Obsesso
44 43. Suportando o insuportável
Notas iniciais
Sasuke acordou com a impressão de que ainda dormia. Estava quente na cama. Um calor confortável, principalmente porque o inverno tornava tudo muito frio. Ele gostava daquele calor. Respirou fundo, sentindo cheiro de gozo e de banho. Sorriu, sabendo exatamente o que acontecera na noite anterior. Não podia olhar para o lado e encarar Naruto dormindo, porque ele ainda estava com a cabeça sobre seu peito. Sua perna direta estava dormente, porque o Uzumaki entrelaçara a sua nela, e o peso cortara um pouco da circulação.
Devia sair dali, recomeçar a busca por pistas. Queria fazer aquilo, mas… Naruto era tão quente. Respirou fundo de novo, deixando todas as suas vontades de lado. Não podia se sentir bem, porque Naruto nem deveria estar dormindo com ele. Ainda assim, dormira. Não queria que o loiro entendesse as coisas de forma errada. O sexo fora realmente maravilhoso, e Sasuke sentia-se bem por não acordar sozinho – aquela falsa sensação de que não era tão solitário sempre era boa –, mas não passariam daquilo. O Uchiha não namoraria um homem apenas pelo sexo, muito menos o faria com Naruto, que era seu empregado.
Além de tudo aquilo, também havia Aya e Naoto. Não podia se acostumar com aquela situação ou, eventualmente, eles acabariam entendendo errado o significado de tudo. Estavam bem daquele jeito. Agora que não haveria mais o tesão de outrora, poderiam se concentrar no que realmente era importante, e não estariam mais distraídos.
— Você pensa demais – murmurou o Uzumaki. – Só fecha os olhos e dorme.
Naruto remexeu-se, devolvendo a circulação à perna de Sasuke, mas não se soltou dele. O Uchiha tentou empurrar o loiro, mas este se negou. Continuou agarrado ao tronco macio, sem abrir os olhos.
— Naruto, anda. Você nem devia ter dormido aqui.
O Uzumaki suspirou e afastou a cabeça, mas continuou com um dos braços ao redor de Sasuke. Suas pernas tampouco se moveram.
— Por quê? É bom não acordar sozinho. Principalmente nesse frio.
— Porque isso pode te passar a impressão errada do que aconteceu. Se já não…
— Ah, de novo com isso não, Sasuke! Baixa esse ego, cara. Eu não te amo, não quero namorar com você, não tenho esperanças de que vamos nos casar e não penso, de maneira nenhuma, que ontem fizemos algo além de sexo. Além disso, foi bom. Foi muito bom, muito, muito, muito bom. Então cala a boca e dorme.
Naruto voltou a abraçar Sasuke e acomodou sua cabeça no peito dele também. O som dos batimentos cardíacos do Uchiha era bom, calmante.
— Bom, se estamos esclarecidos, então não acho que haja necessidade de ficarmos aqui agindo como um casal.
— Não tem necessidade mesmo, mas é bom e a minha bunda tá doendo. Eu não consigo deitar de costas e a culpa é toda sua. Então, como recompensa, você vai ficar bem quietinho aí e vai fazer carinho na minha cabeça, porque eu quero dormir.
Sasuke riu. De todas as reações que esperava, aquela realmente não era uma delas.
— Não fale como se você não tivesse gostado.
— Eu gostei, Teme, é claro que gostei. Mas isso não faz com que eu consiga deitar de costas na cama. Então só cala a boca e dorme, tá? E faz cafuné.
Sasuke negou com a cabeça, mas levou sua mão aos fios loiros. Naruto sorriu e aproximou-se mais, querendo sentir aquele carinho gostoso.
— Você é um idiota, Uzumaki. Nós temos que recomeçar a procurar as coisas.
— Cala a boca. A gente procura depois. O mundo não vai acabar porque você dormiu um pouquinho mais, Sasuke.
— A Akatsuki…
— Também precisa dormir. Só mais uma ou duas horas, ok?
Sasuke suspirou e apertou o loiro entre seus braços. Naruto assentiu com a cabeça, satisfeito, e o moreno sorriu. Talvez dormir um pouquinho mais não fosse uma ideia tão ruim, afinal.
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Quando Sasuke acordou pela segunda vez, Naruto já não estava mais na cama. O Uchiha bocejou, cansado, e procurou o relógio com os olhos. Já passava do meio-dia.
