Obsessão Fatal
5 Capítulo 4
Obsessão Fatal
Capítulo IV
Sasuke inspirou rápido e profundamente, alertando a si mesmo de que não poderia desfalecer. Ao sentir o ar inflar seus pulmões, permitindo-lhe respirar novamente, fechou os olhos devagar e os reabriu lentamente, tentando desfazer-se das manchas turvas que embaralhavam sua visão e o faziam ficar tonto. Forçou seu pé esquerdo a dar o primeiro passo a frente e em seguida fez o mesmo com o direito, estava caminhando e não caindo, conseguira se mover.
Esforçou-se até aproximar do leito, evitando que seus olhos repousassem de imediato em cima do corpo loiro nu, suspenso no ar. Precisava impedir o choque. Primeiro ergueu sua visão direto para o telhado, os pulsos de Kitsu haviam sido amarrados por uma corda grossa que estava atada em uma das vigas que ostentava o teto. Sasuke desceu vagarosamente o olhar, correndo-o pelos braços marcados por vergões que pareciam chicotadas e marcas de amarras, conforme seu campo de visão foi aumentando, seus olhos iam se incandescendo de fúria.
“Ele não pode estar morto. Não pode”, recitava para si próprio aquele desejo.
Então, encontrou-se com o rosto de Kitsu, a cabeça pendida no peito, a boca amordaçada e novos hematomas, provocados possivelmente, por socos e pancadas. Seu rosto estava todo inchado, sangue escorria pelos ferimentos. Kitsu não se movia. Porém, Sasuke notou que não havia sinal de estrangulamento, nem de ferimentos mais profundos. Ele não poderia estar morto. O moreno contornou a cama com a intenção de analisar as costas dele e observou novas marcas, marcas de açoite. O agressor provavelmente o torturara mais naquela região. Foi quando os olhos de Sasuke recaíram bruscamente sobre as nádegas de Kitsu. Havia algo enfiado entre elas, um objeto ao qual conseguiu ver somente a ponta arredondada com um botão ao centro.
Aproximou a ponta dos seus dedos daquilo e só então pôde perceber o quanto estava nervoso. Seus dedos tremiam tanto que não conseguiu manter o movimento em uma linha reta. Quando tocou de leve no objeto, sentiu um resmungo vindo de Kitsu. Ele estava vivo. Voltou para frente dele e arrancou a amordaça de sua boca, chamando-o pelo nome.
— Kitsu? Kitsu? — o chamou desesperado, observando-o abrir os olhos devagar e tossir, vomitando um pouco de sangue.
— S- Sasuke? — sussurrou ele tão baixo que Sasuke teve que aproximar seu ouvido da boca dele para compreender o que ele dizia. — Ti- tire o vi- vibrador lá de trás...
— Tá.
— S- Sasuke?
— Sim?
— Tire de uma única vez... Tenha cuidado para não acionar o botão do meio e... , antes de fazer, me amordace de novo.
— Por quê?
O loiro sorriu, ou tentou.
— Você não tem ideia do quanto vai doer e eu não quero chamar atenção da vizinhança — Kitsu justificou, fechando os olhos fortemente.
Sasuke encarou Naruto seriamente. Em seguida inspirou e respirou, buscando coragem. Precisava se concentrar. Assim, mais calmo, voltou a apanhar a amordaça, e antes de cobrir a boca dele com aquilo, correu a ponta dos seus dedos na face mutilada do seu anjo.
— Outra coisa, Sasuke. Por favor, se eu desmaiar, não me leve para o hospital, eu vou ficar bem depois de algumas horas de descanso.
Sasuke balançou a cabeça concordando. Repôs a amordaça na boca de Kitsu e deu a volta no corpo dele, olhando o aparelho que estava enfiado nele, e que, pela espessura, era fácil de perceber que era desproporcionalmente maior que orifício anal onde estava. Evidentemente, Kitsu estaria mais ferido interiormente do que exteriormente. Lembrou-se que já passara por aquela mesma dor no passado, uma dor que o marcara para vida inteira. Sentiu-se ainda mais comovido. Suas mãos pararam de tremer, sabia que era capaz de fazê-lo. E, com o pensamento fixo na sua tarefa, segurou a base do vibrador e o puxou de uma única vez.
Como Kitsu o alertara, ele soltou um urro que fora abafado pela amordaça, se debateu amarrado na corda e depois de algum tempo perdeu a consciência. Sasuke mirou o objeto banhado em sangue e, de repente, os gritos de dez anos atrás, fizeram-se audíveis em sua mente.
Lançou o objeto no chão e tampou os ouvidos com ambas as mãos, se agachando rente ao chão, como a criança que fora naquele passado, sentindo as lágrimas banharem seu rosto depois de tanto tempo. Chorou, como há muito tempo não fazia. E a chuva como se combalida pelo sofrimento dos dois jovens, recomeçava seu pranto do lado de fora, acompanhando-os.
...
Kakashi fitava o vidro embaçado da janela da sala de reunião na Central de Polícia, a chuva fria e fora de época recomeçava devagar. Conforme vira na previsão, dada pela repórter bonita da televisão, o mal tempo se estenderia até o fim de semana.
Viu Tsunade acompanhada pela secretária, que carregava o guarda-chuva para ambas, sair do prédio e seguir em direção ao carro importado estacionado quase de frente ao prédio. Antes de entrar no veículo, a médica lhe dedicou um último olhar por cima do ombro. Era evidente o quanto ela ficara incomodada com aquela drástica mudança, mais do que ele próprio. Danzou, o chefe de polícia, havia designado um novo investigador para o caso Uchiha.
