Notas iniciais
Nesse capítulo haverá cenas de shota*.

Obsessão Fatal

Capítulo XI

Kakashi dirigia desesperadamente de volta à Konoha. No seu gravador a voz de Gaara se repetia pela terceira vez, precisava repassar todo o depoimento, mais de uma vez, para ter certeza que tudo que ele havia lhe dito era mesmo condizente com a realidade.

Assim que chegasse a cidade iria direto para casa de Tsunade. A foto do loiro que o ruivo lhe entregara estava ali, ao lado do gravador. Havia feito a comparação com um cartaz antigo de “Desaparecido” que carregava com ele e não tinha mais dúvidas: Kitsune era Naruto, o filho perdido de Tsunade. Após dez anos de procura, que se restringira mais ao território de Konoha, o próprio garoto se desenterrara.

Não que não houvessem pensado em expandir a procura para as cidades vizinhas, haviam feito isso durante um bom tempo. Entretanto, os dados de Naruto constavam no banco de Desaparecidos do país, algo que por si só não é muito útil quando o próprio desaparecido possui outra identidade.

O homem suspirou.

Mas sua preocupação não era mais esta. Deveria estar feliz por finalmente dar a notícia a qual a médica tanta ansiara durante esses dez anos, contudo estava preocupado. Na verdade, não era bem preocupação, era pavor.

“Eu não consigo imaginar qual será a reação da Senju quando descobrir o tipo de pessoa que o filho se tornou. Mas é o esperado de alguém que viveu nas ruas, sozinho, durante tanto tempo.” O investigador respirou profundamente mais uma vez, parando para prestar atenção na voz que vinha do gravador ligado.

— Ele é do tipo que te cativa primeiro com um belo sorriso. De início ele nos faz acreditar que é apenas um cara simpático, inofensivo, alegre, dócil, atrás de se divertir e oferecer diversão. Do tipo que pessoas ricas como nós gostamos, fáceis de serem comandadas. Mas aos poucos Kitsu vai mostrando seu lado pervertido e quando percebemos o engano estamos totalmente absorvidos por seu sexo sem pudor. Kitsu não se importa com a dor. Na verdade, a dor lhe proporciona prazer. Nas primeiras vezes que transamos ele exigia sempre mais força, nunca era suficiente. Chegou ao ponto dele exigir que eu comprasse apetrechos que o fizessem sentir dor. O Neji me contou que com ele não foi diferente. Nós não fomos os domadores e sim os domados.

— Certo. Agora, Gaara-sama, vou lhe fazer uma pergunta e gostaria que fosse o mais sincero possível. — O investigador ouviu sua própria voz no gravador. — Esse tal Kitsune seria capaz de matar Neji Hyuuga?

— Não acredito que Kitsu teria essa capacidade, agente — o rapaz, respondeu com uma calma profunda. — Contudo, eu tenho uma certeza: ele pode não ter a coragem de fazer com as próprias mãos, mas é perfeitamente capaz de induzir a fazerem por ele.

— Merda! — O homem esbravejou, espancando o volante. — Eu o vi. O pior de tudo é que eu o vi. — repreendeu-se ao recordar do cara que importunara Sasuke na travessia da avenida de frente ao consultório da médica, alguns dias atrás.

— Lembro que ele usava esse colar brilhante, com três pedras verdes como pingente. — A voz de Gaara voltou a soar no gravador depois que pedira para ele lhe narrar quando conhecera o suspeito. — A primeira vez que Kitsu me abordou ele estava com o rosto escondido pela touca do agasalho. Eu havia parado o carro no semáforo, era tarde da noite, quando ele simplesmente encostou na janela ao meu lado e me chamando de “chefe” perguntou se eu tinha algo para oferecer para ele. Eu achei que fosse um assalto e que ele pudesse estar escondendo a arma na mão dentro do bolso do agasalho. Então entreguei a carteira sem cerimônias. Foi aí que veio a surpresa, ele recusou. “Não quero sua carteira, chefe, quero dinheiro para comer, me dá o que puder”, foi a resposta dada de uma maneira bem malcriada, mas acompanhada de um grande e bonito sorriso. Eu respondi que só tinha cartões de crédito e perguntei se ele queria que eu pagasse um lanche no Suna Burguer para ele. Aquilo o deixou eufórico e então eu notei que ele havia tirado as mãos do casaco, tendo certeza assim de que ele não estava armado. Eu poderia ter arrancado com o carro e ido embora, mas algo naquele sorriso me prendeu e eu destravei a porta do veículo e pedi para que entrasse.

O policial acionou os limpadores de para-brisa do veículo. Agora sabia que estava próximo de Konoha, afinal, os chuviscos daquele clima incessante começava atingir seu vidro. Nunca havia chovido por um período tão longo na cidade. Aquilo já o estava irritando.

— Kitsu provavelmente é o garoto que salvou Sasuke do acidente... — Kakashi deduziu, após pausar o gravador e pensar por um instante, lembrando-se novamente do dia em que Sasuke quase se acidentou. A descrição que Gaara havia lhe dado casava perfeitamente com a do rapaz que abordara Sasuke naquele dia. Até mesmo “a forma” de abordagem parecia a mesma. — Merda! — Kakashi voltou a esbravejar ao pensar em algo que, aparentemente, parecia absurdo. Mas se, levado em consideração o depoimento de Gaara, tinha alguma lógica. Kitsune poderia estar envolvido com Sasuke.

Kakashi despausou a gravação.

