Obsessão Fatal

Prólogo

Revisado por Blanxe

O menino corria incansavelmente. Sua audição estava tão sensível que ele conseguia captar até mesmo o atrito da planta do seu pé contra o chão de cascalho. Os latidos dos cães ferozes que corriam atrás de si, provocavam ecos ensurdecedores que ressoavam como sinos em sua cabeça. A sua visão estava turva, não via nada além de vultos e não conseguia identificar para onde estava correndo. Só sabia que precisava manter o ritmo se quisesse escapar vivo daquele lugar.

Os grunhidos das feras em seu encalço pareceram aumentar repentinamente. Tudo indicava que eles estavam mais próximos; alcançando-o.

O desespero tomou conta de seu interior. As lágrimas começaram a escapar. Sentia o corpo quente devido ao calor da corrida, contudo, a ausência de roupas, fazia com que o vento gelado daquela noite rigorosa de inverno lhe cortasse a pele como se fossem minúsculas agulhadas. Os hematomas espalhados por todos os lados no seu corpo — sinais da tortura que sofrera a pouco — começaram a latejar à medida que seus passos se tornavam mais pesados. Estava se cansando; prestes a sucumbir. Faltava-lhe fôlego. A vertigem aumentou.

Se pelo menos tivesse a certeza de que cairia morto, deixaria seu corpo desabar no chão de uma vez. Contudo, se chegasse a tombar naquele exato momento, sentiria a morte chegando lentamente, enquanto era devorado vivo.

Assim, tentando manter a lucidez em seus pensamentos, voltou a intensificar a corrida, decidido a escapar daquele purgatório de qualquer forma. Entretanto, o maldito destino não achara que ele sofrera o suficiente nas mãos do maníaco que o violentara e, mal havia aumentado o ritmo de seus passos, sentiu o pé direito adentrar em alguma fissura no chão, virando-o e o fazendo tombar.

BLAMFT

O barulho abafado do seu próprio corpo caindo, ressoou em seus ouvidos. Agora, sua dor mais recente, invadia totalmente seu consciente. Provavelmente, o pé havia quebrado, pois não conseguia mexê-lo. Além do mais, sentia o sangue escorrendo.

Abriu os olhos castanhos de onde as lágrimas se derramavam e desejou:

“Queria muito ver o sorriso da minha irmã pela última vez.”

— Onee-chan, eu salvei o seu filho. Espero que não fique deprimida por eu não ter conseguido salvar a mim mesmo.

O rapaz olhou para o céu, querendo avistar as estrelas ou a lua. Alguma claridade, que transformasse menos obscuros seus momentos finais. Porém, nada. Era somente a escuridão...

Talvez já estivesse morto, foi o pensamento que passou por sua mente.

“Será que a morte era mais dolorida que aquilo que estava sentindo?”

Logo teria a resposta.

Sentiu então uma dor nova. Não... Esta era ainda mais terrível! A dor da sua carne sendo desprendida. Aqueles cães que mais pareciam demônios o haviam alcançado. No entanto, estava decidido a lutar. Iria gritar até que alguém ouvisse. Mesmo que morresse, aquele maldito não deveria escapar.

— AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!

Na mansão, uma risada abafada acompanhava os gritos agonizantes que vinha do jardim da enorme residência.

— Não! Eu não quero morrer! Prendam esses animais! Por favor! Por favor! Não! Não! Está doendo! Parem! Parem!

O rapaz que ria, enquanto acompanhava a cena da janela do segundo andar daquele imenso casarão, levou os dedos sujos de sangue até a boca e os lambeu.

Sentia-se em êxtase.

— Porque ele não gritou desse jeito quando eu estava me divertindo com ele? — resmungou, abrindo um sorriso grande e demente. — Acho que preciso melhorar os meus brinquedos.

No canto do quarto, uma criança parecia em estado de choque. Seus olhos negros estavam arregalados e tremulavam de tanto pavor. As mãos abafavam os ouvidos. Sua respiração estava ofegante.