— Pra quem não queria dormir, você acordou tarde, hein?
No batente da porta, Naruto secava seus cabelos com uma toalha branca.
— Cala a boca.
O Uzumaki riu e Sasuke levantou. Ainda estava nu, mas não se importou muito com isso.
— Teve alguma epifania enquanto dormia e agora já sabe onde procurar? – Naruto perguntou, começando a retirar os lençóis sujos da cama.
Sasuke negou com a cabeça.
— Eu vou tomar um banho. Deixe os lençóis jogados no chão mesmo e pegue novos ali no armário.
— Folgado.
Sasuke ignorou e foi para debaixo do chuveiro. Naruto sorriu, como um bobo, enquanto sentia aquele cheiro que embalara seu sono. Era o cheiro de sua noite de amor com Sasuke. Balançou a cabeça, afastando os pensamentos. Não, era o cheiro de sua noite de sexo com Sasuke. Nada além daquilo. Não podia ser nada além daquilo. Sasuke já frisara mais de uma vez que não sentia nada além de atração por si.
“Talvez ele não saiba bem o que sente… é o Sasuke, ele não sabe lidar com sentimentos”. Balançou a cabeça negativamente mais uma vez. Não podia pensar assim, não queria. Não precisava, porque não o amava e não sentia nada por ele. Não, definitivamente não.
Jogou os lençóis no chão e começou a assobiar. Era bom estar ali. Havia tido a melhor noite de sexo da qual conseguia se lembrar, transara com o diabo – quantas pessoas podiam se gabar disso? Ok, talvez algumas. Sasuke não era virgem –, e estava sozinho naquela enorme mansão com um cara muito gostoso. Talvez pudessem transar de novo, talvez pudessem assistir a um filme, ou achar as malditas pistas que Sasuke tanto queria. Não sabia, mas a situação era boa.
Sim, estava tudo dando certo. Não precisava de nada além do que tinham ali. Não sentia nada além de atração por Sasuke. Certo.
Mas então… por que seu corpo ficava tão quente quando ele estava por perto, e por que se sentia tão frio quando ele estava longe?
— Cala a boca, Uzumaki – sussurrou para si.
Sabia que não falava nada, mas seus pensamentos eram idiotas.
Ainda assim, o sorriso estúpido surgiu novamente em seus lábios enquanto arrumava a cama. Lembrava-se de cada detalhe da noite anterior, o que era realmente bom. Adorava transar quando estava bêbado, mas normalmente acabava não se lembrando de muito além da sensação de prazer. Com Sasuke, lembrava-se de tudo. Os toques, os beijos, os olhares… ah, os olhares…! Sentira-se tão dele. Tão especial.
Nunca pensara que teria os olhos de Uchiha Sasuke tão para si quanto tivera naquele momento. Era como se fossem um o mundo do outro, como se não houvesse Akatsuki ou irmão morto para preencherem os pensamentos dele. Naruto sentira-se realmente especial.
— Você parece um idiota apaixonado assobiando desse jeito – Sasuke resmungou.
Naruto voltou seus olhos para ele. O Uchiha vestia apenas uma toalha e secava os cabelos com a mão. Como a cama já estava arrumada, Naruto jogou-se sobre ela e analisou o corpo definido e ainda molhado com um sorriso malicioso.
— Não sou idiota, e muito menos estou apaixonado. Mas, diferente de você, eu consigo acordar de bom humor.
Sasuke continuou secando seus cabelos.
— Eu fico de bom humor às vezes.
— Tipo quando faz sexo com um loiro gostoso como eu?
Sasuke riu, demonstrando ao Uzumaki que ele estava certo.
— Você não é tão gostoso.
— Não foi o que eu ouvi ontem à noite.
Sasuke olhou o loiro deitado na cama. Naruto estava de lado, encarando-o com um brilho brincalhão nos lábios. O Uzumaki removeu sua camiseta, exibindo o tórax bem definido.
— Foi o calor do momento.
Foi difícil desviar os olhos, mas Sasuke desviou mesmo assim. Caminhou até sua mala, começando a procurar por uma muda de roupas.
— Nee, Sasuke – chamou Naruto.
O Uchiha sorriu malicioso, já sabendo o que ele queria. Não se virou.
