Obsesso
14 13. Passado infeliz
Notas iniciais
Shino foi quem acordou mais dolorido; dormira meio sentado, com Kiba em seu colo. Não era a melhor posição para se passar a noite. Foi também o primeiro a acordar, e riu com a cena ao seu redor. Kiba estava com um pé no rosto de Naruto, que tentara ocupar o colchão inteiro. Karin colocara suas pernas sobre as do loiro, e estava deitada em uma estranha diagonal.
Era uma cena feliz, ele poderia dizer. Ou quase isso.
Empurrou Kiba para o lado e deitou-se perto dele. Suas costas pareceram gritar em alívio, e o moreno aconchegou-se nos braços de Kiba. Agora sim podia voltar a dormir.
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— Tio Sasuke!
Dois pequenos projetos de gente vieram correndo de encontro ao Uchiha. Sasuke levantou seus lábios no que ele pensava que era um grande sorriso – não era realmente – e abaixou-se, abraçando ambas ao mesmo tempo.
— Tudo bem?
— Sim! Papai Noel vai vir hoje, sabia?! O papai disse que ele vinha.
Aya sorria de orelha a orelha, e Sasuke olhou para o irmão, que estava sentado no sofá, segurando o riso. Itachi deu de ombros e bebeu mais um gole de gemada, fazendo Sasuke rir também.
— E aí, Sasuke – cumprimentou Shikamaru.
Sasuke apenas assentiu com a cabeça, indo sentar ao lado do irmão segundos depois. Aya e Naoto correram para brincar com Ino, que parecia tentar convencer Gaara a ter filhos também.
— Festa agitada.
Itachi riu. Chamara todos os seus companheiros da delegacia – muitos não tinham família e, consequentemente, nenhum lugar melhor para estar.
— Eu, diferente de você, sou um cara legal e sociável.
Sasuke revirou os olhos, mas sorria. Com Itachi, normalmente sorria.
— Eu sou um cara legal, Itachi. Um amor de pessoa. E você está gastando nosso dinheiro em comida pros outros.
Itachi ergueu uma sobrancelha, e então gargalhou.
— Claro, Sasuke, porque nós precisamos nos preocupar tanto com dinheiro.
Sasuke sorriu de volta e levantou-se momentaneamente, indo buscar um copo de uísque. Não demorou para voltar, e recebeu um olhar repreensivo do irmão.
— É Natal, sabe? Você devia estar bebendo gemada.
— Não gosto desse negócio. Prefiro o bom e velho uísque.
Itachi deu de ombros, e logo Aya e Naoto apareceram correndo.
— Papai, papai, papai! O Papai Noel vai demorar muito?
Itachi pegou Aya no colo e Naoto sentou-se entre o pai e o tio.
— Eu acho que ele não vai mais demorar muito não. Vocês acham que merecem presentes ou carvão esse ano?
— Presentes, presentes!
Itachi beijou os cabelos negros da filha, e Aya apoiou a cabeça no peito dele.
— Eu amo vocês, sabiam? Os três.
Itachi sorriu para Sasuke, que se limitou a revirar os olhos.
— Eu também te amo – Aya murmurou, abraçando o pai.
— Eu também, pai!
Naoto juntou-se à irmã no colo do mais velho e Sasuke sorriu para a cena. Ele também amava Itachi. Amava muito, muito mesmo.
— Tio Sasuke!
Sasuke acordou num pulo, e sua mão foi involuntariamente para a cintura, mas a arma não estava lá. Aya o encarava um pouco apreensiva, e ainda vestia seu pijama.
— Tá tudo bem?
Sasuke suspirou e caiu para trás, mas assentiu com a cabeça. A falta que Itachi fazia era quase insuportável naquele momento, mas ele estava bem. Ou tão bem quanto poderia estar num momento como aquele.
— Se tá tudo bem, por que você tá chorando, tio Sasuke?
Sasuke arregalou levemente os olhos e levou a mão direita até sua bochecha, que realmente estava molhada de lágrimas. Sentiu vontade de chorar ainda mais quando percebeu aquilo, e era exatamente o que teria feito se não fosse tão orgulhoso.
— Não é nada, Aya.
