Obsesso
31 30. Plano temporário
Notas iniciais
Sasuke entrou novamente no quarto e encontrou os sobrinhos a assistirem à televisão. Estavam mais tranquilos do que antes, o que também fez com que ele se acalmasse. Estavam exaustos e famintos, portanto uma janta depois e os três dividiam a enorme cama de casal.
Era um momento de paz no meio de todo aquele tumulto. Um momento que certamente não duraria muito.
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Sasuke remexia-se no sofá, extremamente desconfortável. Itachi estava muito atrasado. Deveria ter voltado do trabalho direto para casa, porém já passavam duas horas do horário de costume do irmão. Retorceu a expressão, igualmente preocupado e irritado. Era melhor Itachi ter um ótimo motivo para deixá-lo com as emoções daquele jeito…
A porta foi esmurrada com força, e Sasuke pulou do sofá. Pegou a arma que já sabia usar e que ficava escondida embaixo do bidê com o telefone. Aproximou-se devagar, temendo ser algum dos assassinos que haviam matado seus pais. Sempre em momentos como esse, acabava pensando naquilo.
Olhou pelo olho-mágico e encontrou apenas o irmão.
— Porra, Sasuke, abre logo!
— Podia ter avisado que era você, idiota.
Guardou a arma na cintura e deixou que o mais velho entrasse na casa. Estava pronto para jogar sobre ele todos os insultos que conhecia quando percebeu o sangue. Sangue abundante escorrendo da perna esquerda de Itachi, que amarrara um pedaço qualquer de pano para estancá-lo.
— Itachi, o que diabos…?
— Trabalho, irmãozinho tolo. Me ajuda com isso, vamos.
Sasuke ajudou Itachi a chegar ao banheiro, e buscou a bolsinha de primeiros socorros que sempre mantinham em casa. Itachi respirou fundo e removeu o pano que o impedia de sangrar até morrer.
— Não atingiu uma artéria, então eu quero que você remova a bala.
Sasuke paralisou. Tinha treze anos, não podia simplesmente remover uma bala da perna de seu irmão mais velho.
— Não, Itachi, não! Tá maluco?!
— Papai fez o mesmo comigo quando eu tinha a sua idade, é uma tradição de família.
— Não, eu não posso…
— Você pode, e vai. Precisa saber dessas coisas. Fica calmo, que eu te guio durante todo o processo.
— Itachi, eu posso te matar.
Mas Itachi sorriu daquele jeito que era só dele, como se soubesse de todos os segredos que Sasuke desconhecia.
— Está tudo bem, Sasuke. Eu confio em você.
Mas Sasuke não confiava em si mesmo.
Ainda assim, obedeceu.
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Um sonho abstrato envolvendo cabelos loiros e uma noite de sono gostosa foi esquecido quando a primeira pontada de dor atingiu Sasuke. Dormia sobre o ombro ferido, com Aya apoiada nele. A segunda pontada o acordou e quase acordou a menina junto, pois ele chegou a pular.
O Uchiha saiu da cama o mais rápido e silenciosamente que conseguiu, porém mal teve tempo de chegar à sua mala antes de a terceira pontada atingi-lo. Depois desta, a dor manteve-se em um nível absurdo. Ele tentou não tremer, porém era bem difícil. Olhou para o relógio, eram sete horas, ainda bem.
Vestiu-se rapidamente, porém com cuidado para não ficar com a roupa muito amassada; era uma figura pública e não podia ser visto trajando vestes desarrumadas. Assim que terminou, batidas na porta acordaram Aya, porém Naoto permaneceu dormindo; o sono dele era bem pesado. Sasuke foi até a porta.
Lá, Gaara e Naruto esperavam. O Uzumaki estava com o celular de Sasuke.
— Eu precisei atender, o Sabaku-san estava ligando bastante…
— Gaara – Gaara corrigiu. – Depois do que aconteceu ontem, pode me chamar de Gaara.
O Sabaku entrou no apartamento – que mais parecia uma casa – e foi direto até onde supunha estarem seus afilhados. Sasuke e Naruto permaneceram na entrada.
— Contou tudo a ele?
O Uchiha abriu espaço e Naruto entrou.
— Bem por cima, vocês dois não costumam falar muito por telefone…
Sasuke sorriu de canto e deu de ombros. Naruto sorriu também. Jamais imaginara ver o diabo assim tão relaxado em sua presença. Era realmente bom sentir-se próximo a ele.
Entraram e encontraram Gaara abraçando os dois pequenos. Aya acenou para Naruto, porém não largou o padrinho. O amor que ambos sentiam pelo ruivo era realmente enorme.
