Obstinado - Bakugou e Midoriya
1 01-03: Rude
Notas iniciais
...
—Você é um grosso e um idiota! Não quero mais te ver na minha frente!
O grito viera da garota mais corajosa que ele namorara no ensino fundamental, cujo nome ele não se preocupara em lembrar, uma vez que o namoro havia durado três dias. Grande feito para Bakugou Katsuki, o jovem explosivo de boca suja que era um sucesso na escola. E aquela garota, que foi sua última namorada dentre cinco, havia sido a única a falar tais coisas diretamente e, claro, ter dito a coisa mais óbvia, que todos já sabiam.
Ele, em resposta, não poderia ter sido mais gentil.
—Como se eu quisesse olhar para sua cara de merda, sua puta nojenta. Faça o favor e morra. –ele cuspiu com expressão alterada e com as mãos nos bolsos e literalmente cuspiu no chão. –Porca vadia.
A garota entrou em prantos e em profunda depressão depois disso. Bakugou jamais soube dela e não faria diferença mais, pois ele já não se importava em continuar com aquelas saídas ridículas, infrutíferas e nojentas.
Atualmente, ele estava frequentando a Academia de Heróis. Tudo o que importava era o poder supremo de suas explosões e o topo. Ser o Nº1; era isso que ele queria, que tinha anunciado e tinha se dedicado inteiramente nos últimos meses. Era o seu objetivo de vida.
Se não fosse o Deku.
O maldito Deku. Aquele filho da puta. Desgraçado. Bastardo. Nerd sem noção. Perdedor. Miserável. Fraco. Lamentável. Inferior. Verme rastejante. Vergonha de ser humano.
Valha-o de toda desgraça e azar que aquela cria do demônio exalava. Era uma ínfima bactéria, um ser microscópico ridículo que estava proliferando e não sabia se colocar em seu devido lugar.
Maldito ele era. Ah, se era. Exterminá-lo estava em sua curta lista de objetivos e, infelizmente, estava quase ultrapassando “ser o Nº1”. Aquele moleque fedido estava tomando seus pensamentos.
Bakugou agora se remexia na cama, incomodado com aquela situação. O sono não vinha. Os sonhos não vinham. Se vinha alguma coisa era a cabeça das pessoas que ele queria explodir.
E ele rangia os dentes, lembrando-se do Torneio. De como Deku havia enfrentado Todoroki, mesmo perdendo vergonhosamente – em sua opinião – e as palavras do cara de Gelo e Fogo na sala de espera.
Os dois concordavam que Deku era um maldito. Enfrentando ambos os estudantes mais fortes da Classe A, quem ele pensava que era? Com que direito ele fazia aquela cara de pena? Quem demônios ia querer a ajuda de um nerd como ele? Tão fraco e desprezível!
Aquelas cenas não saíam de sua mente. Elas dominavam, as cenas da luta, o modo que Deku o enfrentou quando defendeu sua amiga vadia, a tal da Uraraka. Com que peito ele podia falar com ele naquele tom?
Bakugou imaginou-se metendo um soco naquela boca grande e explodindo os dentes do vadio.
Ele revirou-se. Estava tudo quieto, porque quando ele estava dormindo todos se afastavam e o deixavam para ir dormir em outro quarto no dormitório.
O maldito Deku vivia com companhia. Ele lembrou-se da infância, quando era seguido por aqueles inúteis, mesmo que não precisasse deles. Sua testa franziu sem permissão e ele entendeu que não conseguiria recuperar o sono.
Por uns segundos ele respirou e fingiu bater em um João-Bobo com cara de perdedor – Deku – e recuperou sua concentração. As explosões mentais constantes o deixavam bem mais calmo.
—Hm. –resmungou, ouvindo a própria voz. Seu olho de sangue vibrando olhou para o relógio em cima do criado mudo. 3h, seu estômago roncou levemente e sua garganta pediu água.
Para os desinformados, o estourado Bakugou não fazia explosões do nada. Ele não contava isso para as pessoas, porque, obviamente, uma pequena informação como essa poderia revelar fraquezas aos inimigos. Ele botava as coisas nos ares por causa de suas glândulas de suor. Claro que, quanto mais calor e suor, mais estouros, fogo e destruição, além do suporte de seu uniforme. Mas, claro, ele poderia sofrer de desidratação facilmente em uma luta prolongada com um oponente muito resistente, ágil e ademais, inteligente.