“Um novo investigador?”
Surpreendera-se mais ao notar que o tal investigador era realmente novo, não só no sentido de experiência profissional, mas também na idade. Nara Shikamaru, o Sombra, era um garoto. Talvez um ou dois anos mais velho que Sasuke. Já ouvira falar sobre ele e sua percepção avançada. Fora admirável ele ter descartado tão rapidamente a hipótese de que Uchiha Itachi havia tentado suicídio após dar apenas uma folheada no processo.
Ele, Hatake Kakashi, suspeitar deste fato era evidente, afinal, sua dedução era baseada em anos de investigação e não em duas horas de conversa com duas pessoas a par do caso, nem na análise superficial das mais de duas mil folhas que compunham o processo.
O homem suspirou, percebendo o vidro da janela a sua frente embaçar com o calor da respiração que saíra por sua boca coberta pela máscara preta. Agora o rapaz, o tal Nara Shikamaru, estava conversando em particular com Danzou. Estranhara também o fato dele ter pedido para que o esperasse.
“Provavelmente ele fará perguntas mais direcionadas ao dia-a-dia de Sasuke” deduziu.
— Eu estou com fome, não tem nada para comer nesse lugar? — resmungou Shikamaru, ao adentrar novamente a sala de reunião.
— Tem café naquela garrafa ali — Kakashi apontou para a bandeja, após voltar-se para ele.
— Yare, yare... — O jovem resmungou, levando as duas mãos para trás da sua nuca e descansando o pescoço nelas. — Isso é mesmo problemático. Café não enche barriga, só faz aumentar a gastrite. Porque não vamos almoçar juntos?
O investigador mais velho olhou o relógio, já era mais de meio dia, estava mesmo na hora de comer alguma coisa.
— Por mim, tudo bem – concordou.
— Conhece algum lugar bom aqui por perto, Kakashi-san?
Kakashi sorriu por debaixo da máscara, conhecer lugares diferentes e de boa culinária era sua especialidade.
— Só preciso saber que tipo de comida prefere.
— Acho que como de tudo, menos comida de hospital. Aquilo não tem gosto de nada.
— Concordo. Já experimentou comida brasileira?
Shikamaru negou com um balançar de cabeça.
— Mas já ouvi falar. Temperos exóticos, certo?
— Exato. Conheço um ótimo restaurante. O tempo ameno é propício, acho que vai gostar de experimentar a feijoada. Vamos?
— Você quem manda. Vamos nessa.
...
Sasuke, depois de conseguir conter sua comoção, decidiu agir. Afinal, era o único que podia tomar conta de Kitsu. Após soltá-lo das cordas e limpar os ferimentos, o vestiu com a roupa laranjada que havia secado por ter ficado estendida no varal.
Depois disso ele juntou todas as coisas do loiro, o que lhe parecia útil ele deixou separado em um canto, dentro de dois sacos de supermercado, para levar junto com eles. O restante ele juntou tudo em sacos preto de lixo os quais ele descartou ao lançá-los dentro do container de lixo que ficava do lado de fora da fábrica, na beira da rua. Em seguida, ele limpou os vestígios de sangue no chão e tentou apagar qualquer evidencia de que alguém estivera morando ali.
Faxina concluída, Sasuke cobriu Kitsu com um cobertor novo que ele trouxera da sua casa e saiu do galpão. Antes, trancou o lugar com um cadeado novo que trouxera e atirou o antigo na grande lixeira na rua.
Tentou não demorar muito na drogaria, meia hora mais tarde estava de volta ao lugar com um táxi. Sasuke apanhou Kitsu no colo e explicou ao condutor que os dois haviam passado a noite juntos e que ali era o esconderijo temporário deles, já que os pais não podiam saber que eram namorados. Explicou também que o parceiro havia exagerado no álcool e por isso ainda estava de ressaca, e que iria levá-lo para casa, aproveitando que os pais dele estavam ausentes.
O homem, apesar de ter arregalado os olhos ao ouvir que dois rapazes eram namorados, em nenhum momento desconfiou da história de Sasuke, que também se surpreendeu por sua capacidade de inventar uma história daquelas tão rapidamente.
Depois de deixar os clientes no terreno de uma enorme mansão, o taxista saiu satisfeito com a gorjeta alta que ganhara pela corrida.
Sasuke estacou no saguão de entrada daquele que fora seu antigo lar, estavam com Naruto nos braços. A casa, apesar de ter sido liberada pela polícia há alguns anos atrás, ainda não havia sido vendida. Os compradores que demonstravam interesse pelo imóvel desistiam da compra quando descobriam sobre da tragédia ocorrida ali, acreditando. E, só agora, Sasuke podia ficar feliz por tal fato.
Subiu a escada central da casa com Kitsu em seus braços e o levou direto para onde fora seu quarto na infância, depositando-o da cama. Correu seus olhos rapidamente pelo lugar e notou que estava tudo muito limpo e organizado. Por ainda estar a venda o imóvel continuava recebendo manutenções semanais.
Sasuke retirou as roupas sujas do loiro, tratou seus ferimentos e lhe aplicou antibióticos com intuito de conter a dor, a febre e a inflamação dos cortes. Também havia dado a ele um dos seus calmantes, Kitsu só acordaria no dia seguinte e era exatamente o que queria.
“Preciso cuidar da pessoa que fez isso com você, Kitsu”, pensou Sasuke, abrindo o notebook após ligá-lo na sua antiga escrivaninha. Havia cerrado todas as cortinas pesadas da casa, mesmo estando em uma área afastada de vizinhos, a presença deles não podia ser notada, desta forma, só ascendera a luz do pequeno abajur em forma de usinho que estava sobre a mesa.