— Tio Naru, já conhece o tio Gaara? – Naoto perguntou.
O menino estava apoiado contra a perna de Gaara, que agora tinha Aya em seus braços. A menina mantinha a cabeça apoiada no peito dele.
— Conheço sim. Trabalhamos juntos por alguns dias.
Aya pareceu ficar extremamente feliz com a notícia e abriu aquele sorriso que Naruto estava aprendendo a amar. O Uzumaki sorriu de volta.
— Naruto, fique com eles até eu voltar. Preciso ir ao hospital.
Naruto queria muito ir com ele, mas ficar com Aya e Naoto não era ruim também. Assentiu com a cabeça e observou Gaara soltar Aya no chão e beijar o topo da cabeça de cada um deles.
— Depois eu volto.
— Tá tudo bem, tio Gaara – respondeu Naoto.
Gaara sorriu e deixou o aposento com Sasuke ao seu lado.
— E agora, o que nós vamos fazer? – perguntou Naruto, com um sorriso cobrindo seu rosto todo.
Aya sorriu de volta e correu até a cama, pegando um travesseiro.
— GUERRINHA!
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No carro de Gaara, o ruivo observava Sasuke com o canto do olho.
— Deixou Naruto sozinho com as crianças?
O Uchiha assentiu com a cabeça. A vontade de suspirar apareceu, porém há muito aprendera a suprimi-la.
— Ele foi incrível ontem. Salvou Aya. Não posso pedir nenhuma prova maior de confiança do que essa.
Gaara observou o tráfego por alguns segundos. Estavam próximos do hospital.
— Eu sei. Ele falou por cima o que aconteceu.
— Ele retirou a bala do meu ombro. Nem acredito ainda que conseguiu. Achei que ele fosse desmaiar no meio do caminho.
Gaara riu.
— Você foi cruel. Podia ter esperado até hoje, e Ino removia a bala.
— Eu precisava ver até onde ele iria. Precisava saber se era digno de confiança.
— Se não fosse, ele podia ter te matado ontem.
Sasuke assentiu com a cabeça.
— Mas não matou.
Chegaram. Sem mais nenhuma palavra sobre o assunto, os dois homens entraram no prédio alto. Gaara foi quem falou.
— Quero ver minha noiva.
— Doutora Ino está com um paciente no momento e…
— Esperaremos na sala dela.
A recepcionista assentiu com a cabeça. Não era a gentil morena que normalmente estava ali, mas sim uma ruiva. Sasuke não prestou atenção a ela, apesar dos olhares que recebia. Em menos de cinco minutos estavam na sala da loira, que os esperava ansiosa.
— O que aconteceu?! Como está seu ombro?! Naruto fez um curativo decente?!
Ela foi logo correndo até o Uchiha, que deixou seu casaco e sua camiseta serem removidos. Ino ainda não aparentava nem mesmo um mínimo sinal da gravidez, por ainda ser muito cedo.
— Ele removeu a bala.
Silêncio.
— UCHIHA SASUKE, QUAL É O SEU PROBLEMA?! COMO VOCÊ PODE DEIXAR UM HOMEM SEM QUALQUER TREINAMENTO REMOVER UMA BALA?! NÃO PENSA?!
Sasuke sentiu aqueles gritos em seu ouvido e limitou-se apenas a fitá-la com sua vazia expressão costumeira. A mulher sentia vontade de encher-lhe de tapas, porém controlou-se o melhor que pôde.
— Ele fez um trabalho razoável.
— UM TRABALHO RAZOÁVEL?! ISSO AQUI ESTÁ HORRÍVEL! E SE INFECCIONASSE?! E SE ELE ESTOURASSE UMA ARTÉRIA, UMA VEIA, E SE PREJUDICASSE SEUS MÚSCULOS?! VOCÊ NÃO PENSA?!
— Ino, não grite.
— EU GRITO SE EU QUISER! VOCÊ MERECE OUVIR GRITOS! MERECIA ATÉ APANHAR!
Ela parecia furiosa, e Gaara sorriu ao longe. Talvez fosse por ela sempre se preocupar tanto com as pessoas que ele a amasse. É, talvez.
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Saíram de lá com um pequeno papel. Neste, Ino explicava detalhadamente como refazer o curativo de Sasuke. Depois de muito xingá-lo, ela também passara-lhe uma receita para medicamentos fortes que auxiliariam com a dor. O delegado fizera-se de forte e tentara negá-los, mas por fim não tivera muita escolha além de aceitá-los.
Passaram na farmácia antes de voltarem ao Four Seasons, assim conseguiram ataduras, bandagens, anestésicos, e tudo de que o diabo necessitaria para passar os próximos dias calmamente.
