Obsesso
8 07. Pesadelo
Notas iniciais
— O que descobriu?
Foi dessa forma educada que o Uchiha recebeu o Nara em sua casa. Shikamaru não riu, estava nervoso demais. Detestava ser enganado.
— Precisamos ver os arquivos da polícia e separar os policiais que…
Porém Sasuke o calou com a mão e apontou para a mesa. Nesta, cinco folhas de papel repousavam.
— Já analisou tudo?!
— E mexi nos computadores da delegacia. – respondeu Sasuke, contendo o sorriso orgulhoso que queria escapar.
O Uchiha bocejou, mas não permitiu que o outro percebesse seu sono. Sentou-se no mesmo sofá do dia anterior e esperou Shikamaru fazer o mesmo. O gênio ainda analisava as anotações feitas na caligrafia fina e elegante do delegado.
— Pensei que tudo seria mais devagar agora que tem as crianças aqui…
Sasuke não respondeu, apenas desviou o olhar. A imagem de sua negligência para com os sobrinhos se fez presente em seus pensamentos, porém o Uchiha tratou de afastá-la também. Estariam com Ino naquele dia – uma preocupação a menos.
— Eu consigo fazer tudo.
E Shikamaru não poderia desconfiar que o outro mentia. Independente de seu Q.I., Sasuke sabia enganar qualquer um. Usava sua máscara de frieza e indiferença há tanto tempo que agir de qualquer modo que não do insensível de sempre o fazia parecer que mentia. Portanto poucos poderiam imaginar que era exatamente o contrário.
— Asuma é suspeito apenas por ter me treinador? – o preguiçoso indagou com uma risada relaxada.
Sasuke deu de ombros.
— Sabemos o quão inteligente você é. Nada mais natural do que suspeitar daquele que lhe ensinou o que sabe.
Shikamaru não conseguiu contra-argumentar, portanto permaneceu calado. Sasuke realmente era assim tão desconfiado? Entretanto não pôde evitar que seu ego se inflasse; saber que era assim tão bem visto aos olhos do diabo deixava qualquer um de bom-humor.
— Feliz demais? – o Nara novamente riu.
Que tipo de argumento era aquele? Desde quando o Uchiha se permitia levar por tais absurdos?
— Já risquei. – o outro resmungou.
Shikamaru riu novamente e levantou o olhar, esperando encontrar Sasuke com um bico formado em seus lábios, como Itachi fazia ao ser contrariado. Sabia que não deveria, mas se surpreendeu ao ver que o Uchiha mantinha sua expressão indiferente. Voltou seu olhar para a folha, e as observações que se seguiam eram mais sérias, o que condizia com a personalidade daquele que as escrevera.
— Investigaremos todos eles, mas não acho que conseguiremos descobrir muito mais.
— Por quê?
— Não acho que estejam nos subestimando.
Sasuke levantou uma sobrancelha, confuso. Como não estavam sendo subestimados? Sabiam que os bandidos queriam ser encontrados devido ao número excessivo de provas que acumulavam. A tentativa da organização de lhes montar uma armadilha era clara, e não era a primeira vez que espertinhos tentavam guiar a Polícia para armadilhas.
— Eles mataram Itachi, Sasuke.
E foi como se o Uchiha fosse atingido por um choque. Realmente, tudo estava fácil demais. Tão fácil que suspeitar de uma armadilha era simplesmente o caminho mais seguro a se tomar. Entretanto aquela organização executara Itachi, e provavelmente usando o mesmo método que usavam com eles. Dando tantas migalhas de informações que a suspeita de uma armadilha seria simplesmente automática, e quaisquer outras oportunidades seriam ignoradas. Ao tomar consciência do fato, Sasuke sentiu como se as cordas de marionete que o controlavam se rompessem, e a ira o assolou. Como alguém ousava tentar manipular Uchiha Sasuke? Pior: como alguém conseguia?
— Devemos desconsiderar tudo o que descobrimos até agora, então?
— Não. Mas nossas investigações dizem que a informação veio de dentro, e logo suspeitamos dos policiais.
— Quem mais seria?
Shikamaru sorriu e se acomodou melhor no sofá.
— Eu acho que há um preso envolvido. Ele realizava todas as transações com a ajuda de um policial, entretanto o policial não se comprometia.
— Acha que eles tentaram incriminar outra pessoa?
— Não sei, vamos analisar com calma cada nome dessa lista, mas acho que não custa dar uma prensa nas Almas também.
Sasuke revirou os olhos ao ouvir o apelido. Os condenados a passar seus dias nas jaulas eram conhecidos como Almas, apenas para combinar com a caracterização infernal que a grande população tinha da delegacia de polícia de Boston.
— Eu tenho uma ótima ideia de como fazer isso.
Shikamaru engoliu em seco e se afastou um pouco ao ver o sorriso que enfeitava os lábios do Uchiha. Seja lá qual fosse o plano dele, o Nara definitivamente não gostaria de saber.
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Ino estacionou para buscar as crianças com um sorriso de orelha a orelha. Sorriso esse que desapareceu no instante em que pôs os olhos nelas. Planejava levá-las a uma sorveteria ou a qualquer outro lugar, entretanto Naoto e Aya não pareciam sequer em condições de estarem na escolinha.
