. — Isso não pode piorar.

No sofá da sala de seus padrinhos, Teddy estalava os dedos em intervalos de dez segundos enquanto tentava, em vão, desviar os olhos do programa que passava na tela plana fixada à parede bem na sua frente. James Sirius, ao seu lado, segurava a risada; Lily Luna, do outro, já nem tentava mais. Teddy estava ali por ter prometido à sua madrinha que almoçaria com a família naquele dia, mas devia ter escolhido qualquer outra data; Ginny jamais perderia uma edição de O Pasquim na qual o filho do meio e a sobrinha mais velha eram os convidados da semana.

Naquele domingo, Victoire e Albus eram entrevistados por Lysander Scamander e Amelia Jones, que disparavam inúmeras perguntas sobre o processo criativo do último álbum da grande estrela Toire Weasley. Ela estava linda; o vestido azul que usava combinava com os olhos e os cabelos estavam soltos, caindo sobre os ombros. Os lábios eram tão bonitos quanto Teddy se lembrava, e doía pensar que agora pertenciam a outro alguém.

Se Victoire estava no programa ao vivo, então estava em Londres naquele exato momento. Teddy sempre ficava nervoso quando ela estava por perto.

— Então, Vic — dizia Lysander. — Ocean é o seu terceiro álbum de estúdio e tem um estilo diferente dos anteriores. Algumas das músicas, inclusive, retomam o seu trabalho de antes da pausa.

— E foi uma grande espera — completou Amelia. — Dois anos sem novos lançamentos e, de repente, um sinal de atividade nas redes sociais.

— Exatamente! — prosseguia Lysander. — Como você começou o processo de construção desse álbum?

Victoire umedeceu os lábios antes de responder e, nesse momento, alguma coisa no estômago de Teddy começou a revirar.

— Quando decidi dar uma pausa na carreira, decidi também que precisava entrar em contato outra vez com quem eu era e com quem eu poderia me tornar. Eu precisava me conhecer melhor e a minha música foi o processo, e não ao contrário.

— Você já esperava essa repercussão que está recebendo agora com esse lançamento? — perguntou Amelia. — Quer dizer, você recebeu algumas nomeações ao Grammy e ao Billboard Music Awards.

— Eu não imaginava que um retorno anunciado tão em cima da hora fosse ser tão bem recebido — explicou ela, rindo. — Mas jamais poderia ter alcançado tudo isso sem a minha equipe e, principalmente, sem o Albus.

— Ela só quer uma carona para casa, tenho certeza — brincou Albus.

— Estou contando com isso, Al!

— E, Albus — chamou Lysander após a sessão de risadas. — Vocês já colaboraram antes em composições, mas dessa vez você participou de todas as músicas. Podemos esperar você nas próximas composições?

— Olha, eu não gosto de especular, mas acredito mesmo que sim — respondeu, sem pestanejar. Victoire sorria. — Escrever esse álbum com a T teve impacto direto em nós dois. Na verdade, eu não teria me interessado tanto pela música se não fosse por ela quando éramos crianças. Ela e o meu irmão, Teddy.

— Eu sabia que o Teddy era o preferido — resmungou Lily. — Não é justo, Lupin!

— Para de chorar, Luna — pediu James, revirando os olhos.

— Mas, Jim-

— Calem a boca — interrompeu Ginny, virando-se da poltrona onde estava. — Vocês dois!

— Por favor, precisamos ouvir essas histórias! — pediu Amelia, rindo junto com a Delacour.

— Talvez outro dia — disse ela. — Albus e eu costumávamos cantar e tocar instrumentos nas festas de família e, com o tempo, o amor pelo que fazíamos só aumentou e a nossa ligação com nossa música e composição também.

— Sempre fomos muito próximos de nossa família — completou Albus. — Foi uma das coisas que tentamos evidenciar em nossas letras nesse álbum.