— Eu falei que procuraríamos por pistas hoje, Naruto.
— Eu sei… mas a gente tem a noite toda! Além disso, você vai ter todo o tempo do universo enquanto eu estiver fazendo alguma coisa pra gente comer…
— Você vai cozinhar?!
A surpresa fez Sasuke se virar, e esse foi seu erro. Naruto estava apenas de cueca, deitado de barriga para baixo e as pernas para cima. Encarava-o com o queixo apoiado nas mãos. Naruto estava deitado com os braços na lateral da cama, e os travesseiros repousavam ao seu lado.
— Naruto…
— Uhum. Vou cozinhar algo bem bom, porque eu não sei onde procurar e você não fala nada enquanto faz isso. Além do mais, a gente não come nada que preste desde ontem de meio-dia.
Sasuke riu um pouco.
— Vai fazer algo com espinafre?
A brincadeira fez o Uzumaki revirar os olhos, emburrado.
— Cala a boca e vem pra cá, Uchiha.
Normalmente Sasuke o teria ignorado e saído do quarto, mas o corpo de Naruto era tão chamativo… talvez um sexo matinal servisse para acordá-lo mais, e não para atrasá-lo.
— Você não presta, Uzumaki. É melhor fazer um almoço gostoso depois. Uma recompensa por me fazer perder tempo agora.
Naruto sorriu malicioso ao ver que Sasuke se aproximava. Sentou-se na cama, dando espaço para o Uchiha se sentar. Assim que este o fez, Naruto foi para o colo dele e enlaçou seus braços no pescoço.
— Vou fazer uma coisa quase tão gostosa quanto eu – prometeu Naruto.
— Depois eu sou o arrogante.
O Uzumaki riria, mas Sasuke o beijou antes que ele pudesse fazer isso.
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Sasuke procurava em armários enquanto Naruto cozinhava. O loiro colocara músicas do AC/DC para tocar, e Sasuke não desgostava da banda. Riu malicioso. Já era quase noite agora. Não devia ter deixado Naruto distraí-lo tanto, mas o Uzumaki tinha o dom de mantê-lo na cama. E ele era tão gostoso…
Isso o lembrou da noite passada, e das câmeras espalhadas pela casa. Precisaria apagar aquelas imagens, os…
Quis se jogar pela janela. As câmeras, era óbvio! Correu para o quarto de Itachi e começou a remexer na estante. Achou alguns CDs sem identificação em meio aos muitos com informações nas caixas. Filmes, músicas, jogos… tudo que eles usaram na adolescência. Não mostrara aquele quarto a Naruto. Nem mesmo entrara nele. Não vinha ali há anos. Itachi insistira em continuarem com a tradição familiar de passarem as férias na praia, mesmo após a morte dos pais deles, mas fora difícil. Sasuke estava recluso e o próprio Itachi não gostava do lugar. Todo ele lembrava-lhes dos pais e dos momentos felizes. Pararam de ir depois de quatro verões. Sasuke ainda era novo, e nunca mexera em seu quarto. Itachi continuara a visitar a casa, porém não alterara a decoração.
Sasuke desviou o olhar para a cama, recordando-se das noites de tempestade. Quase conseguia se ver correndo para debaixo daqueles cobertores, procurando conforto nos braços do irmão.
“Eu tenho medo, Tachi. Tá trovejando”. “Irmãozinho tolo, nenhum raio vai te atingir. Eu te protejo, você sabe”.
As vozes eram sussurradas em seu ouvido. Sasuke sentou-se na cama, sentindo a textura familiar entre seus dedos.
“Posso dormir com você?”. “Quantos anos você já tem? Nove? Está grande pra isso, manino”. “Mas tem um monstro debaixo da minha cama”. “Não tem monstro nenhum, Sasuke”. “Tem sim, eu sei!”. “E como sabe que não tem monstros debaixo da minha também?”. “Eles têm medo de você, por isso vão pro meu quarto”.
A risada de Itachi… o choro dele, quando perderam os pais. Mesmo as broncas, os sermões, tudo fazia falta. Odiava aquela casa. Agora percebia isso, odiava…
— Sasuke?
O Uchiha olhou para a porta, assustado. Naruto estava parado, encarando-o com o cenho franzido.
— O que foi? – perguntou o Uchiha.
