Obsessão Fatal

Capítulo I

A chuva desabava torrencialmente em Konoha, uma cidade pequena localizada ao sul do Japão.

A cada estrondo que se propagava no céu escuro de nuvens pesadas a mulher de cabelos loiros se encolhia em sua poltrona.

"Há muito tempo não chovia dessa forma tão tenebrosa aqui em Konoha..." ela pensou, cobrindo os ouvidos com as mãos assim que um novo estrondo ensurdecedor tamborilou nos céus, como se fossem acordes do prelúdio de uma orquestra infernal.

As pupilas da mulher se dilataram ao perceber a luz piscando, ameaçando se apagar. Um novo bramido a fez fechar os olhos com força e quando os reabriu se viu submersa em total penumbra. Forçou-se a manter a calma e não permitir que a sua fobia por trovões a desorientasse.

Fechou os olhos mais uma vez e os descerrou com calma, tentando acostumá-los ao breu. A falta de energia não seria nenhum problema se não fosse aquela sensação adversa de ar frio circulando dentro da sala, fazendo-a imaginar que havia deixado alguma janela aberta, quando tinha certeza ter fechado todas assim que percebeu a ameaça de tempestade.

Não conseguiu evitar o calafrio que percorreu seus braços ao sentir o ar frio se intensificando ao seu redor, além de um barulho peculiar de persianas batendo umas nas outras.

"Não acredito que esqueci mesmo uma das janelas abertas!”, a mulher se repreendeu, esfregando as mãos nos braços, tentando se aquecer ao mesmo tempo em que tentava prestar atenção ao barulho e descobrir sua fonte.

"Sinto como se eu estivesse sendo observada... Como se algo houvesse entrado pela janela...”. Sacudiu a cabeça depressa ao pensar naquilo. Estava no nonagésimo andar daquele prédio, não tinha como alguém entrar pela janela. “Poderia ser um paciente que entrou na sala no momento em que a luz apagou?” sugeriu para si mesma algo mais óbvio.

Porém, não conseguiu evitar que sua respiração se desregulasse e os batimentos cardíacos acelerassem enquanto a tempestade continuava caindo, ameaçando novos trovões. Eram os sintomas de que estava sendo dominada pelo seu medo.

Tentou manter a calma. Fechou os olhos mais uma vez e pediu mentalmente que a energia voltasse logo. Todavia, notou algo ainda mais estranho: uma repentina calmaria. Aquilo aguçou os sentidos da mulher, fazendo-a ficar em estado de alerta. Ela reabriu os olhos com cuidado e nesse mesmo instante raios fumegaram do lado de fora e iluminaram seu consultório fazendo-a visualizar aquilo que tanto temia: havia mesmo alguém na sala com ela. Estava detido bem na sua frente. Diante da porta fechada do consultório.

Era ele. Só podia ser ele. O assassino que matou seu irmão e seu marido de maneira tão brutal.

Os olhos do monstro brilhavam intensamente em uma cor rubra, como se refletissem os rios de sangue derramado por ele. E como provinda das profundezas, ela ouviu novamente aquela voz fria e apática ressoar em sua cabeça.

“Seu irmão? Sim... Vocês se parecem. Talvez não tanto mais... Acho que os meus bichinhos deixaram algo dele no jardim dos fundos...”.

— Você está preso! — ela exclamou de repente, apavorada. — Eu sei que está preso, seu maldito! Desapareça daqui! Devolva o que você tirou de mim! — ela gritou, sentindo as lágrimas descerem rápido pelo seu rosto.

Mas assim que novos estrondos se fizeram do lado de fora a mulher saiu da cadeira em que estava e se agachou rente ao chão, tampando os ouvidos com ambas as mãos e fechando os olhos com força. Desejando do fundo da sua alma que aquilo não passasse de um pesadelo.

E como se os céus ouvissem sua prece, ela sentiu mãos apertarem firmes seus ombros e sacudi-la. Então a voz conhecida da sua secretaria gritando em preocupação se fez audível.

— Tsunade-sensei, o que houve? Tsunade-sensei?

A médica reabriu os olhos e notou que o ambiente estava iluminado; a energia elétrica havia voltado.

Enquanto se reerguia girou a cabeça de um lado a outro, como se procurasse por algo anormal, além da feição estarrecida da secretária diante de si.

— Onde ele está, Shizune? — perguntou para jovem de cabelos e olhos negros. — Pra onde ele foi? Você o viu? Ele estava aqui! Você chamou a polícia?

Mas antes que a confusa secretária pudesse perguntar do que a doutora estava falando, a própria Tsunade percebeu seu engano ao notar o rapaz ainda detido na porta do consultório.

— Você...

— Sasuke-kun, poderia aguardar um pouco do lado de fora, por favor? — a secretária pediu, ao notar a médica totalmente alterada. — Daqui a pouco eu te chamo.

Antes de obedecer, o rapaz parado na entrada da sala, observou atentamente a mulher que até então sempre fora um poço de equilíbrio diante dele. A face dela estava toda alterada, pálida, da testa e da lateral do rosto brotavam suor, os olhos estavam arregalados e as mãos tremiam. Parecia muito mais demente que os pacientes os quais ela tratava. Mas sem fazer nenhuma objeção ao pedido da secretária, e em silêncio, o rapaz deu meia volta e deixou a sala, fechando a porta ao sair.

Shizune suspirou e só então se voltou para a médica, que agora parecia se recobrar da confusão que fizera.

— Confundiu o Sasuke-kun com o irmão dele de novo, não foi?

