Obsesso
49 48. Sentimentos esquecidos
Notas iniciais
Sasuke encarou Naruto sem realmente vê-lo. Aquilo não podia ser real. Virou-se de costas, confuso e irritado. Não podia ser verdade. Naruto não podia… a porcaria da cirurgia nem fora no cérebro dele, como o desgraçado podia ter perdido a memória?!
“Não, não, não, não… Não!”.
Naruto não podia perder a memória depois de tudo o que haviam passado.
— Hey, Sasuke!
O Uchiha levantou a mão, mandando-o esperar. Precisava raciocinar, precisava pensar. Como lidaria com aquela situação? O que faria com um Naruto desmemoriado?! Não, não podia. Como contaria a ele que estavam transando loucamente há duas semanas? Não havia como fazer isso, era simplesmente impossível.
E como explicar que ele havia se declarado?
“Oi, eu sou Sasuke, o cara que você ama”.
Não, não parecia ser uma boa forma de se apresentar.
— Teme! – chamou Naruto de novo.
Sasuke o ignorou. Não podia simplesmente… parou. Virou-se devagar, confuso. Naruto chamara-o pelo nome, não? E pelo apelido também.
— Finalmente! – reclamou o loiro. – Era pra você ter entrado em pânico e começado a gritar, não se fechado desse jeito. Não sabe nem brincar.
Um bico extremamente irritante se formou nos lábios de Naruto, que só não cruzou os braços por não conseguir mexê-los direito. Sasuke o encarou sem demonstrar qualquer tipo de emoção por dois segundos, e então uma veia apareceu em sua testa.
— Teme, cê tá ficando vermelho…
Sasuke aproximou-se um passo. Naruto tentou recuar, mas não conseguiu. Uma aura negra envolvia o corpo dele.
— Sasuke, cê tá me assustando…
— BOM MESMO! Idiota! Se você não tivesse deitado nessa cama, todo estropiado, eu juro que te espancava muito. Isso lá é brincadeira que se faça, Naruto?!
O Uzumaki começou a rir como um bobo. Sasuke perdeu sua pose ameaçadora e piscou duas vezes, confuso. Do que diabos aquele loiro estava rindo?!
— Acho que você bateu com a cabeça quando caiu.
— Você se preocupou. Depois não sente nada, né, teme?
Sasuke revirou os olhos e apoiou-se na parede ao lado da cama.
— Você é meu amigo, como já frisou mais de uma vez. Se perdesse a memória, não seríamos mais amigos.
O Uchiha deu de ombros. Naruto precisava contorcer-se todo para conseguir olhá-lo.
— Sasuke, vem mais pra cá. Não consigo te ver aí.
O Uchiha revirou os olhos e sentou-se na poltrona ao lado da cama. Agora Naruto conseguia vê-lo melhor. O Uzumaki sorriu para ele. Aquele sorriso que Sasuke amava. O que ele começava a pensar que ninguém mais deveria ver.
— Obrigado por ter ficado aqui comigo.
Sasuke deu de ombros e apoiou-se para trás.
— Você levou um tiro por ter se envolvido em toda a merda pela qual eu tava passando. Era o mínimo.
Naruto sorriu mesmo assim. Era bom ter Sasuke ali.
— E Aya e Naoto?
— Tão com Gaara hoje. Eles ficaram o dia inteiro aqui com você.
Aquilo aqueceu o peito do loiro de um jeito que nem ele achava que podia ser aquecido. A porta se abriu e Tsunade entrou.
— Você acordou!
— Olá, baa-chan!
Naruto abriu seu melhor sorriso e Tsunade não pôde deixar de retribuir ao gesto. A mulher aproximou-se rápido, mas não acariciou os cabelos loiros. Apenas deu um tapa leve na testa dele.
— Isso é por me deixar preocupada, idiota.
Naruto esfregou a testa, mas riu. Era bom estar com eles.
— Fala aí, baa-chan. Quando eu vou poder sair desse lugar?
Tsunade começou a analisar o prontuário que estava ao pé da cama dele. Olhou também para as máquinas e fez algumas anotações.
