Obsesso
24 23. Relógio de espião
Notas iniciais
Sasuke não via ou falava com Naruto desde quarta-feira, quando tiveram aquela briga estranha. Não queria suspeitar do loiro, pois aquilo significaria que tudo o que pensara até o momento estava incorreto, e Sasuke teria que reiniciar sua investigação do zero. Suspirou, rolando na cama. Não dormia direito há dias. Shikamaru ainda não tinha respostas concretas a respeito do assassino, e Naruto não lhe dissera nada sobre aquelas roupas extremamente suspeitas. Por que o Uzumaki agira daquela maneira? Se não tinha absolutamente nada a ver com a morte de seu irmão, então por que começara aquela estranha briga? E o que diabos Karin fazia no meio daquilo tudo? Ela não conseguia ficar longe de problemas nunca?
Olhou para o relógio. Sete horas da manhã. Sábado. Não qualquer sábado, é claro. Ansiava por aquele dia tanto quanto o receava. Seria um dia realmente longo.
A porta do quarto foi aberta devagar, e logo dois pares de pés pisoteavam o quarto do Uchiha. Sasuke sorriu de leve. Sabia que aquele dia seria diferente. As crianças içaram-se à cama com um pouco de dificuldade, e depois se jogaram sobre Sasuke, rindo e gritando:
— ACORDA, TIO SASUKE, ACORDA!
— Bom dia.
Sasuke sentou-se na cama, e Aya e Naoto o encaravam com o maior dos sorrisos, como se possuíssem um segredo nacional que ninguém além deles poderia conhecer.
— É NOSSO ANIVERSÁRIO! – gritaram juntos, rindo.
Sasuke sorriu e assentiu com a cabeça.
— Parabéns.
Os gêmeos pularam sobre o tio e foram recebidos com um abraço bem mais caloroso do que normalmente. Aproveitaram para ficar ali mais um pouquinho só, porque Sasuke quase nunca abraçava assim. O Uchiha acabou por afastá-las depois de beijar o topo a cabeça de cada uma.
— Então, o que desejam fazer hoje?
— Nosso presente, tio Sasuke, o presente! – lembrou Aya.
Sasuke soltou outra risada nasalada e levantou-se. Os pequenos seguiram o tio com os olhinhos curiosos, e viram-no voltar com duas caixinhas. Tentaram esconder o desânimo. Era tão pequeno…
— O que é? – perguntou Naoto.
Ele queria uma câmera para tirar fotos, porque amava fotos, mas não achava que uma câmera boa caberia numa embalagem tão pequenina.
— Abram.
Os dois abriram os pacotes e encontraram dois relógios. O de Aya era rosado, o de Naoto preto.
— Relógio? Mas eu nem sei ver as horas! – reclamou a menina.
— Não é só um relógio.
— Não? – Naoto perguntou confuso.
Sasuke negou com a cabeça, e Aya mordeu a pulseira bem forte.
— Ah, tio Sasuke, não é de comer não.
Sasuke pegou os objetos. Não sabia bem o porquê, mas estava de bom humor, apesar de tudo. Pensara que estaria ranzinza, mas ansiara pelo momento de entregar os presentes a eles.
— Não é de comer. É um relógio especial feito por Shikamaru. É extremamente tecnológico, com um sistema de GPS instalado que envia um sinal de emergência sempre que o botão indicado aqui é pressionado.
Os pequenos piscaram duas vezes, confusos.
— É um relógio… caro? – tentou Naoto, que não entendera absolutamente nada.
— Não. É um relógio muito especial.
Sasuke era péssimo com metáforas infantis. Suspirou, tentando relembrar de alguma que pudesse fazer sentido para eles.
— É um relógio de James Bond.
— Quem é esse? – perguntou Aya.
“O que Itachi fazia com que eles assistissem?!”
— De espião. Um relógio de espião.
