Obstinado - Bakugou e Midoriya
5 Dicas
Notas iniciais
Quando abriu os olhos, pela primeira vez Midoriya sentiu desgosto ao ouvir a voz de seu despertador personalizado que tentava animá-lo para o dia.
—PLUS ULTRA! Esse é o início de um novo dia, jovem!...
Ele fechou os olhos suspirando profundamente. A sombra de cansaço em sua face. O tom otimista não estava convencendo, por mais fã que ele fosse.
— Sinto muito, Despertador All Might versão 2.0, hoje não vai ser um dia excitante. Você pode ficar quieto agora.
Midoriya estendeu a mão e o desligou antes que o aparelho começasse a gritar frases de efeito para ele levantar. Então ele esperou mais dez segundos e fez duas inspirações profundas para se levantar, diligentemente se vestir e finalmente encarar o seu castigo.
Okay, ele não estava irritado ou coisa assim. Talvez um pouco nervoso. Até agora ele não tinha tido problema em encarar as consequências de seus atos, mas ficar sem aula? Em detenção? Isso significa: atraso. Ficar pra trás. Perder seu único chão. Um empecilho no seu caminho para ser o maior herói de todos.
“Espero que essa limpeza me distraia.” Pensava otimista, caminhando escadas abaixo para a sala de estar do Heights Alliance.
Na metade das escadas ele ouviu um pseudo bufo. A possibilidade de Kacchan estar acordado e chutando era enorme, mas Midoriya não contava com o aparente bom humor do loiro. Não depois da luta que eles tiveram na noite anterior. Não depois da conversa com All Might e toda a história de sua aposentadoria, da transferência de poder, do legado que ele precisava cumprir. Da culpa que Kacchan sentia por ter arruinado a carreira do Herói Nº1.
Ele esperava tudo, menos essa atitude... Midoriya não conseguia explicar... Kacchan era para estar querendo explodir seus miolos. Ele estava calmo demais. Todo mundo sabe que a calmaria vem antes da tempestade.
— Bom dia.
— Isso é hora de aparecer?
Ambos se olharam por pouquíssimo tempo, seus olhares desviando quase no mesmo instante de contato.
Ah sim. Poucos meses atrás eles estavam fazendo sexo. Tinha esse detalhe.
“Mas aquilo não durou muito.”
Midoriya guardou a sensação de desconforto em seu peito e continuou seu caminho, passando pelo colega em direção à cozinha. Supostamente nesse período de detenção eles precisavam fazer a limpeza do dormitório pela manhã e noite, sendo que eles não poderiam comparecer às aulas e nem treinos fora dali. Isso queria dizer que eles não iam ter muito tempo para ir até o refeitório, tendo também a responsabilidade de fazer a própria comida.
— Eu não acordei com o despertador.
Mentira.
— Hnf. — o loiro deu de ombros e continuou a fazer o que aparentemente era... Omolete?
— Por que você está na sala? — Midoriya perguntou, sentindo a palpável distância na própria voz.
— Huh?
— Quero dizer, por que você não está fazendo isso na cozinha?
Realmente. O loiro segurava a bacia de metal e o fouet, batendo com seu usual profissionalismo. Provavelmente algo digno de um chef ia sair dali, assim como num passe de mágica. Era sempre assim.
Bakugo apenas continuou fitando o Midoriya, fazendo um som nasal de descaso.
Essa situação não era nada confortável, nem ideal. Os dois sozinhos numa manhã como essa, sabendo que passariam boa parte de seu tempo juntos.
Mesmo por que- quem não ficaria nervoso? Eram 3 dias! Midoriya nunca tinha passado tanto tempo na presença do loiro. “E provavelmente ninguém”.
Midoriya ignorou sua própria ansiedade crescente e se apressou para a cozinha. Lá encontrou a cafeteira com a função já finalizada.
“Isso é bastante café. Kacchan vai beber sozinho?”