— Mais uns dois dias aqui e eu até podia te liberar, mas eu estou de plantão essa semana. Você fica aqui até esses pontos saírem.
— AAAH! Eu odeio hospitais, você sabe disso! Por que não posso sair daqui logo?
— Porque você mora naquele muquifo apertado e você não deve ficar se mexendo muito. A menos que Kiba tire uma semana pra cuidar de você, o que eu duvido que ele vá fazer, eu não te deixo sair daqui. Quer abrir os pontos, moleque? Não, você fica até poder se mexer sem que eu entre em desespero.
Naruto emburrou e encheu as bochechas de ar.
— Eu posso me virar, ok?
— Não, não pode. Quero repouso absoluto pra você, mocinho.
Ela estava irredutível. Naruto começou a choramingar, reclamando sobre a injustiça, sobre ela não ter o direito de mantê-lo ali forçadamente. Sasuke observou-o e, pela milésima vez, comparou-o a uma criança. Naruto era tão… infantil. Puro, talvez. Talvez viesse a se arrepender do que estava prestes a fazer, porém Aya e Naoto jamais o perdoariam se não o fizesse.
— Ele pode ficar lá em casa. Compramos uma nova hoje e tem um quarto de hóspedes.
Silêncio.
Tsunade e Naruto encaram-no com a mesma expressão assustada.
Mais silêncio.
E então Naruto explodiu em uma gargalhada.
— Sabia que você me amava, teme!
— Cala a boca, idiota.
Naruto continuou rindo e mandou um beijinho para ele, falsamente emocionado. Tsunade continuava a encarar os dois como se não estivesse vendo aquilo.
Ela conhecera um Sasuke que Naruto não chegara a conhecer. Desde o momento em que os dois começaram a se aproximar, Sasuke era mais expressivo com ele. Mas ela o vira aparecer para remover uma bala da perna sem deixar uma lágrima escorrer. Ela vira Sasuke e Itachi passarem pelo inferno em algumas investigações e, apesar de Itachi muitas vezes ter sido empolgado ou depressivo, Sasuke nunca tirara a expressão de indiferença do rosto. Ela o via como um homem morto que continuava se mexendo.
Mas agora não. Ele não saíra do quarto de Naruto – a não ser para ir escolher a tal casa de que falara –, não deixara os sobrinhos desamparados… Até mesmo o vira beijando a cabeça de Aya! Aquele homem que se oferecia para cuidar de seu neto em nada parecia com o delegado que ela conhecia.
— Será trabalhoso, Uchiha. Além disso, Naruto precisaria de cuidados especiais. Você tem seu trabalho na delegacia.
— Posso fazer isso em casa, não tem problema. Estive trabalhando em casa esse tempo todo mesmo.
Sasuke conferiu seu relógio. Eram quase quatro horas da manhã.
— Além disso, já é domingo. Uma semana cuidando desse imbecil não vai fazer mal nenhum.
— Hey, não ofende, babaca!
Sasuke apenas sorriu de lado. Tsunade ainda estava meio desconfiada. Pelo que conhecia do Uchiha, ele não era de simplesmente deixar a delegacia aos cuidados de outro para servir de enfermeiro.
— Sério, Sasuke, não vou incomodar? – Naruto perguntou.
O Uchiha deu de ombros.
— Eu não me incomodo. Seria até melhor. Aya e Naoto me fariam trazê-los aqui todo maldito dia, e isso sim seria incômodo.
Naruto sorriu mais. A certeza de que Sasuke não o afastaria de seus pequeninos como Emi fizera instalava-se sempre mais em seu peito, e era um sentimento realmente muito bom.
— Então tudo bem – Tsunade acabou dizendo por fim.
–-//--//--//--//--//
Sasuke deixou Aya e Naoto com Gaara no hospital e finalmente foi tomar um banho no hotel. A corretora dissera-lhe que poderiam ocupar a casa já na segunda-feira, o que era um alívio bem grande. Fazia bastante tempo desde que morara em uma casa, estava acostumado à vida nos apartamentos, mas a ideia de morar sem vizinhos a uma parede de distância o agradava.