— Não sei como me deixei envolver, mas quando paro para pensar no assunto, só me vem a mente que fui enfeitiçado por aquele sorriso... — O prefeito ruivo voltava a falar no gravador, como se estivesse respondendo as dúvidas recentes de Kakashi de como Sasuke poderia ter se deixado envolver por um estranho como ele. Então o policial aguçou os ouvidos para prestar atenção naquela parte mais uma vez. — Eu achei que nunca mais o veria, mas quando cheguei em casa naquela noite eu não consegui tirá-lo da minha cabeça. Senti uma ânsia estranha de revê-lo. Quando dei por mim, na noite seguinte, eu estava na mesma rua, procurando por ele. Não foi difícil de encontrá-lo, ele estava lá, como se soubesse que eu viria. E, como se já nos conhecêssemos há uma eternidade, ele veio me cumprimentar, perguntando se eu estava bem, se tinha tido um bom dia. Então o convidei para lanchar novamente. O desejo de vê-lo e de estar com ele só foi aumentando, nossos encontros pararam de ser ocasionais e se tornaram agendados, frequentes. Eu marcava a data, a hora e o lugar e ele estava lá. Mas comecei a me preocupar com a exposição da minha imagem, achava arriscado continuar me encontrando em lugares públicos com ele, ou mesmo em motéis. Então passei a recebê-lo aqui, na minha casa. Tudo foi acontecendo naturalmente.

Kakashi fechou os olhos e recordou-se do dia depois em que Sasuke dormira com as luzes apagadas. Ele havia lhe contado que havia pensado tanto em alguém que finalmente havia pegado no sono.

— Sasuke... Você esteve mentindo para mim durante esses dias? — Kakashi se perguntou, sentindo um arrepio, ao mesmo tempo em que lágrimas margearam seus olhos. — Não é a Sakura por quem está apaixonado, não é mesmo? Você se deixou envolver por esse garoto da mesma forma que o prefeito de Suna, Sasuke? Merda, Sasuke! Merda! Mas como? Como se você esteve saindo com a Sakura? Se eu mesmo fui buscá-lo na casa dela na noite da... morte de Neji?

A mente do homem clareou: “um álibi”. Ele sentiu um novo arrepio percorrê-lo. Kakashi respirou profundamente, suas artérias nasais começaram a arder. Iria chorar? Não era possível... Ele nem se lembrava de quando fora a última vez que havia chorado. No enterro da mãe há quinze anos, talvez? Não, nem chorara naquela ocasião, a mãe morrera de uma doença terminal, a morte foi um alívio para ela.

— Merda! — O policial voltou a praguejar e esmurrar o volante. Então apanhou o celular, notando que ainda estava fora de área. Olhou o comunicador via rádio do seu carro. Não. Seria arriscado falar o que sabia para Danzou e vê-lo tomar as decisões precipitadas. Precisava falar com Sasuke primeiro. Ter certeza de que ele não havia se deixado seduzir por aquele marginalzinho que se tornara o filho de Tsunade. — Não. Não. Não. Não! Sasuke não seria capaz de matar Neji Hyuuga, Kakashi. Tire isso da sua cabeça — se alto recriminou ao levantar aquela hipótese. — Tire isso da sua cabeça agora. Sasuke é um garoto traumatizado, sensível e doente. Confie em Sasuke. Seu Sasuke, seu filho. Filho?

As lágrimas venceram o rosto exausto do investigador da Polícia de Konoha. Era um homem forte, tinha que ser, a profissão exigia. Nunca se preocupara em se apegar a mulheres, ter filhos, construir uma família. Pois sabia que essas uniões enfraquecem o ser humano e os tornam seres frágeis. E para se manter o melhor na sua profissão era preciso nunca criar laços com ninguém. Mas... como imaginaria que a maldita da sua profissão iria traí-lo e colocar em seu caminho o vínculo que tanto evitara? Como iria imaginar que amaria Sasuke da forma que ama?

— Sasuke não faria isso — ele voltou a se repetir, passando uma das mãos nos olhos que agora derramavam lágrimas. — Meu filho não faria isso — concluiu.

...

Em Konoha, Tsunade lia o jornal tranquilamente, sentada em uma das poltronas da sua grande sala de estar. O dia estava prestes a alvorecer, entretanto, as nuvens de chuva prolongavam a escuridão. A garoa fina e fria que caía faziam os vidros das janelas se embaçarem, fazendo-a se sentir no inverno, mesmo que ainda estivessem no outono.

Ouviu então um murmúrio que chamou sua atenção. O rapaz, o tal agente especial de Danzou, acordava, segurando a cabeça. Provavelmente com uma forte ressaca.

— Onde está, Sasuke? — foi sua primeira pergunta que ele fez, antes mesmo de lhe oferecer um bom dia.

— Ainda está dormindo — ela respondeu mantendo sua calma, voltando a folhear o jornal.

— Tem certeza disso? A senhora o viu?

— Certeza absoluta — confirmou. — Acabei de passar pelo quarto.

— Eu preciso ver com os meus próprios olhos — duvidou Shikamaru, descendo do sofá e seguindo cambaleante pela escada.

Tsunade estranhou aquela reação.

— Ei, espere um momento. — O rapaz não lhe dera ouvidos e continuou subindo pela escada. Então ela fechou o jornal e o deixou sobre a mesa ao seu lado e seguiu o investigador. — Eu pedi para esperar. Não quer primeiro tomar um analgésico para curar essa ressaca?

— Ressaca? — Shikamaru estacou na escada, voltando-se para a médica com indignação. — Eu levei uma pancada na cabeça, olhe! — ele tirou a mão da nuca e expôs o ferimento para a mulher que vinha logo atrás dele.

Tsunade entreabriu os lábios, sentindo um estranho arrepio. Havia mesmo um corte na cabeça dele e sangue seco colado nos cabelos, na nuca e em parte da camisa. Ela elevou as duas mãos e cobriu a boca aberta. Seus olhos arregalaram. O que aquilo significava?

— Meu Deus — exclamou assustada. — Quem fez isso?

— Quem poderia fazer? Quem era o único que estava nessa casa comigo ontem? Sasuke Uchiha o fez! — ele respondeu, completamente irritado pela falta de atenção da médica. Tsunade deveria ter desconfiado quando chegou da festa e tê-lo acordado naquele instante. Não conseguia acreditar que ela não havia notado as anormalidades daquela situação. Terminou de subir os degraus de forma afoita e foi logo entrando no quarto que fora preparado para Sasuke.

A médica estava em seu encalço.

— Como assim foi o Sasuke? Do que está falando, Nara?

Shikamaru entrou no quarto, seguiu direto para a cama e a descobriu. Como imaginava: somente travesseiros. Tsunade voltou a cobrir a boca com as mãos.

— O Sasuke...

— Ele fugiu...