— Droga, Shizune... — ela confirmou com aquela expressão, voltando a se sentar na poltrona e amparar a cabeça com as mãos. — Foi uma ilusão tão real. Eu vi o desgraçado na minha frente! Até consegui ouvir a voz indiferente dele ao falar sobre os cães assassinos que... que... — a mulher sobrepôs a boca com uma das mãos, tentando evitar o choro ao se recordar mais uma vez do ocorrido.

— Não é bom para a senhora ficar se lembrando disso, Tsunade-sensei. Também não é bom para o Sasuke-kun ser comparado com o irmão assassino.

— Mas a cada dia que se passa ele fica mais parecido com aquele monstro! — ela se exaltou.

— Exteriormente sim — a moça concordou. — Mas por dentro, todos nós sabemos que o Sasuke-kun foi só mais uma vítima de tudo o que aconteceu.

A mulher mordeu o lábio inferior. Shizune tinha razão. Havia cometido um erro terrível ao se deixar dominar por sua fobia e, acima de tudo, confundir seu paciente com o irmão maníaco. Era uma psicanalista. Seu trabalho era fazer com que seus pacientes lidassem com suas dores internas, medos, traumas e conseguissem superá-los para retomarem seu lugar dentro da sociedade. No entanto, como ela ajudaria alguém a superar seus traumas quando ela própria não conseguia se livrar dos seus? Bateu na escrivaninha com o punho fechado, tentando exasperar a sua raiva, fazendo os objetos sobre ela tremerem.

Shizune sobressaltou.

— Sensei, porque insiste em continuar tratando o irmão do homem que fez o que fez com a família da senhora? É tão evidente o quanto está sofrendo com isso.

— Fazem dez anos, Shizune... — a médica comentou de repente. — Dez anos que perdi tudo que me era valioso: meu irmão, meu marido... O meu filho. Perdi tudo. Tudo perdido de uma única vez por causa daquele homem.

Tsunade abriu a gaveta da escrivaninha e apanhou o porta-retrato de família que ela mantinha guardado como se fosse um tesouro. Correu a ponta dos dedos sobre as figuras sorridentes na imagem. Nawaki, seu amado irmão caçula, que perdera a vida aos quinze anos. O loiro maior: Minato, seu querido marido. O loiro menor: Naruto, seu precioso filho. O marido e o filho. Tão parecidos. Não só fisicamente, mas na personalidade espontânea e nos sorrisos abertos. O marido e o irmão haviam sido assassinados brutalmente por Itachi Uchiha. Quanto ao filho, até aquele momento, não sabiam do paradeiro.

A secretária percebeu as lágrimas da médica pingando no vidro que protegia a foto e pensou em adverti-la quanto ao número grande de pacientes que ainda aguardavam para serem atendidos, mas achou que o monstro da história seria ela se o fizesse, então decidiu esperar mais um pouco, até que ela se recuperasse.

— Eu vi, Shizune. Eu vi o corpo do meu doce irmão jogado no jardim do fundo daquela mansão, totalmente mutilado pelos cães assassinos daquele monstro. Também tive que reconhecer o corpo do meu Minato que apodrecia junto com vários outros no porão daquela casa. Mas o que mais me dói é ainda ter a esperança de que aquele monstro possa ter poupado meu filhinho, já que... já que não encontramos seu corpo...

A voz da mulher engasgou nas últimas palavras e depois disso ela desabou no choro. Um choro soluçante, sentido, dolorido, angustiante...

A secretária já tinha ouvido a mesma história inúmeras vezes e realmente sentia pela dor da médica que, além de patroa, era uma grande amiga.

Tsunade pertencia a uma família rica de políticos da cidade, casou-se jovem, com um rapaz que apesar de não pertencer a uma família de status como a dela, conquistou seus familiares por carregar o desejo incandescente de ingressar na política. Algo que nunca foi do interesse dela. Minato conquistou o avô de Tsunade rapidamente e não demorou para que o velho prefeito o nomeasse seu assessor. Antes da tragédia, o senhor Senju estava treinando o genro para ser seu sucessor no futuro, porém, a tragédia tirou do avô dela não só seu herdeiro na política, mas tirou de si seu único neto e o único bisneto. Fazendo de Tsunade, a única mulher na família, sua última esperança.

O prefeito não abria mão de ter um sucessor e ante o desinteresse da neta fez com ela um acordo: ajudaria no que fosse preciso na busca pelo bisneto, mas se caso ela não o encontrasse antes que ele completasse a idade para se aposentar, ela teria que deixar de lado a busca e se comprometeria a ingressar na política para sucedê-lo.

Por isso Shizune compreendia o quão desesperada Tsunade estava. Faziam dez anos que ela estava em busca de Naruto e até aquele momento as investigações não haviam trazido nenhum resultado. Agora estavam a menos de três meses do avô dela anunciar sua aposentadoria e nomeá-la como sua sucessora, pondo fim de uma vez no que ele nomeava de ‘busca inútil’ pelo bisneto.

Mesmo com a aproximação do arquivamento do caso a secretária percebia que a determinação da doutora estava longe de se esvair. Durante aqueles anos Tsunade se dedicou a finco aos estudos, se especializando em várias áreas da psiquiatria. Ela queria entender como a mente de um psicopata funcionava e assim ter alguma pista que a levasse ao paradeiro do filho.

Por esse motivo — o de encontrar pistas que a levassem ao paradeiro do filho — é que a médica passou também a tratar o irmão caçula de Itachi Uchiha.