“O que está acontecendo? O que foi tudo isso que acabou de acontecer?”, as perguntas se embaralhavam em sua mente infantil diante da incompreensão dos fatos e da cena brutal que acabara de presenciar.

De repente, o seu pavor aumentou. Os olhos avermelhados do outro, rente a janela, recaíram sobre ele. E o que eram aqueles olhos vermelhos? Será que seu irmão estava possuído pelo demônio?

— Eu disse para você ir dormir, não disse? — o rapaz, de feições parecidas com a do menor no chão, perguntou em um tom de voz sussurrado. — Mas você insistiu que eu lhe contasse uma historinha antes de dormir, não foi? É uma pena. Mas o nii-san nunca aprendeu nenhum conto de fadas, Sasuke. Só historinhas de terror — o rapaz disse e agachou, descansando um dos joelhos no chão e abrindo os braços para o pequeno, chamando-o: — Vem com o nii-san, vem.

Com as mãos ainda abafando os ouvidos a criança se esforçou para balançar a cabeça em um não. Mas não iria se aproximar de forma alguma de alguém possuído. Estava com tanto medo que sequer conseguiu falar. Mas o outro parecia impaciente, então, ele o segurou pelos ombros e o sacudiu, fazendo com que destampasse os ouvidos.

— Está com medo de mim, Sasuke?! — ele perguntou em um tom claro de ironia; pendendo a cabeça para o lado. — Logo de mim? O seu querido onii-san, que te faz comida, que te leva na escola e brinca com você?

A criança apavorada abria e fechava a boca, buscando respirar compulsivamente. Ele sentiu a mão do irmão acariciar seu rosto e o gelo da sua pele aumentou. A sua mente ainda infantil atrapalhava as informações não lhe permitindo discernir nexo do que vira. Será que estava preso dentro de um pesadelo. Estava tendo uma alucinação? Aquele monstro, que acabara de machucar de forma horrível aquele rapaz, era mesmo seu irmão mais velho?

— Sabe, Sasuke? — o mais velho continuou. — Aquele idiota lá fora me deixou excitado novamente ao gritar daquele jeito lá fora... Mas... eu não posso marcar meu próprio irmãozinho, não é? Já pensou se os seus professores virem as marcas? O que eles pensarão? Então, eu preciso provocar em você uma dor, da qual você grite como aquele cara, mas sem marcar essa sua pele tão alva e tão linda... — ele sussurrou aproximando-se sua boca do ouvido do garoto, enquanto acariciava a face dele.

Itachi Uchiha deveria ter em torno dos seus dezoito anos e o irmão mais em torno dos sete. Mas a diferença de idade não foi empecilho suficiente para impedi-lo de se levantar, abrir o zíper da calça e, sem nenhum pudor, e retirar para fora o membro enrijecido e exibi-lo ao caçula a sua frente.

— Você não tem a mínima ideia do que irá sentir, Sasuke — Itachi o advertiu. — Mas o onii-san garante: essa dor marcará mais do que qualquer cicatriz superficial em sua pele. Esse será nosso elo. O elo que nos unirá para sempre. Até o fim das nossas vidas.

— O- oni- nii-chan... n- não quero... — choramingou o pequenino, levando as mãos no rosto e esfregando seus olhos, em um gesto puro e infantil, que não comovera em nada o mais velho.

Na realidade, Itachi abriu um sorriso ainda maior ao ouvir o lamento infantil do irmão mais novo. Sasuke ainda era uma criança, tinha apenas sete anos, mesmo assim, a ânsia de prosseguir naquilo o dominou completamente. Seu corpo estremeceu de forma tão intensa, que começou a pingar do membro ereto o pré-gozo. Estava exageradamente excitado. Estava alcançando o limite da sua sanidade, não iria mais segurar aquele desejo.

No corredor do casarão, ecoaram gritos de dor e de desespero.

— Yamero, onii-san! Está doendo! Não faça! Está doendo! Não, tira! Não! Onii-sannnnnn!