Os olhos brilharam, e os pequenos finalmente entenderam. Sasuke pedira a Shikamaru para fazer aqueles relógios alguns dias atrás. Pretendia entregá-los aos sobrinhos de qualquer maneira, porém não imaginara que seria assim tão cedo. Eram iguais ao que Itachi tinha e não usara.
— E o que ele faz?
— Lança lasers? – perguntou Naoto, quase pulando de animação na cama.
— Não, não lança.
— Ah…
— Mas, se vocês apertarem esse botãozinho aqui – Sasuke mostrou a eles o único botão que existia no objeto –, então eu recebo uma mensagem que me diz onde vocês estão e posso encontrá-los. Se sentirem medo, só precisam apertar o botão.
— A gente aperta e você aparece? – perguntou Aya, interessada.
— Uhum.
A menina pegou o seu e apertou o botão. Imediatamente o celular de Sasuke apitou.
— Viu? Uma mensagem.
Sasuke mostrou aos sobrinhos. Dois pontos apareciam na tela. Um era Aya (o rosa), outro Sasuke (o azul). Abaixo dos nomes, “dez centímetros” estava escrito.
— E quando a gente pode apertar?
— Sempre que ficarem com medo. Se algum estranho falar com vocês na rua, se vocês estiverem na escolinha e alguma coisa estranha acontecer… se vocês se perderem de mim. Mas usem só se for necessário, ok?
Aya assentiu com a cabeça, e Naoto também.
— Sabe, tio Sasuke, acho que eu ainda prefiro o laser…
Sasuke riu e afagou a cabeça dele.
— Vou falar com Shikamaru sobre isso.
O rosto do menino se iluminou. Aya sorriu e caminhou até parar no colo de Sasuke, que fez o melhor que pôde para acolhê-la. Era aniversário dela, e Aya teria tudo o que quisesse naquele dia.
— Eu acho que a gente precisa de um quarto novo – disse ela.
Naoto imediatamente começou a assentir com a cabeça.
— Nosso quarto é feio, tio Sasuke.
— E a gente pode ter um quarto só – complementou Aya.
— Tudo bem. Nós passamos numa loja pra vocês escolherem parede e camas e tudo o mais ainda hoje.
Os olhinhos brilharam, e Naoto foi sentar-se ao lado de Aya no colo de Sasuke. A menina armou um bico.
— Imitão! Só veio porque eu vim!
— Sem brigas, Aya – repreendeu Sasuke.
Naoto sorriu e mostrou a língua para a irmã, abraçando Sasuke em seguida.
— Ok, ok. Vamos pra loja agora, já?
— Não! – negou Aya. – Primeiro a gente tem que ir pro parque!
— Parque?
— A Jes foi no parque com a mãe dela, e eu quero ir também.
— É, tio Sasuke, ir na montanha-russa! – concordou Naoto.
Sasuke detestava aqueles lugares.
— Vocês têm certeza…
— É nosso aniversário!
— Ok. Ok.
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Naruto acordou com dor de cabeça, e percebeu imediatamente que não conseguiria passar mais um dia em casa. Karin fora novamente a Worcester e provavelmente estava de ressaca com Kiba e Shino. Queria tanto poder estar com eles… mas, claro, Sasuke o proibira.
O Uzumaki levantou. Não importava o que acontecesse, em casa não ficava. Sentia-se como um tigre enjaulado. Precisava mexer o corpo, qualquer coisa. Matriculara-se em uma academia que ensinava boxe há um dia, mas começaria apenas na segunda-feira. Até lá, precisaria ir a algum outro lugar. Estava enlouquecendo.
–-//--//--//--//--//
— Tio Sasuke, eu quero ir no Barco Viking! – pediu Aya novamente, puxando o braço dele.
— Você é muito pequena. Vai naquele lá com o seu irmão.
— Mas aquele é de criança! Eu não quero ir no carrossel!
Sasuke não mudou a expressão, apenas continuou indo com a menina em direção ao brinquedo que Naoto queria.
— Já disse que é muito nova ainda.