Sasuke Uchiha afirmava veemente não se recordar de nada que acontecera naquela ocasião. Mas, Tsunade havia estudado o caso do rapaz cuidadosamente e, juntado evidências suficientes, acreditava que Sasuke se recordava muito bem do ocorrido, no entanto, ele desenvolvera um bloqueio pós-traumático que o impedia de falar sobre o assunto. Por isso ela tinha tanta certeza de que a cura do rapaz era o caminho mais preciso para ela desvendar a localização do filho ou, na pior das hipóteses, o corpo dele.

De repente Shizune teve seus pensamentos interrompidos ao notar que a doutora detivera o choro, guardara novamente o porta-retratos na gaveta e agora secava o rosto com lenços de papel que ela retirava de uma caixinha sobre a mesa.

— Tsunade-sensei?

— Já estou melhor, Shizune — a médica afirmou, retirando um estojo portátil de maquiagem da bolsa. — Desculpe-me estar aporrinhando suas ideias com essa conversa novamente?

A moça meneou a cabeça rapidamente em um não e sorriu gentilmente ao notar que a médica parecia recuperada do seu momento de crise. Depois que a doutora terminou de retocar a maquiagem e guardar o estojo de volta na bolsa, a jovem estendeu o prontuário que trazia abraçado junto ao peito.

— Tem certeza que ainda quer atendê-lo, Tsunade-sensei? Poderíamos remar-...

— Não, Shizune — ela cortou a fala da secretária, respondendo de forma enfática. — Não vamos remarcar a consulta. Eu não posso me dar ao luxo de perder nenhum minuto com o Sasuke. Você sabe melhor do que ninguém que o meu prazo está acabando.

— Eu sei — a moça concordou. — Posso pedir para que ele entre então?

— Sim. Por favor.

Shizune deixou a sala e em um minuto a porta do consultório se abria devagar. Sasuke abriu apenas uma brecha, suficiente para passar sua cabeça e observar a mulher sentada atrás da mesa, como se ainda não tivesse certeza que poderia entrar.

Tsunade sorriu, um pouco constrangida.

— Pode entrar, Sasuke. Sente-se, por favor — ela pediu, mantendo o sorriso amigável no rosto. — Desculpe-me por assustá-lo com aquela gritaria sem sentido. É que... eu odeio tempestade, em especial trovões — ela explicou.

O jovem assentiu com a cabeça e se aproximou da mesa, sentando-se na cadeira que o deixava de frente com ela.

Tsunade desfez o sorriso e abriu o prontuário que a secretária havia lhe entregado, folheando-o devagar. Sasuke havia completado recém dezoito anos. O trauma desenvolvera nele várias complicações psicológicas. Dentre elas a depressão e a síndrome do pânico. Sasuke não conseguia dormir por si próprio desde o incidente, somente com a indução de medicamentos. O que a médica vinha tentando combater desde que começara a tratar dele. Ela achava que Sasuke era ainda muito jovem para viver tão dependente de remédios que causavam tantos distúrbios no organismo.

Os resultados do consumo excessivo de remédios já começavam a aparecer. Nos últimos seis anos Sasuke apresentara diversos efeitos colaterais como: o ganho excessivo de peso, depois a perda excessiva de peso, em seguida vieram os problemas cardíacos, dores de cabeça, o sonambulismo e os desmaios constantes.

Por isso a médica não desistia de tentar reduzir a dosagem dos remédios. Durante os três primeiros anos do tratamento Sasuke tomara nove comprimidos por dia, três antes de cada refeição. Gradativamente, Tsunade conseguiu reduzir a quantidade até que essa chegasse a dois ao dia, mas teve que dobrar a quantidade novamente quando o efeito das duas únicas dosagens não era suficiente para fazê-lo dormir durante a noite toda; aumentando assim os desmaios dele durante o dia. Atualmente ele havia estabilizado em quatro comprimidos: um que ele tomava antes do café, outro antes do almoço e dois após o jantar.

Tsunade também tentou usar com ele outras fórmulas que pudesse fazê-lo cansar fisicamente e pegar no sono de forma natural durante a noite, como a prática de esportes. Mas foi nesse momento que ela descobriu que Sasuke também havia adquirido um problema cardíaco e só poderia praticar esportes de forma moderada.

Além de todos esses problemas de saúde, havia um problema o qual a médica considerava o mais grave de todos: o social.

Nos três primeiros anos, após a prisão do irmão, Sasuke vivera em um hospital psiquiátrico, onde iniciou seu tratamento.

Depois disso, ele passou a viver com um tutor. O policial Hatake Kakashi, amigo da família. Kakashi conhecera a família Uchiha através do seu pai, que foi segurança dos Uchiha e trabalhou muito tempo prestando serviços para Fugaku, o pai de Sasuke e de Itachi. Mas Kakashi não conhecia os Uchiha tão bem e só aceitou se tornar o tutor legal de Sasuke para atender ao pedido do pai, que também já estava no leito de morte na época da tragédia.

Na verdade, Kakashi conhecia a família Senju. Antes de se formar na academia de polícia de Konoha ele foi segurança do gabinete do prefeito e por isso conheceu todos eles, incluindo Tsunade e o falecido Minato.

A psiquiatra podia afirmar que Kakashi ter a guarda de Sasuke foi de grande ajuda, pois, graças a ele, conseguiu se tornar a médica do rapaz.

Quando Sasuke deixou a clínica, com quase doze anos de idade, Kakashi decidiu que era o momento dele voltar a frequentar a escola. Aparentemente parecia uma boa ideia e Tsunade deu seu aval de médica. No entanto, o fato de Sasuke ter estudado muito tempo sozinho, o fez um jovem extremamente reservado e antissocial. Ele não conseguiu se aproximar dos outros alunos, muito menos fazer amigos.