O esverdeado pausou uns instantes, pensando se ia perguntar ou não. A sensação de estranheza o arrebatando inteiro.
“Melhor não”. Ele só queria evitar conversar com Kacchan nesse exato instante. Ele ainda estava despreparado.
— Sai da frente.
Num sobressalto, Midoriya se afastou, dando passagem para o loiro, quem foi direto para o fogão. O esverdeado virou-se para o filtro de água no desespero, perdendo o foco do que fazer agora. Ficar assistindo Kacchan com um avental básico branco e fazendo omelete definitivamente não fazia bem para seu coração.
— O quê que você tem? — Kacchan indagou, começando a mostrar irritação. Ele olhava por cima do ombro, sem deixar de conferir seu trabalho.
— Ah- Hm- eu...
Midoriya sentiu seu rosto esquentando. Automaticamente ele buscou um copo e fingiu se ocupar com o filtro, mas Kacchan não era idiota e não deixava coisas pela metade.
— Ei, não me ignore! Fala logo!
No sobressalto, Midoriya se virou para ele, mas ainda assim não conseguiu fazer nada a não ser balançar as mãos sem saber o que dizer.
O loiro estalou a língua do jeito que sempre fazia quando estava impaciente:
— Tch. Já que não está fazendo nada, ponha a louça na mesa.
— Eh?
O punho do loiro por pouco não quebra a espátula.
— Você vai comer também! Não vou deixar você desperdiçar o meu esforço, nerd! Sua tarefa nisso é arrumar a mesa, obviamente!
Midoriya sentiu uma pontadinha de felicidade nascendo desde seu estômago. Kacchan estava cozinhando para os dois!
“Não, não, não”. Sua consciência instantaneamente veio atropelando tudo. “Mas por quê? Nós gradualmente fomos nos separando. Ele não queria mais nada comigo.”
Midoriya mordeu o lábio, fazendo o que lhe foi mandado. Não precisava discutir agora. Ele precisava aproveitar cada segundo sozinho para (evitar Kacchan) pensar melhor sobre as causas que fizeram os dois rapazes se afastarem tanto, mesmo com toda aquela intensidade que compartilharam.
Então ele apenas aceitou essa situação enquanto arrumava o local da refeição, fitando o relógio e ouvindo os primeiros passos se aproximando do cômodo compartilhado. Pelo menos ele não ficaria sozinho durante aquele café.
— Bom dia, Midoriya-kun!
Iida era sempre animado de manhã. Como eles eram grandes amigos, Midoriya já abriu um grande sorriso, genuinamente contente pelo representante estar melhor em relação aos ocorridos dos últimos tempos. Seu irmão sendo atacado por Stain. Iida buscando vingança. A luta do trio contra o vilão. Iida indo contra o plano de resgate de Kacchan da Liga dos Vilões.
Depois de cumprimentá-lo, ainda conversaram um pouco, até que o pessoal começou a se juntar para ir para a aula e Midoriya teve que explicar que estavam de detenção.
Kaminari teve a ousadia de zoar deles. Mineta zombou do esverdeado sobre ele ficar pra trás e “que pena”, mas logo eles sumiram.
— Vocês precisam cumprir todas as tarefas devidamente, Bakugo-kun, Midoriya-kun! Aizawa-sensei já deu o sermão que vocês merecem, porém, no meu papel de representante é necessário que eu também faça a minha parte e repreenda vocês! Principalmente quando vocês ousaram quebrar regras tão simples aqui dentro deste mesmo dormitório!
— I-Iida-kun... — Midoriya tentava acalmá-lo, sem graça.
Uraraka também ainda não tinha entendido bem a explicação de Midoriya, sem acreditar.
— Vocês fizeram as pazes depois? — ela indagou, sem engolir a história.
— Pazes... E-Eu não diria isso... Hm... É difícil de explicar...