— Mas eu quero! É meu aniversário, eu quero!
— Vai ficar querendo.
— Mas tio Sasuke…!
Sasuke parou de andar.
— Aya, você vai começar a chorar e vai ficar com medo. Além disso, precisa ser grande pra entrar nele.
— Se eu disser que sou sua sobrinha eles deixam.
Sasuke sabia que era verdade.
— O que eu já te disse sobre isso? Não pode ficar falando pra qualquer um quem você é.
A menina formou um bico.
— Mas você é herói! Se eu disser que sou eu, aí eu vou ir no brinquedo!
— Você é nova. Anda, vamos.
A menina formou o mesmo bico em seus lábios, mas acabou cedendo e foi com o tio até o carrossel. Os brinquedos eram próximos, e ela conseguia ver as pessoas se divertindo no Barco Viking. Como queria estar lá, balançando com elas…!
— Quer vir nesse também?
Ela negou com a cabeça e Sasuke colocou Naoto no brinquedo. Ela sorriu e viu o ticket que precisava saindo do bolso do tio. Sem pensar muito, estendeu sua mãozinha pequena e o agarrou. Sasuke voltou para seu lado e ela se negou a dar a mão a ele. O Uchiha deu de ombros e manteve o olhar sobre Naoto, que sumia eventualmente devido ao movimento do brinquedo.
Enquanto Sasuke estava ocupado olhando Nao, Aya saiu correndo.
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Aya chegou ao brinquedo e pulou para conseguir entregar o papelzinho ao homem. Ele a encarou e devolveu o ticket.
— Você é muito pequena, não pode ir.
— Eu posso sim, o titio deixou.
— Seu tio, é? E quem é seu tio?
— Uchiha Sasuke.
O adolescente riu, descrente.
— E eu sou o Papa.
A menina pareceu meio confusa.
— Eu não acho que você seja. Por que o Papa estaria trabalhando aqui?
O garoto revirou os olhos.
— Vaza, menina.
— Eu vou contar pro tio Sasuke e ele vai ficar brabo com você!
— Se você é sobrinha dele, então cadê o seu tio?
A menina apontou para o carrossel. O garoto olhou para lá, crente de que nada veria, e engasgou ao se deparar com o diabo.
— Quer que eu vá lá e diga pra ele que você tá sendo malvado comigo?
— Peça pro seu tio falar comigo, e eu te deixo entrar.
Aya era mais inteligente do que aquilo. Pegou a carteirinha “que provava que ela era gente”, como dizia papai, e entregou ao homem.
— Uchiha. Viu ali? Titio tá ocupado e ele não gosta que incomodem ele. Quer mesmo que eu chame?
O garoto olhou para ela e para os documentos. Não sabia por que a menina carregava-os, visto que eles deviam ser guardados por adultos, mas era a sobrinha do diabo, e não era ele quem discordaria dela. Entregou à garota os documentos.
— Não! Não precisa. Passa, passa logo.
Aya sorriu vitoriosa e passou. Era seu aniversário, e naquele dia ela podia tudo.
Caminhou por entre as muitas pessoas e viu que havia um lugar vago mais para frente. Sorriu e caminhou até lá pé ante pé, cuidando para não manchar o lindo vestido rosa que o tio permitira-lhe usar naquele dia. Estava frio, mas o casaco ajudava. E Aya estava feliz demais para realmente sentir a falta de calor.
Acomodou-se e esperou, ansiosa, o brinquedo começar. Meio minuto depois de estar pronta, um garoto bonito e de cabelos loiros sentou ao lado dela. Ele sorriu para a menina, que não sorriu de volta.
— Hey! Você não é muito nova pra estar aqui?
— Meu titio deixou.
— Não sente medo?
— Não posso falar com estranhos.
Aya voltou a olhar para frente, e tentou não encarar o loiro bonito ao seu lado.
— Verdade, mas, sabe, não precisa sentir medo. Eu sou um estranho legal. Meu nome é Naruto.