— Fugiu? De quê? Pelo amor de Deus, me explique o que está acontecendo !

— Eu ainda não tenho certeza. Preciso fazer uma ligação primeiro.

...

Itachi estava na garagem da sua antiga casa, sem camisa, mexendo em um velho veículo da família, um Honda Prelude Geração Quatro[1] de cor preta. Um dos carros que fora o xodó do seu pai. Imaginou-se em uma maré de sorte. Afinal, era incrível que o veículo ainda estava ali e não recolhido em algum pátio do governo. E o melhor: estava do jeito que o arrumara pra fugir da última vez. Até o dinheiro e as armas que havia colocado no fundo falso do porta-malas ainda estavam lá, intactos.

— Essa polícia de Konoha é uma piada.

Sasuke estava amarrado em uma cadeira, ainda desacordado. Naruto dormia em um carpete no canto da garagem. Itachi estava sem um pingo de sono, havia dormido em torno de duas horas e sentia-se descansado o suficiente. Afinal, a única coisa que fizera durante aqueles dez anos de cadeia fora dormir.

Entrou dentro do carro e deu partida no motor. Sorriu ao ouvi-lo roncar alto, depois de alguns ajustes, a máquina mostrou-se ainda viva e potente. Saiu do veículo, limpou a graxa das mãos com um guardanapo de cozinha e percebeu que o barulho do Prelude despertara o irmãozinho, que chacoalhava a cabeça de um lado para o outro, tentando, certamente, se centrar no espaço e no tempo.

Puxou o pneu velho que trocara do carro, rolou-o até perto da caçula, e o dispôs em pé, para em seguida, sentar-se sobre ele.

— Acordou, otouto?

Sasuke sacudiu a cabeça. Sentia uma dor latejante na parte da nuca. Tentou se mover e percebeu que seus braços estavam amarrados para trás da cadeira onde estava sentado, e seus pés, amarrados juntos aos pés da mesma. Ergueu os olhos e encarou o irmão de forma incandescida. Agora sua mente clareara e se lembrava de tudo que havia ocorrido na noite anterior. Sentiu tanta raiva que suas veias pulsaram.

— Não tenho medo de cara feia, Sasuke — Itachi o informou. — Então poupe-me desse olhar enfezado.

— Foda-se...

— Oh? Meu pequenino e manhoso irmão mais novo cresceu e aprendeu a falar palavrão, que bonitinho.

— O que você quer de mim?

— Nada — Itachi foi categórico. — Como sempre você está no lugar errado, na hora errada. Eu saí da cadeia só pra retomar aquilo que me pertence e desaparecer do mapa. Ir pra bem longe daqui. Contudo, veja quem estava no meu caminho de novo? Você. Meu querido e tolo irmãozinho.

— Retomar aquilo que te pertence? Kitsu?

— Quem é Kitsu? — inquiriu ele, virando as palmas das mãos para cima. — Parece nome de bicho.

— Naruto — Sasuke se corrigiu.

— Sim, esse mesmo. — O mais velho confirmou. — Sabe, Sasuke. Na verdade, eu tenho que agradecê-lo por ter facilitado as coisas para mim. Afinal, eu levaria tempo para encontrá-lo. E veja como o destino foi engraçado... — O rapaz apontou para outro extremo onde o loiro estava deitado sobre umas caixas de papelão, dormindo tranquilamente. — Ele está ali, dormindo feito um anjo, debaixo do mesmo teto que eu. E não faz nem vinte quatro horas que fugi da cadeia. Eu tenho que lhe dar um prêmio por isso.

Sasuke virou o rosto para o lado oposto e respirou profundamente, fechando os olhos. Tinha que se manter tranquilo. Aquilo era a pior coisa que poderia estar lhe acontecendo. Estava apaixonado por Kitsu. Sim, havia descoberto aquilo há pouco. Por isso se propusera a fazer tantas loucuras por ele. Mas e ele? Ele o enganara desde o começo? Poderia dizer isso?

O moreno mais novo sentiu seus lábios ressacarem e a respiração se tornar mais pesada. Sentia uma dor cadenciada em seu peito. Precisava saber da ligação entre Itachi e Naruto em mais detalhes. Precisava ter certeza do que havia entendido na noite anterior. E, engolindo a vontade de chorar, voltou a encarar o irmão a sua frente.

Era Itachi quem lhe daria aquelas respostas.

— Você começou a matar antes ou depois de conhecê-lo? — foi direto ao ponto que mais lhe incomodava. — Quando a maldição Uchiha despertou em você? Foi Kitsu, digo, Naruto, quem ajudou a desencadeá-la?

Itachi balançou a cabeça negativamente.

— Sasuke, Sasuke. Você não é mais criança para acreditar nessa tolice de maldição. Isso são coisas que são inventadas para assustar as criancinhas — respondeu ironicamente. — Não existe maldição. Nós seres humanos é que as inventamos para camuflar as maldades que impregnam nossa alma.

— Então porque você matou todas aquelas pessoas, Itachi?

— Não sei — respondeu sincero. — Por prazer, eu acho.

— Não pode ser só por isso...

Itachi ficou em silêncio.

— Deve ter acontecido algo. O trauma de ter perdido nossos pais tão cedo? Por ter sofrido algum tipo de violência na infância? Algo aconteceu com você para desencadear essa sua loucura!

— Isso foram os traumas que o marcaram, Sasuke. Não a mim.

— Mas...

— Eu posso apenas responder para você quando começou. Foi um pouco depois da morte dos nossos pais, quando o Kisame-san passou a me fazer mais companhia.

— O motorista?

— Ele.

Sasuke realmente se espantara. Lembrava-se pouco de Kisame, mas o pouco que lembrava era que este era um homem mais velho, um pouco ranzinza e que estava longe de ter algum atrativo.

