Obsessão Fatal
8 Capítulo 7
Obsessão fatal
Capítulo VII
— Será que a Tsunade-sensei não tem nada pornô aqui? Mulheres se fingem de santas, mas eu sei que elas gostam de umas safadezas.
Novamente Sasuke não dera ouvidos ao que Shikamaru dizia, ao tocar a madeira do objeto, que estava virado para baixo, sentiu um tremor abalá-lo. Foi apanhado por um calafrio que varreu seu corpo todo e atingiu até sua alma. Era como se algo o avisasse para não olhar o retrato.
Mas precisava.
Evitando criar pretextos em sua mente que o fizesse desistir, Sasuke virou o objeto de uma única vez e tentou observar cada componente da foto de maneira individual. Primeiro a médica, ao centro, ela parecia uma adolescente com os cabelos presos em um rabo de cavalo, um sorriso jovial e bonito no rosto. Não tão diferente do que ela era hoje, talvez, sem rugas e com a expressão mais de menina. Ao lado esquerdo dela estava um homem muito loiro e de olhos azuis, o braço esquerdo estendido sobre os ombros da médica e a mão direita apoiada na cabeça de uma criança na frente deles. Do lado direito da doutora estava um jovenzinho de cabelos e olhos castanhos. Foi então que atenção de Sasuke se voltou para a criança sorridente da foto. Era um menino tão loiro quanto o homem ao lado esquerdo de Tsunade. Tanto Tsunade quanto o rapaz do lado direito estavam com um das mãos sobre os ombros da criança. A criança estava fazendo o símbolo da “paz” com as duas mãos e sorria abertamente. Aquele sorriso... Sasuke sentiu um arrepio. Conhecia aquele sorriso. A lembrança da primeira vez que o vira atravessou sua mente como um flash. O dia que quase sofreu um acidente. Sentiu um novo arrepio. Não podia ser. Não poderia ser ele. Apesar dos cabelos, dos olhos e do sorriso serem iguais, ainda não podia acreditar. Foi então que se deteve naquela prova mais concreta: a corrente pendurada no pescoço do jovenzinho ao lado direito de Tsunade, a corrente com aquele pingente formado por três pedras verdes, aquele pingente era, aquela corrente era...
Sasuke piscou. Ouviu gritos. Gritos que ecoaram em sua cabeça de um passado distante. Sentiu tontura. A maldita vertigem que não sentia há dias. Caiu de joelhos no chão com as mãos amparando a cabeça. Deixou o porta-retratos cair no carpete. O barulho na sua cabeça se tornando cada vez mais insuportável. Latidos, gritos, misturaram-se ao som da voz do vizinho da médica que o chamava preocupado.
— Ei, você está bem? Ei, Sasuke? — O rapaz sacolejava-o pelo ombro.
Sentiu uma forte ânsia de vômito.
— Banheiro — foi a única coisa que conseguiu pronunciar e se levantou e correu atrás de um.
Subiu para o segundo piso da casa e após abrir algumas portas, encontrou um banheiro e encerrou-se dentro dele.
Shikamaru esperou do lado de fora, encostado a porta, ouviu que Sasuke vomitava, esperou. Depois de algum tempo, resolveu chamá-lo, batendo na porta.
— Sasuke? Você está bem? — perguntou, mas não obteve resposta de imediato.
Dentro do banheiro, Sasuke havia levantado a cabeça do vaso. Ergueu-se e abriu a torneira da pia, enquanto visualizava seu rosto abatido no espelho. Eram tantas coisas que iam e vinham na sua mente de uma única vez que não foi capaz de ordená-las e aquilo aumentara sua indisposição, em consequência, o vômito. Enfiou a cabeça debaixo da água que escorria da torneira. O outro na porta ainda batia preocupado. Tinha que despreocupá-lo, era a primeira coisa a fazer.
— Estou bem — respondeu. — Acho que a cerveja e a pizza não me caíram bem.
— Vou ligar para a Tsunade — a voz do outro lado o informou.
Ele não podia fazer aquilo. Se Tsunade soubesse que passou mal no momento que viu o porta-retratos da família dela ela desconfiaria. A médica o conhecia. Ligaria os fatos rapidamente. Ela saberia. Veria em seus olhos e, em seu tormento, que sabia do paradeiro do seu filho desaparecido.
Filho?
Sasuke sentiu lágrimas brotarem na margem dos seus olhos. O filho que sua psicanalista buscara tão incansavelmente durante dez anos, o filho que teve o pai e o tio mortos pelas mãos do seu irmão maníaco, esse filho era...
Era o seu anjo. Kitsu.
— Sasuke, estou descendo. Vou lá fazer a ligação e já voltou.
— Não precisa — respondeu rapidamente e deu descarga no sanitário, fechou a torneira da pia, apanhou a toalha a qual jogou sobre a cabeça e então abriu a porta, enquanto secava os cabelos e o rosto tentando disfarçar as lágrimas.
— Mas você não está legal.
— Não vai tirar ela da festa só por causa de um enjoo, né?
— Bem. Parece que não foi só a pizza. Você estava bem até o momento que olhou aquele retrato.