Não que alguma vez tivesse tido problema com vizinhos, porém casas pareciam mais particulares. Também eram um pouco mais perigosas, por não terem guardas ou porteiros, mas Sasuke não se preocupava muito com isso. Desde que tivesse uma arma debaixo de seu travesseiro e um bom sistema de alarme, esses detalhes não lhe preocupavam.
Banhou-se e caiu na cama, exausto. Podia dormir por quinze horas devido ao cansaço que sentia. Desde que Naruto dera baixa no hospital não conseguia dormir direito. Não que estivesse assim tão preocupado com o loiro, mas Aya e Naoto estavam, então… a quem queria enganar? Estava sim preocupado com Naruto.
Alguém bateu na porta. Sasuke quis jogar a tal pessoa pela janela, porém se controlou. Com um suspiro contido, caminhou arrastando os pés pelo quarto e abriu a porta. Uma cabeleira loira e olhos extremamente azuis o esperavam.
— O que foi, Ino?
A mulher passou por ele e entrou. Sasuke suspirou, mas acabou seguindo-a para dentro. A loira parara no meio da sala com os braços cruzados.
— Fiquei sabendo que vai cuidar do Naruto.
Sasuke sabia que uma conversa como aquela se seguiria, apenas não esperava que fosse tão cedo. Sentou-se num sofá e viu-a fazer o mesmo. Os olhos azuis estavam sérios.
— Só por uma semana, pra não precisar ficar levando a Aya e o Naoto lá o tempo inteiro.
— Hm. E por que teria que leva-los lá o tempo todo?
O Uchiha arqueou uma sobrancelha, claramente curioso.
— Seu noivo não para de me encher o saco há um tempão sobre eu não poder separar aqueles três, e agora você vem e diz que é o que eu devo fazer?
Ino negou com a cabeça.
— Gaara está certo. O que me preocupa é o fato de que você não costuma ouvi-lo.
Sasuke deu de ombros, despreocupado.
— Acho que ele está certo. Além disso, Naruto os distrai e eu consigo trabalhar.
Ino assentiu, mesmo sem concordar com aquelas palavras. A verdade era que Sasuke estava muito diferente. Mesmo agora, ele não demonstrava seu olhar inexpressivo que tanto a incomodava. Antes, independente de com quem estivesse, ele era quase insuportável. Era uma casca vazia e nada mais. Menos com Itachi, é claro, porque Itachi era o mundo de Sasuke. Mas agora… ela via vida nele. Era uma visão tão gostosa, tão confortante. Não acreditava que Sasuke conseguiria cuidar dos sobrinhos quando Itachi morrera, mas agora dúvidas surgiam. Talvez Itachi estivesse certo desde o começo. Talvez Sasuke fosse sim uma boa escolha.
— Você gosta de Naruto.
Sasuke suspirou. Não bastava Gaara, agora Ino também resolvia se meter em sua vida sexual?!
— Ino, por favor…
— Eu sei que vocês transaram. Todo mundo sabe, eu acho.
Sasuke deu de ombros sem demonstrar qualquer constrangimento. Ino podia saber ou podia não saber, era indiferente para ele.
— E?
— Você não faz isso. Vocês transaram e agora você o traz para ficar um pouco na sua casa. O que você planeja, Sasuke? O que ele tem que você quer?
Primeiramente Sasuke pensou em se irritar com a pergunta, porém acabou percebendo que ela fazia total sentido. Se estava trazendo Naruto para perto, então queria algo dele. Sempre fora assim, e sempre seria. Podia tentar se enganar que era por Aya e Naoto o quanto quisesse, sabia que era mentira. Independente da história triste dele com Emi, a verdade era que Sasuke simplesmente não se importaria em afastar qualquer outro de seus sobrinhos. Em seu íntimo, ainda acreditava que Aya e Naoto acabariam como James se Sasuke os afastasse, mas não queria afastá-los. Seria aquela a sua recompensa: a felicidade de Aya e Naoto? Não, não achava que fosse. Talvez uma parte sim, mas não tudo. Havia aquela vontade de ficar perto dele, e Sasuke não conseguia entender direito.