No momento, ele sentia que devia ingerir um pouco d’água e se manter sempre preparado. Colocou-se de pé, e passando o antebraço sobre a boca, ele rosnou baixo. Era óbvio que ele se pegou pensando no motivo de estar com o suor descarregado... Ele se interessava em saber sempre porque estava, digamos “mais fraco”. Ele não era nenhum tolo para dizer “Eu sempre estou em minha melhor forma” mesmo não estando. Então, quando ele percebia que estava enfraquecendo, ele gostava de saber por quê.
E ele sabia. Era porque, durante todo aquele tempo, até agora, ele havia explodido tudo de raiva, atacado as pessoas em momentos de surto e sem motivo nenhum. Geralmente ele não teria perdido a noção assim. Ele deveria ser duro com xingamentos e razoável com explosões, pois quanto mais ele explodisse, mais suor gastaria, então o autocontrole era necessário.
“Por que eu pedi tanto suor em tão pouco tempo?” Bakugou andou em direção à porta. Iria de madrugada para a cozinha, sem permissão, porque ele estava pouco se fudendo para o Horário de Recolher – que impedia os alunos de andarem à noite – e pegar uns litros d’água para passar a noite acordado matando Deku incessantemente, pelo menos em sua cabeça.
Ao pôr os pés para fora, ouviu um som de clique. Seu olho esquerdo pegou de canto a segunda porta depois da sua abrir-se também. E ele franziu fortemente as sobrancelhas.
O corredor, que estava iluminado por uma luz fraca de uma lâmpada incandescente, o que dava um ar de cadeia à meia noite, além do ar frio das primeiras horas, fazia sombras que deixariam o Deku se cagando, Bakugou não tinha dúvidas. E depois, ele o esmagaria contra a parede e o faria jorrar sangue.
Bem... Ele olhava para a porta, esperando a vítima de seu mau-humor por causa da insônia.
Qual foi sua surpresa, ou satisfação, ao ver justamente o maldito Deku saindo! E, como em sua imaginação, o desprezível estava se tremendo todo, olhando para o fim do corredor e se encolhendo como um coelhinho, com medo do escuro. Seu sorriso malévolo abriu em seus lábios como pura mágica!
—K-Kacchan!
—Ora.
A palavra trouxe um sabor doce em sua boca e em sua língua seca. E o coelhinho indefeso quase soltou um grito de pavor quando virou a cabeça e ouviu sua voz.
Deku deu um passo para trás, com aqueles olhos mega-arregalados, mas por mais rápido que ele tivesse sido, Bakugou não o teria deixado escapar dessa vez. A mão pesada agarrou com facilidade a gola da camisa branca e puxou para fora. Com a esquerda, durante o gritinho de pavor do esverdeado, o garoto explosivo fechou a porta, depois arrastou com força o menor para o lado mais escuro, fazendo como planejado.
Assim que os olhos encontraram, Bakugou enfrentou a expressão das mais nojentas que ele havia visto. Aqueles olhos estavam trêmulos, as pernas bambas, os lábios pressionados, e os ombros tão tensos que quase se encostavam ao rosto. Era um completo franguinho. E Bakugou queria muito, muito assá-lo.
—O que ia fazer tão cedo fora do quarto, Deku? Eu vou matá-lo agora! –sentenciou, afiando seus olhos e apertando os punhos. Com a direita na gola e a esquerda fechada na altura do rosto. Bakugou era o perfeito valentão, mas sua expressão era de um assassino psicótico.
Morrendo de medo, o esverdeado manteve-se imóvel, mexendo a boca para dizer umas coisas e se livrar, mesmo sabendo que não ia escapar sem pelo menos um golpe na boca do estômago, como era de costume.
—E-Eu ia-,
—Morda sua língua na minha frente. –Bakugou agarrou-lhe o queixo, pressionando-o na parede fria ainda mais e coçando-se para bater impiedosamente no atrevido.
Os olhos verdes fixaram-se e ele ficou quieto. O garoto de cabelo verde sentia toda a pressão do momento, e sabia que era apenas uma cena normal do seu cotidiano. O silêncio o permitiu pensar e tentar compreender porque em vez de acabar consigo logo, o albino preferia ficar atormentando-o e depois soltá-lo, com ameaças.
Bakugou, em seu momento de raiva e descontrole, conseguiu se lembrar dos momentos anteriores, de suas reflexões. Por causa daquela cara, daquela face que o encarava esperando alguma coisa, ele estava enfraquecendo.