A menina o encarou novamente, e então começou a rir. Naruto franziu o cenho, confuso.
— O que foi?
— Você não é muito velho pra esse brinquedo?
Naruto armou um bico infantil – extremamente parecido com o de Aya – e a repreendeu com o olhar.
— Eu não sou velho! Tenho só vinte e seis, ok?
— A idade do meu titio!
Naruto sorriu.
— Posso saber seu nome?
— Aya – apresentou-se ela, sorrindo.
Naruto sentiu seu sorriso vacilar por meio segundo, e então apertou a mão que lhe era estendida. Era só o que lhe faltava. Por que justamente aquele nome?
— E seu titio realmente deixou você vir aqui?
A menina mordeu o lábio e olhou para o lado. Com sua voz mais meiga, recomeçou a falar.
— Bem… ele não disse, mas eu sou grande já. Aí eu posso.
— Eu não sei não…
— Depois que eu voltar eu vou mostrar pra ele que eu posso!
— Ok…
Naruto realmente não queria ser aquele tio. Quando era pequeno, ele também costumava aprontar com Jiraya. Roubava dinheiro e fugia, para depois voltar com o brinquedo que pedia há semanas e o avô ainda não comprara. Jiraya brigava com ele com todas as suas forças, e depois acabava cedendo quando Naruto chorava, pedindo desculpas e falando o quanto sentia falta da mãe. Verdade fosse dita, ele mal se lembrava dela. Sabia o que acontecera no último dia, mas não muito além daquilo. Já fazia bastante tempo.
— Você é muito bonita sabia?
— Sou sim! – a menina concordou. – Tenho os olhos do papai.
Naruto sorriu. Ela tinha olhos negros como a noite. Eram extremamente parecidos com os de Sasuke. O Uzumaki balançou a cabeça, sem querer se lembrar dele.
— Eu também tenho os olhos do meu papai, sabia?
— É mesmo?! – ela se surpreendeu, contente. – E ele era bonito que nem você?
Naruto riu ainda mais com o comentário.
— Bonito que nem eu é difícil, você sabe. Mas ele era muito bonito sim.
— Não é tão difícil. Meu titio é mais bonito que você.
— Ele é?
— Uhum. Ele é o mais bonito do mundo todo. Ele e o papai.
Naruto acariciou os cabelos negros dela, e Aya sorriu ainda mais.
— Aposto que são sim. Os dois tão aqui com você?
Aya assentiu com a cabeça.
— O papai tá aqui. – Apontou para seu coração. – E o titio tá esperando lá fora.
Naruto sentiu os olhos marejarem. O pai dela morrera?
— E o seu papai? Tá aqui?
— Sim, Aya-chan. Meu papai e minha mamãe tão aqui, ó.
Naruto apertou seu peito também, e a menina abriu o sorriso mais lindo que Naruto já vira.
— Minha mamãe também tá aqui dentro.
Órfã? Daquele tamanhinho e já era órfã? Provavelmente nunca se sentiu tão identificado com uma criança como se sentia por ela. Quis abraçá-la, mas sabia que seria estranho se o fizesse.
— Eles sempre vão estar aí, sabia? No seu coraçãozinho. Te protegendo.
A menina assentiu. E então ficou um pouquinho triste.
— Eu não falo com o titio, porque ele fica tristinho quando a gente fala do papai. Mas eu queria que ele voltasse. Você para de querer isso?
Naruto negou com a cabeça.
— Nunquinha. Mas fica melhor, sabe? Porque você aprende que, mesmo que ele não possa te abraçar, ele sempre vai te proteger. E sabe o que você precisa fazer?
— O quê? O quê?
— Precisa deixar mamãe e papai orgulhosos. Precisa imaginar que eles tão sempre olhando pra você, e que eles te amam muito.
Aya abriu o sorriso de antes, aquele que encantou Naruto, e ela segurou na mão dele.