Além do mais, a disseminação da notícia através das mídias e da internet, fez com que a maioria dos alunos conhecesse Sasuke e seu passado obscuro mais do que ele próprio. Por esse motivo, os alunos que não tinham pena dele, tinham medo e o discriminavam por ter o mesmo sangue que um assassino tão frio e cruel. Assim, antes de completar um ano letivo no colégio, Tsunade e o tutor acharam por bem que seria melhor que Sasuke continuasse os estudos em casa.

A doutora folheou o prontuário e observou as fotos retiradas dele ao longo daqueles anos. Apesar dela mesmo ter dito a secretária que a cada dia que passava Sasuke se parecia mais com o irmão, ela tinha que reiterar sua gafe. Sasuke era um rapaz muito mais apessoado que Itachi. Era o que diziam suas estagiárias Ino e Sakura, que disputavam a tapa a atenção dele. Para elas, Sasuke fazia o tipo misterioso, com seu ar indiferente, o olhar distante, além de ter um porte físico artístico, magro, 1,76 de altura, cabelos negros e com franjas longas que caíam em ambos os lados do rosto, emoldurando sua face estranhamente delicada.

A mulher suspirou ao chegar as duas últimas páginas escritas no prontuário. No último ano Kakashi percebera que Sasuke tinha vocação para ser técnico de informática e aparelhos eletrônicos. Tudo isso porque ele tinha paciência para ler os enormes manuais que acompanhavam os aparelhos.

Depois de descobrir esse fato, Kakashi resolveu ingressar Sasuke em uma faculdade técnica de informática, cuja 80% das aulas eram via internet. Perceberam desde então uma melhoria significativa no comportamento do rapaz que, apesar de continuar distante, apático e relutante quanto a falar do seu trauma, começava exibir uma expressão naturalmente mais leve.

A médica fechou o prontuário.

“Será que você está finalmente se curando, Sasuke?”, ela se perguntou mentalmente, retirando os óculos e os repousando sobre a mesa. Então sorriu para o jovem que a aguardava em silêncio e o convidou para se deitar no sofá de análise.

Obediente, Sasuke se levantou e se acomodou no divã. A médica também se levantou e se sentou em uma poltrona ao lado dele, ligou o gravador para iniciar a análise e manteve um bloco de papel e uma caneta em cima da perna cruzada, os quais usariam para fazer alguma anotação que achasse necessária.

Os olhos do rapaz se fixaram no vidro embaçado de uma das janelas do consultório, aonde ainda batia a chuva que havia diminuído a potência.

— Estou muito orgulhosa de você, Sasuke — iniciou ela com um elogio, na tentativa de tirar dele alguma expressão nova. — Kakashi me disse por telefone que ontem você não tomou os calmantes após o jantar e mesmo assim conseguiu dormir a noite inteira.

— Eu tinha trabalho de informática para fazer. Eu ia terminar e depois tomaria os remédios. Mas acabei me esquecendo e fui me deitar sem tomá-los. Acabei dormindo e só me lembrei dos comprimidos pela manhã — ele explicou tranquilamente, sem sorriso, sem nenhuma alteração facial.

— Entendo. Mas você não sentiu nada de diferente durante o dia? Irritação, cansaço, palpitações?

— Não.

— Isso é realmente ótimo — ela afirmou, sorrindo. — E hoje, como você está se sentindo?

— Não me sinto muito bem. Mas não é algo relacionado aos remédios. É que eu também não gosto de tempestades.

— Ah... — ela suspirou, olhando a janela. — Temos algo em comum então — observou, mas ao notar que Sasuke não deu importância ao fato, retomou com as perguntas. — Hoje era o seu dia de aula presencial no curso, não é? Você foi?

— Não.

— Por causa da chuva?

— Isso.

— Ficou só em casa?

— Sim.

— E quanto ao Kakashi?

— Trabalhando.

— Entendo...

Tsunade consultou o relógio no pulso. Nenhuma alteração na feição do seu paciente naqueles primeiros três minutos, o que não era incomum. Porém, ele não tinha tomado os remédios de dormir durante a noite passada, mesmo assim havia dormido e parecia estar com seu humor habitual. Fez essa pequena anotação no bloco e voltou a analisá-lo.

— Vamos começar? Não me enrole. Você tem que me contar tudo o que aconteceu no seu dia, mesmo que tenha sido um tédio. Comece desde quando saiu daqui ontem.

Sasuke assentiu e começou a narração:

— Quando sai da sua sala ontem a Sakura me cumprimentou e perguntou como havia sido a sessão. Eu respondi que tinha sido bem. Depois a Shizune confirmou o horário de hoje. Logo depois, pedi licença e peguei o elevador. Desci até o térreo, caminhei até onde o Kakashi fica me esperando com o carro. Depois que entrei, ele me perguntou como havia sido minha análise. Eu contei como foi e chegamos ao apartamento. Ele havia comprado comida chinesa. Nós dois comemos, depois eu limpei a cozinha e fui tomar banho e escovar os dentes. Li em torno de trinta páginas do livro “Informática e seus mistérios” e fiz cinco laudas do resumo que a tarefa pedia. Então fui dormir sem tomar os remédios, pela manhã...

— A luz? — ela o interrompeu para saber daquele detalhe. Como Sasuke tinha síndrome do pânico ele não costumava dormir com as luzes apagadas.

— Ah? A luz ficou acesa.

Tsunade fez novamente uma anotação em seu bloco e quando terminou pediu que ele continuasse.

— Eu dormi com a luz do quarto acesa. Pela manhã, acordei as seis e vinte cinco, mas fiquei na cama até as sete. Então levantei e fui para o banheiro, fiz algumas necessidades... Preciso especificar isso também?