Sasuke franziu o cenho ao ouvir aquela afirmação, descobriu o rosto, descendo a toalha para os ombros e encarou aquela pessoa detido na passagem.
— O que está querendo dizer?
Shikamaru coçou a cabeça e riu sem graça.
— Esquece. Bobeira. Não vou chamar a doutora. Você tem razão, seria por coisa pouca. Por que não vai se deitar? Acho que está precisando descansar um pouco. Eu vou recolher aquela bagunça lá embaixo e procurar um efervescente para o seu estômago.
— Tá — Sasuke concordou e os dois tomaram rumos diferentes.
Mas Sasuke nem chegou a abrir a porta do quarto de hóspede, ao ver que Shikamaru desaparecera na escada ele o seguiu de forma sorrateira. Esperou que entrasse na sala e agachou-se no chão, atrás de um dos móveis. Ouviu quando ele iniciou aquela conversa com alguém em seu celular.
— Oi, Chefe?
— Como está indo, Sombra?
— Ele teve a reação esperada quando viu o porta-retratos. Passou mal e até vomitou. Tenho certeza, chefe, ele reconheceu as pessoas na foto. Mas essa reação, não tão controlado, me fez acreditar que ele só recuperou um fragmento perdido da sua memória. Isso descarta, parcialmente, a ideia de que Sasuke compactue com as atitudes do irmão e que esteja envolvido com a fuga dele.
Sasuke arregalou os olhos e soltou uma exclamação sem querer, cobriu a boca com ambas as mãos e torceu para que Shikamaru não tivesse ouvido.
Mas Shikamaru não só ouviu como viu algo que lhe chamou atenção: o vidro da janela refletia um espelho atrás dele, e no reflexo desse espelho viu Sasuke escondido atrás de um dos sofás.
“Merda! Ele ouviu.”
— Ouviu minha pergunta, Sombra?
— Ouvi, chefe — confirmou ao homem. — Mas o senhor terá mais detalhes no meu relatório pela manhã. Tenho que desligar agora. Sim, sim, senhor. Obrigado pela informação. Certo, senhor. Sim, senhor. Boa noite.
Ao desligar o celular, Shikamaru voltou-se para o lado em que Sasuke estava.
— Eu sei que está aí, Sasuke. Dá para ver seu reflexo no espelho da parede.
Só foi erguer a cabeça e Sasuke também se viu no enorme espelho disposto na parede, então se ergueu e encarou o rapaz a sua frente.
— Você é outro policial?
— Um agente especial — retificou, sem se preocupar.
— Então, Itachi fugiu mesmo da cadeia?
— Você sabia?
— A estranha reação do Kakashi, o fato dele me mandar para cá sem mais nem menos, é, eu desconfiava. Mas, por que eu teria algo haver com a fuga dele?
— A fuga dele foi muito bem elaborada. Estando preso, ele não poderia ter feito tudo sozinho, então chegamos à conclusão de que ele tinha contatos externos — Shikamaru explicou, calmamente, sem se receio em esclarecer aqueles detalhes para um não policial. — Chegamos há alguns nomes de quem poderiam ser esses contatos. Um deles era você. Mas o chefe acabou de descartar essa possibilidade ao me dizer que o comparsa que ajudou Itachi na fuga foi encontrado morto agora tarde. E parece que o próprio Itachi o matou. Agora acreditamos que ele esteja mesmo atrás de você. Por isso está seguro aqui.
— Por que o teatro então?
— Como eu disse, precisávamos eliminar as suspeitas sobre você, Sasuke. O fato de você se recusar a falar sobre o passado o fazia muito suspeito. Não falar para a polícia é quase o mesmo que confessar que está tentando proteger o criminoso. Ele é seu irmão, nada nos garantia que você não quisesse falar somente para protegê-lo.
Sasuke crispou os punhos.
— Você falaria para qualquer um, estranhos, polícia, imprensa, que foi estuprado pelo seu próprio irmão aos sete anos de idade?
Shikamaru manteve seu semblante sério. Ficou em silêncio por algum tempo, então respondeu.
— Provavelmente não — concordou com um breve suspiro. — E, perdoe-me por não entender sua dor, Sasuke. Não serei hipócrita em dizer que entendo algo que não entendo. Mas estamos apenas tentando fazer nosso trabalho.
— Você também não espera que eu entenda isso? — inquiriu um tanto ríspido. — O laudo da Tsunade nunca foi o suficiente para vocês da polícia, não é? Saber que um garotinho viveu um trauma e se recolheu em um mundo obscuro durante anos não era uma boa resposta? Precisavam me enganar para tentar arrancar de mim um passado que só me fez mal e o qual eu lutei tanto para esquecer e...
— Desculpe-me pelo que vou lhe dizer, Sasuke — o agente o interrompeu. — Mas não acho que alguém que passe pelo que passou consiga viver a vida de uma maneira normal sufocando o que houve. Acho que a melhor forma de nos livrarmos de um passado de dor é colocá-lo para fora de alguma maneira. Se livrar dessa dor, dessa coisa ruim que o consome e o torna... depressivo.