— Naruto – disse Gaara.
Sasuke apenas desviou o olhar para o amigo.
— O que tem ele?
— Você confia nele.
Sasuke ficou em silêncio e assentiu.
— Já disse isso.
Gaara também assentiu.
— Você não faz isso.
— Isso o quê?
— Não confia em ninguém assim tão rápido. Você gosta dele.
— Gaara…
— Sempre soube de Suigetsu e Juugo, nunca me importei, mas nunca pensei que você pudesse realmente…
— Não gosto dele. Existe atração. Muita. Mas não passa disso.
Gaara freou bruscamente, quase causando um acidente no meio da cidade. Sasuke franziu o cenho.
— Está com um crush* perto dos meus afilhados?! Qual é o seu problema?! Você vai fazer com que Naoto e Aya apaixonem-se por ele para depois expulsá-lo da vida deles?!
— Aya e Naoto têm cinco anos. Eles nem vão lembrar do Naruto em alguns anos. E eu nem sei se vai rolar alguma coisa.
— Mas você quer usá-lo e depois dispensar. É o que você sempre faz.
Sasuke permaneceu em silêncio e suspirou.
— Gaara, esse realmente não é o melhor momento. Mas não se preocupe. Aya e Naoto sairão ilesos.
— É bom mesmo, Uchiha.
Sasuke não sabia como estava errado.
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— Uma xícara de chá?
— Sim, por favor.
Aya pegou a chaleira imaginária e serviu Naruto em um copo proporcionado pelo próprio hotel. O Uzumaki tinha a calça cor-de-rosa dela enrolada em seu pescoço “Para você usar uma manta com elegância”, ela dissera.
Sasuke observou a cena com um riso contido nos lábios. Nenhum dos três percebera que ele e Gaara já haviam retornado, e os dois homens permaneceram em silêncio.
— Hoje a tarde está agradável, não? – Naoto vestia um terno de Sasuke, que arrastava no chão devido ao tamanho. Assim como a irmã e Naruto, bebia elegantemente do copo.
— Muito agradável, senhor Uchiha – respondeu Naruto.
— Eu acho que somos todos muito chiques – comentou Aya.
— Não existem dúvidas quanto a isto, senhorita.
Bebericaram novamente do chá, e então Aya deixou sua chaleira imaginária sobre o chão.
— É, eles definitivamente vão esquecer – murmurou Gaara.
O som da voz dele, mesmo que ninguém além de Sasuke tivesse entendido as palavras, chamou a atenção dos três. Naruto ficou imediatamente corado, mas Aya e Naoto apenas começaram a rir.
— TIO SASUKE!
Ela correu até ele com o maior dos sorrisos, e começou a tagarelar sobre como Naruto era legal, e sobre como eles haviam passado a manhã inteira brincando de chazinhos e de serem ingleses.
Sasuke sorriu e a colocou no chão.
— Eu preciso ter uma conversa séria com o tio Gaara e o tio Naruto, então vocês fiquem aqui enquanto nós vamos conversar na sala ali do lado, ok? Qualquer coisa gritem.
Aya assentiu com a cabeça e voltou para o lado do irmão.
Sasuke deixou tudo sobre o chão do quarto e chamou Gaara e Naruto até a sala ao lado. Nesta, uma lareira enorme e um sofá cama repousavam, assim como uma televisão.
— Todos os dias a patrulha que passa por aqui deixará um policial para ficar de guarda comigo. Esse policial não poderá usar farda e ninguém deve vê-lo saindo do carro da polícia, então deixem-no em uma rua lateral. Pelo menos até o meu braço ficar bom. Se eles atacarem, eu não vou conseguir me defender sozinho. Devemos fazê-los pensar que estamos em minha casa de segurança, que fica do outro lado da cidade. Eu e as crianças vamos para lá hoje e saímos pelos fundos, voltando para cá. Entraremos lá apenas para sermos vistos. Quero três pessoas vinte e quatro horas lá dentro, policiais. Barulhos, brinquedos, banhos, conversas, façam tudo direitinho. Eles vão atacar eventualmente, então estejam preparados. Vão para lá em seus próprios carros todos os dias, principalmente Neji e Gaara. Eles sabem da nossa amizade e provavelmente começarão a segui-los, o que significa que não podem vir muito por aqui. Quando eles queimarem aquela casa, então eu, Aya e Naoto sairemos daqui.
Os dois assentiram com a cabeça.
— Se possível, eu gostaria que Naruto ficasse por aqui por um tempo. Eu não consigo cuidar dos dois sozinhos por enquanto, e eles gostam de você. Além disso, Gaara não pode ficar muito longe da delegacia ou eles desconfiarão.