— Você sabe que não faço questão — ela o repreendeu, com um sorriso. — Não seja engraçadinho.

Sasuke assentiu e prosseguiu. Apesar daquilo ter parecido uma piada de adolescente, Tsunade sabia que não era. Seu paciente era minucioso nos relatos que fazia e mesmo que ela lhe dissesse que as necessidades fisiológicas dele não lhe interessavam, ele sempre fazia aquela ressalva, como se algum dia ela fosse mudar de ideia. A médica suspirou discretamente e tentou prender sua atenção no monótono monólogo que se discorria.

— Tomei café junto com o Kakashi e depois fui limpar a cozinha. Como estava chovendo eu não fui para aula presencial do curso...

A doutora ouvia tudo detalhadamente e teve que se esforçar para não soltar um grande bocejo. Era sempre a mesma coisa. Apesar de que no último ano foram acrescentadas a narração as aulas do curso e o serviço que o tutor trazia para ele desenvolver em casa: consertar computadores estragados do departamento dele na polícia.

Mas a rotina de Sasuke era praticamente a mesma todos os dias. Sasuke não assistia televisão porque não conseguia enxergar nexo no mundo fictício dos filmes, séries, animes e novelas. Noticiários ele repudiava completamente. Qualquer relato de tragédia desencadeava em si sua insônia, mesmo estando sob efeito dos calmantes. Ouvia música clássica instrumental e sons ambientes, desde que não fossem absurdamente barulhentos. Preferia música sem letras, porque não conseguia entender a maioria das letras. Não gostava de ler ficção e nem mangás porque tinha receio de suas histórias e tragédias. A única coisa que Sasuke lia eram os livros técnicos e manuais dos eletrodomésticos e eletrônicos.

Sasuke também tinha pavor de lugares tumultuados como shopping, bares, cinemas. Apesar disso, o tutor convidava-o para comer em um restaurante de comida estrangeira uma vez por mês, para saborearem algo diferente da cultura. Mas Kakashi tinha sempre o cuidado de escolher o lugar mais calmo ou o dia mais tranquilo da semana para frequentarem o local.

O paciente também não gostava de bichos de estimação, cada um por um motivo diferente: cães certamente por causa do trauma. Não gostava dos gatos por causa dos olhos. Pássaros, por que o canto deles deixava-no ainda mais depressivo. Peixes, por que sentia claustrofobia ao olhá-los presos no aquário. Insetos e anfíbios porque o achavam feios ou pegajosos.

Mas apesar de parecer que nada naquele mundo agradava ao rapaz, Tsunade sabia que havia algumas exceções. Além de desmontar e montar aparelhos eletrônicos, que era seu mais novo hobby, Sasuke também gostava de jogos como xadrez, shogi[1], cartas, dados, quebra-cabeças e alguns jogos de videogame que não envolvia cenários e histórias complexas.

Desde que o conhecera a médica sabia da fobia do rapaz por ambientes escuros, por isso o apartamento onde ele morava com Kakashi não tinha cortinas nas janelas e as paredes eram pintadas de branco. Aquilo servia também para o consultório dela; as cortinas sempre tinham que estar descerradas para recebê-lo. Em contrapartida a sua aversão pela escuridão, Sasuke desenvolvera um gosto muito incomum pelo o oposto: a claridade. Tudo que representasse “luz”, para ele, era algo encantador, divino, a verdadeira perfeição.

Sasuke amava tanto ambientes iluminados, que relatou várias vezes que saía de casa e passava horas, ou até mesmo a tarde inteira, no parque perto da sua casa, apenas deitado na grama, observando o céu e a paisagem ao seu redor. Ele era simplesmente fascinado pelo azul do céu claro e o calor que emanava do sol.

Outra evolução positiva que Tsunade percebera durantes aqueles anos de sessões com Sasuke, foi a fala. No começo fazer com que Sasuke falasse era algo extremamente difícil. Ele só respondia o que ela perguntava e sempre em sons monossilábicos: “hm”, “sim”, “não”, “talvez”. Agora ela não precisava forçá-lo a falar, bastava pedir e Sasuke discorria sozinho sobre toda sua rotina diária. Contudo, falar do seu passado ainda era um tabu. Não importava o quão irrelevante fosse seu questionamento, nem mesmo se fosse algo ingênuo como: “Do que você gostava de brincar ou de comer quando era criança?”, já era motivo suficiente para emudecê-lo pelo resto da sessão.

Por isso que, apesar de desejar intensamente vasculhar o passado de Sasuke, Tsunade sabia que não podia pôr seu desejo pessoal acima da sua ética profissional. Forçar Sasuke a regressar a um passado ao qual ele forçava tanto para manter trancafiado dentro de si, era devolvê-lo ao fundo do poço em que ele esteve durante muito tempo. Seria destruir os bons resultados do tratamento adquiridos até aquele momento e acabar com a vida de uma pessoa inocente, a qual ela também estava se esforçando para resgatar.

Suspirou discretamente e olhou o relógio de pulso mais uma vez, a sessão estava terminando e mais uma vez ela não havia conseguido colher nada de relevante. Porém, a médica tinha determinado que não forçaria seu paciente. Esperaria até que acontecesse naturalmente. Ou até que surgisse uma brecha a qual ela pudesse usar para arrancar dele alguma coisa. Enquanto isso, ela continuaria esperando por um milagre o qual ela sentia que estava prestes a acontecer. Sasuke já começava a reduzir por si próprio os remédios, o que a fazia acreditar que aquele era o princípio de sua cura.