— Ele é bom com meus sobrinhos.
— Não é só isso. Nós dois sabemos.
O Uchiha poderia mentir, mas Ino o conhecia bem demais. E a verdade também era que não queria mentir para ela. Gostava de Ino, admirava-a como médica e como pessoa, e sabia como ela fizera bem a Gaara.
Talvez estivesse apenas procurando alguém que lhe fizesse bem também. Alguém que representasse para si o que Ino representava para o amigo. Afastou os pensamentos, confuso. Aquilo era estranho! Ele sentia vontade de ficar com Naruto, mas também queria se afastar o máximo possível. Era como se um sentido de perigo dominasse seu corpo inteiro quando pensava nele, mas não o perigo como o que sentia quando pensava na Akatsuki. Era algo… diferente. Agradável, até.
Acabou dando de ombros, sem saber o que dizer. Ino ainda esperava por uma resposta, mas Sasuke não tinha resposta alguma para dar a ela.
— Como assim não sabe? Você…
Ino parou. Sasuke não conseguia encarar aqueles olhos azuis, porque sabia que ela simplesmente saberia o que ele sentia. Mesmo que ele não compreendesse muito bem, talvez Ino entendesse. E ele não queria aquilo. Não queria a confirmação de que Naruto não era apenas mais um. Talvez no fundo já soubesse disso, mas não queria Ino confirmando aquilo, tornando irremediável. Não queria depender tanto de uma pessoa de novo.
— Sasuke.
O Uchiha continuou encarando o chão. Ela nunca o vira daquela forma antes.
— Sasuke, você… você realmente não espera nada do Naruto em troca, né? Está simplesmente cuidando dele, mas não espera nada…
Ele deu de ombros, sem responder de imediato.
— Ele serviu de babá por um tempo…
Ino concordou, mas agora sentia que pisava em ovos. Nunca, em sua vida, pensara que poderia ter uma conversa como aquela com Sasuke. Será que estaria chegando a hora de entregar a carta que Itachi deixara em suas mãos?
— Mas, além de ele continuar sendo carinhoso com seus sobrinhos… o que você espera de Naruto?
Aquela conversa era desconfortável. Sasuke sentia a garganta presa, como se não conseguisse falar. Não era vontade de chorar, era só… não saber o que dizer. Não entendia como se sentia, não sabia o que era aquela sensação quente que o tomava ao pensar em Naruto. Ino o estava deixando tão incomodado…! Então por que simplesmente não dava aquela conversa por encerrada? Por que continuava a falar de Naruto?
— Não sei…
Ele falava baixo, sem saber exatamente como se sentir. Ino abriu um sorriso enorme e cobriu as mãos com a boca. Uma felicidade incomparável tomou o corpo magro.
— Sasuke… você está gostando dele?! De verdade?!
Ele olhou para os olhos brilhantes pelas lágrimas. Queria confirmar e queria discordar. Não sabia. De verdade, não conseguia definir o que sentia.
Tudo o que sabia era que Naruto lhe fazia bem. Gostava dos beijos dele, gostava de tocar na pele dele e confiava quase incondicionalmente no loiro. E era bom estar com ele. Era… era como estar com Itachi, mas diferente. Era ter o companheirismo e a amizade, mas algo a mais. Ele nunca sentira aquilo antes. Não saberia dizer à loira o que era.
Acabou apenas dando de ombros.
— Você o ama?
— Eu não sei, Ino. Eu realmente não sei.
Ela sorriu e pulou sobre ele, envolvendo-o em um abraço apertado.
— O fato de você me dizer que não sabe meio que já responde a minha pergunta, não? Estou tão feliz por você, Sasuke!
Ele correspondeu ao abraço, sabendo que a loira estava grávida e que ficaria ofendida se a afastasse.
Ino, ao não ser afastada, percebeu que Naruto e Sasuke deviam ficar juntos. Se ela pulasse sobre ele daquele jeito há dois meses, o Uchiha não se importaria se estava ou não grávida, se a magoaria ou não. Ele simplesmente a afastaria e seguiria como se nada tivesse acontecido. Agora era diferente, e ela gostava muito mais daquela versão de Uchiha Sasuke.