— Em algumas horas saberei tudo que preciso sobre esse tal Neji — disse para si mesmo, observando seu reflexo na tela LCD desaparecer e dar lugar para área de trabalho do Windows, em seguida, conectou o modem portátil em uma das entradas USB do lado aparelho e passou a navegar na internet.
...
Não muito longe dali, a dupla de investigadores conversavam animadamente, terminando a segunda porção da feijoada. O restaurante era bem simples, pequeno, de ambiente aconchegante e familiar. As mesas e as cadeiras eram de madeira, forradas com toalhas quadriculadas nas cores verde e amarela. Ao fundo, podia-se ouvir um som gostoso, que Shikamaru nunca tinha apreciado antes, mas que já ouvira falar, o samba. Também havia algumas bandeiras do Brasil dispostas nas paredes, que estavam adornadas com vários pequenos quadros que mostravam imagens de paisagens belíssimas. Cada uma tinha uma com uma descrição diferente, e que Shikamaru deduzira ser os nomes das cidades que as imagens retratavam. Ali, ao lado da mesa deles, havia fotos: do Rio de Janeiro, Pantanal, Bahia, Rio Grande do Norte e Rio Grande do Sul. Entre outras. Todas as paisagens mostravam sempre um céu azul brilhante, belas praias, carros alegóricos, aves exóticas e coloridas, muita natureza, monumentos, pessoas sorridentes, tudo que contrastavam com o ambiente sombrio dos últimos dias naquela pequena cidade do sul do Japão.
A garçonete, que tinha uma linda pele, cabelos negros cacheados presos em um rabo de cavalo no alto da cabeça, veio andando toda dançante em direção da mesa deles, trazendo-lhes a terceira porção da iguaria.
— Arigato — agradeceu os dois homens um tanto abobados e ao mesmo tempo admirados com a exuberância e a diferente beleza étnica daquela moça, que além de tudo, tinha um belo par de olhos verdes. Ela parecia uma verdadeira afronta aos olhares masculinos.
Os dois a observaram hipnotizados recolher os pratos vazios e depositar o cheios na mesa, sempre sorrindo, um sorriso grande, branco, bonito, dizendo em sua língua ao terminar:
— “Bom apetite”, ou, como vocês dizem: “Itadakimassu”. — Ela ainda brincou simpática e bem humorada. Então piscou um dos seus belos olhos verdes e deu meia volta, deixando no ar seu perfume natural misturado com o aroma magnífico daquela comida.
— Onee-san[1]? — Kakashi a chamou vendo-a se deter e olhá-los por cima dos ombros. — Como se diz: “arigatou” na sua língua?
— “Obrigado” — ela informou, ainda sorrindo.
— O-bri-ga-do...
Os dois repetiram meio atrapalhados, pausadamente, fazendo a mulher sorrir ainda mais aberto e em seguida voltar a marchar, como se estivesse desfilando, requebrando o quadril, que era um tanto mais avantajado do que das mulheres japonesas.
Shikamaru engoliu em seco.
— Compreendo perfeitamente porque gosta desse lugar, Kakashi-san — comentou Shikamaru, voltando a atenção para comida a sua frente. — Além da comida maravilhosa, do ambiente gostoso, tem umas garçonetes... Você viu a cor dos olhos dela? Da pele? E o que é aquele corpo todo volumoso e requebrável?
— Sim, meu rapaz... As brasileiras fazem nosso coração bater bem mais rápido. Já vi que gosta do que é bom.
— Se a minha loira descobre, eu tô morto — ele brincou, voltando a saborear a feijoada. — E o que é o sabor desse prato? É muito bom!
— É, mas vamos parar depois dessa porção, você nem imagina o quanto isso pode ser perigoso se consumido em excesso.
— Que pena, por que todas as coisas boas têm que ser moderadas?
Kakashi sorriu.
— Então, Shikamaru, o que queria conversar comigo em particular?
— Verdade. — O rapaz parou de comer, limpou a boca com o guardanapo de tecido e, depois de tomar um gole grande de água, explicou: — Eu preciso que o senhor me conte mais sobre o Sasuke, para ser mais especifico, eu gostaria de saber os locais casuais que ele costuma frequentar, sozinho — ponderou, fitando fixamente o companheiro de investigação a sua frente.
— Não entendi.
— Kakashi-senpai, eu vou ser claro. Eu quero conhecer o Sasuke-kun pessoalmente. Antes que me pergunte qualquer coisa, o motivo é simples: eu vou me aproximar dele, mas não quero me apresentar como mais um policial investigador. — Ele fez uma pausa, esperando arrancar alguma expressão diferente do tutor de Sasuke, contudo, este se manteve inalterado, então prosseguiu: — Sabe, senpai, as pessoas tendem a se munir de máscaras perante os homens da lei. Uma pessoa comum em frente a um policial tenta mostrar a ele somente o seu lado bom.
— Eu até entendo o que está querendo dizer, agente. Mas, eu não sou só um homem da lei para o Sasuke, sou sua única família. Além disso, Sasuke era uma criança inocente quando tudo aconteceu, eu não acredito que ele tenha algum envolvimento.