Gaara estreitou os olhos. Naruto apenas assentiu com a cabeça, mas o Sabaku sentia que aquilo era um teste. Estava dizendo a ele, e não a Naruto, o porquê de querê-lo por perto. O Uzumaki não desconfiava por ainda não conhecê-lo verdadeiramente, porém Gaara sabia que ele nunca se explicava. Sempre que possível, dava as ordens e esperava que as pessoas compreendessem por osmose o motivo de dá-las.
Sasuke estava a se explicar. Queria convencê-lo de que não queria Naruto por perto por causa da atração que sentia por ele, mas sim por todos aqueles motivos extremamente lógicos que lhe apresentara. Aquilo apenas deixou o Sabaku mais desconfiado. Se Sasuke realmente estivesse chamando Naruto por aqueles motivos, então não os explicaria a ninguém. Simplesmente ordenaria e eles precisariam aceitar.
— Ok, Uchiha.
Sasuke estreitou os olhos, sabendo que Gaara desconfiava dele. Naruto ficou completamente perdido na troca de olhares inexpressivos, sem saber se havia um motivo específico para eles ou se os dois estavam apenas sendo insensíveis como normalmente.
Intimamente, Naruto ficou feliz por saber que Sasuke confiava suficientemente em si para deixá-lo como uma presença constante na vida dos sobrinhos.
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Chegaram no carro particular de Gaara. Naruto ficara no hotel, à espera, enquanto Sasuke levava Aya e Naoto para o que precisava ser feito. Detestava usar os sobrinhos daquela forma, mas não havia como fazer aquilo de outro jeito. Precisavam ser convincentes, ou toda a operação mostrar-se-ia desnecessária.
Assim que Sasuke chegou à sua casa de segurança, sentiu-se vigiado. Como os desgraçados sabiam sobre aquele lugar, o Uchiha sequer conseguia supor. Acreditava que teria que atrair a atenção deles com a forte visitação policial que aconteceria por ali, porém, aparentemente, eles já sabiam sobre a existência da casa. Agradeceu a todos os santos que conhecia por não ter ido para lá na noite anterior. Provavelmente haviam montado uma armadilha para ele.
Saiu do carro cuidando para que Aya ficasse escondida contra seu corpo. Naoto estava com Gaara, que tinha o mesmo cuidado. Não se demoraram na rua e logo entraram na casa, olhado sempre ao redor, em busca de um possível espião. Não viam nada, porém Sasuke sentia que tinha alguém a lhe vigiar.
Entraram. Sasuke largou Aya, mas a manteve segura pela mão. Gaara o imitou e caminharam um pouco, querendo dar a impressão de que estavam a se instalar. Pelos fundos, Chouji, Tenten e Sai entraram.
— Neji está na delegacia? – perguntou Sasuke.
Os três assentiram.
— Ok. O que está acontecendo é muito simples. Eu ainda investigo a morte de Itachi, e o que descobri me levou a uma organização nada tranquila. Eles sabem que estou chegando perto e agora me querem morto. Atacaram minha casa ontem, portanto preciso que vocês fiquem aqui enquanto eu mantenho esses dois em segurança. O mais importante: ninguém pode saber sobre essa operação.
Os três policiais assentiram com a cabeça, assim como Gaara.
— Eu vou sair pelos fundos, mas Gaara fica por mais umas duas horas. Essa casa nunca pode ficar vazia. Eventualmente descobrirão que é apenas uma fachada, mas, antes disso, precisamos ganhar tempo. Pelos próximos cinco dias, visitem-na diariamente. A partir disso, podem vir aqui apenas no período da noite, porque duvido que já não tenham descoberto até lá.
— Se formos verdadeiramente discretos, fazendo barulho de crianças e…
— Independente disso, Mitsashi, eles vão descobrir. São realmente bons.
Tenten assentiu e não voltou a falar.
— Lembrem-se: ninguém pode saber sobre a existência desses dois.
Pegou-os pelas mãos e caminhou até a porta que dava ao acesso mais escondido para saírem dali. Precisaria pegar um táxi quando chegassem a uma avenida principal, pois se negava a andar de metrô.
— Vai ficar tudo bem – disse aos pequenos.
Aya assentiu, acreditando piamente nas palavras de Sasuke. Naoto não tinha tanta certeza.
*Crush: “queda”. É, tipo, aquela pessoa de quem a gente gosta, mas não ama, sabe? Aquela atração louca do tipo: “nossa, que vontade de ficar com ele”, mas que não passa disso.
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