— Você disse que não seria hipócrita ao tentar entender uma dor que não entende. Então não tente encontrar meios para se livrar de algo que você não sabe o quanto que faz mal.
— Estou sendo sincero, Sasuke. Queremos te ajudar. Seu tutor quer. A Tsunade quer...
— Ela só quer encontrar o filho — fora a vez de Sasuke interrompê-lo. — Ela nunca quis me ajudar de verdade. Só estive sendo cuidado por ela até hoje por mera conveniência, ela ainda tem esperanças que as minhas lembranças do passado revelem o paradeiro do filho desaparecido.
— Ou o corpo dele.
— Ou o corpo — concordou Sasuke, meneando a cabeça. — Mas se ela pudesse me ver morto, exatamente como ela deseja ver o meu irmão, ele veria.
— Só vou discordar do que você disse nessa parte, Sasuke. A Tsunade não o quer morto. Eu conversei com a doutora e também com o seu tutor. A Tsunade quer saber o paradeiro do filho sim, mais do que tudo nesse mundo, mas ela o defendeu em todas as hipóteses que levantamos suspeitas sobre você. Ela foi fervorosa, como uma mãe que defende um filho, ao dizer que você jamais seria como o Itachi, que você era somente um rapaz doente e traumatizado. E, também, ela relutou quanto a investigarmos você. Da mesma forma que seu tutor relutou, e por isso ele foi afastado do caso do seu irmão.
Sasuke ficou levemente baqueado ao ouvir aquelas informações, principalmente sobre Kakashi ter sido afastado do caso do seu irmão por não permitir que o investigassem. Engoliu em seco ao lembrar-se do que fizera com Neji. Kakashi e Tsunade pareciam acreditar mesmo nele, ou era apenas aquele agente especial da polícia tentando manipulá-lo?
Mas se fosse verdade o que Shikamaru dizia, eles jamais o perdoariam ao descobrirem que ele não era mais tão frágil e tão traumatizado quanto pensavam ser. E, que, assim como o irmão, havia despertado seu lado psicótico e cometera de uma única vez três assassinatos. Começou a suar frio. Se fosse descoberto iria para cadeia. E, se fosse para cadeia, jamais veria seu anjo novamente.
Kitsu era a única coisa boa que lhe restava naquele momento. Mas, seu Kitsu nem se chamava mais Kitsu, ele era na verdade Naruto, o filho desaparecido da sua psicanalista. A criança que teve o pai e o tio mortos pelas mãos de Itachi. Será que ele compreenderia e aceitaria ficar com ele mesmo depois de saber essa informação?
E, se ao invés de escolhê-lo, Kitsu escolhesse voltar para os braços da mãe e a todo o conforto que ela poderia lhe proporcionar? Afinal, sendo de uma família rica e influente como da doutora, ele jamais precisaria mendigar novamente nas ruas, se prostituir ou estar ligado a alguém em troca de favores.
Se não tivesse cometido aqueles assassinatos as coisas poderiam ter sido diferentes?
Poderia contar a Shikamaru sobre o paradeiro de Kitsu, ele voltaria para a mãe, que lhe seria grata eternamente. Os dois se tornariam “amigos”, seriam reabilitados na sociedade, frequentariam uma mesma universidade, sairiam para beber nas noites de sextas, frequentariam a casa um do outro, até o dia que resolvessem se assumir e anunciarem que iriam morar juntos. Sentiu as lágrimas descerem pelo seu rosto sem querer.
Shikamaru, que o observa em silêncio, suspirou fundo.
— Não precisa chorar e nem se preocupar tanto se você não tem mesmo nada a ver com a fuga de Itachi.
Sasuke arregalou os olhos. Havia esquecido totalmente do irmão. Itachi estava em fuga e a antiga casa deles poderia servir de esconderijo. Kitsu ainda estava lá. Não. Itachi não seria tão idiota de se esconder em um lugar tão óbvio. Mesmo assim, precisava tirar o loiro de lá. Aquela seria sua nova prioridade. Depois de estar com Kitsu contaria a ele a verdade e os dois juntos chegariam a uma decisão. Mas, antes, tinha que sair daquela casa.
Olhou para o agente, que o encarava, como se ainda estivesse analisando suas reações.
— O que vocês querem de mim então? — perguntou, limpando as lágrimas com as mãos e se recompondo.
— Só precisamos tomar seu depoimento. Nos conte tudo o que lembrar. Como era o comportamento do seu irmão antes. Quando começou a perceber que ele havia mudado. O que ocasionou nele essa mudança? Entende agora, Sasuke? Todas as pessoas que conheciam Itachi Uchiha estão mortas: seus pais e as vítimas dele. A única pessoa que resta agora é você, e por isso o seu depoimento é a chave para tentarmos entender a mente do seu irmão.
— Éramos uma família comum...
— Espere, sente-se — pediu Shikamaru retirando o celular do bolso e acionando o gravador de voz que colocou sobre a mesa. Sasuke se sentou e ele fez o mesmo. — Certo, continue.