— Aí pode haver um grande engano, senpai — contrapôs o rapaz, bebendo mais um gole de água e voltando a observar os olhos do homem que havia levantado a máscara que agora encobria somente o seu “super-nariz”, já que ele precisava da boca para comer. — Essa “criança inocente” ao qual o senhor se referiu, viu os homens da polícia prender o irmão mais velho que fez coisas ruins e feias. Então, Kakashi-san, essa criança pode formular o seguinte raciocínio em sua mente: “se eu mostrar que fiz ou faço algo feio e ruim, eu também serei preso e castigado”, estou errado?
O investigador mais velho fitou o rapaz por alguns minutos, então o respondeu:
— Então, isso significa que Danzou acredita que Sasuke tem algum envolvimento com o ocorrido com o Itachi?
O novo investigador suspirou brevemente, recostando-se na cadeira.
— Sabe, senpai, todas as possibilidades, quando existe um caso complexo como este, devem ser sanadas. Não é que o nosso chefe acredite que o Sasuke tenha algum envolvimento com o incidente do Itachi, é somente uma possibilidade que foi levantada, como várias outras, e que deve ser explicada e eliminada. O senhor criou um vínculo afetivo com o Sasuke, o tem como filho, e pode não estar mais tão atento a todos os movimentos dele.
— Desculpe-me, Shikamaru, não é só pelo meu sentimento de pai que não suspeito do meu protegido. Eu conheço muito bem e posso garantir que Sasuke jamais procuraria Itachi. Ele tem verdadeiro pavor do irmão. O Sasuke é um garoto frágil, cheio de traumas e temores, que eu estive acompanhando há dez anos. Mas não vou me negar a ajudá-lo, muito menos, questionar a mudança de investigador. Só quero que tenha cuidado ao se aproximar dele de forma a enganá-lo. Você irá mentir, ele é um garoto traumatizado, então dependendo do que você diga ou faça, poderá...
— Senpai? Acalma-se — pediu o investigador. – Primeiro. Eu vou me apresentar a ele como a pessoa que eu sou de verdade, ninguém aqui falou em mentir. Eu sou um rapaz comum, chamado Nara Shikamaru, filho único de um pai, professor de Educação Física, e de uma mãe, dona de casa. Faço faculdade de jornalismo, morro de preguiça de fazer os trabalhos acadêmicos e tenho uma noiva que mora na cidade da Areia, a qual eu preciso viajar quase todos os fins de semana para ver. Nada do que eu acabei de lhe dizer é mentira. O que na verdade não está relacionado com a minha vida é essa minha profissão de detetive especial. Isso é escondido de todos, até da minha família. O único que sabe da verdade é meu pai. A minha noiva também sabe por que eu trabalhei em um caso para família dela. Na polícia eu uso o codinome de “Sombra”. Se alguém for investigar meu nome verdadeiro saberá apenas tudo o que eu acabei de mencionar. Então, resumindo, eu não conheço Sasuke Uchiha, nem o mentor dele, nem o irmão preso, nada. Sou só uma pessoa comum. Desta forma, eu não posso tomar cuidado com suas fraquezas ou traumas quando for entrar em contato com ele, não é? Afinal, eu não o conheço, não é verdade?
— Hm.
— Eu quero que entenda, Kakashi-san, que o meu propósito com essa abordagem, é ter uma visão de um cidadão comum referente ao Sasuke. Não o ponto de vista de um policial e de uma psicanalista. Quero ver como ele se porta diante de um rapaz como ele. Assim confirmarei tudo que diz em seus relatórios e descartar de vez a possibilidade de que ele possa ter herdado a insanidade do irmão, senão, ser comparsa do mesmo.
Kakashi engoliu em seco. Estava realmente surpreso e diria um tanto preocupado com os meios que aquele jovem investigador empregaria no caso. Não podia negar que poderia ser eficaz. O problema era que, mesmo garantindo que confiava em Sasuke cegamente, não saberia reagir caso viesse ficar comprovado que esteve enganado sobre ele todo esse tempo. Mas seu coração de “pai” não podia estar enganado, confiava em seu “filho”. Era isso que precisava fazer: simplesmente confiar em Sasuke.
— Eu entendi, Shikamaru. Irei ajudá-lo com que eu puder.
— Eu sabia que entenderia, afinal, você é o meu senpai, não é? Vamos terminar a comida, está ótimo isso aqui!
...
Sasuke estava sentado ao lado da cama que fora sua na infância. Umedeceu novamente a tolha de rosto no recipiente com água fria e voltou a depositá-la sobre a testa de Kitsu. A febre havia voltado e ele estava delirando. Suspirou e se levantou, voltando a se sentar em frente ao notebook.
Havia conseguido levantar dados mais que suficientes sobre o canalha que fizera aquilo com Kitsu. Pesquisou todos os “Neji’s” existentes no banco de dados de registro de cidadãos de Konoha, ao qual teve acesso após ler alguns tutoriais de como burlar sites protegidos. Descobriu apenas um que se encaixava na descrição do cara que vira naquela noite: Neji Hyuuga, sobrinho e praticamente filho de criação de um político famoso, chamado Hiashi Hyuuga.
Neji pertencia a uma família rica e importante da cidade, Sasuke imaginou que certamente era esse o motivo que o fazia crer que poderia fazer tudo o que bem entendesse e, com quem quisesse, sem se preocupar com punições. Mas iria provar a ele que estava redondamente enganado.Havia decidido que faria o Hyuuga pagar pelo que fizera a Kitsu e seria naquela noite.
Seu plano já estava traçado, havia até providenciado um álibi.
Era hora de seguir para a próxima etapa, ele pensou e discou o número que havia conseguido em um cadastro do Hyuuga na internet. Após o tom de chamada ouviu uma voz fanha do outro lado da linha lhe atender com um cumprimento padrão.