— Vocês dois tiveram sorte de serem só suspensos! Agora vamos ter que ir para a cerimônia de abertura sem vocês! — Iida ainda anunciou. Como se eles não soubessem disso.
— Vaza logo daqui, pé de vento! — o loiro resmungou logo que chegou na sala, depositando os pratos. Por uns segundos todos se calaram, apenas fitando a comida. Quem diria que um omelete poderia parecer algo divino?
— Nos vemos à tarde, Midoriya-kun!
Uraraka tentou animar Midoriya, fazendo-o corar quando o segurou pelos ombros, o sorriso dela o fazendo flutuar uns instantes. Depois dessa ele realmente estava mais energizado.
Seus amigos ainda acenaram timidamente e os deixaram. Ninguém perguntou nada específico, sabendo que o rapaz daria uma explicação quando se sentisse à vontade.
Midoriya sentiu um pequeno arrepio ao ouvir a cadeira atrás de si arrastando. Kacchan não o esperou para começar a comer.
“Bom, pedir pra ele esperar já é demais haha”.
Mas antes que Midoriya se juntasse ao ex-parceiro, a figura de Todoroki apareceu nas escadas, atraindo toda sua atenção. Ao seu lado, Yaoyorozu. Os dois foram os últimos a aparecer, o que era inusual – embora o Midoriya soubesse bem da proximidade dos dois desde os exames finais e que de vez em quando eles trocavam notas de estudo, mas fazia um bom tempo que eles não interagiam.
Todoroki detectou rapidamente o Bakugo sentado à mesa e em seguida deteu seus olhos em Midoriya, lhe dando um pequeno sorriso enquanto passava e dizia “Bom dia, Midoriya”.
O que o surpreendeu foi o rapaz virar para Kacchan:
— Bakugo, o que você vai fazer quanto às lições extras para o exame de licença provisória?
— Cala a boca... Isso não é da sua conta!
Midoriya até se sentiu um pouquinho chateado por não poder falar mais com ele. Todoroki era gentil e um bom ouvinte. O fato de Todoroki ter reprovado no exame de licença provisória o colocava na mesma posição de Kacchan, por isso Midoriya queria conversar mais com ele, mas ultimamente ele não estava tendo tempo de se conectar aos amigos da forma que queria. E muito menos com outras pessoas.
Resignado, ele soltou os ombros, tensos o tempo todo. Do que adiantava ficar remoendo coisas incompreensíveis? Por exemplo, por que a situação entre ele e Kacchan tinha chegado naquele ponto?
— Vai esfriar. — o loiro murmurou, um pouco irritadiço. Se Midoriya parasse um segundo olhando para aqueles olhos rubis notaria como eles soltavam faíscas nesse instante.
— A-Ah, desculpe.
E assim ele se sentou, agradecendo a refeição.
Midoriya ficou em silêncio, sem receber nenhum olhar significativo de Kacchan. Ambos comendo em silêncio, o som dos garfos e de suas gargantas engolindo a comida.
Em certo momento Midoriya notou que Kacchan estava comendo bem mais e muito mais lento do que o normal. Ele se perguntou se puxava conversa, mas sem assunto ficava difícil. Tinha o omelete. Ele podia falar de como o omelete estava bom. Como ovos fazem bem para a saúde. Ou como o consumo demasiado pode causar colesterol. Ou até mesmo falar da diferença de armazenagem de um país pro outro.
“Você sabe um monte sobre ovos, né Midoriya? Um monte de conhecimento inútil. Tipo, por quê o Kacchan vai querer saber que os ovos não são lavados em alguns países?”
Chegando perto do final, Midoriya lançando olhares várias vezes para o loiro – e achando interessante a forma que a comida entrava em sua boca e as bochechas enchiam e se mexiam devagar... –, ele decidiu pelo menos agradecer.
— Hm, a comida está deliciosa.
Bakugo levantou os olhos preguiçosos. Mas a atenção de Midoriya foi para a perfeição do pomo de adão se movendo quando ele engoliu e o som de satisfação gutural logo após.