— Sabe, Sasuke. O Kisame-san me deu apoio, me deu carinho quando o papai e a mamãe se foram. Talvez até um pouco mais do que isso, me ensinou o que era o sexo, me fez sentir desejos enlouquecedores. Mas ele era um homem mais velho e dotado de pouca beleza, infelizmente. Chegou a um momento que eu não me sentia mais satisfeito com ele. O achava nojento e estranho. Comecei a procurar garotos da minha escola. Sair com eles e me divertir com eles. Eu me tornei popular. Era rico, sozinho e podia fazer o que bem pretendia. Atrativos que chamavam muito a atenção. Comecei a trazê-los aqui, comê-los praticamente na frente do Kisame-san, já que ele não parava de me vigiar. Olha que engraçado, o egoísmo dele falou mais alto, e sabe, Sasuke, o Kisame-san não gostou de me ver fodendo com garotos da minha idade, do meu status social, bonitos...

Itachi sorriu brevemente e Sasuke continuou encarando-o seriamente, ele prosseguiu.

— Então, ele não gostou de ver um jovem se divertindo com pessoas da idade dele. O egoísmo humano dele dizia que o certo era que eu, um mero adolescente, continuasse transando com ele, um empregado, velho, pervertido e estranho, que apoiou a pobre criança no momento em que os pais partiram. Às vezes, eu penso que, se o Kisame-san tivesse ficado na dele, talvez eu fosse uma pessoa diferente hoje. Mas não, Sasuke, ele não gostou do que me viu fazendo com outros garotos e ainda por cima tentou fazer coisas más. Ele tentou matar um dos garotos com quem eu estava saindo. Só porque esse garoto gostava de provocá-lo. Aí, em um belo dia, ele ofereceu um refrigerante para esse garoto e nesse refrigerante tinha algo que fez muito mal à ele, quase o matou. Quando eu descobri e fui tirar satisfação ele também me ameaçou, disse que se eu não parasse de esfregar meus novos namorados na cara dele que a coisa ficaria bem pior.

Itachi parou por um instante, observando a face inexpressiva do irmão, então voltou a narrar sua história.

— Eu não gostei de ter sido ameaçado, eu era o patrão, aquilo não era certo. Por isso mandei o Kisame-san arrumar as coisas dele e ir embora da nossa casa para sempre. Mas ele não aceitou e tirou o cinto da calça, dizendo que iria me ensinar uma lição que os nossos pais não haviam ensinado. Foi o tempo apenas dele me dar as primeiras açoitadas e eu apanhei a faca que ele usava para cortar a maçã quando entrei no quarto e avancei sobre ele. O atingi na barriga, depois que ele caiu com aquele primeiro golpe, eu senti uma estranha euforia, e parti para cima dele e continuei golpeando-o até ele perder toda a força. Vê-lo sem movimento algum me provocou êxtase. Senti tanta adrenalina que quis me masturbar ali mesmo, com as mãos sujas de sangue, deitado ao lado do corpo dele, e foi o que fiz. Eu poderia ter me arrependido, afinal, eu reagi em minha própria defesa. Entretanto, o infeliz do garoto que me levou a tomar aquela atitude fez muito barulho ao descobrir o que tinha feito, disse que chamaria a polícia, fui obrigado a calá-lo também. E eu senti um êxtase ainda maior.

Itachi parou um por um minuto, ponderando sobre o que acabara de dizer, então continuou.

— Eu me tornei um maníaco — confirmou, meneando a cabeça positivamente. — Eu sentia prazer no que fazia, Sasuke. Depois disso, eu comecei a escolher a esmo. Sempre encontrava alguém no parque, na rua, alguém que chamasse minha atenção de alguma forma. Adorava seduzir, brincar, fingir de bom amigo. Trazia pra casa enquanto você estava na escola e depois de muito sexo eu matava minha vítima. Era a parte mais divertida, talvez até mais que o próprio orgasmo que eu sentia quando estava transando.

Itachi sorriu ao ver o caçula expirar tão profundamente que suas narinas dilataram.

— Eu fiz um grande cemitério no nosso porão — prosseguiu, pensativo. Como se sentisse orgulho do que fizera. — A polícia encontrou todos, eu acredito.

Sasuke engoliu em seco novamente. Era horripilante. O irmão narrava todas aquelas atrocidades como se fosse algo natural. Como alguém podia matar só por prazer? Deduziu que seu irmão era mesmo um monstro, um Demônio. E apesar de se sentir ferido por ter sido enganado com aquela ideia infantil e medonha de maldição, estava feliz em saber que não herdaria a demência do mais velho. Que aquilo não era genético.

— Acho que respondi sua pergunta — constatou Itachi. — Eu já matava fazia pouco mais de um ano quando eu encontrei Naruto. Havia saído atrás de uma vítima. Até então, eu nunca tinha tido interesse em crianças. Talvez por ter você em casa, Sasuke. Acho que minha pena no inferno seria um pouco menor se Naruto não tivesse surgido. Contudo, quando eu o vi, sentado no balanço, cabeça pendida no peito, pesinhos empurrando o chão para dar mobilidade ao brinquedo, eu fique extasiado por algum tempo. Aproximei-me devagar. Parei na frente daquele ser pequenino e coloquei as duas mãos na corda do balanço, impedindo-o de continuar se movimentando. Então, ao invés dele me olhar com estranheza, de ficar com medo, e sair correndo como uma criança normalmente faria frente a um estranho, ele fez ao contrário, me olhou, com aqueles imensos olhos azuis e abriu um grande, brilhante e gigantesco sorriso.

A mente de Itachi retornou aquele dia.

— O que está fazendo, pirralho?

— Não está vendo? Brincando no balanço, ué — a criança respondeu malcriada.

— Ah é? Eu jurava que você estava viajando para marte.

— Como?

— Estou sendo sarcástico e uma criança da sua idade não deve saber o que é isso.

— Começou a falar que nem o Saru-nii-chan, como se criança fosse burra.

Itachi abriu um sorriso de lado, gostara daquele garoto.

— Quem é o Saru-nii-chan?

— O jardineiro lá de casa.

— E quem é você?

— Naruto Namikaze[2]! — a criança respondeu de um jeito altivo, com entusiasmo, como se aquilo fosse algo importante. — Mas pode me chamar só de Naruto. E você, onii-san, como se chama?

— Itachi.

— Itachi-nii-chan?