— Sexy Boys, boa tarde. Em que posso ajudá-lo?
— Boa tarde. Gostaria de uma companhia para mais a noite. Poderia anotar meus critérios.
— O senhor já tem cadastro conosco?
— Sim. Neji Hyuuga.
— Senhor Hyuuga, se esqueceu do seu nickname e da senha novamente?
— Esqueci — Sasuke foi rápido.
— Estou reenviando-os para o seu e-mail nesse exato momento, está na frente do computador?
— Sim.
— Pode abrir seu e-mail?
— Claro.
O endereço do e-mail de Neji estava no perfil que Sasuke havia acessado e conseguir acessá-lo foi bem mais fácil que burlar a proteção do site do governo.
— Recebeu o e-mail, senhor Hyuuga?
— Sim.
— Pode me confirmar seu apelido?
— Coelho Branco.
— Digite a senha, por favor.
Sasuke digitou a senha no teclado do aparelho.
— Ok. Dados confirmados, senhor Coelho Branco. Quais os critérios que o senhor deseja para o acompanhante?
— Jovem, entre dezoito e vinte anos, loiro, olhos azuis.
Sasuke ouviu o digitar rápido do rapaz fanho do outro lado da linha.
— Acabei de enviar outro e-mail, agora, com algumas sugestões de acompanhante, pode dar uma olhada?
— Sim.
Sasuke abriu o e-mail enviado, mas achou todas as opções estranhas. Nenhum dos rapazes parecia loiros legítimos. Mas imaginou que seria complicado encontrar loiros legítimos naquela região do Japão.
— Encontrou algum que se encaixe no seu perfil, Coelho Branco? — A voz fanha voltou a ecoar no seu ouvido.
Sasuke quis responder que “não”, mas como não era para ele, conteve-se.
— O primeiro.
— Posso confirmar o pedido?
— Sim.
— Qual horário?
— Vinte e duas.
— No mesmo local de sempre?
— Não tenho certeza se atualizei os dados com o novo endereço. Qual é mesmo o endereço que está aí?
— Rua 128 com a 132-B, Leste, quarto andar, apartamento 19.
— Certo, é esse mesmo. Pode confirmar o celular que deixei cadastrado? Eu mudei alguns números de telefone, preciso saber se já fiz alteração.
— A última atualização que o senhor nos enviou foi há dois meses, eu vou mandar sua ficha por e-mail e o senhor averigua e me manda novamente atualizada, pode ser?
— Sim.
— Enviada.
— Recebi — respondeu Sasuke, olhando os números de telefones e endereço ao abrir a ficha. “Que tipo de idiota preenche uma ficha de um lugar desses tão detalhadamente?”, pensou sorrindo. — Escuta, eu incluí um número novo de telefone nessa ficha, estou lhe enviando de volta, peça que o jovem me ligue nesse novo número quando ele chegar ao lugar marcado, tudo bem?
— Combinado, senhor. Mais algum detalhe?
— Não.
— Posso fechar o pedido?
— Pode.
— Certo. O nome do acompanhante solicitado é Zefiro, 19 anos, loiro, olhos azuis. Está marcado o encontro para as dez horas, no mesmo local do cadastro. Confirma?
— Confirmo.
— Roupas, apetrechos, ele precisa levar alguma coisa?
— Não, eu já tenho tudo o que eu preciso.
— Está agendado. Ficou quarenta mil e quinhentos e dezessete ienes[2], crédito no cartão cadastrado?
— Sim, por favor.
— Transação concluída, Coelho Branco. Obrigado por escolher a Sexy boys e tenha uma ótima diversão.
— Obrigado — Sasuke desligou o telefone e após localizar o endereço mencionado em um site de busca, sorriu. — Muito fácil.
Em seguida, ele fez uma nova ligação. Assim que a pessoa do outro lado o atendeu ele tampou o nariz com uma das mãos.
— Alô?
— Senhor Coelho Branco, é da Sexy boys, tudo bem? — falou ele, imitando a voz nasalada do atendente com quem tinha acabado de falar.
— Que porcaria! Por que vocês estão me ligando?
— É que chegou um novo produto no nosso catálogo, que se encaixa perfeitamente com as preferências descritas no perfil do senhor. Hoje estamos fazendo uma promoção especial de estreia desse nosso novo boy. Gostaríamos de saber se o senhor está interessado. Se não tiver, ligamos para o próximo da lista.
Sasuke percebeu que Neji ficou tentado, pois houve um silêncio e na sequência ele cedeu.
— Como é esse produto?
— Feições singelas, cabelos loiros, olhos claros... Posso enviar a foto dele para o seu e-mail nesse exato instante se quiser. Está na frente do computador?
— Não precisa. Eu vou querer.
— Posso marcar no lugar de sempre? Ele só poderá atendê-lo a partir das vinte e três, tem algum problema?
— Para mim, não. Está perfeito.
Sasuke sorriu de lado.
...
Ao chegar em casa, já de noite, Kakashi foi recepcionado por um Sasuke apressado, muito bem vestido e perfumado.
— Kakashi-san, seu celular está desligado? — ele o repreendeu, antes de cumprimentá-lo.
— Ah? — O próprio tutor estranhou, retirando o aparelho do bolso. — Estive em reunião a manhã toda e parte da tarde, acho que o esqueci desligado. Aonde vai assim?
— Eu tenho um encontro.
Kakashi arregalou os olhos.
— Como? Se hoje de manhã você disse que não havia nem se declarado ainda? — exclamou, pego de surpresa. — Agora já tem um encontro?