Sua voz saiu estranha. Sasuke piscou e tocou suas bochechas, sentindo-as molhadas. Não percebera que chorava. Virou-se de costas para Naruto, sem acreditar que o deixara vê-lo naquele estado.
Ouviu passos. Queria mandá-lo embora, mas sua voz estava estranha e Sasuke não queria falar nada para que não fosse traído por ela.
— Esse lugar deve te lembrar muito ele, não?
Sasuke não queria uma conversa consoladora naquele momento.
— Naruto, só saia.
— Você sabe que pode falar comigo, não sabe?
— VOCÊ NÃO É MEU NAMORADO!
Sasuke levantou, confuso. Por que gritara? Não queria ter gritado, não queria ter se descontrolado. Limpou o rosto, ainda mais confuso.
— Eu sei que não, nem quero ser. Mas somos amigos, não somos?
— Eu não tenho amigos.
— Bom, na verdade, tem. Eu, Gaara, Neji. Até o Shikamaru, eu acho.
— Eles são colegas, não amigos.
Naruto riu. Encarava-o como se soubesse de coisas que o Uchiha sequer imaginava, e Sasuke não gostava daquele olhar. Fazia-o se sentir burro.
— Sasuke, nós não arriscaríamos nossa vida por colegas de trabalho.
— Eles não…
— Somos seus amigos, você querendo ou não. Não se escolhe ter amigos, eles simplesmente estão lá pra te incomodar. Como eu estou fazendo agora.
Sasuke deu de ombros. Olhou para a janela. A praia era visível. O pedacinho de areia onde fizera castelos, onde tomara banho de sol e onde fora enterrado por Itachi. O mar em que brincara de afogar o irmão também podia ser visto. Eram tantas lembranças… era toda a sua infância. Os verões com os pais, os verões com Itachi… tudo de bom que ainda restava de quando era mais novo.
— Com quem você falou sobre seu irmão?
Sasuke não o olhou, manteve-se em silêncio. Naruto entendeu que ele nunca havia falado com ninguém.
— Eu fiquei meses sem falar com ninguém depois que Jiraya morreu. Eu só… achei que fosse passar, sabe? A solidão.
— Então deixe eu ficar quieto na minha. Esperar passar, como você diz. Eu sei o que vai dizer, Naruto. “Dê tempo ao tempo, depois você aprende a lidar com isso”. “Um dia passa, vai embora”. Não precisa falar.
Naruto sorriu. Deitou-se na cama de Itachi, encarando o teto.
— Aí é que tá. Eu também pensei que não queria ouvir os clichês. Mas é bom, às vezes. E eu não ia falar nada disso, inclusive. Porque é mentira. A dor não passa. A solidão… às vezes. Quando você não está nos lugares que te fazem pensar na pessoa. Como aqui, por exemplo. Você vai se sentir horrível aqui. Foi um dos motivos pra eu ter saído de Worcester. Apesar de ter meus melhores amigos lá, apesar de ter toda a minha vida lá, eu…
Naruto deu de ombros.
— Preferi me mudar.
Sasuke desviou o olhar da areia. Encarou a televisão. Já haviam jogado muito videogame ali. E visto muito filme, e visto seriados, desenhos animados…
— O pior era meu quarto. Antes de ser meu quarto era o escritório do velho, e ele ia muito lá pra pensar. Então, às vezes, eu tava dormindo e o desgraçado entrava, meio bêbado, e ligava a luz. Ele precisava de inspiração, e aquelas paredes que de tudo tinham visto davam isso a ele. Na época eu odiava, mas, depois, ficava esperando que ele entrasse e ligasse a luz. Tive que ir dormir na sala, porque não conseguia mais dormir naquele quarto.
Sasuke sorriu de leve.
— Itachi amava esse quarto. Privacidade, principalmente. Eu gostava de privacidade também, mas não quando era menor. Não consigo me lembrar muito dos meus pais, mas eu lembro que minha mãe sempre mandava eu chamar ele pra comer. Eu nunca batia na porta. Só entrava. Uma vez peguei ele se masturbando debaixo das cobertas. Foi muito engraçado. Ele ficou vermelho, e eu comecei a gritar que ia contar pra mamãe…
Sasuke parou. Era a maior quantidade de palavras que Naruto já ouvira saírem da boca dele. O Uzumaki encarava-o sem sorrir ou demonstrar pena. Era simplesmente compreensão. Ele também sabia o que era perder alguém que amava.