— É, pode ser. — O rapaz sentou-se no balanço ao lado dele. — E então, Naruto-chan, o que está fazendo aqui sozinho? Não deveria estar na aula?

— Deveria. Mas toda terça e toda quinta tenho os últimos tempo vagos. Como meu tio só vem me pegar as cinco, eu fico aqui. Esperando. Sozinho.

— Entendi. Deve ser chato esperar sem ter ninguém para conversar. Posso te fazer companhia?

— Pode! — ele concordou eufórico. — Quer brincar?

— Claro — confirmou Itachi, se levantando. — Mas, que tal brincarmos na minha casa? Ela fica aqui perto.

O pequeno loiro abriu seu grande sorriso e pulou do balanço, pegando a mochila que havia largado no chão.

— Vamos! A sua casa é legal?

— Ah, sim, muito — confirmou Itachi.

Inesperadamente, o menino apanhou a sua mão, fazendo-o sobressaltar. Olhou para ele e notou que ele o olhava de volta, esperando ser guiado por ele, o mais velho, o desconhecido, mantendo aquele sorriso lindo e divertido no rosto.

Não era burrice, afinal o pequeno mesmo alegara que não era burro. Não parecia ser ingenuidade também. Será que o garoto confiara em si? Sorriu e apertou a pequena mãozinha na sua e começou a caminhar.

Alguns minutos depois adentravam a mansão Uchiha e já estavam no quarto de Itachi.

— Quarto de adulto é tão chato — Naruto resmungou, olhando as paredes pintadas de azul escuro.

— Não gostou?

— Não — foi sincero. — E não estou vendo brinquedos também.

— Os adultos brincam de outras coisas. Eu até tenho alguns brinquedos que me ajudam nesse meu divertimento.

— Então me mostra, Itachi-nii-chan, do que vamos brincar?

— O nii-chan não sabe nenhuma brincadeira de criança — respondeu Itachi, deitando na cama. — Afinal, eu sou adulto e não uma criança.

— E o que os adultos fazem pra se divertir? Que brinquedos são esses que você falou? — o pequenino perguntava, enquanto subia na cama sem pedir, escalando também o corpo do mais velho, repousando no peito dele seus cotovelos, para fazer de apoio para as mãos, que serviu de apoio para o queixo. Naruto encarou os olhos negros do adulto. Itachi estava encantado. Aquele garoto parecia provocá-lo. Sentiu o membro latejar apertado na calça jeans.

Apertou o nariz pequeno do seu visitante curioso.

— São brinquedos diferentes... — sussurrou. — E é para fazer coisas que só adultos fazem.

— Sexo? — perguntou o pequenino, fazendo o Uchiha realmente se impressionar. Então o ouviu prosseguir. — O Saru-nii-chan falou pra mim que crianças não podem saber como faz sexo. Eu disse que queria saber mesmo assim. Mas ele disse que não dá pra explicar direito. E só falou que duas pessoas fazem sexo quando ficam nuas e se abraçam.

Itachi entendera.

— É, esse é o começo. Mas sexo faz usando isso aqui — o moreno levou a mão entre seu corpo e o dele e apertou o pênis do pequenino por cima da bermuda do uniforme que ele vestia.

O menor, apesar de ter achado esquisito o toque dele naquela região, não estranhou. Às vezes seu pai também apertava aquela parte, dizendo que era pra crescer.

— Faz com o “Piu-Piu”? — Itachi viu o pequenino franzir seu cenho inocente e riu divertido da nomenclatura infantil dada ao órgão sexual. Fazendo seu corpo balançar com a gargalhada e por sua vez balançar o pequeno.

— Ow! Ow! Terremoto!

— É, com o “Piu-Piu” — confirmou, acalmando o riso e retirando sua mão da onde havia enfiado. — Mas sexo não é algo que dá pra explicar direito, o Saru-nii-chan tem razão. Sexo se explica melhor fazendo e sentindo.

— Me mostra como é, então? Faz eu sentir.

Itachi suspirou, era uma proposta tentadora, mas continuou sério. Deveria? E será que o crime de Pedofilia era pior do que o de assassinato?

— Quer mesmo? — quis confirmar com o pequenino.

— Quero — ele respondeu convicto, animado.

Itachi abriu um sorriso breve. Era ele quem estava pedindo.

— Vamos fazer assim, eu posso te mostrar — falou, agora olhando o pequeno com seriedade. — Mas para isso, escute bem minhas instruções. Nas terças e nas quintas ao invés de ficar sozinho no parque você vem aqui. Mas isso deverá ser nosso segredo. Não poderá falar de mim para ninguém, está entendendo? Nem, para o Saru-nii-chan.

— Eu sei. O Saru-nii-chan também me falou disso, disse que a lei proíbe os mais velhos de falarem sobre sexo com as crianças.

— Falar até não é o problema, mas fazer, é totalmente proibido. Quer saber mesmo assim?

— Quero — afirmou, assentindo firme. — E eu vou vir!

Itachi realmente não esperava que o pequeno fosse aceitar aquilo, pensava que no outro dia ele cairia em si e não voltaria mais a procurá-lo. Contudo, na quinta, ele estava lá. Na terça seguinte também, na próxima quinta também. E assim, algumas semanas se passaram. Ele conseguira realmente surpreendê-lo, aprendia rápido e sempre queria saber mais.

— Respira pelo nariz. Você vai se engasgar e se sufocar. Respira, Naruto. Naruto? Tira da boca. Para. Para de sugar, agora! — O rapaz não conseguiu segurar o gozo e acabou golfando sêmen para dentro da garganta do pequeno que se engasgou com o líquido e tossiu, engolindo um pouco, e deixando o resto espirrar pelo seu pequeno corpo nu.

— Consegui de novo — comemorou a criança, após se recompor, vendo o mais velho cair deitado na campa atrás dele e respirar com dificuldade. — Viu, você soltou de novo essa coisa. Com é mesmo o nome disso? — perguntou ele, passando a mão no rosto e lambendo os dedos lambuzados.

— Não faz isso na minha frente, vai me deixar excitado de novo — pediu Itachi, sentindo-se estimulado novamente ao ver o garoto lambendo seu gozo da pele como se fosse um gato se limpando.