— Eu não posso falar com estranhos, mas você é legal, Narulo. Eu deixo você segurar na minha mão se ficar com medo.
— Deixa, é?
— Uhum.
O barco começou a se mover. Um balançar leve. Aya riu e agarrou-se à mão do loiro.
— UAU! É TÃO RÁPIDO!
Naruto riu sem graça. Aquilo não daria certo. Segurou na mão dela e a puxou para mais perto.
— Que foi? – perguntou a menina.
— Acho que eu to com medo.
Aya sorriu e apertou a mão de Naruto, sentando-se bem pertinho dele para protegê-lo. Foi quando a velocidade aumentou, e quem começou a sentir medo foi ela. O barco ia… voltava… sempre mais rápido. Em determinado ponto, o ia-volta era tão rápido que Aya chorava, agarrada a Naruto.
— Calma, Aya-chan, tá acabando.
Naruto só queria que o balançar acabasse logo. Abraçou Aya de lado, e ficou naquela posição por vários minutos.
–-//--//--//--//--//
— Gostou? – perguntou Sasuke, quando Naoto saiu do carrossel. O menino assentiu com a cabeça, animado, e então paralisou.
— Tio Sasuke, cadê a Aya?
Sasuke olhou para o lado, e a menina não estava ali. Sentiu o desespero começar a tomar conta de si, e agarrou a mão de Naoto, preocupado. Onde ela estaria? Será que precisara ir ao banheiro e esquecera-se de avisá-lo?
— Calma, Naoto. Vai ficar tudo bem. A mana está em algum lugar por aqui… vamos olhar no banheiro, sim?
Com o coração na mão, Sasuke seguiu até o banheiro.
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O barco finalmente parou, e Aya chorava contra o peito de Naoto.
— Calma, Aya-chan, já parou. Viu? Acabou.
A menina ainda chorava. Ela engatinhou para o colo dele, e Naruto saiu com ela no colo. Olhou ao redor, procurando pelo tal tio da menina, mas não viu ninguém desesperado tentando arrancá-la de seus braços.
— Aya-chan – chamou.
Ela descolou a cabeça do ombro dele apenas para olhar ao redor.
— Cadê seu tio?
— No carrossel com o mano.
— Ok. Vamos ao carrossel, sim?
Ela assentiu com a cabeça e voltou a apoiar a cabeça na curva do pescoço dele, assustada. Por que aquilo balançara tanto?! Era para ser divertido, não mortal. Sentia que tinha sorte de estar viva.
Naruto era quentinho. Não sabia por que confiara nele tão rápido – normalmente era bem arredia com estranhos –, mas ele tinha aquele jeito de conversar com ela que era bom. Era como o papai costumava falar – carinhoso e querido, não grosso e rápido como o tio Sasuke – e ela sentia muita falta daquilo. Das conversas que apenas ela e Itachi tinham.
— Aya-chan, quem é o seu titio?
A menina desgrudou novamente o rostinho do pescoço de Naruto e olhou ao redor. Franziu a sobrancelha. Tio Sasuke não estava ali.
— Ele não tá aqui, tio Narudo…
— Naruto – corrigiu.
— Narulo.
— Naruto.
— Narugo.
— Só Naru tá bom, ok?
A menina assentiu. Naruto não entendia como ela conseguia dizer o “t” de “tio”, mas não o “t” de seu nome. Naquele momento, porém, aquilo não era importante.
— Tem um celular? A gente pode ligar pra ele.
A menina negou com a cabeça.
— Pode me dar, Aya. Eu não vou roubar não. Sou um policial. Você sabe o que é um policial?
A menina assentiu com a cabeça, animada.
— Um policial é um herói! Papai era um, e o titio também é! Eles lutam contra os homens maus pra gente poder dormir bem de noite.
Naruto sorriu e fez um sinal de positivo com a cabeça.
— Isso mesmo. Você sabe onde o titio trabalha? Aí eu posso ligar pro trabalho dele e pedir o número.