— Talvez a declaração aconteça hoje — Sasuke explicou, um tanto envergonhado, a expressão de ansiedade mudando para apreensão. — Estou sendo muito apressado?
Kakashi se desarmou diante da expressão preocupada do afilhado e coçou a cabeça. As coisas que o novo agente do caso Uchiha haviam lhe dito estavam perturbavam sua mente. Mas estava agindo como um tolo. Não deveria deixar que aquilo atrapalhasse a evolução positiva que Sasuke estava apresentando em seu quadro clínico.
— Não, não. Não é bem isso que eu quis dizer, Sasuke. Você esperou dezoito anos, é claro que não está sendo apressado. — Kakashi sorriu por debaixo da máscara e, largando o tom de repreensão de lado, se aproximou de Sasuke e repousou as mãos sobre os ombros dele. — Veja só. Está até de roupa nova. Essa pessoa deve ter mesmo mexido com você.
— Muito, Kakashi-san — o rapaz confessou. — De uma forma que não consigo descrever.
Kakashi se mostrou ainda mais satisfeito.
— Já sabe o que fazer?
— Pensei que pudesse me dar algumas dicas. Eu olhei algumas coisas na internet, mas ainda não tenho certeza.
— Bem — Kakashi coçou a cabeça mais uma vez. — Sendo sincero, faz muito tempo que também não tenho um encontro. — O mais velho voltou a sorrir. — Mas a chave de todo bom encontro é a gentileza. Não se esqueça do olho no olho quando for se declarar. Está levando dinheiro suficiente?
— Acho que sim — assentiu.
— Vão se encontrar em algum lugar ou você vai apanhá-la em casa?
— Vamos nos encontrar no parque.
— Aqui do bairro?
— É. Pensei em assistir o teatro ao ar livre e comer nos quiosque de lanche.
Kakashi largou os ombros ao perceber que o programa era o mesmo que os dois faziam juntos. Mas o fato de ser na companhia de uma garota já tornava a situação diferente.
— Bem. Já é alguma coisa.
— Tenho que ir, ou vou me atrasar.
— Sasuke?
— Hai?
— Nada de avanços no primeiro encontro. É uma dica.
Sasuke encarou o tutor por algum tempo, então respondeu, sério.
— Como vou impedi-la de fazer alguma coisa? A Sakura é do tipo que toma a... — Sasuke parou e tampou a boca antes de concluir, ao notar que havia revelado sua companhia.
— Então é a estagiária da Senju? A Sakura-chan?
O rapaz ficou com o rosto vermelho e Kakashi riu.
— Não ria. Por favor.
— Não estou rindo disso. Mas, não ligue para mim. Vai fundo. Ela é uma garota bonita e inteligente. Eu dou todo apoio e tenho certeza que a Tsunade também ficará feliz.
— Na verdade foi a própria doutora quem sugeriu.
— Sério? Esta aí um motivo a menos para nos preocuparmos.
— Eu tenho mesmo que ir. Está quase na hora — Sasuke informou, depois de consultar o relógio. — Não deve ser educado fazer uma garota esperar, não é?
— Com certeza. Pode ir. Boa sorte.
— Kakashi-san?
— Hai?
— Fica com o telefone ligado. Caso eu precise de alguma dica de última hora.
Kakashi sorriu novamente e assentiu.
— Hai, hai. Agora vai, se apresse.
— Hai.
O tutor suspirou e crispou ambos os punhos.
“Sasuke está mesmo tentando ser um garoto normal, por isso não vou permitir que Danzou crie teorias absurdas e coloque investigadores atrás do meu filho. Eu vou protegê-lo, Sasuke. Custe o que custar, eu vou protegê-lo.”
...
Sasuke correu até o parque aonde havia marcado com a estagiária da sua psicanalista as dezoito e trinta. Pelo menos o tutor parecia não ter desconfiado de nada.
Ao chegar no lugar marcado viu Sakura esperando por ele. Cumprimentou-a e se desculpou por tê-la deixado esperando. Ela negou com a cabeça o pedido de desculpas, dizendo que ela é quem havia se adiantado. O tempo chuvoso havia estiado, mas o céu permanecia nublado. Por isso, havia bem menos espectadores que o normal. Alguns poucos casais que preferiam ficar a uma boa distância um dos outros exatamente para terem privacidades.
Como o teatro acorria ao ar livre os casais levavam toalhas e se acomodavam na grama. Sasuke era acostumado frequentar o parque, por isso ele trouxe uma toalha dentro da mochila, a qual forrou no chão.
— Se eu soubesse, teria trazido marmitas para nós. Parece um piquenique noturno.
— Não se preocupe, vamos comer quando a peça acabar.
Sakura franziu suas sobrancelhas rosa, ela não quis dizer que estava com fome, mas decidiu não tentar se explicar, a peça estava começando. O importante é que havia vencido Ino e estava em um encontro com perfeito do Sasuke Uchiha. Nada poderia estragar aquela noite.
As dezenove e trinta a peça acabou e eles foram comer no Quiosque do Parque, um lugar que vendia fastfood. Conversaram enquanto comiam, na verdade, Sasuke somente ouvia, Sakura falava pelos dois. Quando terminaram, uma hora depois, ele perguntou se ela queria que ele a acompanhasse até sua casa. Sakura aceitou imediatamente.
No percurso, enquanto caminhavam, Sasuke tentou dizer de maneira não tão direta, que sentia vontade de entender certas coisas que os garotos normais da sua idade faziam, por isso ele havia vencido a timidez e convidado-a para sair. Sakura perguntou ao que ele se referia exatamente como “entender certas coisas” e então ele foi direto ao ponto.