— Mas eu fiz errado? — perguntou ele, parando de sorrir, olhando o adulto com ar de preocupação.

— Não, Naruto. Ao contrário. Fez muito certo.

O garoto voltou a sorrir.

— Então, quando você vai fazer comigo aquilo que fez com aquele outro garoto?

— Você estava olhando? — Itachi o repreendeu. — Eu disse pra não...

— É que o armário estava abafado — ele o interrompeu, já com suas respostas prontas. — Aí abri um pouquinho pra entrar ar. E acabei vendo. Foi sem querer. Desculpa? — pediu, olhando Itachi com a cabeça baixa e levando o dedo na boca.

Itachi riu, Naruto sabia que ele não resistia aquela sua carinha.

— Você é mesmo um pestinha — o outro voltou a amenizar a feição de repreensão. — Mas não dá pra fazer aquilo com você. — acrescentou a justificativa.

— Porque não?

— Você e esses benditos “porquês”. Olha... — O jovem levantou-se nu da cama e caminhou até sua penteadeira, pegou algo que pudesse explicar a ele com clareza. — Veja esse tubo de caneta, é o seu furinho aí atrás. Esse cabo de madeira da escova de pentear o cabelo é o “Piu-Piu” do nii-chan. Agora veja... — Itachi fez o gesto, tentando enfiar o cabo da escova de cabelo no tubo, que era diametralmente desproporcional. — Viu? Não cabe. Se eu forçar, vai quebrar. Apesar de que o corpo humano é flexível e não de acrílico como esse tubo de caneta, pode até entrar se eu forçar, mesmo assim a dor será horrível e não seria legal. Você vai ter que esperar crescer — ele devolveu os objetos a penteadeira então se voltou ao menino e o notou contorcendo a expressão.

Já imaginava, ele teria uma crise de manha.

— Mas eu não quero esperar até crescer! — gritou ele, como Itachi previra. Crianças além de previsíveis eram muitas vezes irritantes. — Eu quero que faça comigo agora! Eu não tenho medo de sentir dor! — ele continuou gritando.

O mais velho suspirou.

— Crianças mimadas e pirracentas, são um saco!

— Não me chame assim, Itachi-nii-chan! Foi você que disse que me ensinaria!

— Não disse até que ponto. — Ele viu o menino descer da cama e pegar a faca que Itachi trouxera junto com o lanche e a apontou para o braço, fazendo o moreno se sobressaltar. — Eu vou provar que não tenho medo de dor.

— O que vai fazer, Naruto?

— Isso... — Antes que o mais velho tomasse alguma atitude, o menino escorreu a faca pelo antebraço até escorrer sangue e após fazer umas caretas, olhou vencedor para a cara de assustado do mais velho a sua frente. — Viu? — mostrou o corte. — Não dói. Quer dizer... Não que eu não aguente.

Novamente Itachi engoliu em seco. Aquele garoto o perturbava. Era estranho, ele, um adulto, estar deixando ser comandado pelos caprichos de uma criança. Mas o faria se arrepender. Mostraria quem era o mais forte e quem mandava. Aproximou-se do menino e arrancou dele a faca, jogando-a no chão. Em seguida o empurrou para a cama.

— Se você chorar, eu o mato, entendeu?

— Eu não vou chorar — Naruto garantiu, como um adulto, convicto.

Itachi ouviu a voz de Sasuke da atualidade o interromper.

— Não precisa falar o que você fez.

— Você já imagina, não é? Afinal, aconteceu com você, não é, Sasuke? Mas diferente de você, que chorou e esperneou como uma menininha, o Naruto segurou toda a dor que sentiu. Porque ele queria aquilo mais do que eu queria. E no final eu fui capaz de senti-lo gozar, mesmo ele se contorcendo em dor.

— Monstro.

Itachi riu, levantando-se do pneu e deixando este cair com um baque abafado no chão.

— Não me interessa no que você pensa de mim, otouto. — O mais velho ficou de costas para ele, apoiando as duas mãos na cintura e fitando o loiro dormindo do outro lado da garagem e continuou explicando. — Nos dias seguintes ele não apareceu. Nem na próxima terça, nem na próxima quinta. Então fui obrigado a ir atrás dele e procurá-lo no parque. Foi aí que percebi que o tal tio dele estava levando-o para casa no horário. Deduzi que o garoto havia terminado com a namoradinha, por isso estava cumprindo com a sua obrigação.

— Foi então que decidiu sequestrá-lo?

Itachi olhou Sasuke por cima do ombro, então virou-se, voltando a encarar a face que parecia mais desafiadora agora. Aquela tez tão bem cuidada, tão diferente da sua que se acabara com o passar dos anos. Estava mais velho. Sasuke ainda tinha o quê? Recém dezoito? Na flor da juventude. Tão lindo. E ele tinha a frente todos os anos que lhe foram roubados, trancafiado em uma sela da solitária na cadeia. Sentia inveja da beleza e da juventude do seu caçula. Apesar de serem irmãos, percebia a diferença que o maldito tempo impusera a eles.

— Está enganado, Sasuke — respondeu a pergunta feita por ele. — Naruto foi o único com quem eu nunca forcei nada. Tudo que fiz com ele, foi porque ele quis. Por isso eu saí daquele inferno na cadeia só para vir atrás dele. A cada minuto que passava lá, só pensava em como seria nossa vida se tivéssemos continuado juntos. Se as coisas, mais uma vez, não tivesse tido a intromissão humana.

— Eu não estou entendendo.

— No período em que fiquei com Naruto eu não sentia necessidade de matar. Os nossos momentos juntos supriam esse meu desejo. Eu já estava me convencendo de que Naruto era a minha cura. Eu poderia viver normalmente se continuasse ao lado dele. Esperar ele crescer, ficar junto dele para sempre e ser feliz.

Mais uma vez Sasuke sentiu um arrepio. Viver normalmente. Ser feliz ao lado de Kitsu. O irmão parecia repetir seus próprios desejos.