— Quem você pensa que eu sou? — retrucou o loiro e deu um riso nasal.
Como uma sensação nostálgica, a vibração trespassou seu corpo, trazendo uma sensação que Midoriya pensou ter esquecido. Um desejo sutil e tímido. Em resposta ele só conseguiu rir, mas dessa vez seu rosto esquentou de vergonha dos próprios pensamentos.
— Obrigado pela comida.
— Hnf. — o bufo do loiro foi de satisfação.
Depois disso, mesmo com o silêncio, o clima já estava ajustado. Havia algo de confortável entre os dois.
“Vai ver era eu que estava muito autoconsciente sobre nossa luta”. Midoriya argumentou consigo mesmo, fitando Kacchan. O loiro apontou a louça.
— Você vai lavar a sua parte.
— Deixa que eu lavo tudo já que não ajudei no preparo.
Kacchan ergueu uma sobrancelha para ele, claramente incomodado com alguma coisa. Midoriya hesitou em perguntar, mas o olhar era agressivo demais para ele suportar.
— O-O que foi?
— Ei, você tá me irritando. — o loiro franziu a testa.
Midoriya arregalou os olhos. Ele não tinha feito nada!
— U-Uhm... Mas eu não fiz nada demais.
Kacchan franziu a testa ainda mais depois disso e trincou os dentes. Porém, por mais que ele estivesse irritado, Midoriya não entenderia se eles não se comunicassem.
“Sim. Um dos problemas que nos fez afastar foi esse. Sempre teve essa barreira enorme entre nós”.
O loiro pareceu ter lido seus pensamentos, pois sua mão foi direto para a gola do Midoriya.
— Você continua irritante como sempre! Fica todo cheio de blá blá blá dia e noite, noite e dia! Depois de tudo o que aconteceu, você vai ficar balbuciando por aí? Se não consegue falar direito, então por que você ainda tenta? Não fale comigo se não tem nada para falar, Deku.
TUM. Midoriya podia jurar que tinha ouvido o próprio coração. Seu corpo reagindo naturalmente ao som. Eram dois idiotas, mas ele era mais por ter fugido de qualquer interação com Kacchan.
O som de seu nome saindo da boca de Kacchan dessa forma era incrível. Todas as vezes antes tinham soado com raiva e cheio de desprezo. E ouvir o próprio nome, algo tão precioso, sendo dito com sentimentos tão fortes e negativos... Claro que ele odiava. Sempre tinha sido uma lança em seu coração.
Mas agora, finalmente, o tom ao chamar seu nome foi natural.
— Kacchan...
O loiro arregalou os olhos também e soltou-o. Como num passe de mágica. Ele tinha tido a coragem de cortar a distância entre os dois, por isso Midoriya tinha que agradecer.
Midoriya sentia seu próprio rosto borbulhando. E se lembrando de como era dizer esse nome quando os dois faziam... enfim, Kacchan estava meio vermelho também.
Agora o cenário era apenas constrangedor. O que eles supostamente deviam fazer? Não dá para simplesmente apagar o tempo e voltar ao que era antes.
Sobre a mesa o celular de Kacchan vibrou, dando a chance para cortar o clima intenso entre ambos. Midoriya voltou sua atenção para a tarefa de juntar a louça e se encaminhar para a cozinha, ainda com o corpo ardendo de emoção.
XXX
Enquanto passavam o aspirador na sala, logo depois de finalizarem a cozinha, Kacchan chamou sua atenção.
— Sabe, quanto ao seu estilo de chute...
A tensão preenchia o ar. A tentativa de conversa agora que estavam completamente sozinhos era no mínimo intimidadora, mas pelo menos Kacchan escolheu a melhor forma de começar uma conversa depois do silêncio mortal que tinham caído uma hora atrás.
— O que tem?
—...