— Beijo e Sexo.
O rosto de Sakura tingiu-se completamente de vermelho. Não era que ela não houvesse pensado no assunto, só não imaginava que chegariam a ele tão depressa. Afinal, ouvira, por acaso, uma conversa da Tsunade-sensei com a Shizune. Elas discutiam sobre o futuro de Sasuke e até quando os reflexos dos traumas sofridos por ele influenciaram no desenvolvimento da sua sexualidade. Ambas não descartaram a ideia de que Sasuke venceria o trauma e passaria a viver uma vida normal, quando algo adverso a sua rotina acontecesse.
“Acontecerá, Shizune, quando ele sentir-se motivado a vencer seus medos, e não há motivação maior que uma paixão.”
Pensar que ela, Sakura Haruno, era essa “motivação” para Sasuke, e que o rapaz pudesse estar apaixonado por ela, fez Sakura esquecer-se completamente da prudência e do fato de que estavam indo rápido demais. Simplesmente apanhou a mão dele na sua e continuaram o percurso assim, de mãos dadas, quando chegaram ao prédio ela o convidou para subir.
— E seus pais? — ele quis saber.
— Estão na casa deles. Eu moro sozinha aqui, é mais perto da universidade e do consultório da sensei. Além disso, já sou grandinha, sei cuidar de mim.
...
Meia hora depois, os dois estavam na cama. Sakura segurava a mão de Sasuke sobre um dos seus seios.
— Então, o que sente? — perguntou ela, com o rosto vermelho, sentindo a mão fria dele em cima do seu seio.
— É macio.
— Pode apertar mais um pouco — ela permitiu e o rapaz obedeceu.
— Agora me beija, e enquanto tiver me beijando, vai movimentando suas mãos sobre eles. Está bem?
Sasuke balançou a cabeça positivamente e tentou fazer como Sakura o orientava, a beijou, desajeitadamente, deixando-a acreditar que ela o estava guiando e o quanto ele era inexperiente. A sensação de tocar um corpo feminino não era ruim. Todavia, a diferença de tudo que fez com Kitsu, era imensa, não conseguiu sentir nem dez por cento das sensações que experimentara com o rapaz loiro.
Quando o momento começou esquentar para os dois, o celular de Sasuke tocou. Exatamente como ele havia cronometrado.
— É o Kakashi-san. Tem problema se eu atender?
— Melhor que atenda — ela permitiu. — Ele deve estar preocupado, já que está fazendo algo fora da sua rotina, depois retomamos de onde paramos.
Sasuke se levantou da cama e após alguns minutos de conversa com o tutor ele se voltou para ela.
— Disse que eu posso ficar mais um pouco — respondeu frente a feição de indagação que Sakura fazia. — Ele avisou também que quando eu estivesse pronto pra ir, para eu ligar e ele virá me buscar.
— Ótimo! — Sakura comemorou, eufórica, agarrando-se ao pescoço dele. — Então, vamos continuar?
— Sim — concordou ele.
...
Depois de quase uma hora, Sasuke chegou ao endereço do encontro com o garoto de programa, havia se atrasado mais do que o planejado e tivera que chegar aos finalmente com a estagiária. Ainda estava se sentindo mal por aquilo. Não queria ter traído Kitsu. Mas, infelizmente, era para o bem dos dois que o havia feito. Se o calmante que ele colocara no suco dela tivesse feito efeito mais cedo, não estaria atrasado e nem precisaria ter transado com ela de verdade. Pelo menos, seu álibi agora estava mais reforçado.
Chegou em frente a porta do quarto e viu o tal “sexy boy” sentado no chão, encostado à porta do apartamento fechada, havia falado com ele por telefone e dito que iria se atrasar.
— Zefiro?
O rapaz assentiu e se levantou, fitando Sasuke.
Foi então que Sasuke confirmou suas suspeitas: Zefiro não era um loiro genuíno e não tinha nada a ver com a foto do perfil enviada pelo atendente. Era evidente que sua “loirice” era falsa. Até as lentes que ele usava estavam um pouco tortas, deixando amostra parte negra dos olhos verdadeiros. Ainda por cima, ele vestia uma roupa estranha: mine-blusa preta com detalhes em vermelho, uma calça justa de cós baixo, que mostrava toda sua barriga. A pele era de um branco azulado, que o deixava parecido com um zumbi. Apesar de tudo, Sasuke notou que o rapaz tinha um rosto bonito e se não fosse o batom rosa nos lábios, as roupas estranhas e os cabelos forçadamente descoloridos, ele seria até apresentável.
— Até que enfim, né, Coelho Branco? — Zefiro o repreendeu, colocando as mãos na cintura e falando com uma voz forçadamente afinada, que o fez parecer mais com um travesti. — Estava cansado de ficar com a bunda sentada nesse chão gelado. Será que dá pra parar de admirar minha beleza e entrar? Preciso de algo quente pra beber.
— Primeiro, eu não sou o Coelho Branco — explicou Sasuke, mirando-o friamente. — Segundo, você só vai entrar às onze. Ainda faltam vinte minutos — informou, consultando o relógio mais uma vez. — Terceiro, tenho uma proposta pra te fazer pelo triplo da grana que vai ganhar hoje. Metade agora —Sasuke tirou um bolo de dinheiro do bolso da calça e o depositou na mão do garoto de programa. — O restante, quando eu estiver lá dentro.