— Muito bem — ela falou assim que Sasuke concluiu a narração com sua chegada ao consultório e o momento em que ela o recebera com os gritos. — Vamos terminar por hoje. Tente novamente não tomar os remédios para dormir, Sasuke. Vamos fazer esse teste por uma semana. Caso continue dando bons resultados, vamos reduzir definitivamente a sua dosagem diária para dois comprimidos. Fale com a Shizune e confirme seu horário de amanhã.

— Sim.

A médica desligou o gravador e voltou para sua mesa, preencher o relatório da sessão.

Ao deixar a sala, Sasuke fitou a secretária que lhe fazia sempre a mesma pergunta.

— Amanhã, no mesmo horário?

— Isso.

— Está confirmado.

“Agora só falta aquela outra aparecer, a estagiária de cabelos rosa.”

— Oi, Sasuke-kun?

Lá estava ela.

— Oi.

— Como foi hoje? — perguntou com o mesmo sorriso de todos os dias.

— Bem — respondeu secamente. — Tenho que ir, boa noite.

— Boa noite — ela respondeu alargando o sorriso e antes que ele virasse as costas ela perguntou: — Ah! Você trouxe um guarda-chuva? A chuva está começando a ficar forte novamente.

— Não, eu não preciso. Eu vou de carro, meu tutor deve estar me esperando lá embaixo. Com licença.

— Entendi. Boa noite, Sasuke-kun. Até amanhã — ela emendou todas aquelas despedidas de maneira eufórica enquanto acenava.

Ele apenas assentiu e antes que o elevador fechasse a porta, Sasuke ainda ouviu o comentário da estagiária com a secretária.

— A cada dia que se passa ele fica mais bonito, não é, Shizune-san?

— Ah? Para mim ele não mudou nada. É você quem está apaixonada, Sakura-chan... — a secretária respondeu não muito interessada no assunto.

A porta do elevador se fechou e Sasuke concluiu que sua vida era mesmo estranha.

...

Ao sair do prédio Sasuke percebeu algo incomum: Kakashi ainda não havia chegado. Saiu para a rua correndo. A chuva estava recomeçando e achou melhor procurar um lugar para se abrigar.

Simplesmente odiava tempos chuvosos, sombrios e frios.

Entrou debaixo da proteção de uma loja e cruzou os braços, repreendendo-se em pensamento por não ter trazido um casaco e nem o guarda-chuva. Ainda não era a estação das chuvas, aquela tempestade fria era totalmente fora de época.

Inspirou e expirou profundamente, deixando seus pensamentos vagarem, enquanto esperava Kakashi aparecer. Estava fazendo dez anos que seu irmão Itachi cumpria pena por assassinato em série na penitenciária de segurança máxima da cidade. Suas palavras insanas daquela noite, ditas como se estivessem sendo profetizadas, tiram-lhe o sono durante todos aqueles anos.

Suspirou, observando os pingos grossos de chuva diminuírem.

A sua vida depois do ocorrido havia mudado drasticamente. A herança da família era administrada por um tutor nomeado pela justiça, pelo fato de não ter mais parentes vivos, fora o irmão na cadeia.

Kakashi, — o tutor —, pertencia a polícia especial da cidade, e era um homem gentil e atencioso. Mas era um policial. A opção ideal para tomar conta do irmão caçula de um Serial Killer. Uma medida preventiva de segurança mesmo ele nunca tendo mencionado a polícia o que seu irmão mais velho lhe confessara naquela noite fatídica: que sua insanidade era uma deformidade genética e que ele, Sasuke Uchiha, também estava predestinado a sofrer daquele mal e se tornar um psicopata do dia para noite.

“Hipócritas.” Sasuke pensou consigo mesmo. “Querem me convencer de que eu sou normal quando nem eles mesmos acreditam nisso. Inclusive aquela doutora. Ela me olha com um misto de pena e ódio. Pena por talvez ela não me considerar culpado pelas atrocidades feitas pelo meu irmão, mas ódio por eu ter correndo em minhas veias o mesmo sangue do homem que destruiu sua família.”.

Sasuke olhou o céu. Ainda estava muito encoberto, mas a chuva estava acalmando, permitindo-o atravessar a rua e esperar pelo tutor onde ele costumava estacionar.

Fazia algum tempo em que vinha pensando em esquecer aquela coisa de maldição passada de geração em geração e começar a viver uma vida normal. Já tinha a mesma idade com a qual Itachi tinha sido preso e se até aquele momento a tal “maldição” não se manifestara, talvez ela fosse somente um blefe do irmão.

Afinal, já tinha dezoito anos e rapazes da sua idade falavam apenas em namorar e em sexo.

Mas, definitivamente, para ele, sexo não era algo bom. Apesar de que aquilo que experimentara na infância não havia sido sexo, fora violentado.

“Será que uma garota aceitaria transar com alguém que foi violentado aos oito anos de idade pelo próprio irmão?”

“Você deveria convidar a Sakura-chan pra ir ao parque com você qualquer dia desses, Sasuke. Ela sempre pergunta de você. Ela é uma garota muito gentil, deveria conhecê-la melhor...” lembrou-se do que a Tsunade lhe dissera uma semana atrás.

“Sair com a testuda, hein? Por ser estagiária da Tsunade ela provavelmente conhece minha história e mesmo assim ela ainda mantém interesse em mim. Talvez ela não se importe em fazer sexo com um cara que foi violentado por outro. Poderia até tentar.”, pensou.