— E o que ele fez?
— Me chantageou com Mario. Eu amava jogar, mas só o Itachi tinha o jogo. Ele disse que me dava, se eu nunca falasse sobre aquilo com ninguém. O jogo tá no meu quarto até hoje.
O Uzumaki sorriu. Sasuke também. Doía falar sobre Itachi, mas, estranhamente, era melhor do que não dizer nada. Era… como sentir toda a tristeza sair aos poucos de seus ombros.
— Jiraya uma vez me pegou com uma garota no meu quarto.
Sasuke encarou o loiro.
— Quanto anos você tinha?
— Dezesseis.
O Uchiha riu um pouco.
— O que fez?
— Eu disse: “Velhote, você tá atrapalhando”. E ele: “Ah, eu sabia que ele não ia parar de inspirar minhas paredes. Você vai limpar seus lençóis, moleque!”.
Sasuke riu, assim como Naruto.
— O que Jiraya era?
— Escritor de livros eróticos. Eu li alguns… ele era bem bom, na verdade.
Sasuke riu e aproximou-se, sentando-se ao lado de Naruto.
— É estranho falar sobre Itachi.
— Por quê?
— Eu prometi a mim mesmo que nunca falaria. Só queria… enterrar isso e fingir que não aconteceu. Talvez, se eu simplesmente não pensasse nele, a dor fosse passar.
Sasuke deu de ombros e desviou o olhar. Sentia a voz embargada, a garganta presa. Não acreditava ainda que estava falando com Naruto, mas era bom de um jeito que não imaginava que pudesse ser. Não diminuía a falta que Itachi fazia, não trazia o irmão de volta. Tampouco fazia com que Sasuke sentisse menos ódio de si mesmo por não ter conseguido estar lá quando o irmão mais precisara de si, mas, de alguma forma, tornava tudo aquilo mais suportável.
— Eu pensei a mesma coisa. Meu melhor amigo, Kiba, me trancou no quarto dele um dia e falou: “Eu não saio daqui até você falar sobre o Jiraya”. E eu gritei, esperneei, disse que não era da conta dele… Depois chorei. Chorei mesmo. Foi… foi melhor do que guardar.
— Eu não vou chorar.
— Sabe, só porque te chamam de diabo, isso não significa que você não pode chorar.
— Ah, é?
— Significa que as pessoas não podem saber que você chorou, não que você não possa chorar.
Sasuke riu, sentindo algumas lágrimas escaparem.
— Então será que você pode sair um pouco?
Naruto negou com a cabeça.
— Eu não conto.
— Não é uma pessoa, agora?
O Uzumaki negou com a cabeça.
— Agora eu sou só… seu amigo. Ninguém precisa saber o que acontece quando dois homens gostosos estão sozinhos entre quatro paredes, né?
Sasuke riu um pouco e assentiu com a cabeça. Naruto tocou nas costas dele e o puxou para perto. Pouco depois o Uchiha agarrava-se ao loiro como se ele fosse sua única salvação.
Naruto podia não ser tão inteligente quanto Sasuke, mas entendia as pessoas. Entendia a dor, entendia o luto. Ele sabia dar o conforto de que o Uchiha precisava naquele momento. Sabia que aquilo o ajudaria a superar a morte de Itachi muito mais do que qualquer vingança.
Sasuke só perceberia muito tempo depois, mas, naquela tarde, ele se sentiu bem como não se sentia há semanas.
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— O que tem aí?
Naruto colocou o prato de macarrão em frente a Sasuke e puxou uma cadeira para o lado dele. Estavam famintos, pois não comiam nada decente desde o dia anterior, e já anoitecia. O Uchiha olhava os vídeos no notebook.
— Filmagens sobre as reuniões da Akatauki. Eles mataram muitas pessoas. Isso colocaria cada um deles na cadeia quatro vezes. Três, se eu excluir aqueles em que meu irmão admite ter quebrado alguma lei.
— Itachi matou alguém?
— Algumas pessoas que não fariam falta. Ele não tinha escolha.
Ainda assim era um pouco perturbador. Se fosse Naruto naquela situação, o loiro saberia que seria diferente. Ele não conseguiria manter o disfarce, não conseguiria matar alguém a sangue frio apenas para se manter em uma organização como aquela. Mas sabia que Sasuke conseguiria.