O tom de voz monótono estava novamente presente, e a menina estendeu os braços, pedindo para o tio a colocar em seu colo.
Sasuke dormira sobre sua escrivaninha, trabalhando, e estava com as costas doendo, mas a pegou no colo mesmo assim. Limpou as lágrimas em seu rosto e percebeu que chorara bastante. Aya ainda o encarava.
— Eu sinto falta do papai também.
Sasuke expressou sua confusão com um franzir de sobrancelhas, e Aya o abraçou. Ele retribuiu ao abraço, sem saber o que mais fazer.
— Você disse o nome dele quando tava dormindo – ela sussurrou.
Sasuke soltou uma risada seca, sem humor. Previsível. Ele não conseguia se controlar quando dormia, e as emoções estúpidas conseguiam sempre achar um jeito de incomodá-lo.
O Uchiha deixou a sobrinha acomodar-se em seu peito e pegou o próprio celular. O escritório era iluminado apenas pela luz do abajur, e parecia que ainda era noite do lado de fora. Olhou para o relógio; quatro horas da madrugada do dia doze de janeiro, domingo.
— Aya, o que está fazendo acordada a essa hora?
Mas a menina não respondeu. Quando Sasuke a olhou, percebeu-a dormindo tranquilamente em seus braços.
Ele pegou a sobrinha no colo e a menina o abraçou, sem acordar. Carregou-a até o quarto, e viu Naoto dormindo na cama dela. Sorriu, mesmo sem perceber, e a deitou cuidadosamente sobre os lençóis confortáveis.
Sasuke já estava quase na porta quando ela o chamou.
— Tio Sasuke?
— Sim?
— Eu amo você.
O Uchiha sentiu o peso daquelas palavras e saiu do quarto sem responder. Aya já dormia novamente e nem sentiu falta da resposta, mas Sasuke sentiu que falhara com ela ao não dizer nada. Entretanto, ele não fazia a menor ideia de como responder a isso.
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Estavam no portão. Karin vestia sua saia e um camisetão que Naruto lhe emprestara. Não era a melhor combinação, mas era tudo o que ela tinha naquele momento. Seus sapatos estavam perdidos em algum lugar daquela cidade, e ela nunca mais os veria.
— Obrigada por me deixarem ficar, de verdade. Vocês dois são anjos.
Karin abraçou Kiba e Shino.
— Bem, o Shino é. O Kiba é só mais um cachorrinho que apanhou no Xbox de mim.
Kiba estreitou os olhos, falsamente irritado.
— Como eu já disse, foi pura sorte, ruiva.
Karin sorriu para eles e entrou no carro de Naruto. O Uzumaki abraçou os dois companheiros e sorriu um pouco constrangido.
— Obrigado caras. Eu não sabia mesmo o que fazer com ela.
Kiba sorriu e abraçou Naruto rapidamente.
— Ela só parece meio perdida, mas acho que é uma pessoa boa.
Shino também concordava, e Naruto sentiu-se mais tranquilo com aquilo. Despediu-se brevemente e entrou no carro. Karin encarava suas mãos.
— Obrigada, Naruto. De verdade.
Ele assentiu com a cabeça.
— Disponha, ruiva.
— Não, sério. Eu… eu não costumo ter muita sorte, sabe? E eu nunca pensei que pudesse encontrar alguém tão legal em um lugar como esse. Ontem, quando eu acordei naquele hotel, eu só conseguia pensar em como era idiota. Eu queria nunca ter vindo pra Worcester. Hoje, quando eu acordei, eu agradeci por ter vindo pra cá. Faz muito tempo desde que eu conheci pessoas legais como vocês.
Naruto sentiu simpatia por ela. Passara por coisas realmente ruins na infância, mas sempre tivera boas pessoas ao seu redor. Jiraya, Kiba, Shino… eles eram poucos, mas eram seus amigos de verdade. Havia também uma menina, mas ele não conseguia se recordar do nome dela. Não eram amigos, mas se lembrava de que ela era gentil com ele quando conversavam.
— Karin, não precisa agradecer tanto. Eu acho que você também passou por maus momentos, hein?