— A primeira faixa, Marjorie, é sobre a avó de vocês, Molly Weasley. Foi essa a primeira música a ser escrita?

Lys e Amelia eram ótimas juntas; a dinâmica entre elas era excelente, o que mantinha as entrevistas fluindo muito bem. Teddy observava o modo como Toire mexia nos cabelos enquanto respondia à pergunta de Lysander.

— Na verdade, Albus e eu começamos por Wondering, o que acabou nos dando bastante trabalho, já que sempre parecia faltar alguma coisa.

— Sim, a Mads — comentou Albus, deixando escapar uma risada.

— Albus quem sugeriu o convite — explicou. — Wondering é provavelmente uma das minhas preferidas. É antiga e profunda, comecei a escrevê-la há muitos anos e só consegui retomá-la no ano passado. É uma música que precisa mostrar alguns sentimentos que não pertencem apenas a mim, então ter Madelyn Wood nos ajudando com a melodia, a composição e, especialmente, a sua voz, foi essencial.

Os olhos de Victoire brilhavam conforme ela falava sobre o trabalho dela. Ela explicava com delicadeza cada uma das perguntas das entrevistadoras e parecia tão alegre, tão cheia de vida, que levou Teddy diretamente para um momento de sua história onde tudo era mais fácil. Sentado em frente à televisão, foi tomado por reminiscências que não podia controlar.

Ele não conseguia recordar-se de como haviam se conhecido, pois não houve um dia em sua vida em que não estivesse junto de Victoire Weasley, dos cabelos loiros e dos olhos tão azuis quanto o vasto oceano.

A lembrança mais distante que tinha dela era de um dia chuvoso na casa de vovó Molly. Em Londres, quase todos os dias eram chuvosos, assim Teddy sempre se animava para visitar os avós Weasley, que moravam em uma chácara interiorana onde o clima era sempre ensolarado. Naquele dia, porém, chovia sem parar.

A chuva era gostosa. Caía nos cabelos azuis de Teddy Lupin de, então, seis anos de idade; o menino corria pela grama, gargalhando de como os pingos grossos da precipitação faziam cócegas em seu rosto e encharcavam as suas roupas. No fundo, ele torcia para que Ginny Potter não o pegasse ali; do contrário, a sua mãe serviria picadinho de Teddy para o jantar.

Em algum momento do dia, os seus tios Delacour chegaram ali. Antes que os seus pais pudessem lhe impedir, Victoire já estava correndo para o lado de fora da casa também, esticando os braços enquanto atravessava o gramado em direção a Teddy. Em suas galochas azuis com borboletas desenhadas, a pequena pulava sobre as poças apenas para observar a água espirrando para todos os lados.

— Oi, Toire! — gritou ele, achando divertido competir com o barulho da chuva. A menina respondeu prontamente, chamando-o para pular sobre as poças enquanto conversavam.

— Sua mãe ‘tá com a barriga bem grande — disse Teddy.

— Tia Ginny também — respondeu a menina. — Aposto que eu vou ter um irmão!

— Vai nada! — provocou Teddy. — Deve ser outra menina, igual a Molly.

— Não tem nada a ver! Eu vou ter um irmão e ele vai gostar de música igual a gente.

— Não vai não.

— Vai sim!

— Vai não.

— Vai sim! — gritou a loira, batendo um dos pés no chão. — E a gente vai ensinar ele a gostar de música também!

— Eu tenho certeza que Ginny vai ter uma menina — afirmou Teddy, estufando o peito ao continuar. — E eu quem vou cuidar dela!

— Vai nada — disse Victoire, cruzando os braços. — Você não sabe cuidar de criança.

— Sei sim.

— Sabe nada.

— Sei sim!

— Sabe nada! — gritou outra vez.

Como descobriram mais tarde, nenhum dos dois estava certo: Fleur deu à luz a Dominique, a segunda de suas filhas, enquanto Ginny recebeu Albus Severus algumas semanas depois.