Não. Ele nunca diria, como queria: “Deku, a culpa é toda sua, eu vou te arrebentar por isso!”.
Seus dedos então foram soltando a gola, e ele captou os pés do esverdeado tocando o chão; parecia que ele estava levantando o garoto sem perceber. Deku piscou, parecendo confuso, e abriu a boca, querendo dizer alguma coisa. Olhar de estranheza nas íris cor de lima, que era muito parecido com o olhar de compaixão que Bakugou odiava.
—UGH! –Deku grunhiu, perdendo todo o ar quando recebeu um forte soco, antes de poder dizer qualquer coisa. E caiu sobre seus joelhos, agarrando o estômago e com lágrimas nos cantos dos olhos. Dessa vez o maior não tinha tido nenhuma noção de força mesmo.
—Nunca mais olhe para mim desse jeito, seu imprestável. –Bakugou pronunciou em um murmuro sombrio, que soou ainda mais assustador naquele ambiente escuro e frio. Ele deu meia volta, quase se esquecendo de que, inicialmente, ele queria beber água. Retomou seu caminho e tentou esquecer Deku, mas não conseguiu.
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Kacchan tinha sumido do outro lado do corredor, indo para algum lugar que ele não sabia.
Midoriya permaneceu alguns instantes sem levantar nem a cabeça. Estava encolhido no chão, recuperando-se daquela dor que o fazia querer vomitar.
“Por que ele tem que ser tão cruel...? Dessa vez ele acabou com meu estômago...” O garoto lamentava consigo mesmo, massageando seu corpo para uma recuperação mais rápida. Se algum monitor o pegasse ali, além de puni-lo por estar fora do quarto, iria zombar dele por estar naquela situação vergonhosa.
—A-Ai... Droga... –Midoriya sussurrou seu sofrimento e depois foi tentando se levantar, feito que ele conseguiu até bem rápido, considerando que uma pessoa normal teria desmaiado por horas com tal golpe.
Que bela droga. Ele só ia sair para pegar água, porque os outros tinham ido para o seu quarto e óbvio, bebido todo seu estoque de água mineral. E a culpa era de quem? De Kacchan, porque na verdade os caras estavam fugindo dele, com medo de perderem o cabelo em uma explosão de impaciência.
Mas de que adiantava lamentar? Midoriya tinha consciência do quão azarado era, especialmente nos últimos dias. O estourado estava sendo dez vezes mais violento do que o costume e toda vez que ele abria a boca, Kacchan atacava, e o feria. Ao que parecia, ele já não suportava ouvir sua voz.
Não era novidade o motivo disso. Midoriya sentia sua evolução de força, sua rigidez de personalidade. Ele respondia o rival, ele falava honestamente. Ele podia dizer que dava bons argumentos. Isso enfurecia Kacchan de uma maneira preocupante. Isso ele entendia, ele era muito observado e preocupado, mesmo com a barbaridade em pessoa. Kacchan não queria ser entendido e nem tocado por palavras. Ele tinha um medo inconsciente de aceitar a compaixão, a ajuda, a honestidade. Tudo o que era bom, Kacchan queria negar, por causa de seu orgulho incalculável. Ele sim era lamentável, Kacchan.
Midoriya se pegava pensando nessas coisas ultimamente, e sentia essa piedade que brotava em seu coração com tanta força, que ele sentia a dor que o garoto bombardeador não sentia, ou ignorava.
Seu One for All, ele queria usá-lo pelo bem do albino também. Mas antes de tudo, Kacchan precisava ouvi-lo, mesmo que não quisesse. Contudo, ele não estava sendo permitido a falar. Kacchan o havia pegado de jeito.
Finalmente de pé, o discípulo do All Might encaminhou-se de volta para seu quarto. Antes passar a madrugada parecendo um lagarto, e esperar a saída do Sol, do que deparar-se de novo com o albino e ganhar um buraco na barriga.
Ao fechar a porta atrás de si ele reencontrou seus companheiros todos amontoados. Em cada quarto ficavam quatro, então, pela soma, agora tinham oito. E ele não estava contando alguns invasores que pensaram que estava tendo algum tipo de festa do pijama.
Nada dizia que era contra as regras dormir em outro quarto. Mas constava no acordo que o barulho não devia chegar no corredor. Eles estavam lidando bem com isso, já que o maior barulhento sempre era Kacchan, e ele odiava estar presente com os colegas.