— O tio Sasuke me deu um relógio de espião hoje. Eu aperto aqui – A menina apertou –, e ele aparece!
Sasuke. Ela dissera, ele tinha certeza.
— Tio Sasuke? – perguntou Naruto.
A menina assentiu com a cabeça. Foi como se uma luz se formasse na mente de Naruto. Aquela era a Aya de Sasuke? A garota que Naruto pensara ser a namorada quase noiva do Uchiha na verdade era… não. Não podia ser.
— Seu papai era Uchiha Itachi?
A menina abriu o maior dos sorrisos.
— Conhecia meu papai?
Aquilo não podia ser real. Naruto colocou Aya cuidadosamente no chão e segurou a mão dela. Ainda tentava entender o que era tudo aquilo. Sasuke tinha uma sobrinha?! Ele estava criando uma garotinha?! Como podia alguém tão insensível quanto ele fazer aquilo?!
Além da incredulidade, havia a vergonha. Sentira mesmo ciúmes de Aya? Dessa Aya?
–-//--//--//--//--//
Naoto agarrava Sasuke, preocupado, e tentava não chorar. Aya usara o sinal do medo. Tio Sasuke dissera que aquele sinal só podia ser usado quando o medo fosse muito grande, e Aya o usara.
Sasuke nem sabia se ainda tinha coração; a adrenalina era muita e não sentia nenhuma parte de seu corpo. Estava desesperado. Observou novamente a setinha no monitor do celular. Estava a cinco metros dela. Parou de correr e olhou ao redor, assustado, em pânico, querendo ter aquela garota em seus braços o quanto antes.
Mataria o desgraçado que ousara tocar nela. Mataria em frente a todas aquelas pessoas, se fosse o caso.
Viu a cabeleira negra ao lado de um alto homem vestido de azul. Aya soltou a mão do homem e tentou correr, mas ele a pegou de supetão, jogando-a sobre os ombros. Aya gritou. Ele ouviu dali o grito, e não pensou mais. Não conseguia. Soltou Naoto e correu. O homem largava Aya no chão. Sasuke veio por trás, chegando a ele com um chute nas costas que o fez voar longe.
Aya gritou de novo.
— Ele te machucou? Você tá bem?
Sasuke abaixou-se em frente a Aya, que estava apavorada.
— Tio Sasuke, o que você fez?!
— Eu… ele…
Sasuke olhou para o homem que se levantava, e não conseguiu conter a surpresa ao reconhecer Naruto.
— Uzumaki?
Naruto conseguira amaciar a queda com as mãos, porém estava todo ralado. Sentou-se, acariciando os braços machucados. Aya saiu correndo em auxílio dele.
— Você tá bem, tio Naru? O tio Sasuke te machucou?
— Eu to bem, Aya-chan. Seu tio não me machucou não.
Naoto apareceu correndo e agarrou a mão de Sasuke, que apertou os dedinhos dele entre os seus. O que era aquilo?!
— Aya gritou. Você a pegou no colo, e ela gritou.
— A gente tava brincando, tio Sasuke! – falou a menina.
— Mas você apertou o botão, Aya! Eu falei que era pra apertar quando sentisse medo!
— Ou quando eu me perdesse. Tio Naru me levou no carrossel pra te procurar, mas cê não tava. Aí eu tive que apertar.
Sasuke balançou a cabeça negativamente, confuso.
— Como você sumiu? Onde que você foi, menina?!
Aya formou um bico e olhou pro lado.
— Eu queria ir no Barco Viking…
— Eu disse que não podia! Disse que era perigoso, você não escuta? Tá machucada? Balançou muito?
Sasuke ajoelhou-se em frente a ela e começou uma busca meticulosa por ferimentos. Naruto nunca pensara que o veria tão assustado assim. Aya soltou-se das mãos dele e cruzou os braços, irritada.
— Eu tô bem. O tio Naru me abraçou, mas balançou muito…
— Como conheceu ele?