— Itachi era um irmão comum, gentil e carinhoso. Depois que meus pais morreram... — Sasuke fez uma pausa ao dizer aquilo, engoliu em seco, respirou fundo, e voltou a falar. — Depois que eles morreram, ele passou a tomar conta de mim. Era ele quem me levava à escola, quem me ensinou a jogar bola, me ajudava com a lição de casa, jogava videogame comigo no meu quarto. Ele só dizia que não sabia contar histórias para eu dormir, porque ele só conhecia histórias de terror... — Sasuke engoliu em seco mais uma vez, voltou a respirar fundo e retomou a narração. — Sempre quando estava com medo de dormir sozinho eu o chamava, então ele voltava comigo para o quarto e se deitava na mesma cama que eu, me abraçava, e ficava resmungando uma canção até eu pegar no sono.
— Quantos anos você tinha quando seus pais morreram?
— Cinco.
— Então, Itachi foi esse bom irmão para você por dois anos?
— Sim.
— Quando você começou a notar mudanças no comportamento dele?
— Quando vieram os cães.
— Vocês não tinham cachorros antes?
— Não.
— Ele não te falou porque estava trazendo os cães?
— Disse que eram seus filhos e que o ajudariam a proteger a casa.
— Entendo. Prossiga.
— A princípio ele trouxe dois, depois arrumou mais quatro. Ele os prendia no porão e passou a ficar muito tempo com eles. Eu apenas ouvia seus rosnados e a voz de Itachi atiçando-os, como se estivesse ensinando-os a atacar. A noite ele os soltava no jardim dos fundos. Eu tinha medo deles, dos rosnados, do barulho que faziam durante a noite. Nessas horas eu ia atrás do meu irmão no quarto dele, mas ele nunca estava lá. Algumas vezes eu o encontrava no corredor, andando apressado, as mãos pingando sangue...
Sasuke fechou os olhos.
— Você se machucou, onii-san? — eu perguntei ao encontrá-lo no corredor certa vez.
— Ah? Isso? — ele olhou para as próprias mãos banhadas em sangue. — Não, Sasuke. O onii-san está bem. Eu estava cortando carne pra dar pros meus filhinhos lá no porão. Você quer vê-los comer?
Eu neguei com a cabeça.
— Eu tenho medo.
— Então volta a dormir.
— Hm.
Eu era uma criança ingênua. Apesar de tudo, eu me sentia confortável. Protegido. Pensava que com aqueles cães ferozes e com o meu corajoso irmão mais velho jamais precisaria me preocupar com ninguém me fazendo mal.
Itachi continuava me levando na escola todas as manhãs, mas por ele passar muito tempo acordado com os cães durante a noite, ele nunca parecia bem. Estava sempre com sono, com uma expressão de mau-humor, por isso, não conversávamos muito no percurso. Mas no final da tarde, quando ele ia me buscar, ele parecia mais animado, perguntava como havia sido meu dia na escola e o que eu queria comer no jantar. Chegávamos em casa e ele me mandava para o banho enquanto preparava nossa comida. Depois do banho, comíamos juntos, na mesa da cozinha mesmo, quando terminávamos ele recolhia os pratos para lavar e me mandava para o quarto. Algumas vezes eu pedia para ele brincar comigo, mas ele me dava uma peteleco na testa e respondia que não podia, que ele iria alimentar “seus filhos” e que era pra eu deixar para uma próxima vez. Várias vezes ele repetiu o mesmo gesto.
— Você nunca viu o que ele fazia no porão? Nunca viu pessoas diferentes na casa? Outras vozes? Gritos?
Sasuke balançou a cabeça em negação.
— Nada, até aquele dia.
— Aquele dia é o dia em que ele o violentou?
Sasuke afirmou com um meneio de cabeça.
— Ele nunca havia tocado em você antes daquele dia?
— Não.
— Mesmo quando ele deitava com você na mesma cama?
— Mesmo.
— Certo. Quer me contar como foi esse dia? Não precisa entrar em detalhes sobre o ocorrido com você.
Houve um respirar profundo da parte de Sasuke. Shikamaru mantinha os olhos atentos nele. Então ele começou a falar.
— O dia começou normal, dentro do que vinha sendo normal naqueles dias. Itachi me acordou, preparou o meu café, me levou para escola e só no momento da despedida é que aconteceu a primeira situação anormal daquele dia: ele disse que talvez não poderia ir me buscar no fim da tarde e pediu para que eu fosse embora com a vã escolar. Ele já havia avisado ao colegiado.
No fim da tarde ele realmente não aparece e eu voltei com a vã. Como o percurso era longo, eu cheguei em casa era quase de noite. Comi algo que encontrei na geladeira, um lanche pronto, e fui descansar no meu quarto. Havia sido um dia de atividades exaustivas no colégio e estava tão cansado que acabei dormindo cedo. Certa hora da noite acordei com os cães latindo, eles estavam mais agitados que o normal. Então ouvi tropeços no corredor e a voz de alguém gritando. Acabei despertando totalmente com aquele barulho. Depois tudo voltou a ficar em silêncio. Eu saí do quarto, então vi meu irmão puxando uma pessoa pelos cabelos, arrastando-o pelo chão. Essa pessoa murmurava com a boca amordaçada, se debatia, estava com as mãos e os pés amarrados.