—Hnf... –o esverdeado suspirou, mexendo na barriga outra vez e indo em direção à sua cama. Deitando-se sem demora e cobrindo-se. O tempo que havia gastado do lado de fora tinha sido suficiente para esfriar aquele ninho de aconchego. Uma porcaria. Além de dor, frio e perda de sono, e sede. “Ótima ideia, Deku... Sair esse horário.” Ele discutiu consigo, fazendo um beiço de raiva. Ele mal acreditava no azar que tinha. Ele era um ímã da ira de Bakugou Katsuki! E ele não havia feito nada para ter sido odiado dessa forma. Além de tudo, por que o Kacchan estava acordado também? Ele devia ter um sono de leão, como era de costume antigamente, mas para estar acordado naquela hora... Midoriya se perguntava o que teria acontecido.
“De certo um motivo parecido com o meu. Não há porque ele se preocupar com as coisas. Ele se considera tão forte e superior, então não devia estar gastando o cérebro além de explodir coisas... Ou explodir eu só.” Pensando nisso o jovem Midoriya teve que lamentar seu destino terrível como saco de pancadas do rival.
Sua cabeça afundou-se no travesseiro, suas pernas encolheram buscando calor.
“Eu estava com medo. Mesmo não precisando estar... Eu sei o que ele vai fazer, sempre.” Midoriya pressionou os lábios. Sem querer, ali estava ele divagando novamente sobre Kacchan. Sempre era Kacchan dominando seus pensamentos. Sua figura era tão dominante em sua mente e ainda mais na vida real, que ele não tinha tantas reações. Era normal se sentir subjugado quando não era sobre “ser o Nº1”. Quando Kacchan simplesmente aparecia xingando era uma situação, e quando Kacchan vinha jogando sua superioridade arrogante com “Eu vou ser o maior”, aí Midoriya não conseguia se calar.
“Estranho não? Por que eu deixo ele agir assim comigo e fico tão nervoso quando ele olha como se fosse me torturar? E eu me sinto tão destemido quando estamos discutindo nossos sonhos?” Midoriya abraçou a colcha, ficando com a mente escurecida. Em sua memória, Kacchan e ele eram inofensivos, igualmente. Quando ele caiu do tronco da árvore, ele só agiu de forma natural – sua mãe havia lhe ensinado a ser assim –, mas Kaachan depois disso apenas o desprezou mais.
Nesses dias, ainda mais, podia ver como o albino estava rejeitando todos, agindo descontroladamente, destruindo paredes e xingando todos, até as meninas de forma terrível. Ele estava sendo extremamente bárbaro, e os colegas resolveram afastar-se ao máximo e não provocá-lo ainda mais. Midoriya havia tomado a mesma medida, mas mantido seus olhos atentos.
Não podendo deixar de se incomodar com a ideia de que depois do torneio Kacchan estava perturbado com o resultado, e zangado pelas coisas que viu e que falou com Todoroki, Midoriya o assistiu, cuidadosamente. Mas era tão inacessível que ele só se imaginava apanhando quando tentasse ajudar. Essa era tanto sua previsão como a sua realidade.
Kacchan não tinha jeito, e talvez fosse incompreensível. No entanto, definitivamente mexia com sua cabeça.
“De algum modo...” Midoriya não percebeu quando a sonolência o deixou bêbedo e ele estava adormecendo completamente. “Kacchan é bastante... Inocente...”.
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Ambos os rapazes foram se reencontrar quando era horário de almoço. Durante a manhã, pelas 7h, Aizawa-sensei (Eraserhead) tinha tirado todos da cama para uma nova simulação, mas não havia encontrado Bakugou em canto algum.
Midoriya fez que não sabia do paradeiro do garoto explosivo, contrariado por sua preocupação ingênua, de Kaachan estar metido em problemas, e também porque ele não queria se queimar, denunciando-se como um infrator. Ele apenas omitiu a verdade e disse que o havia visto quando fora dormir. Não era realmente mentira era?
Foi quando o almoço foi servido que o esverdeado viu entrar pela porta de incêndio o mal-encarado. Ele não tinha a expressão muito irritada, então ele estava “calculista”. Desde que ele começasse a conversar, logo ele voltaria a xingar e a ser o convencido narcisista que aparentava ser.