Mas o problema para Sasuke não era nem estar com uma garota e sim o fato de que não sentia nada em relação a elas: desejo, curiosidade, nada. Na verdade, uma única vez sentiu curiosidade de saber como era ficar com uma garota, quando por acidente, flagrou o porteiro do prédio vendo uma revista pornô em pleno expediente, para não se complicar, o homem emprestou a ele sua coleção de DVDs pornô. Depois de alguns dias experimentando o debate interno se assistia ou não aquilo, Sasuke optou por dar uma espiada no conteúdo. Mas assim que ligou o aparelho e os gritos da mulher que surgia nua na tela ecoaram em seus fones de ouvidos, arrancou-os com uma rapidez sobre-humana e desligou o computador direto no estabilizador.

“Sempre tem gritos?”, perguntou ao devolver os DVDs para o porteiro.

“Claro!” ele o respondeu empolgado. “É aí que o negócio fica bom! Quanto mais gritos, mais excitante a coisa fica! O homem fica mais duro, entende? Aí a penetração é mais... hein? Uchiha-kun? Uchiha-kun? Ei??”

Antes do porteiro terminar, Sasuke foi atingido por uma forte vertigem e acabou no hospital. Só não ficou preocupado com o que o homem iria pensar, pois o mesmo sabia do seu problemas de saúde e relacionou o desmaio a esse fator, não ao fato de que desmaiara ao ouvir sobre como o sexo era bom quando se tinha gritos; fazendo-o recordar dos comentários sádicos do irmão sobre os gritos de suas vítimas.

— Oi, Sasuke. Aqui! — Ele ouviu e viu o tutor acenando para ele de dentro do carro estacionado do outro lado da rua. — Vamos embora antes que essa chuva recomece.

— Estou indo.

Sasuke saiu para calçada e parou de frente a faixa de pedestre, esperando o sinal abrir, quando sentiu que alguém havia se detido ao seu lado.

— Ei, chefe!

Ouviu o chamado e se virou para visualizar aquela figura estranha que se dirigia a ele como “chefe”. Era um rapaz, provavelmente com a mesma idade que a sua, pelo menos, era o que a voz lhe remetia, apesar dele ser bem mais baixo. O rapaz estava vestido de um jeito um tanto esfarrapado: uma jaqueta cor laranja-berrante, de mangas e golas pretas, que tinha uma touca anexa, a qual o desconhecido encobria a cabeça, deixando o rosto parcialmente encoberto. O calção era do mesmo tom laranja da jaqueta. Entretanto, não fora a cor da roupa que chamara sua atenção e sim o estado em que estavam, além de muito sujas, estavam desgastadas e rasgadas em algumas partes.

— Então, chefia — ele voltou a falar daquele jeito vulgar. — Dá um dinheiro para eu comprar um ramen? — pediu, descaradamente.

Sasuke não entendeu como alguém jovem como ele estava mendigando.

— Eu não tenho dinheiro — falou a verdade, ele realmente não andava com dinheiro, porém, pensou que mesmo se o tivesse não o daria simplesmente.

Mas aquela figura não se conformou nenhum pouco com sua resposta e contorceu os lábios sombreados pela touca até eles formarem um bico em sinal de descrença.

— Alguém com uma pinta de bacanudo como você não tem dinheiro? Estranho isso aê, hein, chefe! — ele vocalizou sua dúvida, falando ainda daquele jeito que Sasuke considerava estranho, por nunca ter ouvido antes. — Se não quer dar o dinheiro, não dá, cara! Pode falar o que tá pensando! Que sou um vagabundo por estar mendigando ao invés de estar trabalhando. Estou acostumado essas coisas, não precisa ficar fazendo pinta de bom moço, não.

Sasuke admirou-se da petulância daquela pessoa que, além de tudo, era malcriado.

— Eu estou falando a verdade. Não ando com dinheiro — reafirmou, se voltando para o sinaleiro e percebendo que havia perdido o sinal verde. “Merda! Ainda me faz perder a sinal livre para passar, agora terei que esperar mais”.

— Então me dá outra coisa, o celular, o relógio, qualquer coisa... — o outro ainda insistiu.

Sasuke se voltou para o rapaz, desta vez, levemente surpreso. Era evidente. Como não havia percebido antes? Escondendo o rosto, com as mãos dentro do bolso da bermuda... Era tão óbvio. Era um ladrão.

— Está me assaltando? — perguntou sem receio algum, afinal, tinha um policial o esperando do outro lado da rua. — Se for, já vou te alertar. O senhor me esperando no carro do outro lado da rua é um policial e....

— Não é um assalto, porra! — o cara de laranja de repente esbravejou, fazendo Sasuke arregalar os olhos e sentir seu coração disparar. — Eu já disse que só quero comprar um ramen! Estou com fome! Ajude se quiser! — ele continuou gritando, chamando atenção de outras pessoas.

— Além de escandaloso é pouco inteligente... — Sasuke observou em um tom sussurrado.

— Quê?

O jovem Uchiha olhou para o rapaz e notou que ele havia tirado as mãos do bolso; parecia desarmado.

— Ei, Sasuke? — ouviu Kakashi o chamar e o cara que o importunava dar um passo amedrontado para traz. — O que está acontecendo aí?

— Nada. Já estou indo! — respondeu rápido, antes que o tutor atravessasse a rua e viesse ao seu encontro.

Em seguida, retirou o celular do bolso da calça e o depositou na mão do outro.

— Guarde-o rápido. Não deixe que ele perceba.

— Hã? — o jovem maltrapilho ficou confuso por um segundo, olhou de Sasuke para o aparelho, e só então admirou ao notar o smartphone em suas mãos. — Uau! Esse aqui é de última geração! Não quer retirar o chip antes?

— É linha. Quando chegar em casa eu ligo para prestadora e peço para transferi-lo para outro aparelho.