Karin assentiu com a cabeça, e abraçou as pernas. Tinham quase uma hora de viagem, e ela sentia muita vontade de conversar.
— Minha família não era como a sua. Meu pai era… ele tinha um temperamento ruim – e Naruto entendeu perfeitamente o que ela quis dizer com aquilo. Sentiu uma mistura de raiva e tristeza – e minha mãe não era muito melhor. Eles… hm… eu fugi quando tinha quinze anos.
— Como sobreviveu?
— Tinha dois amigos. Bons amigos, quero dizer. Três, mas Sasuke mudou muito depois que…
— Pera, Sasuke?! Que Sasuke?
Karin riu. É claro que Naruto já ouvira aquele nome. Todos os policiais ouviam.
— Eu era amiga do diabo Sasuke quando criança.
— Você tem que estar brincando comigo!
Karin deu de ombros.
— Não to.
— Ele é meu chefe!
Karin arregalou os olhos, genuinamente surpresa.
— Como assim?! Desde quando?
Naruto riu, mas o sorriso logo desapareceu. Não começara a trabalhar no melhor dia do mundo.
— Segunda.
Karin baixou os olhos, apertando suas pernas. Sabia muito bem o que acontecera naquela segunda-feira, dia seis de janeiro.
— O dia em que o Ita morreu.
Naruto assentiu com a cabeça. Ainda não ouvira ninguém chamar Itachi daquela forma, mas era o dia correto. Olhou para Karin, que escondera seu rosto entre os joelhos.
— Se quiser conversar, eu to aqui.
Karin olhou para ele com os olhos lacrimejando, mas assentiu com a cabeça.
— Pode parecer difícil de acreditar agora, mas Sasuke era meu melhor amigo. Eu, ele, Juugo e Suigetsu estávamos sempre juntos. Éramos inseparáveis, sabe? Como eu falei antes, os meus pais não eram os melhores do mundo. Eles eram a minha família.
Naruto sorriu. Conhecia uma história muito parecida com aquela. Uma família formada por quem não era de sangue. Era como se sentia a respeito de Kiba e Shino. Os irmãos que nunca tivera.
— Sasuke era risonho naquela época. Ele estava sempre feliz, e eu sei que isso é difícil de acreditar. Mas é verdade. Eu lembro bem. Ele sempre me fazia rir, e era um garoto tão gentil… Itachi era o ídolo de Sasuke, sempre foi. Seu Fugaku era um pouco rígido, mas a Mikoto era um amor. Eles eram a família que eu queria ter.
Karin mordia os lábios e falava olhando para o painel do carro. Ela parecia perdida em pensamentos, e Naruto sabia bem como era estar assim. Não conseguia visualizar o Sasuke que Karin descrevia. Via apenas um adulto no corpo de um menino, com a costumeira expressão monótona que Naruto sempre via.
— Tudo mudou quando os pais dele morreram. Sasuke nunca falou muito sobre o assunto, mas eu sei que Itachi salvou a vida dele. Pelo que eles me contaram, os dois assistiram a tudo. Itachi impedia Sasuke de gritar, enquanto os dois olhavam alguém matar os pais a facadas. Foram poupados por terem ficado bem quietinhos, mas Sasuke nunca superou muito bem essa morte. Itachi agiu melhor, mas ele sempre foi mais forte.
Naruto percebeu que a voz dela ficou marejada, e a observou com o canto do olho. Ela sofria ainda, e ele queria saber como mudar aquilo.
— Ele mudou, sabe? Não ria mais, e nem me abraçava. Era meu melhor amigo, mas fingia que eu nem existia. Ok, não era pra tanto, mas Sasuke mudou. Ele deixou de ser o garoto que eu conhecia e amava. Sempre o amei, na verdade. E ele mudou. Eu não conhecia mais o garoto com quem convivia todos os dias. Não queria falar sobre nada, e parecia sempre sombrio. Suigetsu, Juugo e eu tentamos fazer alguma coisa, mas Sasuke não deixava a gente se aproximar direito. Ele tinha doze anos quando aconteceu. Itachi assumiu o dinheiro da família, comprou uma casa nova e criou Sasuke.