Ele foi se sentar longe, e deu apenas um olhar ao grupo, composto por si, Uraraka, Iida, Asui e Tokoyami. Os outros ainda estavam se servindo e também só puderam olhar na direção de Bakugou, dispensando cochichos e continuando o que estavam fazendo. Na verdade, ninguém se importava se ele estava matando aula ou não, ou sequer tinha se metido em problemas. Ele era excepcionalmente forte.
Contudo, durante a refeição, distraindo-se da conversa, Midoriya se encontrou olhando para o vencedor do torneio inúmeras vezes até que, sentindo o olhar, Bakugou o encarou de volta, com uma leve expressão de advertência. O esverdeado engoliu a saliva e tentou não demonstrar interesse depois disso.
A partir de então, os dois não estavam dirigindo mais a palavra um ao outro, nenhuma única palavra. Às vezes o esverdeado queria gritar quando o outro aparecia de repente, mas tudo o que recebia era uma torcida de nariz e uma cuspida lateral dos lábios, que faziam o albino parecer muito com um gangster dos livros. O silêncio prevalecia e os deixava pensativos.
A fase era difícil para Bakugou, que ainda não aceitava sua posição atual. Mas ele não podia fazer nada além de culpar Deku e continuar com suas discussões internas sobre a melhor forma de vingança, incluindo o fato imperdoável de o nerd ter escolhido seu nome de herói como “Deku”, mas mudando o significado original. Ser desafiado por um perdedor o deixava puto.
Ainda assim, com toda essa raiva contida, ele estava intrigado. Esse era o motivo do seu afastamento dos colegas.
Sua curiosidade, que na verdade era apenas como uma espécie de confirmação, partiu do ponto em que Deku começou a falar com seus “amiguinhos”. Bakugou cuidou para que ninguém percebesse seu “interesse” e manteve seus sentidos apurados. O que queria ver era o que os outros viam em Deku para ser tão bem considerado. O que via não era diferente do que ele imaginava: um babão que falava coisas bonitas, apoiava tudo, encolhia o corpo numa decisão e tremia-se todo por qualquer motivo. O pior de tudo era sua mudança de expressão e postura quando o assunto era “ajudar os outros”. Aquilo provocava uma fúria no albino que ele não podia descrever; aquelas faces.
Já era noite e Bakugou não conseguia dormir novamente. As palavras e o olhar, batendo em seu rosto como se tentando acordá-lo para uma realidade desconhecida, não sumiam. Se antes ele estava paranoico com Deku, agora ele definitivamente estava tendo alucinações.
—Suma. –resmungou para a imagem do nerd que sorria bobamente. O ambiente estava afundado na escuridão e no silêncio, Bakugou não ouvia, não via. Era atormentador.
O esverdeado insistiu em ficar ali e ainda mais, dar-lhe um sorriso.
—Morra nerd filho da puta! –Bakugou agarrou seu travesseiro e o socou na cama, ficando de joelhos. E Deku lhe disse “Kacchan, eu gostava de te seguir, porque eu sempre te admirei! Mas agora eu vou trilhar meu caminho com meus passos, sem cair da árvore e vou te ultrapassar!”.
Os olhos rubis incendiaram-se e os punhos do garoto também, que se levantaram descontrolados. As batidas machucavam seu peito e seu grito ressoava em uma distância que não se preocupou em medir.
—DEKUUU!!!!! –seu grito de ira vibrou as paredes e seus punhos exalaram fumaça preta, e a luz clara da explosão, além do som atordoante, ocuparam o cenário seguinte, em cinzas, penas de seu travesseiro caindo lentamente e fumaça de queimado parada na atmosfera do cômodo.
Bakugou rangeu os dentes, percebendo que nem aquilo aplacaria sua raiva e, para piorar tudo, uma luz de lanterna iluminou suas costas, então o sentiu.
—K-Kacchan...! V-Você está bem? Houve uma explosão! E você gritou meu nome!
O garoto veio correndo, tentando acender as luzes, o que foi em vão. Bakugou bruscamente lançou sua mão em direção à voz, se surpreendendo inicialmente pela rapidez que o nerd havia chegado onde estava, e agarrando-o pelo braço com força bruta.
—A-AH! Kacchan! –o esverdeado exclamou, de susto, e em seguida de dor, de forma sôfrega.