Midoriya sentia estresse palpável. Kacchan puxando conversa pela segunda vez no mesmo dia? Era muito estranho. Nem quando estavam dormindo juntos eles conversavam. Eles combinavam o lugar e horário, chegavam e faziam, sem perguntas, sem diálogo.
— Os movimentos são amplos são demais. — sua voz era calma, de uma forma que nunca era quando tinha gente em volta. — Mesmo aumentando a velocidade eu ainda consegui reagir a tempo. Ele não serve para uma luta suja.
— É mesmo? — Midoriya virou-se. Agora sim, isso era curioso. Kacchan tinha acabado de lhe dar uma dica?
— Não combina bem com socos. É irritante.
Midoriya soltou os ombros, voltando ao trabalho, um sorriso naturalmente vindo aos seus lábios.
— Entendi!
Depois disso, foi como se a interação dos dois tivesse mudado completamente. Como se um novo universo tivesse aberto para eles. Midoriya sentia seu lábio tremer de excitação toda vez que eles trocavam olhares.
Ele podia contar em sua mente às vezes em que sentiu a voz de Kacchan suavizar quando “chamava sua atenção” ao fazer alguma tarefa errado. Como quando ele foi lavar o vidro e Kacchan quase jogou o pano de limpeza em sua cara gritando algo sobre ele estar sendo lento e usando o produto errado. Não só isso, mas quando ele estava separando o lixo e teve uma dúvida sobre qual era para incinerar e Kacchan apareceu por trás, estendendo o braço e fazendo a divisão, sem nem perguntar. Com-o-corpo-quase-encostando-em-suas-costas!
As narinas do rapaz abriam, soltando expirações violentas para controlar seus espasmos joviais de excitação.
“Se controle, Midoriya-san”. O rapaz disse a si mesmo, tentando manter a compostura. Mas não era tão fácil, não depois de anos esperando para ter uma boa relação com Kacchan. “Não é como se fossemos virar melhores amigos. Já acabamos por aqui, então cada um vai para o seu lado.”
— Deku.
O tomate virou para o Bakugo ainda em processo de aceitação e estranhou ao ver o loiro com halteres, igualmente pretos ao conjunto que vestia.
— Eh? — Midoriya balbuciou, confuso. Agora que tinham terminado os afazeres eles não precisavam ficar mais no mesmo ambiente.
— Vou treinar agora, então vê se não atrapalha.
“Okay, mas por que na sala?” Midoriya queria perguntar.
Sem dizer mais nada, o loiro se sentou no espaço entre o sofá e a janela, onde tinha mais iluminação, de modo que Midoriya ficou assistindo as costas do Bakugo. Não era uma boa hora para focar em como a blusa sem mangas ficava extremamente apertada e ressaltava os músculos dorsais do colega e nem como os bíceps ficavam mais e mais protuberantes com esse treino – muito provavelmente diário (Kacchan sempre se enfiava no quarto e ninguém sabia bem o que fazia).
Kacchan notou sua distração em pouco tempo.
— Seu treino é uma bosta, então não espere que ficar parado aí vai mudar alguma coisa, Deku.
Os ombros de Midoriya ergueram-se, mas rapidamente seu cérebro fez as conexões.
Se ele olhasse bem para o modo que tinham interagido durante aquela manhã, Kacchan poderia simplesmente tê-lo ignorado, mas não. Eles estavam conversando – mais do que antes – e mesmo quando o “xingava”, ele estava fazendo questão de ficar próximo ou enfatizar que eles estavam “juntos”.
“Será que-”. Midoriya tapou a boca, o rosto pegando fogo. “Kacchan é tsundere?!”.
Midoriya se apressou em sentar ao lado do loiro, mantendo uma distância segura claro.
— Kacchan, você vai compartilhar seu treino comigo? — perguntou sem conter a expressão animada. Não havia coisa mais animadora que treinar para ficar mais forte. Se Kacchan estava disposto em contar um segredo ou dois, como ele negaria?