— Era uma criança? — interrompeu Shikamaru.
— Um adolescente — respondeu o moreno. — O mesmo que está do lado direito da doutora na foto.
— O irmão caçula dela, Nawaki.
— Ele.
Sasuke fez uma breve pausa, fechou os olhos e se viu no corredor da sua casa, naquele mesmo dia.
— Onii-san? O que está fazendo com esse moço?
— Volta para o seu quarto, Sasuke! Agora! — ele esbravejou. — Esse filho da puta deixou o meu brinquedinho ir embora. Agora ele vai pagar caro.
Nunca tinha visto meu irmão tão alterado daquele jeito. Ele gritava e xingava como nunca havia feito antes. Senti meu coração acelerar no peito. Os olhos dele tinham um brilho macabro. Toda sua expressão era demoníaca. Eu o vi o abrir a porta do quarto dele com um pontapé e arrastar o rapaz, que parecia pedir desesperadamente por ajuda, para dentro.
Eu o segui. Sentia que precisava fazer alguma coisa. Meu irmão passou a rasgar as roupas do garoto, até deixá-lo nu. Eu comecei a chorar, estacado na porta arrombada. A mão na boca. Não entendia porque Itachi estava fazendo aquilo. Eu só queria que ele parasse de machucar aquela pessoa.
— O- onii-san, p- pare de machucar o m- moço — eu pedi, em lágrimas.
Itachi não me deu ouvidos, parecia possuído. Mas no momento em que ele arrancou a mordaça da boca daquele rapaz, a situação ficou ainda pior.
— Fuja, pequeno! Peça ajuda! Peça ajuda! Chame a polícia! Seu irmão está louco!
Foi então que Itachi pareceu me notar. Seus olhos se incandesceram ainda mais e ele abriu um sorriso demente. Foi até a porta e me apanhou pelo pulso e me puxou pra dentro do quarto, me fazendo sentar na poltrona dele.
— Você quer assistir? Então fique quietinho aí. Se tentar sair daí, Sasuke, eu vou te pegar no colo e te atirar pela janela. Você não quer que seu onii-san faça algo tão ruim com você, não é?
Eu apenas balancei a cabeça em um não.
— Bom menino.
— Seu demente! Louco! Monstro! Ele é só uma criança. Não faça isso. Não faça!
Após aquela ameaça eu não pude mais me mexer. Fiquei paralisado de horror, os olhos arregalados, assistindo atentamente toda a sessão de tortura que Itachi iniciara. Ele começou introduzindo um vibrador de tamanho desproporcional no ânus daquele rapaz, quando o introduziu por inteiro ele passou a girá-lo e a socá-lo dentro dele com força. Depois de algum tempo repetindo esse processo ele se levantou, apanhou em meio a vários objetos espalhados no chão um chicote com lâminas brilhantes nas pontas e passou a açoitá-lo com aquilo. As pernas, os braços, as costas. Eu vi os vergões se formando e alguns cortes profundos de onde passou a jorrar sangue.
Nawaki foi forte. Extremamente forte. Ele apanhou, foi torturado, violado, tudo isso, sem emitir um único som sequer. Acredito que ele segurou os gritos de dor com receio de que aquilo fosse me assustar ainda mais. Era como se ele quisesse me poupar. Como se o fato dele não vociferar sua dor fosse aliviar o que eu estava presenciando. Mesmo assim, seu rosto estava banhado em lágrimas.
O silêncio de Nawaki aumentou a fúria de Itachi, que passou a espancá-lo no rosto, no estômago, até fazê-lo vomitar sangue. Não satisfeito apanhou um isqueiro e queimou parte do cabelo dele. Acendeu uma vela e deixou a cera quente pingar sobre o corpo nu dele. Por último, meu irmão apanhou um objeto metálico, que também tinha um formato de pênis, e dedicou alguns minutos esquentando-o com a chama da vela. Eu olhei para Nawaki nesse meio tempo e o vi mover os lábios como se pedisse “não olhe”. Mas eu não consegui tirar os olhos daquilo. Sem dó nem piedade Itachi retirou o vibrador que esteve o tempo todo da tortura alojado em Nawaki e introduziu o outro objeto que ele havia aquecido na chama da vela dentro dele.
Sasuke começou a tremer e Shikamaru pela primeira sentiu náuseas ao ouvir um depoimento. Ambos ficaram em silêncio por alguns minutos, apenas controlando suas respirações, depois disso Sasuke continuou.
— Eu queria me levantar e sair dali correndo, mas as minhas pernas estavam paralisadas. Quando meu irmão finalmente se cansou da tortura ele disse a Nawaki que lhe daria um prêmio por sua resistência. Mas ele teria que correr e correr muito, como se sua vida dependesse daquela corrida, como dependia. Daria a ele uma vantagem de cinco minutos para ele tentar escapar dos seus cães ferozes e o desprendeu das cordas. “Contando a partir de agora, quatro e cinquenta e nove, cinquenta e oito, cinquenta e sete...”.