O garoto explosivo grunhiu audivelmente e com um estalo várias luzes começaram a piscar de seus dedos, como minúsculos fogos de artifícios que estouravam e se consumiam no ar, e a constante desses estouros permitiu os dois garotos se verem. Bakugou estreitou seus olhos, entrando em um estado silencioso, mas profundamente irado. Se ele era assustador gritando, quando estava quieto, aí sim, ele estava a um dedo de matar, definitivamente.
Engolindo em seco, o menor puxou um pouco seu braço, percebendo o perigo que estava correndo ali, mas antes que pudesse começar a se afastar, seus olhos, gordos e inocentes, captaram um detalhe no rosto do albino.
—Kacchan, uma cinza na sua bochecha... –ele disse sem pensar, com sua voz tranquila, em seu tom mais natural. Midoriya nunca pensou que alguém pudesse se irritar com ele sendo normal, já que o contrário era mais possível. Só que Kacchan não estava dentro dos limites de possível; veja bem, agora havia uma cinza quente chamuscando o rosto dele e mesmo assim ele não movia um milímetro de seus músculos.
Bakugou olhava nos fundos das íris turmalinas. Deku parecia ter enfim escolhido sua data e hora de óbito, e ele estava finalmente bem próximo de se livrar de todos os problemas que aquele maldito representava. Chega de bondade. Chega de compaixão. Convencendo-se, seu aperto fez-se forte na gola e os estouros pacíficos de sua mão esquerda aumentaram, assim como seu sorriso, que foi se abrindo sem ter se dado conta. Assim que seu punho se levantou e ele já sentia o gosto de carne de Deku queimando e despedaçando, uma sensação morna e externa tocou sua bochecha direita. Sensação que, o fez perder a vontade de continuar.
—Kacchan, precisamos sair daqui, você está feri- Cof, cof! A fumaça-!
Midoriya se remexeu e, sem reação, Bakugou piscou. Não só estava tudo preto de escuridão, mas de cinzas, a porta aberta fazia o ar circular, mas não era o suficiente. O de olhos vermelhos então foi se perguntar qual tinha sido realmente a extensão daquele último estouro, porque sua intenção era tirar o Deku da cabeça e aparentemente ele só tinha explodido o travesseiro! O que estava acontecendo? Ele não soube até estar sendo levado por Deku para fora do quarto às pressas, e então ele sentiu ardência, no rosto, na garganta, nos olhos, em tudo. Ele havia atingido a si próprio e tudo em volta. O quarto estava destruído e não só seu travesseiro.
“Não! Eu não estou ficando doido!” Bakugou empurrou com violência Deku para longe de si. “Eu não perdi o controle assim! É MENTIRA!” Rangeu os dentes e rosnou.
Midoriya assistia a fúria incontida do colega e, apesar de ouvir os passos vindos em direção a eles, ele não deu nenhum olhar a ninguém. Ele ficou focado no albino, completamente, tentando entender como havia chegado aquele resultado.
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All Might estava em silêncio inabitual quando saiu da enfermaria.
A Garota da Cura só permitira que o herói dos heróis entrasse ao trazer o jovem Bakugou, que, incontrolável, debatia-se e tentava esgueirar-se de todas as formas para, ao que parecia, “torrar o nerd maldito”. Por causa disso ela achou melhor manter possíveis alvos fora de área, afirmando que ela poderia lidar sozinha com o garoto, mas deixaria All Might acalmá-lo.
No espaço que servia de sala de espera, composto por dois sofás frente ao outro, abaixo da grande vidraça que permitia a passagem dos raios solares, Midoriya estava de braços cruzados, encostado e de mau-jeito, descansando a cabeça no ombro em sono leve.
O herói, que assumiu sua forma natural para descansar um pouco mais pensou em deixar o discípulo descansar mais um pouco e depois tirar as próprias conclusões. O máximo que fez foi cobri-lo com um agasalho que a enfermeira lhe dera.
“O garoto está aí desde a hora que veio correndo atrás de vocês, All Might. Por pouco ele não consegue entrar aqui. Por que não sei, mas Aizawa conseguiu fazê-lo esperar pelo menos. Me pergunto porque ele está tão preocupado com uma pessoa que tentou mata-lo de verdade.” Foi o que a curandeira disse com uma expressão entediada, lhe apontando o dedo como se fosse o culpado da história.
All Might ficou com o comentário na mente. Olhando o esverdeado se dedicando por uma pessoa como o jovem Bakugou dessa forma, ele não poderia estar menos impressionado. Midoriya era um ótimo menino.