O loiro desviou o olhar e lhe entregou um halter.
— Só faça o que eu fizer, nerd.
— Sim!
Os dois passaram um tempo ali. Bakugo falava, Midoriya ouvia. Os dois concentrados na repetição dos movimentos. Por vezes o loiro corrigia o outro daquele jeito rude dele.
Midoriya em certo momento deixou sua mente divagar. Kacchan era tão incrível aos seus olhos que ele se sentia obrigado a questionar se tinha algum problema com sua cabeça. Por que... O normal seria ele ter mágoa do loiro por tudo o que tinha feito. Por que os dois, segundo o próprio Kacchan, não tinham nada em comum, apenas “atração”.
Midoriya sentiu toda sua empolgação diminuir como se tivessem jogado água fria em cima dele. Pensando em coisas que ele queria esquecer. Em coisas que faziam se perguntar sobre sua saúde mental e perceber suas inseguranças.
Por quê ele tinha tanta vontade em se aproximar de Kacchan? De qualquer forma possível? Era verdade que ele admirava Kacchan, mas uau... Ele precisava mesmo ficar pondo Kacchan num pedestal e pensar nele o tempo inteiro?
Por que ele ainda queria tentar alguma coisa se eles não tinham nada em comum?
Por que Kacchan estava dando atenção para ele? Se não fosse pelo One for All, Kacchan teria qualquer interesse nele?
Foi por isso que os dois se afastaram não foi? Porque Kacchan estava fazendo tudo sozinho e Midoriya não podia fazer nada.
“Eu tenho problemas. Sérios problemas. Eu teria que me afastar, é só o que eu precisaria fazer”.
Midoriya mordia o lábio, afundando em seus pensamentos. Ele estava quase chegando ao fundo quando foi puxado de volta pelo toque quente da mão de Kacchan. Seu ombro pareceu arder.
— Você está resmungando de novo.
Midoriya franziu a testa, tentando assimilar o que tinha dentro daqueles olhos. Era como se houvesse um mistério que ele não conseguia resolver. Midoriya nunca tinha conseguido dizer realmente o que se passava na cabeça de Kacchan e isso o deixava confuso.
“Eu não consigo me afastar”. Midoriya disse a si mesmo.
Como se fosse mágica, ele estava atraído pelo amigo de infância de um modo que ele não conseguia explicar, não importando o quão inteligente fosse. Alguns sentimentos simplesmente não podem ser explicados com lógica.
“Afinal, o que você quer? Você quer voltar com ele não quer?” A voz na cabeça de Midoriya falava ao mesmo tempo em que ele olhava o loiro. “Mesmo que seja temporário, você quer estar junto com ele de novo. Mas dessa vez você quer poder tomar decisões. Você não quer receber ordens.”
— Hnf. Está quase na hora de fazermos o almoço. — o loiro disse meio que para si mesmo e foi para se levantar.
“Você quer entender ele dessa vez. Se conectar de verdade. Ter prazer de verdade”.
O Bakugo coçava a cabeça enquanto começava a se dirigir para as escadas, falando algo sobre eles tomarem uma ducha antes de mexerem com comida. Porém, o esverdeado não o deixou ir longe.
Kacchan franziu o cenho profundamente ao sentir o Deku agarrando seu braço com a força animal que tinha. Era algo que Midoriya tinha feito antes, mas seu estômago rodava agora por causa da intenção que carregava.
Midoriya falou antes que perdesse sua chance:
— K-Kacchan... Nós nunca conversamos sobre... Nós.
Foi instantâneo, o loiro puxou seu braço, a face corando levemente.
— Kacchan.
— Pensei que não tínhamos nada para conversar. — o olhar do loiro era quase uma acusação. — Eu deixei bem claro o que queria. Você concordou. E depois não aconteceu mais nada. O que mais tem para conversar?