Alheios àquelas informações, estavam muito mais interessados em brincar juntos do que em discutir qualquer outra coisa que não fosse onde era o lugar da contagem do esconde-esconde.

— Vamos brincar de outra coisa agora — impôs Victoire, empurrando Teddy com uma mão antes de começar a correr. — Te peguei, agora tá com você!

— Ei, eu não sabia! — Reclamou Teddy, mas sabia que não tinha mais volta. Victoire o pegou e agora era a vez dele correr; assim o fez. Correu sobre a grama, sentindo a chuva engrossar e o vento cortar as suas bochechas conforme acelerava para alcançá-la. Correu, correu, correu, e a alcançou.

Quando o fez, porém, não mediu muito bem a força aplicada ao esticar os seus braços em direção a outra criança. Sem querer e sem imaginar que aquilo aconteceria, Teddy empurrou Victoire com força demais, fazendo-a tropeçar e cair sobre uma das poças de água. Pelo grito assustado da garota, soube que ela havia se machucado.

— Me desculpa, Toire! — pediu ele, ajoelhando-se ao lado da menina que, com os olhos marejados, apertava a perna ralada contra o corpo. — Não foi por querer!

Desesperado, Teddy olhava para os lados, tentando encontrar alguém que pudesse ajudá-lo, contudo não havia ninguém por perto. Os dois já estavam muito longe do casarão para gritarem e, além do mais, Teddy temia ser repreendido quando descobrissem que ele havia machucado Victoire. Olhou, então, para o machucado na perna da garota; não sangrava tanto assim, assim o menino de cabelos azuis já não estava tão assustado. Ele mesmo possuía várias cicatrizes de arranhões como aquele, portanto, esforçou-se para encontrar uma solução para o que havia acontecido.

— Vai parar de doer rapidinho, eu prometo — disse ele, levantando a camiseta em seguida. — Olha, eu tenho um igualzinho nas costas! E no meu pé também.

— Mas o seu já passou! — reclamou Victoire, irritada e com os olhos ardendo.

Teddy pensou bem. Olhou ao redor outra vez, olhou para Victoire e olhou para o céu, para as gotas de chuva acariciando seu rosto. Fez, então, uma concha com as mãos e conteve o máximo de água que conseguiu, derrubando-a devagar contra o machucado da loira, que o observava em silêncio. Então, abaixou-se e beijou um ponto perto do machucado dela, assim como Ginny costumava fazer quando ele se machucava.

— Pronto! — disse ele, sorrindo e ajudando-a a se levantar. — Já sarou!

Em pé sobre os dois pés, Victoire avaliou o ferimento, deixando um sorriso transparecer em seus lábios ao ter a impressão de que aquilo havia realmente funcionado. Juntando toda a sua coragem, a menina ficou na ponta dos pés e se apoiou no ombro de Teddy, beijando-o com um estalo na bochecha assim que o alcançou.

— Obrigada, Teddy!

A cena seguinte era a imagem de Victoire correndo outra vez pelo gramado, desta vez de volta à casa dos avós para se proteger da chuva que começava a ficar perigosa. Teddy estava parado, olhando-a se afastar. Quando a perdeu de vista, decidiu voltar também e, já seguro dentro do terreno dos avós, encarou as nuvens por alguns instantes. O primeiro beijo que Victoire lhe deu havia sido sob a chuva e, desde então, a água escorrendo dos céus havia se tornado a sua melhor amiga.

Teddy e Victoire eram inseparáveis; não se via um sem o outro. Estudavam juntos, brincavam juntos e, com o tempo, passaram a cantar juntos.

Victoire sempre demonstrou afinidade com a música, assim como Teddy. Ambos cresceram rodeados de instrumentos, partituras e muito apoio de toda a família. Contudo, os seus gostos eram absolutamente diferentes.