Enquanto isso, na sala de aula, Kirishima entrava com os olhos procurando algo.
—Onde está o Bomberman? –indagou ele assim que concluiu que não encontrara o que queria, levantando a sobrancelha. A classe olhou para ele quase como se perguntando que diabos ele estivera fazendo durante a noite que não ouviu a explosão. Antes que Tsuyu se inclinasse a responder, o ruivo estralou. –E o Deku?!
A questão era interessante. Toda a Classe 1-A sabia que Bakugou tinha perdido a cabeça, mas tudo o que eles puderam ver foi o quarto em cinzas e os companheiros de quarto do albino lamentarem as perdas materiais. Sem dúvida dera PT ali. Mas enfim, Midoriya não tinha sido visto em momento algum, desde quando foram dormir até aquele instante.
Com a demora costumeira, Aizawa-sensei entrou na sala com seu corpo quase totalmente recuperado e terminou o assunto. Naquele dia eles fariam prova.
—E Midoriya e Bakugou vão tirar zero, não importa a desculpa que eles vão dar. Lembrem-se disso.
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Os olhos grandes abriram-se sonolentos. Automaticamente uma leve dor no corpo o fez assimilar o que tinha acontecido e onde estava agora. Midoriya afastou o casaco de cima do corpo e coçou os olhos, se espreguiçando.
“Ah, é mesmo. Kaachan pirou ontem.” O garoto estendeu com força os braços, analisando o ambiente e tentando identificar algum som. Ninguém estava por perto.
Se levantando e ajeitando as roupas, seguiu para a porta que levaria à sala de atendimento da Garota da Cura. O tempo estava relativamente quente, a brisa fresca, como não estivera já há alguns dias. Ele coçou a nuca, se perguntando que raio devia falar ao albino quando o encarasse, no entanto, ele sentia que devia fazê-lo, especialmente depois do ocorrido.
—Ojamashimasu. –disse em voz baixa, afastando a porta enquanto adentrava num espaço completamente vazio.
Franzindo o nariz, o esverdeado foi em direção à outra porta, a que ele sabia onde ficava a sala de repouso, e entrou.
Midoriya tomou cuidado para não fazer nenhum som alto. Se Kacchan estivesse dormindo e ele o acordasse, não importava se ele estava calmo ou furioso, ele bateria em si de qualquer forma. Então ele viu, a maca onde o garoto explosivo estava deitado.
Com passos surdos, Midoriya se aproximou, conferindo ser seguro. Bakugou não tinha nenhum ferimento muito sério, e o tratamento da curandeira tinha funcionado de forma impecável. Ele estava com os olhos fechados e a expressão serena, bem diferente do que se esperava dele.
“Ufa... Parece que fisicamente ele está bem.” Midoriya deixou um sorriso escapar e puxou uma cadeira próxima para o lado da cama. Ele queria falar de novo para Kacchan. “Porque ele estava chamando o meu nome como se estivesse pedindo ajuda.” O garoto podia se lembrar claramente. Estava passando pelo corredor, voltando do toalete quando ouviu um estrondo e um chamado sôfrego. Foi chocante a forma que a voz de Kacchan tinha ficado trêmula e ainda mais chocante a extensão de seu grito. Ele não podia ter feito outra coisa além de entrar e enquanto tudo aquilo foi acontecendo, no momento em que Kacchan iluminou suas faces, ele tinha visto as órbitas cor de sangue tremerem e pequenas lágrimas se formarem nos cantos.
Midoriya, se lembrando disso, sentiu um aperto dolorido em seu peito, olhando o rosto do outro encamado. Havia sofrimento ali, por mais que Kacchan não pudesse compreender.
Passaram-se pelo menos dois minutos que ele ficou esperando ali. Ninguém aparecia, e Bakugou não dava sinais de que acordaria logo. Engano seu. O albino de alguma forma pode ter sentido seu cheiro, ou percebeu seus movimentos ou unicamente sua presença, e levantou-se de supetão, com a testa franzida.
Primeiro, Bakugou respirou ar como se o tivesse perdido. Depois ele se voltou para Midoriya.
—O que você está fazendo aqui, nerd bastardo? –rosnou como um leão. Ele rapidamente levou o olhar para o próprio corpo, vendo que estava num daqueles trajes de paciente, de verde morto e monótono.