Midoriya não compreendia. A face de acusação de Kacchan doía porque fazia parecer que ele era o vilão ali.
— É simples, Deku. Eu não tenho nenhum remorso em relação àquele nosso “lance”.
— Kacchan, eu ainda sinto que deveria ter te explicado o porquê de eu te evitar depois de tudo.
O loiro levantou a sobrancelha. Ele claramente não estava com paciência para nada daquilo.
— Você acha que eu ligo para seus motivos? Eu já disse que aquilo foi só um “lance”. A gente não tinha nada, Deku. Esse era o ponto.
Assim ficava impossível de conversar. Midoriya passava a mão pela testa, tentando encontrar a paciência e as palavras certas.
Okay, Kacchan não ligava, Kacchan só tinha aceitado que ele não queria mais nada meses atrás. Ele só tinha aceitado. Quer dizer que não tinha significado nada? Mesmo? Pra valer? Como duas pessoas fazem o que eles fizeram com zero sentimentos? Por que sem dúvidas Midoriya saiu miserável daquela situação.
— Não consigo entender, Kacchan.
Midoriya sentiu como se um buraco estivesse abrindo em seu corpo. Mesmo Kacchan claramente o rejeitando, ele ainda não conseguia deixar por isso mesmo.
— Você é sempre assim. — Kacchan bufou, cruzando os braços. — Pensando coisas desnecessárias.
— Não-... — Midoriya hesitou, mordendo lábio. — Não é desnecessário. Kacchan sempre agia distante. Claramente você não queria estar comigo.
— Hah?! Eu disse alguma vez que não queria?
— Mas...
Midoriya sentia seus neurônios pifando. Então por quê?
“Por que você parou de me beijar?”
Deku não conseguia falar. A pergunta brincava em sua língua, mas ele simplesmente... Ele era inseguro demais nesse aspecto para perguntar. Ele já tinha recebido rejeição de diversas formas antes, mas agora... Agora era completamente diferente.
Ele queria aquilo de qualquer maneira. A falta que sentia de Kacchan estava matando ele.
“E se eu disser que quero voltar ao que era antes?”
A voz do esverdeado era um rachado em sua mente. Já que para Kacchan tanto fazia, então ele não perderia nada em tentar de novo. Pelo menos ele e Kacchan estariam saciando suas necessidades. Ele só precisaria tomar cuidado para não deixar seus sentimentos crescerem. Era só manter o controle.
Mas ainda assim ele não teve a iniciativa.
— Tem mais alguma para falar, Deku?
O sucessor do One for All balançou a cabeça negativamente, sem conseguir olhar nos olhos do Bakugo.
XXX
O preparo do almoço foi feito em silêncio. Como esperado.
Bakugo soube no instante que Deku começou aquela conversa que as coisas ficariam mais estranhas do que já estavam. Afinal, os dois tinham passado um longo tempo estranhos e tinham tido uma luta intensa. Bakugo ainda estava organizando seus sentimentos em relação ao Deku, mesmo nesse instante.
Agora, só porque ele tinha sido um pouquinho atencioso com o Deku, o cara queria magicamente falar sobre o “relacionamento” que tiveram?
“Vai se foder.” O loiro resmungou mentalmente. Ele não tinha feito nada errado. Ele era quem tinha levado um fora. Por que ele ainda precisava ouvir explicações? Ele já tinha deixado claro não tinha? Não-tinha-sentimentos-envolvidos. O próprio Deku foi se afastando depois de um tempo. Bakugo não poderia cobrar nada. Porque não tinha sentimentos envolvidos.
“Mas você ficou com raiva por que então?” Perguntou a voz traiçoeira em sua mente.
— TCH!
O Midoriya ao seu lado deu um sobressalto, assustado com a leve agressividade em que ele começou a lavar os pratos. No final, dessa vez o Bakugo decidiu ajudar com a tarefa.