— Coloca na televisão pra gente poder olhar no sofá.
Sasuke assentiu com a cabeça e Naruto carregou seu prato até a sala. Sasuke provou uma garfada da massa antes de pegar os DVDs e colocar o que queria no aparelho abaixo da televisão.
— Hey, Usuratonkachi, até que não tá ruim.
— Calado, Teme, minha comida é deliciosa.
— Não exagera.
Naruto voltou a comer e esperou Sasuke sentar-se ao seu lado. O Uchiha o fez, e logo os dois começaram a assistir. Eram, aproximadamente, doze horas de filmagem. Aquela seria uma longa noite.
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Em algum momento, Naruto dormiu. Sasuke estava com o braço apoiado na bunda dele, já que o loiro dormia de lado, mas sentia que quase caía no sono também. Já haviam se passado seis horas, e tudo o que Sasuke vira fora os bandidos admitindo que haviam matado senadores, vereadores, políticos, tudo em prol dos Estados Unidos. De acordo com eles, apenas protegiam o país.
Era tudo de que Sasuke precisava: vilões com complexo de herói.
Balançou a cabeça, percebendo que até já pensava como Aya e Naoto. Não existiam heróis e vilões na vida real. Suspirou e balançou Naruto.
O Uzumaki nem se mexeu, simplesmente continuou dormindo. Balançou-o mais, mas isso tampouco surtiu efeito. Sasuke revirou os olhos e se afastou. Com os pés, derrubou o loiro no chão.
— AAH, QUE ISSO?!
O Uchiha conteve o riso. Naruto acariciou sua bunda maltratada e lançou um olhar irritado ao amigo.
— Eu posso te processar por agressão, sabia?
— Vai fazer pipoca pra gente. Eu to caindo de sono aqui.
Naruto bocejou.
— Por que você não faz?
— Alguém tem que ficar ouvindo esses idiotas falarem sobre os assassinatos que cometeram.
— Eu posso ficar. Vai lá.
Sasuke negou com a cabeça e abriu um sorriso malicioso.
— Sabia que você não é o único que comeu o loirinho?
— Como assim? – Naruto perguntou, interessado.
Sasuke pegou o controle e voltou uma hora de vídeo. Depois, colocou o play.
Todos os Akatsuki saíam da sala. Deidara aproximou-se do ruivo apático com um sorriso malicioso.
— Danna-sama… sabia que eu adoro essa sala?
Sasori nem sequer o olhou.
— Você adora qualquer lugar com um sofá, Deidara.
— A gente tá sozinho, não precisa ser assim comigo.
— E quer que eu te chame como? Deidei?
— Eu prefiro…
Sasori revirou os olhos.
— Você é muito carente.
— Por isso que você precisa me dar atenção!
O loiro subiu no colo do outro, agarrando-o pelo pescoço. Sasori revirou os olhos e o abraçou de volta.
— Você transa com meio mundo. Pode pedir atenção a eles.
— Mas você é meu namorado. Eles são só uns casinhos. Cê sabe que eu te amo.
— Para de mel, Deidei. É irritante.
— Eu sei que você me ama também.
— Sabe, é?
— Uhum. Eu comprei um jaleco branco… a gente pode interpretar médicos quando chegarmos em casa.
O ruivo sorriu, malicioso.
— Você não presta.
Naruto pegou o controle e pausou. Sasuke o olhou confuso.
— Eles não fazem nada demais, relaxa. Nada que eu e você já não tenhamos feito, de qualquer forma.
Naruto negou com a cabeça.
— Você não percebeu, né?
— Percebi o quê?
Naruto parecia perturbado. Ele tinha os olhos vidrados na tela, que travara no com os dois homens no sofá. Deidara olhava para Sasori com devoção, e o ruivo encarava os lábios do amante loiro com um sorriso discreto.
— Nós os matamos, Sasuke. Eles estavam no carro, com Zetsu. Eles se amavam, e nós…
Naruto sentia que podia vomitar. Sasuke aprumou-se no sofá, encarando o loiro.