Desceu quase correndo. Uma professora aguardava com eles.
— Senhorita Yamanaka…
Mas a loira já foi logo cortando a mulher.
— É um momento difícil, mas eu prometo que não irá se repetir.
A velha senhora lhe dispensou um olhar repreensivo e então saiu, permitindo que as duas crianças corressem até os braços da madrinha. Ino sentiu o cheiro desagradável que deles vinha e retorceu sua expressão. Em seu próprio carro duas cadeirinhas infantis já estavam devidamente ajustadas aos bancos.
— Tio Sasuke não deu banho em vocês?
— Nem comida ontem de noite – reclamou Aya.
Ino deixou que seus lábios formassem uma perfeita circunferência e seus olhos brilharam em ira. Como Sasuke ousava fazer aquilo? Como ousava ser tão irresponsável com seus adorados afilhados? A loira ajudou os dois a se arrumarem nas cadeirinhas e entrou no carro.
— Vou fazer uma jantinha especial hoje, o que acham?
Mas Aya não estava preocupada com o jantar.
— E o tio Sasuke? Por que ele não veio nos buscar?
— Pedi pra ficar com vocês por hoje, mas amanhã já voltam pra ele. Mas não se preocupem, vou ter uma conversa bem séria com o tio de vocês.
Aya sorriu um pouco, e Naoto também. Não demoraram a chegar à casa da loira – que tinha separado uma muda de roupas para cada um deles, afinal, passara na casa de Itachi. Apesar de o roupeiro de Naoto estar vazio, ainda havia algumas peças na lavanderia. – e Ino não demorou para colocar ambos no banho.
— Como está sendo morar com o titio?
As crianças brincavam com os patinhos de borracha que ela comprara, mas nenhum parecia muito animado.
— Tio Sasuke é vazio.
A resposta de Aya fez Ino sentir as lágrimas preencherem seus olhos, mas se conteve. Sabia que nenhuma outra frase poderia descrever melhor o adorado amigo.
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Gaara permitiu que Naruto saísse uma hora mais cedo naquele dia com a promessa de que o loiro faria hora-extra. O Uzumaki agradeceu e, com o maior dos sorrisos do rosto, foi até uma floricultura.
Naquele exato dia, completava seis anos desde aquele dia. Tinha vinte quando o avô morreu e o deixou completamente sozinho, e a falta que ele fazia ainda podia ser sentida. Entretanto Jiraya morreu em serviço, como o bom policial que era, e morreu feliz. Então Naruto nunca se permitia ficar triste com a ida do avô, porque o Uzumaki sabia como o velho se irritaria se o visse chorando por aí.
Comprou uma rosa vermelha e riu com a ironia. O velhote adorava aquelas flores, porque o lembravam de Tsunade, o amor da vida dele. Naruto a conhecia há longa data, e a médica era uma das mulheres mais lindas que o loiro já vira – mesmo que já tivesse passado de seus cinquenta anos há muito tempo.
Chegou ao cemitério com um pequeno sorriso lhe enfeitando os lábios e fez o possível para que este não desaparecesse. Precisava mostrar que todo o esforço e todo o trabalho de Jiraya valera a pena, porque ele estava bem.
A lápide de mármore ainda fazia lágrimas encherem seus olhos, e o sorriso pervertido do velho que trabalhava em dobro para que nunca faltasse nada ao neto apareceu na mente do loiro. Com todas as suas forças Naruto conteve as lágrimas, porém estas queriam a todo custo sair.
Não importava quanto tempo passasse. A sensação de perda sempre assolaria o coração do loiro. Fazendo o possível para continuar com o maior sorriso que conseguia abrir, Naruto começou a falar.
— Hey, velhote! Não vai acreditar onde que eu to trabalhando…
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Sasuke despediu-se de Shikamaru e foi direto para o banheiro. Precisava urgentemente de um banho quente. Sentiu os olhos se fechando enquanto estava no banheiro, e com algum esforço conseguiu terminar de se lavar. Apenas com a toalha enrolada ao redor de sua cintura o moreno se jogou na cama, caindo no sono instantes depois.
Independente de quantas noites passasse em claro trabalhando, a insônia não combinava com o Uchiha.
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De alguma forma, Ino conseguira fazer com que Aya e Naoto voltassem a rir. Eles estavam limpos, alimentados e tinham seus deveres prontos. Por um momento sentiu vontade de pedir a Sasuke para ficar com eles, porém sabia que o moreno jamais concordaria. O Uchiha era muito orgulhoso, e nunca admitiria que falhara ao cuidar das duas crianças.
Agora ambas já estavam prontas para dormir, e apenas viam televisão no colo da loira. Era bom sentir o calor humano depois de tanto tempo sem nada além das palavras frias e distantes de Sasuke. Ino acariciava os cabelos de ambos; cada um tinha uma cabeça apoiada em uma perna diferente.
Mas Aya e Naoto não pareciam com sono, o que era estranho.
— Vamos dormir?