Naruto tentou imaginar aquela situação. Quando perdera seus pais, tinha Jiraya para tomar conta de si. O velhote era um tarado, mas sabia como cuidar de outra pessoa. Tinha experiência, e sabia o que fazer em momentos de desespero. Itachi não deveria ter mais do que vinte e poucos anos quando começou a cuidar do irmão adolescente. Sasuke não parecia o tipo simples de pessoa com a qual lidar. Tentou imaginar como o Uchiha mais velho tinha conseguido, mas não descobriu. Devia ser difícil para alguém tão jovem assumir responsabilidade por outra vida.
— Itachi parecia um cara legal.
— Ele era o melhor, Naruto. Três anos depois o Sasuke já estava mais normal. Eu pensei que Itachi tinha conseguido convencer Sasuke de que não tinha nada pra fazer quanto ao caso do pai deles, e o bandido tinha sido baleado numa briga com policiais, de qualquer forma. E Sasuke parecia melhor. Ele não ria como antes, mas saía com a gente de vez em quando, e parecia mais normal. O normal praquele momento, pelo menos.
Naruto assentiu com a cabeça, indicando que acompanhava a história.
— Foi quando eu fugi de casa. Apesar de mais normal, o Sasuke ainda não era o mesmo, e já tinha deixado de ser meu melhor amigo há muito tempo. Parecia uma pessoa completamente diferente, eu só não queria perceber aquilo porque o amava, e não queria acreditar que o garotinho pelo qual me apaixonei não existia mais. Fiquei na casa de Juugo por uns dias, e depois fui pra de Suigetsu. Deu tudo certo nos primeiros dois meses, mas depois as mães deles começaram a se incomodar, e eu fugi da casa de Juugo numa noite. Não queria que meus pais ficassem sabendo onde que eu tava.
Naruto sentiu seu estômago embrulhar. Karin obviamente conhecia Sasuke, e ela realmente o amava. Sentiu-se estranho ao perceber aquilo, mas não soube muito bem o porquê.
— Aquela noite tava fria pra caramba, e eu não sabia pra onde ir. Fui pra casa do Sasuke, e quem atendeu a porta foi o Itachi. Ele mandou eu entrar, e eu sentei no sofá, tremendo. Itachi saiu e Sasuke se sentou do meu lado. Eu não sabia o que dizer, então fiquei quieta até Itachi voltar com um cobertor e uma caneca de chocolate quente. Eu ainda lembro o gosto, porque eu tava com tanto frio, que a bebida quente parecia cinco vezes mais gostosa do que realmente estava.
Naruto sorriu um pouco. Aquela cena ele conseguia imaginar. Uma menina pequena e assustada, tremendo debaixo de um cobertor, com uma xícara de chocolate quente em mãos. Um homem alto, com um sorriso no rosto. E Sasuke, sempre com sua expressão monótona.
— Eu contei pra eles o que tinha acontecido, e perguntei se podia passar a noite. Eu falei que depois daquilo eu me virava, mas o Itachi só riu um pouquinho e bagunçou o meu cabelo. Ele falou que eu podia ficar ali, porque já era da família. E o Sasuke disse que eu podia ficar com a cama dele. Eu chorei. Abracei os dois, e o Sasuke me abraçou de volta. O Itachi falou que eu tava muito gelada, e disse que se eu começasse a tossir ou espirrar era pra chamar ele. O Sasuke ficou do meu lado a noite inteira. A gente já tinha quinze anos, mas ele ficou mesmo assim, cuidando de mim, verificando a minha temperatura. Eu quase nem acreditei, pensei que eu tava delirando. Mas, no outro dia, ele disse pro Itachi que tinha cuidado direitinho de mim. “A Ka vai ficar boa, Itachi. Eu to cuidando dela”.
Karin deixou algumas lágrimas escaparem, e Naruto tentou, com todas as suas forças, imaginar um Sasuke assim compreensivo e carinhoso. Não conseguiu, mesmo depois de se esforçar muito.
— Eu sei que pode parecer mentira, mas não é.
— Você morou com eles?
Karin assentiu com a cabeça.