Teddy era apaixonado pelo som grave do baixo e pela violência de sua guitarra; atormentava os seus irmãos constantemente com o som alto vindo de seu quarto na casa dos Potter, compondo as próprias melodias a cada hora da madrugada. Ainda assim, ficava intrigado com a delicadeza de Victoire ao dedilhar as teclas de um piano ou pressionar as cordas de um violão.

— Escrevi uma música — disse Victoire, jogando a sua mochila no chão perto do piano que tinha em casa. — Senta aí e me diz o que acha.

O Lupin fingiu estar ali a contragosto, mas era uma profunda mentira. Aos quinze anos, uma de suas atividades preferidas era ouvir Victoire cantar para ele, mas jamais admitiria aquilo em voz alta. Do sofá, observou a loira prender os cabelos preguiçosamente e respirar fundo antes de começar a dedilhar as teclas do instrumento.

Algumas notas depois, Victoire começou a cantar; cada vez que isso acontecia, Teddy experimentava sensações desconhecidas por toda a parte, a começar pelo arrepio que subia por sua coluna e se revelava nos pelos em seus braços. Contente com o quanto ela estava concentrada em sua música, o Lupin aproveitou aqueles instantes para observar a forma como os olhos azuis de Toire brilhavam.

I don’t have the answers, not today

It’s like nothing makes the questions go away

What I’d give to see if the grass was greener

On the other side of all I’ve had and lost

Would it be enough?

Or would I still be wondering?

— Caramba — foi tudo o que Teddy conseguiu dizer quando a garota terminou de cantar aquela estrofe. Percebeu que ele mesmo estava sorrindo quando Victoire sorriu de volta.

— Então, o que achou? — perguntou ela.

— Toire, isso foi… — começou Teddy, pensando em como poderia elogiar a obra sem dizer coisas esquisitas e sem sentido, como costumava acontecer quando estava com ela. No entanto, o celular da Weasley apitando na bolsa dela a distraiu e Victoire o atendeu com tanta pressa que mal prestou atenção no que o amigo lhe dizia.

— Damian, oi! — Disse ela ao atender à ligação.

Primeiro, Teddy ficou confuso. O que o goleiro do time de futebol da escola queria com ela? Victoire era musicista, não esportista.

Em seguida, uma onda de compreensão o atingiu e ele observou um sorriso diferente nos lábios de Toire. Diferente dos que ela reservava para Teddy.

Por último, Teddy decidiu que não gostava nada daquilo.

— Ei, Vic — sussurrou ele, acenando. — Tenho que ir. Ginny precisa de mim em casa.

Ele pensou que ela não fosse notar que usou um apelido diferente, mas Victoire percebeu. Estava pronta para questioná-lo, porém, Teddy já havia atravessado a sala e fez com que a porta de madeira batesse com força contra o batente em sua saída.

De repente, o estalo de palmas próximas ao seu rosto o tirou de seus devaneios.

— Alô? — chamou Lily. — Planeta Terra chamando Teddy!

— Sai fora, Luna — reclamou ele, afastando as mãos dela de seu rosto. Ao olhar para a tevê outra vez, percebeu que o programa entrava em intervalo; vinte minutos eram o suficiente para que pudesse voltar para o seu apartamento, não muito longe dali. Pensando no caminho mais rápido, levantou-se, beijou a bochecha de Ginny e inventou uma explicação do motivo de precisar ir embora.

— Não acredito em uma palavra do que disse — respondeu ela, mas sorria gentilmente. — Me avise quando chegar, querido.

— Prometo — disse ele. — Quer carona, Luna?

— Quero! — exclamou, apavorada de precisar que James a deixasse em casa. —Amo você, mãe! Odeio você, Jim.

— É por isso que o preferido do Albus é o Teddy — resmungou James, levando um peteleco da irmã antes de levantar-se para abraçá-la. — Tchau, Luna.

— Diz ‘pro Harry que falo com ele mais tarde — pediu Teddy, caminhando com Lily até o próprio carro.