Nawaki se esforçou para tirar aquele objeto de dentro de si, patinou no chão até conseguir se levantar, saiu mancado e até ultrapassar a porta do quarto ele já havia perdido uns três minutos.
Meu irmão foi para a janela do quarto, depois de apanhar de cima da sua cômoda o apito que usava para domar os cães e continuou olhando no relógio. Cinco minutos cravados ele assoou o apito. Algum tempo depois a gargalhada dele se misturou aos latidos dos cães e dos gritos desesperados de Nawaki do lado de fora. Então ele disse: “Porque ele não gritou desse jeito quando eu estava me divertindo com ele? Acho que preciso melhorar os meus brinquedos.”. Então ele se voltou pra mim, depois que os gritos e os latidos do lado de fora se acalmaram: “Eu disse para você ir dormir, não disse? Mas você insistiu que eu lhe contasse uma historinha antes de dormir, não foi? É uma pena. Mas o nii-san nunca apreendeu nenhum conto de fadas, Sasuke. Só historinhas de terror...”.
— Que filha da puta, demente — Shikamaru irrompeu, a expressão atordoada.
Sasuke ficou em silêncio.
— Não precisa continuar. Conheço o resto da história — Shikamaru desligou o gravador do celular. — Eu vou fazer outra ligação, vou pedir que alguém da central venha apanhar seu depoimento.
— Eu preciso de água, vou até a cozinha, tudo bem?
— Claro, por favor, você precisa.
Mas foi somente o tempo de Shikamaru dar as costas para Sasuke e colocar o fone no ouvido e foi atingido na nuca. Caiu desmaiado. Sasuke usara um candelabro que parecia ser de ouro maciço para golpear o agente.
— Desculpe-me, você parece um cara legal. Mas não vai me impedir de sair daqui hoje. Já te dei o que queria. Agora eu preciso ter o que eu quero. A única pessoa que pode me fazer bem de verdade.
Sasuke arrastou Shikamaru para o meio da sala, o apanhou no colo e colocou-o no sofá. Largado, com um pedaço de pizza em cima da barriga e uma lata de cerveja na mão pendida no chão. Em seguida subiu até o quarto que fora preparado para ele e colocou vários travesseiros em sua cama e os cobriu. Pegou só o seu celular, documentos, seus calmantes, a carteira e um spray de pimenta que achou no banheiro. Pôs tudo nos bolsos da calça e voltou para sala. Retirou vários comprimidos do bolso, abriu as cápsulas e esparramou o conteúdo sobre as pizzas que sobraram em uma caixa. Fechou a caixa da pizza, colocou algumas latas de cerveja em cima dela e saiu da casa carregado tudo nos braços, em direção a portaria.
...
Na portaria, o vigia conversava com o porteiro, o braço apoiado na janela da guarita.
— Você viu como a patroa estava vestida, Saru-chan? Estava uma delícia naquela roupa toda apertadinha e decotada, não concorda?
— Porque você não respeita a nossa patroa, Hajime-san?
O outro riu e se desencostou da janela ao ouvir o barulho da porta da sala abrindo.
— Quem é? — o porteiro quis saber, colocando a cabeça para fora da janela.
— Vish. Logo esse aí. É o tal paciente problemático da doutora.
– Pô, larga de ser chato, Hajime-san. O garoto viveu um trauma, e está se esforçando pra se tornar normal.
— Você ouviu isso das empregadas, não foi? Você já é grandinho para acreditar em contos de fada, Saru-chan.
— Mas...!
— Fica quieto, ele tá chegando.
— Boa noite — Sasuke os cumprimentou e depois de receber o “boa noite” em resposta entregou a caixa de pizza para o rapaz na janela da guarita. — Achei que pudessem estar com fome.
— Opa, valeu! — agradeceu o porteiro, olhando para o colega, como se dissesse: “viu, eu não disse que ele é normal”.
O tal Hajime só abriu a caixa da pizza, ainda nos braços do colega, retirou dois pedaços da massa e saiu comendo enquanto andava.
— Valeu, garoto — agradeceu, já de costas. — Mas nós vamos dispensar a cerveja. Estamos em horário de trabalho e não podemos ingerir bebida alcoólica. Vou fazer minha ronda, Saru-chan. Volto em uma hora.
— Certo, Hajime-san! — respondeu ele, esperando o colega ganhar uma boa distância e assim mostrar a língua para as costas dele. — Liga, não. Ele é um chato, mal-amado.
Sasuke tentou esboçar um sorriso gentil em resposta. Então, Saruya pegou um pedaço de pizza e Sasuke abriu uma cerveja e bebeu um gole.
— Acho que um pouquinho da minha não vai te fazer mal, não é? — ofereceu o moreno.
– Opa! Com certeza não fará nem cócegas — concordou ele, pegando a lata que Sasuke oferecia e tomando um grande gole, depois a devolveu ao hóspede da patroa, que recusou com a mão espalmada. — Depois que aprendemos a beber, é difícil um golinho fazer efeito — ele riu, voltando a beber outro gole. — Cadê o outro? — perguntou, mordendo o pedaço de pizza.
— Dormindo jogado no sofá.
— Tem gente que é fraco pra bebida, né?