–-//--//--//--//--//
Konan sorriu para Nagato e agarrou a mão dele.
— Obrigada.
Ele negou com a cabeça.
— A gente devia estar procurando médicos, cientistas, qualquer coisa assim. Você quer morrer, é isso?
Konan acariciou o rosto pálido e depositou um beijo casto na bochecha dele.
— Não. Eu quero ficar com você, aproveitar meus últimos meses, conhecer lugares novos e pessoas novas, Nagato. Não quero passar o pouco tempo que eu ainda tenho deitada em um hospital, sendo examinada por vinte médicos diferentes que nem sabem o que estão fazendo.
— Talvez eles descubram alguma coisa. Aí, depois de curada, você vai poder conhecer todos os lugares e todas as pessoas que quiser.
Ela entrelaçou os dedos de sua mão aos dedos da mão dele.
— Você prometeu que iria me deixar fazer o que eu achasse melhor, e que apoiaria qualquer decisão que eu tomasse, lembra?
Nagato assentiu. Sim, lembrava. Fora o pior erro de sua curta vida.
— Konan…
— Shii! Só aproveita a viagem comigo, ok?
O ruivo suspirou e apoiou a cabeça na poltrona do avião. Konan deitou em seu ombro, e Nagato deixou o cheiro de shampoo de amora dela invadir suas narinas. Por quanto tempo ainda poderia desfrutar daquilo? Ele sabia a resposta. Menos de sete meses.
–-//--//--//--//--//
— Então o tio Naru vai morar com a gente? – Aya perguntou feliz.
Os pequenos haviam acabado de receber a notícia de que Naruto passaria alguns dias com eles. Era domingo ainda, mas a noite estava para chegar.
— Não é bem assim, Aya-chan. Vou só passar alguns dias com vocês, até poder voltar à minha casa.
A menina mexeu o lábio, parecendo contrariada.
— Mas por que não mora junto? Tem quarto, se você e o tio Sasuke brigarem.
Naruto ficou vermelho como um tomate e olhou assustado para Sasuke, que suspirou.
— Ela viu a gente beijando uma vez. Acha que casaremos e moraremos juntos eternamente.
Aya não discordou do tio. Para ela, ainda fazia todo o sentido do universo Naruto morar com eles. Se os tios haviam se beijado, era porque se gostavam muito. Ela via na televisão que só quem se gostava muito podia se beijar daquele jeito, e não podia ser como irmão e irmã. Tinha que ser um gostar do tipo mamãe e papai, mas não tinha problema se fossem dois papais. Ou dois titios, como era o caso.
— Ah, Aya, não apressa as coisas assim não.
— Mas eu queria!
— Queria, é?
A menina assentiu com a cabeça. Naoto juntou-se à irmã na cama de Naruto depois de se remexer no colo de Sasuke até que o Uchiha o soltasse. Os dois pequenos começaram a brincar com os dedos das mãos do Uzumaki, um de cada lado.
— Aí a gente podia fazer guerrinha sempre, e ia ser muito mais legal.
— Aya, se eu ficasse com o tio Sasuke, muita coisa ia mudar. Ainda não é hora pra essas coisas, tá?
— Não fale como se pudesse acontecer, usuratonkachi – resmungou o Uchiha.
Naruto abriu um sorriso de canto.
— Vai dizer que é assim tão impossível, teme?
— Claro que é, idiota. Eu não me apaixono.
As palavras doeram, e Sasuke sabia que doeriam. Não sabia por que dizia aquilo depois da conversa que tivera com Ino na manhã daquele mesmo dia, mas se sentia estranho, acuado, e não gostava disso.
Era simplesmente… era diferente. Era incômodo, até. Não queria amar Naruto, não queria aqueles sentimentos idiotas em seu peito. Não, não queria nada daquilo. Estava muito melhor antes, quando não sentia absolutamente nada por ninguém. Sim, verdade, estava simplesmente muito melhor antes.
— Então não precisa me levar pra sua casa.