...

Só depois de muito tempo aquela criança conseguiria definir o que havia acontecido com ele naquela noite. Mesmo assim, não entraria em sua mente o motivo pelo qual fora violentado pelo seu irmão mais velho.

Naquela madrugada fria, no instante em que tudo acabou, Sasuke só queria ter respostas. Entender a razão e o porquê o irmão havia torturado aquele rapaz e o porquê o machucou daquele jeito tão estranho.

As lágrimas finalmente escorreram pelo pequeno rosto infantil.

— Por que, Itachi-nii-chan? Por que fez isso? Por que me machucou? Está doendo tanto... tanto.

O rapaz que estava sentado nu a beira da cama, apenas acariciou os cabelos negros do menino; notando o quanto corpo dele tremia.

— A dor física logo vai passar, Sasuke. E as respostas das suas perguntas moram dentro de você.

O pequeno Sasuke não entendeu aquela resposta, mas naquele momento não se importara. Sentiu a mão do irmão segurar seu queixo e então o viu aproximar do seu rosto novamente, até a boca dele sobrepor a sua.

Era um beijo. Um beijo na boca. Como vira seu pai e sua mãe trocando algumas vezes. Mas, por que ele o estava beijado na boca? Perguntara-se mentalmente, enquanto seu corpo ainda convulsionava da violência intensa que sofrera.

— Nós somos amaldiçoados com um terrível mal, Sasuke — o irmão explicou, após afastar seus lábios dos lábios do menor. Então ele passou o dedo indicador, que estava esmaltado de preto, no rosto delicado do caçula, voltando explicar em seguida: — Essa maldição corre em nossos sangues. O papai não levou um tiro em um assalto como nos contaram, foi ele quem matou a mamãe e se matou depois. Sabe o porquê ele fez isso, Sasuke?

O pequenino forçou um menear de cabeça.

— Obsessão — sussurrou Itachi. — Um dia você também irá desejar tanto alguém que não suportará esse desejo se expandindo dentro de si. Então, esse sentimento irá consumir a sua alma e surgirá um vazio angustiante. E a fonte para preencher esse vazio, você só encontrará em tudo de ruim que a obsessão provoca...

O mais velho terminou de falar e sorriu, não da forma demente que Sasuke vira alguns instantes atrás, mas da forma gentil que Itachi costumava sorrir antes. Talvez o demônio tivesse deixado seu corpo, ele quis acreditar, começando a gostar da carícia do irmão em seus cabelos. Talvez tudo aquilo não passasse de um pesadelo. Sentiu os olhos pesarem e o fechou lentamente, deixando ser embalado pelo sono profundo. Só despertou algum tempo depois, com o barulho estridente de sirenes que vinham ao longe. Descerrou os olhos de vagar e viu as luzes vermelhas invadirem o quarto pela janela aberta, onde seu irmão estava detido.

A última coisa da qual se lembraria por muito tempo era daquela imagem: do irmão detido perto da janela, das cortinas brancas farfalhando em volta dele, das luzes vermelhas invadindo o quarto e do bonito sorriso que o irmão tinha no rosto. O sorriso de alguém que conseguira saciar o tal vazio...

Continua...

Vocabulário:

Onee-chan: irmã mais velha;

Nii-san, onii-san, nii-chan: irmão mais vellho.

Yamero: pare!

Notas finais
E já tenho a trama toda bem desenhada na cabeça. Apesar de que, a história em si, eu vou moldando conforme o desenrolar dos capítulos. Pretendo manter o clima meio sombrio e de suspense. Afinal, já faz algum tempo que estou treinando para escrever uma fic nesse estilo. Não pretendo me alongar tanto no enredo, acho que em uns treze capítulos conto toda a história. Contudo, a quantidade de capítulos vai depender mesmo da minha inspiração. Esse foi apenas o prólogo, meus capítulos não tendem a serem tão pequenos. No mínimo, são o dobro deste. Meu Beijo coletivo! o/ See you next!