Midoriya abaixou o olhar, não muito intimidado, no mínimo se sentindo desconfortável com o tom de desprezo controlado.
—Responda. –Bakugou ordenou, tentado a continuar o que estava fazendo, mas ao que parecia, ele tinha tido literalmente feito um ato de homem-bomba, por isso ainda estava confuso. Inesperadamente ele havia ferido a si mesmo, e em nenhum momento havia ferido Deku, mesmo querendo.
—Você... Bem. Eu fiquei-,
O olhar mortal de Bakugou o atingiu com tal força que Midoriya recuou intimamente. Essa era sua resposta mais sincera, então porque ele estava zangado?
—Deku, você é o inútil mais insuportável que eu conheço. E eu não preciso da ajuda de ninguém, então não se atreva a me desafiar outra vez. –Bakugou avisou com tom de escárnio.
Ele não estava brincando, mas por que então ele tinha aquela expressão? Ele estava confuso, irritado e, Midoriya sabia, com medo de continuar não sabendo.
“O que eu faço?...” O esverdeado inspirou ar. Enfrentar Kaachan era uma das tarefas mais difíceis que ele impunha a si mesmo, mas mesmo tendo sofrido em suas mãos, Midoriya não culpava Kaachan e, provavelmente, era o único capaz de suportá-lo.
—A culpa foi minha? –indagou, o suor frio escorrendo-lhe a face. Seus punhos fecharam.
Surpreso, Bakugou o fitou por instantes. Sim, era óbvio não?
—E por que não seria sua? Quem é o idiota que entrou no meu caminho todo esse tempo?! –Bakugou socou a coberta, sentindo toda sua temperatura corporal elevar.
Encolhendo, Midoriya pensou. Sua presença era assim tão perigosa para Kacchan? Ou pior... Kacchan o odiava esse tanto? Ele estava absolutamente descontrolado durante o acidente, estava sofrendo, e ia mata-lo. Embora isso fosse verdade, Midoriya sentia que no fundo era apenas que Kacchan sentia medo e realmente não entendia, e por isso ele estava tão perdido.
—Desculpe.
—CALADO. –cuspiu irritado. –Não quero ouvir sua voz. Suma. Também não quero olhar para sua cara... E nem sentir seu cheiro de perdedor.
Bakugou cruzou os braços. Suas mãos estavam enfaixadas, seu rosto estava coberto de band-aids.
—Mas você me chamou... –Midoriya sussurrou, fechando fortemente os olhos, sentindo todas suas células nervosas trabalharem. Seu suor era visível e ele estava tanto com medo quanto com preocupação. Essa última não o deixava relaxar nenhum segundo!
Os lábios do discípulo de All Might tremeram com força.
A forma como os dentes do albino rangeram fizeram o esverdeado engolir seco, mas ele não atacou. Midoriya abriu os olhos para vê-lo com o rosto contorcido, os olhos perigosamente brilhantes, mas com os lábios pressionados e sua testa franzida. Era óbvio que ele não estava convencido do que acontecera.
—Kacchan, eu nunca te subestimei. Você sabe disso não é? –Midoriya encolheu os ombros, no entanto sua voz tinha força.
Bakugou estalou.
—Cale a boca, Deku! –Bakugou mandou com entonação. E seus dedos agarraram a camisa do menor, sem perceber, puxando-o metade do corpo para cima da maca.
O garoto balançou as mãos, gaguejando e sem saber o que fazer. Tal agitação entediou o albino, que bufou alto.
—Apenas vá embora. –disse e o soltou com rudeza. Tinha perdido a vontade. Simples assim.
Levantando uma sobrancelha, Midoriya piscou.
—Kacc-
—TCH! SEU NERD DE MERDA, EU VOU EXPLODIR SUA CARA OUVIU?! SAIA DAQUI!
O esverdeado voou para fora da sala em um segundo. Já não havia como conversar com Kacchan. Suas veias estavam saltando na testa e ele claramente odiava não ser obedecido. Bem, não havia o que fazer além de sair.
“Ainda assim, isso que ele sente vai continuar consumindo, só que ele nunca vai admitir...”.
Os olhos turmalinas brilharam fortes ao passo que ele sentava-se novamente na sala de espera, porém, ao lado da janela, assistindo o jardim da Yuuei ser banhada pela luz do Sol.
“Acho... Que vai ter que ser eu a dizer. Já que no fim ainda não deixei de considerá-lo meu amigo.”
Continua
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