Infelizmente, Lily Luna era uma caçula um tanto mimada. Teddy a amava, com certeza, mas aguentar o gosto musical dela era um grande desafio. O Lupin estremeceu quando ela esticou os dedos até o rádio, entretanto, nada o preparou para o som que preenchia o veículo. A voz melodiosa e suave de Victoire performava uma das músicas mais bonitas que Teddy já tivera o prazer de escutar. Lily murmurava baixinho junto com a voz da prima, observando as reações do irmão.

Your heart was glass, I dropped it — cantava a ruiva. — Champagne problems

Mesmo que tentasse desligar a sua mente, era impossível. A voz de Victoire o prendia de tal forma que corria o perigo de distrair-se da direção. Era uma música bonita, mas triste. Era um pedido de desculpas; o eu-lírico clamava por uma liberdade que lhe seria privada caso tivesse aceitado aquele pedido e, por isso, disse que não.

— Qual é a dessa música? — perguntou ele, antes que pudesse raciocinar. — Albus não quis casar com Ronan por acaso?

— Não — corrigiu Lily. — Toire não quis casar com Oliver e por isso voltou a morar em Londres.

Teddy quase bateu o carro. Eram diversas as perguntas que atormentavam a sua mente, mas uma frase se destacava: Victoire voltou para Londres.

— Victoire voltou para Londres — disse ele, parando o carro no sinal vermelho.

— Pensei que soubesse — provocou Lily, aumentando o volume do rádio para cortar o assunto.

— Mas, Luna — chamou Teddy, sendo interrompido pela mais nova.

— Olha ali minha casa — exclamou, removendo o cinto de segurança quando ele estacionou no meio fio. — Tchau, Teddy, te odeio!

— Te odeio, Luna! — gritou ele, vendo a mulher se afastar em direção à portaria do prédio. Daquela vez, a frase era quase verdade.

Mais rápido do que deveria, Teddy dirigiu até o próprio apartamento, estacionando na garagem com tanta pressa que tomou um espaço da vaga vizinha; se desculparia com a senhora Dickens depois. Subindo o elevador até o décimo segundo andar, correu através do corredor até entrar em sua casa, ligando a televisão no canal onde passava a entrevista que havia abandonado minutos antes.

— …dessa vez. Eu tentei colocar nessas histórias certas coisas que eu não pude ver antes, mas consigo ver agora — dizia Victoire. — Acho que muita gente pode se identificar com algumas delas.

— O álbum contém dez faixas, o menor quando comparado com os seus dois álbuns anteriores — disse Lysander. — Tem alguma explicação ‘pra diferença? Talvez alguma dica de um próximo álbum?

— Na verdade, são treze — corrigiu Albus, trocando um sorriso cúmplice com a prima, que explicou a situação sob os suspiros e arquejos das entrevistadoras.

— Três novas músicas serão lançadas hoje e estou tão animada quanto fiquei com o restante, elas significam muito ‘pra mim.

— Tem alguma chance de vocês tocarem um pedacinho ‘pra gente hoje? — pediu Amelia.

— Por favor, nos dê uma migalha! — brincou Lysander.

— O que acha, Al? — perguntou Victoire. O sorriso nos lábios dela era tão genuíno que Teddy se pegou sorrindo também.

— Produção, precisamos de dois violões, por favor — pediu Albus, batendo a mão contra a de Lysander.

Tal como fez nas últimas horas daquele dia, Teddy começou a pensar. Havia perdido Victoire por um erro que conhecia muito bem e, se pudesse, teria voltado no tempo e feito tudo de outra forma. Ele sentia falta de cada sorriso, cada toque, cada noite tempestuosa que passaram juntos. Ele sentia falta dos beijos de Toire por seu corpo e da voz dela quando ele a apertava com mais força; pensar que ela não tinha encontrado alguém melhor era egoísta, mas reconfortante.