— Não dá pra esperar o tio Gaara? – a resposta de Naoto foi rápida, e Aya imediatamente concordou com a cabeça.
Ino suspirou e se levantou, observando as duas crianças que agora estavam sentadas no sofá.
— Tio Gaara ainda vai demorar.
— Mas…
— Mas…? – ela incentivou Aya a continuar.
A menina pareceu recear por alguns segundos, e então desistiu, agarrando a mão de Naoto.
— Não precisam se preocupar. O tio Gaara é um herói, e logo logo ele chega em casa. Eu prometo.
Eles apenas sorriram um pouco. O papai também era um herói e também sempre prometia voltar pra casa, mas não fora bem assim que tudo tinha acontecido. Aya levantou e arrastou Naoto junto. Ino os levou ao banheiro e escovaram os dentes com as escovas novas que a loira comprara. Por fim deitaram na cama de casal que dividiriam e receberam um gentil beijo de boa noite.
Quando já estavam sozinhos no quarto escuro, os dois se abraçaram. Por mais que adorassem a calmaria e o carinho que recebiam na casa de Ino, queriam que Sasuke fosse buscá-los de uma vez. Desde que Itachi morrera ambos vinham sentindo aquele medo meio irracional de tudo que os cercava, principalmente do escuro. Entretanto, estar com Sasuke fazia os medos irem embora. Afinal, quem iria invadir a casa do diabo?
Ino era legal e delicada, bem diferente do que eles queriam como proteção. Por mais irritante que fosse estar com Sasuke, por mais que lhes doesse não receber qualquer tipo de carinho por parte do tio, ainda era mais… seguro. Eles sentiam que nada e nem ninguém poderia atingi-los quando estavam perto do moreno, e só percebiam naquele momento, quando estavam longe dele, como a presença do tio já se tornara importante. Querendo ou não, o Uchiha passava uma imponência enorme, e toda a aura de confiança ao redor dele fazia com que os pequenos se sentissem intocáveis. Como se fosse impossível que qualquer mal chegasse perto deles.
Demoraram muito para dormir, e o sono foi povoado de pesadelos abstratos, onde um ser estranho e de capa preta os perseguia. Aya corria de mãos dadas com Naoto, entretanto era como se não saíssem do lugar. E o ser estranho e de capa preta estava sempre se aproximando. Ela já chorava, mas não conseguia afastar aquela horrenda aparição. Era um monstro horrível que queria fazê-los dormir para sempre também.
Os dois acordaram ao mesmo tempo, suados. Ofegantes e com lágrimas escorrendo pelos rostos pálidos, os irmãos não precisaram de quaisquer palavras para saírem correndo do quarto que dividiam.
Gaara acordou no instante em que tocaram na maçaneta de seu quarto, e a mão foi instantaneamente para a arma que tinha dentro da gaveta. Observou a porta abrir e a manteve escondida, pronto para abater quem quer que tentasse entrar no quarto. Os dois pequenos corpos que invadiram correndo e com estardalhaço – acordando Ino – o fizeram esconder a arma debaixo do cobertor e encarar surpreso os sobrinhos de Sasuke. Eles choravam e se jogaram na cama, procurando conforto nos braços da esposa do Sabaku.
— Hey, hey, o que foi? – a loira perguntou preocupada. O ruivo ligou o abajur e percebeu que eles tremiam violentamente.
Com delicadeza o ruivo se aproximou, entretanto toda sua ação se encerrou ali. Não sabia como consolar uma criança, mas Ino sim. Observou com atenção enquanto a loira acariciava os cabelos negros dos dois pequenos.
— Pesadelo. – murmurou Naoto.
Gaara suspirou aliviado e, cuidadosamente, voltou a colocar a arma na gaveta – a visão de uma arma de fogo provavelmente seria assustadora para duas crianças de quatro anos que haviam acabado de ter um pesadelo.
— Eu quero o tio Sasuke – sussurrou Aya, chorando ainda mais compulsivamente.
Ino beijou o topo da cabeça da menina e puxou os dois para se deitarem debaixo das cobertas, entre ela e Gaara – Naoto mais perto dela mesmo e Aya perto do ruivo.
— Amanhã o tio Sasuke vai ir buscar vocês, ok? Mas hoje os dois podem dormir aqui comigo e com o tio Gaara. Prometo que ninguém vai pegar vocês.
Naoto parou de chorar, limpou as lágrimas que ainda escorriam de seu rosto e abraçou a madrinha, escondendo o rosto na curva do pescoço dela. Aya o imitou ao agarrar-se em Gaara, que retribuiu ao abraço desesperado da menina.
— Tá tudo bem, Aya. Eu sou um herói também, né? Vou manter os monstros longe, prometo.
Apesar de ser conhecido como “demônio”, o ruivo se tornara muito mais empático desde que estabelecera seu relacionamento com Ino, e aquelas palavras saíram de forma quase natural. A loira sorriu para o noivo e se acomodou na cama, sendo logo imitada por ele.
Gaara desligou a luz e ficou acariciando os cabelos negros de Aya até a pequena parar de tremer. Mais calmos, os gêmeos conseguiram dormir o resto da noite.
Continua…
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