— Mas era tarde para arrependimentos, afinal, já havia feito inúmeras vítimas. Comecei a ficar depressivo, não sabia mais o que eu queria, sendo capaz de tomar apenas uma única decisão: pagaria por tudo que eu fiz dando cabo da minha vida. Não queria ser tomado pelo o egoísmo humano também. Não levaria a pessoa que eu mais desejava comigo. Assim, naquele dia eu te avisei que não o apanharia na escola, você levaria mais tempo para chegar em casa, e quando chegasse, já estaria tudo terminado.

A atenção de Sasuke em Itachi redobrou.

— Contudo, naquele dia alguém bateu a porta, era ele: Naruto. Ofegante de uma longa corrida. Ele havia fugido do tio parar ir me ver. Explicou que não conseguira vir antes porque o rapaz não lhe deu oportunidade. Naquele dia, eu o mandei embora, disse que era melhor ele ficar com os pais e que não queria mais vê-lo. Sabe por que fiz isso, Sasuke? Porque eu fui dominado pelo mais potente, broxante, e maligno dos sentimentos humanos: o amor. Um psicopata pode amar? Se Deus existe ele fez isso comigo. Ele colocou um ser para devolver a alma que já estava condenada ao inferno.

Itachi contorceu os lábios.

— Mas se o Diabo também existe, ele fez bem sua parte. Naruto insistiu. O garoto não queria voltar para casa e disse que ficaria comigo pra sempre. Então, diante daquelas circunstâncias, tomei uma nova decisão: fugirmos juntos.

Sasuke sentiu um baque lhe quebrar por dentro. O mesmo que acontecera consigo. A mesma ideia, a mesma decisão, eram irmãos compartilhando o mesmo sentimento.

— Então, o deixei ficar — Itachi prosseguiu. — Foi quando ele viu você pela primeira vez, estávamos passando pelo corredor para ir dormir no quarto que fora do papai e da mamãe e ele estagnou na porta que estava entreaberta do seu quarto e ficou ali por um bom tempo, admirando-o. Então ele perguntou quem era e eu disse que era “Sasuke” meu pequeno irmão. Perguntei se ele queria que eu o chamasse para ir junto. Mas ele apertou a minha mão com força e disse que não, que queria brincar só comigo.

Sasuke permaneceu em silencio, sua cabeça dando centena de voltas, o irmão continuou.

— Entretanto, até eu preparar tudo para fugir, passaram-se alguns dias. E nesse espaço, o desparecimento de Naruto Namikaze, filho de Tsunade Namikaze e Minato Namikaze, gente importante da cidade, estava sendo televisionado por todas as emissoras de televisão. Eu tentei apressar as coisas. Documentos falsos. Vender tudo o que conseguia, retirar dinheiro do banco. Preparar esse carro. Estava tudo pronto, iríamos viajar na madrugada do dia seguinte. Mas o destino novamente pregou suas peças e naquela noite o pai dele bateu na porta da mansão. Disse que estava procurando pelas redondezas o filho que estava desaparecido há quase uma semana, e que aqui era o único lugar que ele não havia perguntado ainda. Eu não precisei abrir a boca para responder e os gritos de uma criança brincando com os cães romperam a sala. Eu disse que era meu irmãozinho caçula, mas o homem reconheceu a voz do filho e antes que Naruto o visse eu o silenciei. Não iria ser parado de novo. Não iria voltar atrás mais uma vez. Para mim, meu único caminho era com Naruto. Sim, me deixei ser tomado pelo maldito egoísmo.

“Demônio!”, pensou Sasuke.

— Escondi o corpo dele juntos com outros no porão. Mas, enquanto eu fazia isso, não imaginava que o homem havia trazido reforço, outro garoto havia entrado na casa pelos fundos. Nawaki tinha encontrado Naruto brincando com os meus bichinhos presos. Agora vou apenas deduzir o que imagino que Nawaki tenha feito. Ele encontrou Naruto nos fundos e tentou levá-lo com ele, mas provavelmente o sobrinho não quis ir, então ele o desacordou e o deixou em algum lugar escondido nas redondezas da mansão. Então voltou para resgatar o cunhado. Este foi seu grande erro. Eu o encontrei e tentei arrancar dele onde havia escondido Naruto. Mas ele só respondia: “agora ele estava a salvo e a polícia está vindo”. Fui tomado por uma ira sem tamanho. Se eu havia perdido o jogo, iria pelo menos me divertir pela última vez. O restante, você presenciou. Quer que eu narre novamente?

— Cale a boca.

Itachi riu.

— Agora chega de reviver o passado. Estou tendo a chance de continuar de onde parei e vou seguir em frente junto com Naruto. E, você, otouto, o que pretende? Queimar com essa casa velha ou vir conosco?

— Não tem lugar pra mim na história de vocês, eu nunca estive nos seus planos, Itachi, e não estou agora. Eu iria ser deixado pra trás de qualquer maneira e vou ser deixado agora. Então me deixa morrer em paz — respondeu Sasuke, não suportando mais segurar o choro.

— Você fez sua escolha. — Ele ergueu as mãos e os ombros ao mesmo tempo e então foi até o loiro e o sacolejou pelos ombros — Naruto, vamos. Está tudo pronto.

— Agora não, deixa eu dormir só mais um pouco... — resmungou ele, preguiçoso.

— Não temos tempo para mais um pouco. Vamos embora. Essa casa vai estar rodeada de tiras ao amanhecer.

O loiro esfregou os olhos, esticou os braços, — se despreguiçando — e se levantou coçando as costas.

— E o Sasuke?

— Ele resolveu ficar.

— Mas...

— Chega — Itachi o interrompeu. — Vai me ajudar a espalhar a gasolina ou não?

— Cheiro de gasolina me dá enjoo.

Itachi revirou os olhos.

— E desde quando virou uma mocinha sensível?

O loiro mostrou o de dedo do meio para Itachi.

— Certo. Eu faço dozinho. Mas se prepare, partiremos no máximo em quinze minutos.

— Hai — bateu continência.

...

Kakashi entrou na casa de Tsunade aos tropeços e encontrou a mulher na sala, amparada pelos empregados, desesperada e em prantos.

— O que houve? — perguntou preocupado.