— Ele tava no Barco do meu lado. A gente ficou conversando, e aí ele disse que ia me levar até você, e eu deixei. Mas você não tava, aí apertei o botão.
Sasuke sentiu o desespero crescer dentro de si. Aya simplesmente começara a falar com Naruto e permitira que o Uzumaki a levasse a qualquer lugar? Estava louca? E se fosse a Akatsuki? E se fosse um sequestrador? Um assaltante? Um aproveitador que quisesse dinheiro?
— O que eu disse sobre falar com estranhos? Itachi te explicou mil vezes que você não pode sair por aí falando seu nome, Aya! Podia ter falado com um sequestrador, ou um pedófilo!
A menina arregalou os olhos, assustada, e se afastou de Naruto.
— O tio Naru é mau?
— Não, Aya, não o Naruto. Mas e se fosse outra pessoa? Você não pode falar com estranhos assim, alguém pode tirar proveito de você ser criança!
— Mas era o tio Naru, tio Sasuke. Não precisa de tudo isso, era só ele.
— Mas você não o conhece!
— Mas ele é herói, que nem você e o papai. Ele trabalha com você, como o tio Gaara.
— Sim, mas você não pode acreditar em todo mundo! E se fosse mentira?
Novamente, os olhos negros foram arregalados.
— Tio Naru, você mentiu?
— Não, Aya, ele não mentiu. Droga, por que você não entende?!
Sasuke sentia medo. Sasori podia ter sido aquele a falar com ela, e talvez Aya se transformasse em mais uma das marionetes humanas dele. Ou então, talvez, Deidara. Segundo Itachi, Deidara gostava de explodir pessoas. Ou Kakuzu, que a venderia a qualquer um. O pânico que o dominava só de pensar na sobrinha nas mãos de qualquer um deles o dominava como nenhum outro sentimento.
— Não grita comigo, tio Sasuke – reclamou ela, sentindo os olhos marejarem.
— Aya-chan, hey.
Naruto se abaixou em frente a ela, e Sasuke levantou. Naoto apoiava o tio. Aya não devia falar com estranhos, nem mesmo se eles fossem bonitos como Naruto. Papai os proibira, e ela sabia daquilo.
— Tio Sasuke gritou comigo – reclamou ela, chorando.
— Não chora, querida.
Naruto limpou as lágrimas que escorriam do restinho redondo e sorriu.
— Você sabe o que o tio Sasuke faz, não sabe?
Ela assentiu com a cabeça.
— Ele é um herói.
— Isso. E o que os heróis fazem?
— Eles param os homens maus que querem machucar as pessoas.
— Isso mesmo. Mas os homens maus não gostam dos heróis, gostam? – Aya negou com a cabeça, esfregando os olhinhos. – E os heróis são muito fortes pros homens maus pegarem eles, né? – Novamente, ela assentiu com a cabeça. – E o que eles fazem pra atingir os heróis?
— Eles pegam a namorada dele.
— Eles pegam alguém que o herói ama – corrigiu Naruto. – Quando você sumiu, o tio Sasuke ficou com medo de que fosse um homem mau quem te pegou, pra machucar ele. Porque ele te ama, e os homens maus também sabem disso. Por isso que você não pode falar com estranhos ou fugir assim, entende?
Ela assentiu.
— Porque, se eu fugir, o tio Sasuke não vai poder me proteger dos homens maus?
Naruto abriu o maior sorriso que Aya já viu, e a menina soube que estava certa.
— Isso mesmo.
Ela olhou para Sasuke, que encarava Naruto como se nunca antes o tivesse visto, e correu até ele, abraçando as pernas torneadas.
— Eu também te amo, tio Sasuke. Desculpa por fugir.
Sasuke a pegou no colo e abraçou. Sobre o ombro da menina encarou Naruto, que mantinha aquele sorriso que Sasuke não entendia direito ainda. Era um sorriso lindo.