— Por alguns anos. Itachi casou e saiu de casa quando Sasuke completou dezoito anos, e eu fiquei só mais dois meses lá. Queria minha independência, sabe? Queria provar que eu sabia me virar sozinha, e que não precisava mais do Sasuke pra me defender. Naquele tempo eu costumava me meter em encrenca, e sempre tinha alguém mexendo comigo. Sasuke me defendia, assim como Suigetsu e Juugo. Era bom, eu me sentia segura.
— E seus pais?
— Não eram bem meus pais. Era minha mãe e meu padrasto. Meu pai ainda tava vivo na época, e eu ia visitar ele sempre. Mas não contei o que acontecia, ou ele ia atrás da minha mãe e tudo ia dar errado. Mas ele morreu pouco tempo depois que eu briguei com Sasuke.
— Vocês brigaram?
— Sim. Depois que eu saí do apartamento, pedi pro Sasuke não se tornar um estranho. Queria manter contato, sabe? Era meu melhor amigo, afinal. Mas Uchiha Sasuke não é o tipo de garoto que fica ligando pra colocar o papo em dia, e a gente acabou se afastando. Uns três meses depois de sair, conheci um cara. A gente namorou, mas ele ficava sempre me pressionando, e eu não me sentia pronta pra transar ainda. Um dia, ele tentou a força. Quase conseguiu, mas Suigetsu ia passar lá em casa e ele chegou bem a tempo. Espancou tanto o desgraçado que eu achei que o tinha matado.
— E depois?
— Depois o imbecil acusou Suigetsu por agressão e roubou todo o dinheiro que eu tinha acumulado.
Naruto voltou seu olhar para a estrada. Sabia que passara por maus bocados, mas Karin não tivera um passado melhor. Só de imaginar como seria estar sozinho, sem Jiraya, em um momento como aquele… Naruto sabia que teria feito todas as escolhas erradas.
— Sasuke tentou me oferecer ajuda em dinheiro, mas eu não quis. Ele acabou pegando o desgraçado, mas meu dinheiro já era. O idiota apanhou bastante, mas isso não me deixou menos dura. Nesse momento Sasuke já era o cara que é hoje, e ele me olhou com tanta frieza… como se eu fosse a culpada, sabe? Eu não queria brigar, então saí dali. Nem duas semanas depois, quando eu voltava do café onde eu trabalhava, um cara me seguiu. Ele me roubou, mas eu consegui ligar pra um número com meu celular. Sasuke. Foi meio automático. Ele apareceu e me salvou, mas eu continuava sem dinheiro e moralmente quebrada. Foi também quando meu pai morreu, e eu acabei assumindo algumas dívidas dele.
Naruto olhou para Karin. Ele queria poder fazê-la sorrir de novo, mas não sabia como. Ela chorava de leve, e ele percebia o quanto ela sentia falta do Uchiha. Talvez não do jeito amoroso, mas definitivamente queria a amizade dele de volta. Sentiu-se um pouco mal ao perceber como os dois um dia já foram próximos, mas fingiu que não sentia nada.
— Como superou?
— Trabalhando como uma condenada. Sasuke me ofereceu dinheiro, mas não foi com boas intenções, sabe? Parecia que ele só queria se livrar logo de mim. Eu me senti horrível, Naruto. Sasuke falou coisas horríveis pra mim. Foi quando eu percebi como ele tinha mudado. Ele disse que eu só atrapalho, e pediu pra eu parar de ser um estorvo. Foi difícil não quebrar a cara dele naquele momento, mas eu juntei tudo que eu tinha de coragem e dei as costas pra ele. Depois de gritar muito, claro. Não nos falamos desde então, e eu tive minhas roupas roubadas ao vir a uma nova cidade. Yey, eu.
Naruto suspirou, sentindo pena dela. Não queria sentir, porque sabia melhor do que ninguém como aquele sentimento era horrível, mas não conseguiu evitar. Karin podia ser alguém incrível, mas o destino acabara fodendo com a vida dela. Estacionou no acostamento e estendeu a mão.
— Me dá seu celular.
Karin ficou confusa, mas fez o que ele pediu. Estavam a menos de dez minutos de Boston naquele momento, mas ela não sentia medo algum por entregar seu celular a um estranho. Se Naruto quisesse fazer qualquer coisa, já teria feito há muito tempo.