— Sasuke sumiu. Mas não é só isso. Veja... — Shikamaru ergueu os dois cartazes que estava em suas mãos e os mostrou um ao lado a lado do outro. — Isso chegou não faz meia hora pelo fax.

O homem observou o cartaz escrito “Procura-se” emitido pelo departamento de polícia com a foto de Kitsu que havia enviado para Danzou. E o outro, um cartaz desbotado de “Desaparecido”. A criança e o jovem loiro. Exatamente iguais.

— Vou para casa dos Uchiha — avisou Kakashi. — Chamem toda a polícia.

— Mas é um lugar óbvio demais — observou o investigador mais jovem.

— Temos que começar por algum lugar e a minha intuição nunca falha, comprovei isso hoje.

— Kakashi, eu vou — anunciou a mulher se levantando e repousando seus olhos marejados na face meio encoberta do policial. — É o meu filho.

— Tsunade...

— Não! Não tente me impedir. Desta vez eu não quero ouvir que isso é assunto para homens resolver. Da outra vez que ouvi isso perdi meu marido, meu irmão e o meu filho. Não quero que isso volte acontecer. Eu... eu... eu não sei suportaria passar por mais perdas novamente. Por favor, deixe-me ir. Eu imploro.

O homem engoliu em seco. Ele a entendia muito bem.

— Está bem, venha — concordou, apanhando a mão da mulher na sua e puxando-a para fora.

Rapidamente os dois adentrar no carro que ele havia estacionado na frente da porta da sala.

— Eu vou junto — avisou Shikamaru aparecendo na janela.

— Shikamaru, não. Não é bom que apareça — o investigador mais velho replicou.

— Mas é meu dever como policial também.

— Shikamaru... — Kakashi suspirou e lembrou-se do que a jovem, Temari, a irmã de Gaara, havia lhe confessado antes de sair da casa deles em Suna. “Eu sei que meu namorado está em um caso complicado como esse. Ele é conhecido como Sombra. Senhor, por favor, diga para ele se cuidar. Eu não quero que meu filho nasça sem pai. Ele ainda nem sabe.”. O homem ergueu os olhos do volante e encarou o rapaz que ainda esperava uma justificativa. — Vai ser perigoso. E você precisa se preservar, não só para se proteger, mas... — Ele pensou, mas não podia esconder aquele fato do garoto, então confessou: — Você precisa ficar vivo para proteger a sua mulher e o filho que ela está esperando.

— Quê?

— A menina Temari, não é? Irmã do prefeito? Ela me contou, antes de sair da mansão deles em Suna, que está grávida. Ela pediu para que eu o avisasse, porque não quer que o filho de vocês nasça sem pai. — O homem percebeu o rosto do jovem se empalidecer e este perder toda a euforia, aproveitou e lhe deu novas ordens: — Chame todos os reforços que puder e mande pra lá, só com isso, estará nos ajudando.

— H- Hai... — concordou ele, meio tonto, meio sem voz.

O homem ligou o carro, então ouviu o rapaz lhe chamar.

— Kakashi-san?

— Hm?

— Arigatô.

— Hm — o homem resmungou, fazendo um breve meneio com a cabeça.

No carro, o casal se entreolhou, deram as mãos, apertando-as firmemente e transmitindo força um para o outro.

— Nós vamos salvá-los, Tsunade — afirmou o policial convicto. — Vamos salvar Sasuke e Naruto. Vamos salvar nossos filhos.

— Vamos — ela finalmente sorriu, um pouco mais animada, mesmo sem conseguir conter as lágrimas que continuavam descendo em seu rosto.

Continua...

Sound track:

Cansei de tanto caminhar,

Pingos de chuva caem em meu rosto

Aqui neste lugar perseguindo um coelho inalcançável

Posso ver o fundo dos seus olhos,

Como se fossem água do fundo do mar.

Você lá me chamando, me chamando...

Estou bem aqui.

Aonde, aonde eu devo ir?

Para satisfazer estes desejos?

Home sweet home – Yuki

Vocabulário de expresses e Observações:

* Shotakon ou shotacon, geralmente abreviado para shota, é um termo japonês para um complexo relativo a sexualidade (Shôtaro Complex), onde um adulto do sexo masculino sente-se atraído por um garoto mais novo. No mundo ocidental, este termo é usado para referir-se especificamente ao anime ou mangá que mostra garotos na puberdade ou na pré-puberdade ao lado de personagens mais velhos que tenham atração por crianças. Esses trabalhos são, frequentemente, de natureza sexual, e alguns temas comuns são yaoi e incesto com um irmão mais velho ou outro membro familiar.Alguns críticos afirmam que o gênero shotacon contribui com a estimulação do abuso sexual infantil, enquanto outros afirmam que é exatamente o contrário, ou uma mera expressão artística.(Fonte: Wikipédia).

[1]Honda Preludefoi um coupé desportivo de porte médio e motor de quatro cilindros em linha fabricado pela Honda entre 1978 e 2001. O carro também ficou popularizado após diversas aparições em games de corrida. Fotos do Prelude.

[2] Na história Tsunade casou com Minato Namikaze (pai do Naruto no enredo original), por isso ela e o filho herdaram o sobrenome do marido. Mas depois da morte de Minato, ela voltou a usar o sobrenome de solteira do pai “Senju”.

Notas finais
Agradecimentos especiais a Anninha que fez também uma linda recomendação da fic. Ela é uma fiel seguidora e me acompanha desde 2007, quando comecei a escrever no ffnet. Obrigado, amorzinho. Aproveitar para agradecer também quem continua me apoiando através das reviews, e principalmente aos novos leitores que postaram seus comentários, e que vieram de indicações de outros leitores. Obrigado! Pôxa, essa história só é esse sucesso, graças a vocês. Obrigado de novo. Estarei bem ocupada este fim de semana, tem evento de animes na cidade (e eu vou, óbvio :D) preciso comprar mangás em promoção. Então, vou respondendo as reviews de vagar. Segunda, se tiver uma quantidade razoável de comentários, eu já posto o penúltimo capítulo desta trama. Novamente, obrigado a todos pelo apoio e pelos os elogios. Estou muito feliz com esse trabalho e com o reconhecimento dele. Beijos! See you next!