Aya deixou-se ser abraçada pelo tio e o abraçou de volta. Naoto mantinha um olhar desconfiado sobre Naruto, mas admitia que entendia bem melhor a situação toda agora. Abraçou a perna de Sasuke que estava ao seu lado também, e escondeu-se atrás dele.
Sasuke soltou Aya e caminhou até Naruto. Estendeu a mão para ele.
— Obrigado por cuidar dela.
Naruto apertou a mão.
— Não foi problema algum.
Aquele toque foi diferente. Sasuke viu Naruto de forma diferente. O Uzumaki tinha aquele dom que Itachi também tinha – o de se comunicar com Aya. Ele nunca conseguiria fazer com que ela o entendesse, mas Naruto o fizera com uma maestria incrível.
— Tio Naaaaru! – chamou Aya, rindo boba ao lado de Naoto.
— Que foi?
— Sabia que hoje é meu aniversário?
Naruto arregalou os olhos o máximo que conseguiu e abriu o sorriso mais contente que tinha. Abaixou-se, animado, e abriu os braços, esperando um abraço.
— Mas isso é muito legal, Aya-chan! E quantos anos você tá fazendo?
Aya correu e o abraçou. A menina ficou ali um pouquinho a mais, e depois se afastou.
— Eu tenho uma mão cheia!
Ela mostrou os cinco dedos, e Naruto fingiu-se de surpreso de novo.
— Tudo isso? Eu achei que você tinha beeem menos. É toda pequeninha assim.
— Eu sou grande! – protestou a menina.
Naruto negou com a cabeça.
— Toda pequeninha assim. Toda miúda.
Ele começou a fazer cócegas, e Aya riu, tentando se soltar das mãos dele. Naoto observava a cena de trás de Sasuke, sentindo uma vontade oculta de ir brincar junto. Mas, diferente de Aya, ele era mais retraído e não brincava com qualquer um. Estendeu os braços, querendo que Sasuke o pegasse no colo. O Uchiha o fez, mas ainda mantinha o olhar sobre Aya e Naruto. A cena era tão bonita.
— Eu quero tirar foto, tio Sasuke.
Haviam deixado a câmera em casa, e Sasuke estendeu seu celular para o sobrinho, que enquadrou e tirou a foto da irmã com Naruto.
— Tem foto de frente também – ele disse.
Naoto apertou o botão de inversão de câmera e sorriu. Estendeu o bracinho, e Sasuke o ajudou.
— Sorri, tio Sasuke.
Sasuke não sorria em fotos. Ele tentou, e saiu um quase sorriso.
— Eu acho que preciso pagar um chocolate quente pra vocês dois. Fazer uma mão cheia é muita coisa. Será que o tio Sasuke deixa?
Aya olhou para o tio com os olhos brilhando.
— Você deixa, né, tio Sasuke? Deixa o tio Naru pagar um chocolate pra mim e pro Nao?
— É feio gastar o dinheiro dos outros, Aya.
— Tecnicamente, o dinheiro é seu, lembra? – falou Naruto, com um sorriso.
Sasuke não sabia qual era o interesse dele em sua família, e tentou sentir perigo ou más intenções vindas do loiro, mas não sentiu nada. Aquilo não fazia sentido.
— Quer chocolate quente, Naoto? – perguntou Sasuke.
O menino assentiu com a cabeça, e Sasuke acabou dando de ombros.
— Se eles querem…
Aya abriu o maior sorriso e Naruto também. O Uzumaki levantou a mão para a menina bater, e Aya pulou para fazer aquilo. Ela gostava de Naruto, e Naruto gostava dela.
Sasuke passou o caminho inteiro com os olhos presos em Naruto, tentando ver se ele tentava machucar Aya, mas a verdade era que ele não a via assim tão feliz desde que Itachi morrera. Pensou em levar os sobrinhos embora – provavelmente a Akatsuki estava a observá-los –, porém já era tarde, e Sasuke não conseguiria arrancar aquela felicidade de Aya. Não depois de tudo o que ela já passara.
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