— Apesar que ele precisou beber mais de meia dúzia para cair, não é tão fraco quanto parece.
— Nenhum pouco — ele riu.
Sasuke notou o rapaz dar mais um gole grande na bebida. O líquido ajudaria o calmante que despejara sobre a pizza ser digerido mais depressa. Agora era só enrolar um pouco até ele pegar no sono.
— Você trabalha aqui há muito tempo? — puxou um assunto qualquer.
— Ah, sim. Muito — confirmou, limpando a boca nas costas das mãos. —Uns doze anos, eu acho. Eu tinha quinze na época. O papai era viúvo e conseguiu o emprego de motorista da família, como era um emprego para morar na residência, ele perguntou para os patrões se poderia trazer o filho junto, concordaram, desde que eu aceitasse trabalhar no jardim. Obviamente que eu concordei. Alguns anos depois o velho porteiro casou com a cozinheira da casa, e decidiram se mudar para o interior e eu fui promovido para portaria, no lugar dele.
— Entendi. Então, você conhece a família desde antes... antes da... da....
— Antes da tragédia? — O rapaz completou, percebendo que Sasuke sentia dificuldade em falar do assunto. O porteiro o viu balançar a cabeça em um “sim” e o respondeu: — Eu conheci toda a família antes da tragédia sim. E, sabe, eu penso como a Tsunade-sama, você não deve se sentir culpado pelo que seu irmão fez.
— Obrigado — disse Sasuke e encostou-se a parede da guarita. — E, como eles eram? O Minato-san, o Nawaki-kun e o N- Naruto-kun?
— Todos gente muito boa — o porteiro exclamou, lambendo os dedos ao terminar outro pedaço de pizza. — O Nawaki era um adolescente normal, gentil, mal-humorado às vezes, gostava de namorar e tinha muitos sonhos. Minato-sama era um homem reservado, sério, digamos assim. Mas era gentil também e sabia sorrir quando preciso. Agora, o Naru-chan era uma verdadeira figura. Fisicamente ele parecia muito com o pai, mas herdara toda a espontaneidade da Tsunade-sama. Ele era muito mimado, como toda boa criança rica é. Não querendo ofendê-lo, se é que me entende. Mas, o Naru-chan era um verdadeiro pestinha. — O homem riu como se tivesse se lembrando de algo sobre ele; continuou: — Depois que o pai começou a se ocupar com as coisas da política e a mãe na área médica, ele passou a ficar muito sozinho. Chegava até ser triste, sabe? Muitas vezes eu o via aqui nesse jardim, brincando sozinho. Não tinha babá que aguentasse cuidar dele por muito tempo e teve um período que quem cuidava dele era o tio, o Nawaki. Mas este, estava no começo da adolescência, assim como eu também estava, e por isso ele não queria ficar cuidando de criança e sim ficar atrás das meninas. Muitas vezes eu vi os dois saírem juntos e o Naru-chan voltar sozinho pra casa.
— Quantos anos o Naruto-kun tinha nessa época?
— Seis, se não me engano.
— Estranho — comentou Sasuke, pensativo. — O Nawaki não ficava com receio de deixar o sobrinho tão solto?
— Adolescentes são despreocupados. Além disso, ele acreditava que viviam em uma área segura.
— Entendo. Você conversava com o Naruto?
— Sim. Muito. Ele sempre foi bastante conversador. Eu lembro como se fosse hoje. Teve um dia, que eu estava arrumando as plantas e ele estava bem ali, no meio do jardim, deitado de barriga na grama e com as perninhas para o ar, balançando-as e olhando os insetos no chão. Os cabelos lisos e loirinhos brilhando, os olhões azuis. Eu cheguei perto dele e perguntei:
— Voltou sozinho do parque de novo?
— Não te interessa.
— Ei, não te ensinaram que não pode responder os mais velhos, pirralho?
Ele deu de ombros e continuou balançando as pernas no ar.
— O que você está fazendo aí?
— Pesquisando.
— Não é melhor ir brincar de alguma coisa?
— Você brinca comigo, Saru-nii-chan?
— Eu não posso, Naru-chan — eu respondi, coçando a cabeça. — Estou trabalhando. Chama seu tio pra brincar com você.
— Ele tá lá com as meninas — ele respondeu emburrado, voltando a olhar a carreira de formigas no chão. — Beijando elas. — complementou com uma careta. — Eca! Coisa mais nojenta. Não sei pra quê ficar beijando menina. Eu não gosto delas. Só da mamãe. Meninas são chatas.
— Mas um dia, quando você crescer, vai gostar delas. E vai gostar de beijá-las também.
— Duvido — ele respondeu rápido, erguendo os olhos para me desafiar.
— Vai sim.
— Não vou.
— Se eu estou falando que vai é porque você vai, ora!
— Porque temos que beijar as meninas?
— Ué? Por que é bom. E não é só beijo que é bom. É ficar junto, sabe? É gostoso. Tem outras coisas que fazemos que é melhor ainda.
— Outras coisas? — ele arqueou uma sobrancelha, curioso. — Que coisas?
— Vai saber quando crescer.