Ansioso, percebeu que deveria ter escutado todas as músicas assim que foram liberadas no dia anterior. Albus e Victoire se prepararam, afinando os seus respectivos instrumentos antes de começar a tocar.

— Essa música se chama “The way I loved you” — contou Toire. — Espero que gostem.

Os primeiros acordes de uma versão acústica da música tomaram o ambiente, e Teddy se sentiu orgulhoso ao notar a destreza de Albus ao dedilhar o violão. Victoire começou as notas dela em seguida, fechando os olhos ao começar a cantar.

As primeiras estrofes falavam sobre “ele”. Alguém perfeito, idealizado, o sonho de consumo de quem procurasse um amor. Teddy não entendeu, já que Toire não estava mais com o tal francês que tinha encontrado em Paris; supôs que fosse uma música de amor, e não estava errado, mas também não esperava o que ouviu a seguir:

But I miss screaming and fighting and kissing in the rain — externava Victoire. — And it’s 2 a.m and I’m cursing your name.

Deveria ter escutado aquele álbum antes. Deveria estar junto dela quando foi escrito.

O Lupin ficou parado por minutos à fio, absorvendo cada palavra cantada por Toire. Ela sentia a sua falta, talvez tanto quanto ele sentia a dela. O programa acabou momentos depois e, pela propaganda que apareceu em seguida, as músicas haviam sido liberadas.

Precisava ouvi-la de novo.

Em movimentos automáticos, desbloqueou o seu celular e abriu o seu perfil no aplicativo de músicas. Entre os nomes ocultados, estava “Toire Weasley”. Com dois cliques na tela, a artista poderia ser reproduzida novamente. O seu próximo movimento foi selecionar “ocean (deluxe version)”, deixando algumas músicas tocarem conforme procurava pelas recém-lançadas.

Right where you left me, The way I loved you —- disse Teddy, lendo as novas faixas da versão estendida do álbum. — Long story short.

Teddy não podia acreditar. Depois de todos aqueles anos, Victoire Weasley estava cantando uma música sobre ele. Estava cantando três músicas sobre ele.

Ele tinha que cantar de volta.

Era como se o mundo tivesse parado. Teddy não via a chuva caindo do lado de fora, não prestava atenção nas luzes que deixou acesa e muito menos se lembrou de desligar a televisão antes de sair de casa. Talvez até tivesse deixado a porta aberta.

Com pressa, desceu o elevador outra vez e entrou em seu carro, dirigindo sem parar até o outro lado da cidade. Torcia, implorava ao universo, para que Victoire tivesse voltado para o antigo apartamento afastado do centro; estacionou o carro com tanta pressa que provavelmente levaria uma multa.

Da calçada até a portaria, foi tomado por uma sensação de alívio ao ver Albus atravessando o portão.

— Al! — chamou ele, correndo para perto do irmão. — Ela ‘tá em casa?

— Acabei de deixar ela lá em cima — contou ele, colocando as mãos nos bolsos antes de se afastar até o próprio carro. — Boa sorte, Teddy.

Não teve tempo de agradecer; já estava dentro do terreno, subindo as escadas até o elevador a passos largos.

Cinco, seis, sete, oito.

Oitavo andar, apartamento 803.

Com as mãos tremendo, tocou a campainha. As músicas que escutou lhe diziam algo que quase não podia acreditar: Victoire não só o amou há muitas luas atrás, como ainda o amava.

Uma eternidade depois, a porta se abriu. Teddy supôs que a loira acreditava que Albus tivesse voltado, decepcionando-se ao vê-lo parado ali, a julgar pela forma que o sorriso dela se desfez.

— Oi, Toire — disse ele. — Ouvi dizer que vem cantando sobre sentir a minha falta em programas de tevê.

— Oi, Teddy.

Ele ainda tremia, mas esperava que ela não percebesse. Pela demora na resposta, achou que ela fosse expulsá-lo dali sem pestanejar.

Estava enganado.

— Quer entrar?

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.