Tirando aquilo, os dois não trocaram mais nenhuma palavra. Bakugo sentia o olhar do esverdeado e ele também, não conseguia evitar fitar o rapaz quando ele dava as costas.
Quando isso acontecia, a mente do loiro imediatamente retornava aos dias iniciais em que eles estavam ficando juntos. A primeira vez foi intensa, como um golpe de excitação, hormônios e muita energia. Ele também estava se aproveitando da situação, sabendo que poderia dar tudo de si e envolver o Deku. Foi de fato muito erótico.
Ele não sabia explicar muito bem. Durante seus namoros, as meninas eram muito bonitas e a aparência, assim como as carícias, o agradava muito. Mas ele nunca ultrapassou a linha com elas. E a verdade era que ele nunca havia tentado com um homem antes do Deku. Sinceramente, mesmo sendo um deku, ele desfrutou enormemente daqueles dias.
Okay, ele já sabia há um tempo que tinha atração por corpos masculinos. Kirishima? Era incrível. Ele não poderia nunca se descuidar com um cara desses como colega. Agora, Deku? Ele não era mau. Na verdade, gradualmente Bakugo começou a se sentir preocupado com o físico do nerd. Bons músculos, mas um olhar que conseguia tirá-lo de sua zona de conforto.
Muitas vezes, aquele olhar baixava sua guarda. E ele odiava, pois seu corpo respondia de uma forma que ele não podia controlar. Algo incontrolável assim era desnecessário.
— K-Kacchan? — o nerd o interrompeu, inclinando a cabeça na sua frente. Como sempre, ele tinha uma intuição irritante.
Bakugo agarrou aquela face e o afastou.
— Terminamos por aqui, Deku.
O loiro enxugou as mãos e conferiu o lugar uma última vez. Ele queria sair logo desse clima e estudar em seu quarto. Ficar sem aula já era um problema enorme, mas ele tinha diligência para tudo o que fazia. Agora era o momento de ele enfiar a cara nos livros e revisar tudo 4x mais.
O Midoriya ainda chamou sua atenção novamente.
Os olhos vermelhos o analisaram, parando no tempo de novo. A cara vermelha do Deku era... patética. Aqueles olhos enormes e covardes nessas horas o deixavam puto. Como alguém consegue ser tão- tão... fazer essa cara! Mas de repente mostrar um olhar tão intenso? Ele sempre foi um predador disfarçado de presa. Isso fazia seu corpo palpitar. Ele ficava fora de si!
— Kacchan...?
— Porra, Deku, essa é a única palavra que você sabe?! — o loiro coçou a cabeça nervosamente, o rosto quente e a irritação alta outra vez.
— Ah, é porque Kacchan não estava prestando atenção. Eu disse que estou levando o lixo para fora. É a última coisa para fazer. Então se puder pegar o seu e deixar no corredor... — o esverdeado sorria sem graça, coçando a bochecha.
— Uhm.
O loiro deu as costas e começou a subir as escadas. Mas sua mente ainda estava embaçada com a figura idiota do rapaz com aquela camisa que certamente não ressaltava o corpo que tinha e aquela cara toda amassada e cheia de curativos da briga – não que ele não estivesse também.
Bakugo franzia as sobrancelhas. Não era tão ruim assim ficar perto do Midoriya. Se o Deku quisesse, ele não negaria em tentar alguma coisa de novo... Mas ele não queria lidar com coisas complicadas se fosse o caso – hipoteticamente falando. No momento ele só queria sentir de novo aquela boca e aquele corpo embaixo de si. Sem complicações. Desfrutar daquele prazer que seu corpo exigia. Se o Deku quisesse, ele queria também, mas ele não queria lidar depois quando acabasse com aquele ressentimentos e aquelas desculpas.
Para o Bakugo, se alguém fosse para terminar com ele, por favor: fosse objetivo, rude e de preferência quebre o seu coração.
E acima de tudo: nunca mais apareça novamente como se importasse com ele!
Continua
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