— Por que não posso saber agora?
— Porque você ainda é criança. E crianças não beijam garotas e nem fazem outras coisas também.
— Que outras coisas são essa?
— Eu não posso falar, Naru-chan.
— Por que não? Você não sabe?
— Lógico que sei. Mas eu não posso falar isso para uma criança. Porque elas não entendem.
— Mas eu quero saber. E como você sabe que não vou entender? Eu sou inteligente.
— É proibido falar.
— Quem proibiu?
— As autoridades. As leis.
— Por quê? É algo ruim?
— Claro que não. É bom.
— Então?
— Cansei. Pergunta pro seu pai — eu sugeri. Arrependido de ter começado aquela conversa. — Se alguém souber que estou falando dessas coisas com você vão me advertir.
— O papai tá ocupado demais com o trabalho. Ele não tem tempo mais pra mim. Ele esqueceu que sou filho dele. Eu não vou dizer que você me disse.
— Promete?
— Prometo.
— Quando um casal se junta eles fazem sexo.
Eu o vi franzir as sobrancelhas.
— O que é sexo?
— Viu porque não adianta falar? Por mais que eu explique você não vai entender.
— Você ainda não explicou nada, como quer que entenda?
— Sexo é quando uma garota e um garoto ficam juntos, se abraçam, se beijam e...
— Eu faço isso com a mamãe e com o papai, isso é sexo?
— Não, não. É diferente. Porque é sem roupa.
— Também já abracei o papai e a mamãe sem roupa, na hora do banho.
Eu estapeei minha testa.
— Não é isso, Naru-chan. — Eu suspirei. — É algo difícil de explicar.
— Você que é burro e não sabe explicar, Saru-nii-chan!
— Ah, seu pestinha. Quem é burro? Você me paga!
— Você não me pega, lero-lero!
Aquele dia acabamos brincando sem querer.
Sasuke sorriu discretamente. Era mesmo o Kitsu que conhecia, curioso, cheio de questionamentos, raciocínio rápido. Perguntas e respostas sempre tão perspicazes. Pelo jeito, ele não havia mudado muito do que fora na infância.
— Ele era mesmo um pestinha — suspirou o porteiro, saudoso.
— Ele não quis mais saber sobre sexo?
O guarda abriu a boca, dando um bocejando alto, esfregou os olhos, o remédio começava fazer efeito.
— Pior que não... — O homem respondeu abrindo a boca mais uma vez. — Mas depois de uns dois dias, ele veio dizendo que tinha arrumado um amigo no parque e que esse amigo tinha explicado melhor pra ele. Eu disse que era mentira. Que garotos da idade dele não sabiam disso. Aí ele falou que o garoto era grande. Da minha altura. E que ele sabia muito sobre sexo, que que sabia explicar bem melhor do que eu. Aí ele pegou no Piu-Piu e me disse: “Sexo faz com isso aqui, Saru-nii-chan.”.
Sasuke arregalou os olhos.
— Você nunca disse isso pra polícia? — espantou-se Sasuke, ao imaginar que aquela pessoa foi seu sequestrador.
O homem recostou na cadeira da guarita e, quase fechando os olhos, respondeu:
— Eu não sei porque, mas nunca pensei que fosse algo relevante. No fundo eu achava que ele havia perguntado ao pai ou para o tio, e só estava inventando essa coisa de amigo grande.
— Foi logo depois disso que ele desapareceu?
— Não, foi bem depois. Um ou dois meses depois. Não lembro ao certo — O homem fechou os olhos. — Eu durmo durante o dia, não sei porque estou sentindo tanto sono, de repente... — E começou a ressonar alto.
— Saruya-san?
— Hm?
— Abre o portão para mim, eu vou colocar esse lixo lá fora.
— Ah, sim... Pegue. — O homem entregou uma cópia do cartão-chave do portão eletrônico que retirou da gaveta da sua mesa. — Passe o cartão e digite a senha: 3032. Para fechar é só bater de volta que a trava funciona automática.
Sasuke sorriu.
— Hai. Arigatô.
— Não se esquece de devolver o cartão a gaveta quando voltar.
— Não vou esquecer.
Ele viu o homem se reclinar no assento e começar a respirar alto. Foi até o portão e o abriu conforme as orientações. Depois disso retornou até a guarita, ajeitou o porteiro na cadeira, cruzando os braços dele no peito e ajeitando o quepe de uma forma que se alguém entrasse de carro e observasse de longe, não notaria que estava dormindo. Sasuke apanhou todas as caixas e latas dali, passou pelo portão aberto, deixou o lixo na lixeira e bateu o portão que, conforme o porteiro havia dito, travou sozinho. Então puxou a touca do agasalhou para cabeça, colocou as mãos dentro do bolso e saiu andando tranquilamente naquele início de madruga fria. Iria tomar uma boa distância até chamar um táxi.
Continua...
Sound Track
Tantas vezes, até agora, fiz papel de idiota
Tantas vezes estive na sombra de alguém
Agora que sou o personagem principal,
Ao menos em meus sonhos, deixe-me fazer o que eu quero
Ima mande nando mo
Mass Missile
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