— Naruto…
— Não, eu os matei. Não nós, eu. Eu só…
Ele sentiu o vômito vindo, mas conseguiu se controlar. Desviou o olhar da tela, sem conseguir encarar aquilo. Não parara para pensar nos dois homens que haviam morrido naquela noite. Sasori estava irreconhecível, carbonizado pela explosão. E Deidara… ele ainda falara com o corpo, zombara dele.
Sentia-se um lixo. O pior dos piores.
— Naruto, eles iam matar Aya e Naoto. Não é só porque tinham um relacionamento estranho que…
— Não era um relacionamento estranho. Olha pra eles, Sasuke! Eles se amavam. Apesar de Deidara ter ficado comigo, apesar de tudo, eles se amavam.
— Ok. Não são só pessoas boas que se amam.
— Eu sei, mas… eu acabei com aquilo. Eles podiam estar juntos agora, mas… eu matei eles.
— Era eles ou nós.
— Eu sei, mas…
— Pelo menos morreram juntos – murmurou Sasuke.
Naruto não riu.
— Não tem graça. Vou fazer a pipoca.
O Uzumaki saiu da sala. Sasuke ficou encarando as costas dele, mas não disse nada. Estava se sentindo estranho. Normalmente ficaria irritado por Naruto mostrar-se tão irracional, mas era bom. Se fosse ele a ter matado aqueles dois, não estaria sentindo nada. Seria indiferente ao fato de que acabara com um amor, como Naruto dissera. Mas o loiro não era assim. Ele se importava de verdade com as pessoas e com os sentimentos delas. Sasuke pensara que o fato o incomodaria, mas não era verdade.
Viu-o voltar com uma bacia com pipocas de micro-ondas. Ainda parecia enjoado.
— Melhor?
O Uzumaki não respondeu, apenas desviou o olhar da tela. Sasuke voltou ao momento de onde parara e esperou que Naruto dissesse algo, mas o Uzumaki apenas abraçou seus joelhos e ficou encarando a televisão. Não parecia que realmente estava vendo algo.
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Sasuke colocou o último DVD. Era mais uma reunião.
— Naruto – chamou.
O Uzumaki apenas o olhou com o canto do olho.
— Eu não estava brincando, quando falei sobre eles terem morrido juntos.
— Sasuke…
— Eu preferia ter morrido. Sentir o que eu senti, depois que o meu irmão morreu? Muito pior do que morrer. Mas tinha prometido que ia cuidar dos meus sobrinhos, filhos dele, e é o que eu quero fazer. Você vai mesmo me dizer que o que sentiu depois de perder seus pais e seu avô foi melhor do que simplesmente morrer junto deles?
Naruto não respondeu. Sasuke tinha razão ao falar assim. Perder quem se ama sempre seria mil vezes pior do que a morte. Quem morre simplesmente morre. A dor sobra para quem não morreu.
— Então… Sasuke.
Aquilo chamou a atenção dos dois, que viram Itachi na tela. O Uchiha sorria, mas parecia receoso.
— Olá, irmãozinho tolo. Bom, agora já não é mais irmãozinho, já é delegado e… é, eu to enrolando.
O Uchiha mais velho deu de ombros.
— Sabe… eu não sei o que aconteceu comigo. Não sei se me deu um peso na consciência insuportável por não te contar, ou… bem, eu posso ter morrido. Não quero falar assim, porque vai que você só tá mexericando nas minhas coisas e achou isso por engano?
Ele riu, mas logo a risada morreu.
— Não… esse é o antigo você. Meu pirralho chato que ficava invadindo meu quarto e me pegando nos momentos mais constrangedores… HAHA…
Silêncio.
— Desculpa. Por não ter te falado sobre a Akatsuki. Eu só… eu precisava te proteger, sabe? Você é meu irmãozinho, afinal. Eu falei pra Karin, não sei se você sabe… yeah… mas nada que a coloque em perigo, mas eu precisava falar pra alguém. Eu amo aquela ruiva, mas ela é meio tonguinha pra essas coisas, sabe? Ela não perceberia o quanto é perigoso isso que eu to fazendo.
Itachi olhou diretamente para a câmera.
— Você sim. É inteligente, e sabe disso. Se eu falasse, você logo ia dar um jeito de se infiltrar comigo ou de me tirar desse caso. Às vezes você esquece quem é o irmão mais velho aqui.
Riu sem vontade de novo.