Ele mexeu no aparelho por menos de um minuto, e então o devolveu a ela.
— Pronto. Agora, quando tiver problemas, é só apertar no botão cinco e eu apareço correndo.
Karin sentiu seus olhos marejarem ao perceber o que ele fizera.
— Colocou seu número na discagem rápida?
— Sasuke é um idiota, mas eu não sou. Você não é um estorvo, Karin. É uma mulher incrível, que merece todas as oportunidades.
Karin deixou algumas lágrimas escorrerem – já chorara tanto que nem fazia mais diferença – e abraçou o Uzumaki.
— Obrigada, Naruto. Obrigada mesmo.
— Nem esquenta, ruivinha. Tem só uma coisa que eu não entendo. Se você era tão próxima do Itachi, por que não foi no velório?
Karin votou ao seu lugar e começou a brincar com as mãos.
— Eu não tive coragem. Itachi foi meu anjo da guarda, eu não ia conseguir vê-lo morto. Ele… eu não ia.
Ela deixou mais lágrimas escaparem, e então desviou o olhar para Naruto, que voltara a dirigir.
— Naruto, como está o Sasuke?
— Obcecado com o assassinato do Itachi, pelo que eu pude perceber. Não come direito, fica sempre lendo os mesmos papéis…
Karin riu um pouco.
— Você observa ele bastante, hein?
Naruto entendeu todas as intenções naquele tom de voz malicioso e começou logo a justificar que era um ótimo policial e detetive. Em vinte minutos ele estacionava em frente à casa de Karin, que sorriu para o mais novo amigo antes de sair do carro. Naruto a chamou quando ela estava perto da porta.
— Não se torne uma estranha – pediu ele, fazendo a garota sorrir e concordar com a cabeça.
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— Hey, Sasuke, eu preciso ir pra casa de praia. Você cuida das crianças até eu voltar, né?
Sasuke olhou para os dois sobrinhos de dois anos, que estavam tentando morder um ao outro. Deu ao irmão seu melhor olhar cético.
— Itachi, por que não os leva junto? Praias são ótimas pra bebês.
Itachi riu.
— Claro, porque você sabe tudo sobre bebês, não é?
Sasuke bebeu um gole do uísque com gelo que segurava.
— Eu li em algum lugar.
— Aham.
Sasuke sabia que o irmão o conhecia maravilhosamente bem, e que a mentira não pegaria por muito tempo. Mas esperava que Itachi demorasse um pouquinho mais para descobrir.
— Você sabe tanto sobre bebês quanto Suigetsu. Ou seja, nada.
— Vai deixar seus filhos com alguém que não sabe nada sobre bebês?! Que pai irresponsável!
— Não é um cara, é o tio. E eu sei que você vai cuidar bem deles, Sasuke.
— Leve eles junto, já disse.
— Claro. Eles, eu e a garota que vou levar.
Sasuke sorriu malicioso. Desde Sakura o irmão não ficara com ninguém, e estava na hora daquilo mudar. Mas não se sacrificaria a menos que fosse realmente necessário.
— E Ino?
— Eu quero você, Sasuke,
Aya mordeu a bochecha de Naoto e a atenção foi momentaneamente desviada para as crianças. Itachi repreendeu a filha e pegou Naoto no colo, tentando acalmá-lo. O menino chorava, e a bochecha começava a avermelhar.
— Não deixe que eles se matem.
Sasuke olhou para a menina que também chorava no chão e bebeu mais um gole de uísque.
— Ok, mas eu fico com a sua casa e com o seu carro.
— O quê?!
— Seu uísque é melhor, e com seu carro não preciso ficar mudando as cadeirinhas de lugar.
Itachi não pareceu apreciar a ideia, mas acabou cedendo e entregou ao irmão uma chave de seu apartamento e outra de seu carro.
Sasuke acordou suado. Tremia levemente também, e ouvia o barulho da televisão ligada. Aya e Naoto provavelmente estavam na sala, já acordados. O Uchiha, nervoso, caminhou até a pia do banheiro e viu que seus olhos estavam inchados novamente. Suspirou e limpou o rosto.
Mais do que nunca, queria o irmão ali.
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