Naruto fora mais frio. O tom de voz dele mudara completamente, assim como seu olhar. Aya não gostou daquilo, assim como Naoto também não. Ficaram encarando o loiro, querendo que o tom descontraído voltasse a reinar, porém Naruto continuou com o olhar perdido em Sasuke.
— Deixe de ser teimoso.
— Se é tão indiferente pra você, por que se importar em me levar? Eu fico aqui mesmo.
Sasuke recorreu à máscara de indiferença, que se tornava mais máscara a cada dia que passava. Antes, era difícil não estar indiferente, não deixar tudo para trás. Fingir que não se importava era tão simples quanto respirar. Agora não mais. Agora precisava forçar essa expressão e precisava controlar-se para que ela não desaparecesse.
Naruto o mudava, e Sasuke não sabia como lidar com isso. Estava incomodado com as mudanças. Queria sua paz de volta, não aquele turbilhão que ele sequer sabia identificar.
— Para com isso. Vou te levar para ficar perto de Aya e Naoto. Vai dizer que não quer?
Naoto sabia que aquilo era uma briga por entender a situação. Aya não compreendia de verdade o que eles diziam, só sabia que era uma briga porque sabia. Instinto. Ela balançou a mão de Naruto, fazendo com que o olhar frio sumisse do rosto dele. Ele nunca olharia daquela forma para ela.
— Não briga…
A voz saiu falha, mesmo que ela não quisesse chorar. Aquilo quebrou todas as barreiras que Naruto e Sasuke tinham construído, e o Uzumaki acariciou o rostinho pálido, mesmo que o movimento doesse muito.
— Não estamos brigando, Aya-chan. Desculpa.
Naoto foi para o colo de Sasuke, que o abraçou e também jurou que não estava brigando com Naruto, mas só discutindo um pouco. Depois de muitas juras de que estava tudo bem e de que Naruto não tinha mudado de ideia quanto a ir passar um tempo com eles, os ânimos foram acalmados e uma descontraída conversa sobre os dois voltarem à escolinha no dia seguinte começou.
Aya nem percebera que sentia falta da aula, mas a verdade era que sentia. Naoto não, porque ele não tinha muitos amiguinhos lá dentro. Pelo garotinho, eles podiam simplesmente ficar em casa com os tios. Mas Aya tinha amigos, e ela tagarelava sobre cada um deles.
–-//--//--//--//--//
— Não é lindo, Nagato?
Estavam em frente à Torre Eiffel, em Paris. O ruivo não achara a construção assim tão impressionante.
— É bonito.
Ele estava incomodado, queria ir ao hospital e queria encontrar o antídoto. Konan suspirou. Não estavam em Paria há nem um dia.
— Nagato, é tão difícil assim ficar feliz por estar comigo?
— Ficarei feliz se acharmos uma cura.
— Vamos fazer assim então: vamos viajar para vários lugares. Em cada um deles eu verei um médico e nós deixaremos ele me examinar. Vai ficar feliz assim?
Nagato sentiu como se todo o mundo saísse de suas costas. Pegou a mão de Konan e a abraçou bem forte. Era tudo o que ele tinha, afinal. Ela era absolutamente tudo.
Tocou no rosto dela e só então percebeu como Konan ficava linda quando corava. Baixou seus lábios devagar, aproveitando o momento para gravar as feições dela. Konan fechou os olhos, quase sem acreditar no que aconteceria. Nagato beijou-a.
A princípio o fez porque queria dar a ela um motivo para viver. Sabia da paixão da amiga já há bastante tempo, mas nunca pensara que era digno de tal sentimento. Agora percebia que deveria ser digno. Não havia alternativa, precisava merecer aquilo e precisava dar a ela um motivo para viver.
Os dois sabiam que o eterno amor de Konan pertencia a Yahiko e apenas a ele. Nagato não tinha a ilusão de que o amor quase fraterno que a mulher nutria por si se comparasse ao que ela sentia pelo amigo, mas sabia que ele era forte. Assim como o seu carinho por ela também era.
Talvez os dois não se amassem como os casais normais deviam se amar, mas se amavam o suficiente para que continuassem sobrevivendo. Pelo menos por mais sete meses.
Fale com o autor