— Quem eu vou ter que matar por tudo isso? — ele perguntou, levantando o bolo de dinheiro em uma das mãos.
Sasuke desenhou um sorriso discreto no rosto.
— Ninguém — informou, retirando de outro bolso um papelote e depositando-o na mão desocupada dele. — Coloque isso na bebida do Coelho Branco. Mas precisa ser assim que você entrar. Bata na porta quando tiver feito e a destranque. Eu te darei a outra metade do dinheiro quando eu entrar no apartamento.
— Belo plano. E o que você vai fazer com o capanga dele?
— Capanga?
— É, meu bem. Não me diga que planejou tudo isso não levando em consideração que o filho de um político poderoso anda com um guarda-costas?
— Droga! — se repreendeu Sasuke, irritado.
— Meu supervisor garantiu que é um cara fera em artes marciais e fica de plantão na porta do quarto, enquanto o chefe dele tá se divertindo.
Eles ouviram barulho de vozes subindo pelas escadas do lugar.
— Não temos mais tempo, faz a sua parte e eu me viro com o capanga.
— Você quem sabem — o outro respondeu enfadonho, escondendo o dinheiro dentro do bolso da calça e o papelote em outro.
Sasuke se moveu rápido, se escondendo no corredor oposto, que estava todo escuro. Tinha sorte pelo lugar ser um prédio inacabado e com poucos apartamentos funcionando e ainda não ter sistema de monitoramento.
— Já chegou? — perguntou Neji, desconfiado ao ver o rapaz parado na frente do seu quarto.
— Não gosto de me atrasar.
— Melhor ainda, estou mesmo faminto — ele grudou no braço do rapaz de programa e o puxou para dentro do quarto. — Fica de olho aí, Lee.
— Deixa comigo, Neji!
— Ai, ai, devagar seu bruto...
Assim que Zefiro entrou, Sasuke esperou alguns minutos, então esfarelou os cabelos, puxou as roupas, desalinhando-as, então saiu do escuro correndo, segurando um dos braços e aparentando o mais desesperado que pôde.
— Alguém me ajude! Tem um cara estranho escondido naquele corredor — pediu por ajuda, mas tentou não elevar tanto a voz para não chamar atenção de Neji dentro do apartamento.
O capanga, que não esperava a situação, sobressaltou.
— Espera! Cara suspeito? Onde? Como? Quando?
— Ali!
O capanga andou devagar na direção que Sasuke apontava e o Uchiha aproveitou para tirar a seringa que tinha preparado para Zefiro do bolso da mochila e cravou no ombro de Lee.
— Mas, que merda é essa? — Lee reclamou, arrancando a seringa das suas costas. — O que pensa que está fazendo?
O guarda-costas de Neji mal teve tempo de apanhar a arma dentro do casaco e tombou desmaiado chão. Sasuke chutou a arma dele na direção do corredor escuro e na sequência ouviu as batidas na porta. Entrou rapidamente, puxando o corpo do capanga pelos pés para dentro e observou que Zefiro havia mesmo feito a parte dela, Neji Hyuuga, já sentia os primeiros efeitos da droga que engerira.
— Como eu não imaginei que podia ser coisa sua?! O que pretende, desgraçado? Se vingar daquele puto? — Neji gargalhou. — Acha que o rabo dele vale tanto a pena assim? Eu pertenço a uma família influente, você vai se arrepender!
— Fiz minha parte. Odeio ver neguinho, sofrendo. Passa o resto da minha grana que estou vazando — avisou o garoto de programa, estendendo a mão na direção de Sasuke.
— Claro. E eu o agradeço pela ajuda — disse Sasuke, com uma das mãos no bolso, mas ao invés de dinheiro, ele retirou da calça um canivete.
Ao notar o canivete, Zefiro se abaixou para apanhar a arma no cós da calça de Neji, mas Sasuke agiu mais rápido e antes dele alcançar seu intento ele o apanhou pelos cabelos, puxou-o para trás e passou o canivete em seu pescoço.
Neji viu o pescoço do garoto de programa esguichar sangue e seus olhos se arregalaram.
— Que merda você está fazendo?! Você o matou, cara? É maluco?! Você vai se arrepender da porra que ta fazendo! Meu tio é um cara poderoso, temos din- din- din... — Neji não conseguiu prosseguir, sentiu a boca adormecer, não conseguia mais falar.
— É um paralisante usado na captura de animais selvagens — Sasuke explicou, como se tivesse lido a pergunta nos olhos arregalados de Neji.
Sorriu ao admirar o horror tomando conta do rosto daquele homem que há pouco se mostrara tão altivo, arrogante. Aquela expressão simplesmente o fascinou.
— Infelizmente, esse remédio não evitará que sinta dores...— concluiu, retirando o mesmo objeto que ele deixara enfiado em Kitsu da mochila e o exibindo para o apavorado Hyuuga. — Lembra disso, né? Claro que lembra.
Neji quis gritar, se debater, chorar, mas a única permissão que lhe fora dada era sentir. Sentir dor. Muita dor.
Continua...
Sound Track:
“Noites sem respostas.
Momentos de calor.
Admiração por um lugar distante.
Apenas isso.
Eu só vivo para repetir as coisas”
Nakushita Kotoba – No Regret Life
[1] Onee-san: como todos já sabem, a tradução é “irmã mais velha”, mas no Japão, este é o jeito informal que os clientes chamam as garçonetes. Seria mais ou menos, o mesmo jeito que nós, aqui no Brasil chamamos de “moça”;
[2] 40.516 ienes é em torno de R$ 800,00.
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