— Você está cuidando bem deles, né? Sabe, a Aya é inteligente, mas o Naoto é um pequeno gênio. Como eu, é claro. Ele sabe das coisas, então não fica muito irritado perto dele. Ele me perguntou esses dias, depois que você voltou do trabalho: “o que era aquela sombra nos olhos do tio Sasuke, papai?”. Você tinha acabado de matar alguém. Ele percebe essas coisas, Sasuke. Ele percebeu essa sombra em mim também. Acho que nós dois já fomos muito tocados pela escuridão, né? E ainda digo a eles que somos os heróis…
Itachi remexeu suas mãos.
— Mas será que somos mesmo? Eu já matei tanta gente… já te fiz matar pessoas também… eu não quero isso pro Nao. Não faça com ele o que eu fiz contigo. Sei que foi isso que nos manteve vivos até agora, mas… talvez, se eu não tivesse seguido as ordens do papai, se não tivesse te feito matar aquele homem, ou me costurar, ou… enfim, você sabe tudo o que eu fiz com você. Se eu só tivesse te deixado ser criança, talvez fosse mais feliz agora. Eu vejo essa tristeza em você. Você sofre por mim. Quando Sakura morreu, você sofreu comigo. Mesmo que não gostasse muito dela, você sofreu porque eu sofri. E… não gosto de te ver sofrendo. Se eu morri… então… então eu não acho que você esteja bem. Maldição, eu sei que não está.
Agora, Itachi caminhava de um lado para o outro.
— Não deixe a minha morte te consumir, irmão. E proteja meus filhos. A Akatsuki está atrás de nós. Se eu morri, foram eles. Esqueça-os. Desapareça. Entre em um avião e suma. Esqueça o título, esqueça que é o diabo, só esqueça. Temos dinheiro suficiente. Suma para a América do Sul, ou para o Japão. Não sei, só suma. Pegue-os e vá. A Akatsuki é inteligente, não sei quanto tempo mais vou conseguir enganá-los. Eu falei sobre a sua casa secreta, mas eu sei que você prefere o Four Seasons a ela, então está tudo bem. Eles vão tentar usar a tal casa como isca, não caia nisso. Você é inteligente, não vai cair.
Itachi sentou-se novamente.
— Não pense em vingança agora. Papai matou o pai de Orochimaru, que controla todos eles em nome de um mundo melhor, ou algo assim. Kakuzu está ali por dinheiro, Deidara e Sasori por diversão. Hidan por seu Deus estranho, Zetsu porque é criação de Kabuto. Kabuto porque faz o que Orochimaru quiser e Nagato porque papai matou o melhor amigo dele. Papai errou, Sasuke. Yahiko não era uma pessoa ruim. E não mate Konan. Ela é boa. Mas ama Nagato, e está nisso porque ele está. Não mate Nagato também. Ou Deidara e Sasori. Não mate eles. São bons, apesar de tudo.
Suspirou.
— Ninguém é realmente bom ou realmente ruim. Só…existem pessoas confusas. E Kabuto, esse é ruim. Não acredite em nada que ele disser, e não deixe que esse monstro chegue perto dos meus filhos, ou eu volto do além, ok?
Outro suspiro.
— Com tudo isso, só quero pedir para que fique bem. Fuja, seja feliz com meus filhos e ache alguém te faça feliz também. Um homem, preferencialmente. Eu sei que você é bi, mas, sério, você prefere homens. Eu sei, eu sinto. Você fica mais feliz com eles. Mas pare de comer o Suigetsu, Karin tem uma queda por ele. Acho que nem ela percebeu ainda, mas tem. E eu sei que você não sente nada por aquele peixe, então deixe que Karin o faça feliz. E volte a falar com ela, ok? Você precisa de pessoas que te amem ao seu redor. Ok, acho que esses são todos os conselhos de irmão mais velho que tenho a oferecer. Bem, não todos, mas é o que posso falar agora.
Sasuke não queria que o vídeo acabasse. Itachi ali, falando consigo, fazia parecer que ele ainda era real… que ele ainda estava vivo. E a sensação era a melhor do universo.
— Bom… é isso, Sasuke. Siga com a sua vida, mas nunca esqueça… eu te amo, irmãozinho tolo.
Itachi desligou a câmera e tudo ficou preto.
Naruto olhou para o lado e não se surpreendeu com o que viu. Sasuke estava chorando.
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