— Ah! Eu sabia que você tinha mesmo pinta de riquinho.

— Você é estranho — Sasuke comentou.

Foi então que Sasuke viu algo realmente estranho acontecer, com o rosto ainda ocultado pela touca suja, aquele desconhecido abriu um grande sorriso para ele. Um sorriso diferente. Um sorriso que nunca naqueles anos todos Sasuke vira alguém lhe oferecer. Parecia espontâneo, verdadeiro, sincero. Por um segundo sentiu algo o aquecer por dentro, contrastando com a garoa fria que caía.

— Née? Valeu, hein, Sasuke! — ele o agradeceu e saiu correndo em seguida.

“Sasuke?” o Uchiha sorriu e balançou a cabeça em sinal de descrença, por tê-lo ouvido se despedir chamando-o pelo primeiro nome, como se fossem conhecidos. “Ele com certeza ouviu quando o Kakashi me chamou. Mas é um folgado mesmo...”

— Oi, Sasuke! O que está esperando?

Ouviu o tutor o chamar mais uma vez.

— Estou indo.

Antes de ir, Sasuke se virou para trás, observando por cima do ombro o rapaz de roupa alaranjada se afastar, comentando em voz alta que conseguiria uma boa barganha pelo objeto que ganhara. Balançou a cabeça em negação e deu um passo para rua ao notar o sinal verde. Tinha quase certeza de que ele trocaria o objeto por drogas, mas aquilo já não era mais problema seu.

Continuou seguindo distraidamente, e quando estava no meio da travessia, sentiu algo que há dias não sentia: tontura. Não conseguiu manter o equilíbrio, tropeçou nos próprios pés e caiu. O policial ao ver o que tinha acontecido desceu do carro rapidamente, mas a essa altura o sinal de passagem já tinha ficado vermelho e alguns carros começaram a passar.

— Sasuke!! — Kakashi gritou, fazendo menção de entrar na via ao notar que um veículo vinha em alta velocidade na faixa em que o protegido havia caído. — Pareeeeee! — gritou, sacudindo os braços no ar para que o motorista o visse.

Ainda consciente, Sasuke fechou os olhos, imaginando que havia chegado a sua hora. Era capaz de sentir o vácuo dos veículos passando rente ao seu corpo, mas não tinha forças para se levantar.

Só sentiu por ser naquele momento em que algo bom havia acontecido...

De repente, sentiu seus braços serem apanhados da mesma forma que suas pernas, seu corpo foi elevado e carregado até ser largado de volta no chão, provavelmente na calçada. Ainda não era sua hora.

Havia muito barulho: pessoas gritando ao mesmo tempo, a frenagem brusca de alguns veículos na via e o cheiro forte de borracha queimada no asfalto. Mas o mais importante: ainda estava vivo. Tinha sido salvo. Mas por quem?

Sentiu algo pingar em sua testa, enquanto discernia seu nome ser dito em meio aquele alvoroço de vozes a sua volta.

— Oi? Sasuke, você tá bem? Responde, merda! — exigiu uma voz gritante e esganiçada.

Sasuke abriu os olhos rapidamente para voltar a cerrá-los em seguida e reabri-los mais devagar, era como se estivesse sido ofuscado momentaneamente por uma intensa claridade. Mas não era uma luz artificial, todo aquele brilho vinha do rosto preocupado a sua frente.

Quem era aquele cara?

Ele...

Era...

Simplesmente...

Perfeito.

Aquela pessoa tinha o rosto tão radiante quanto um dia claro de sol. Os cabelos loiros eram como os próprios raios do astro magistral do céu. O tom azul claro daqueles olhos reproduziam perfeitamente o azul claro do céu límpido de verão. Aquele desconhecido a sua frente era tão bonito que lhe causava... dor.

Ele fora seu salvador? Seu anjo da guarda?

Sim... ouvira dizer que os anjos eram seres perfeitos e de beleza resplandecente.

Sentiu o coração batendo mais rápido, pulsado como jamais sentira antes.

Mas de repente: mãos. Notou mãos segurarem o rapaz que parecia ter sido atingido na testa por algo, pois dela pingava o sangue que caía em seu rosto. Ele foi puxado e retirado de perto dele. A aglomeração de pessoas lhe rodeando aumentou. “Não, não, esperem! Não deixem meu anjo partir antes de eu saber quem ele é!”.

— Espe-... — tentou falar ao mesmo tempo em que apoiou os cotovelos no chão para se erguer, mas foi impedido quando um rosto, agora bem conhecido, surgiu na sua frente com as sobrancelhas franzidas.

Seu tutor o empurrou de volta para o chão e o alertou em tom grave:

— Não se mexa, você está sangrando. Os bombeiros devem estar chegando.

— Mas..., Kakashi-san...Esse sangue não é....

— Nada de “mas”, Sasuke. Fique onde está e espere.

Continua...

Sound track:

Ei garoto, escute o que vou dizer!

As pessoas não são grande coisa

Já não lhe direi mais sobre o amanhã

Por isso não esconda seus punhos fechados

No Boy, No Cry — Stance Punks

Vocabulário de Expressões e Observações:

[1] shogi, também conhecido como xadrez japonês é a versão japonesa do xadrez.

Notas finais
Capítulo longo, arrastado, explicativo. Sem muitas emoções, apesar desse finalzinho clichê com um "quase" acidente . Mas o próximo será bem diferente! Bem, como vocês perceberam esse é um UA (Universo Alternativo), então reorganizei o parentesco de alguns personagens de forma que eu possa utilizá-los melhor no desenvolvimento da trama. Da mesma maneira que inclui a cidade de Konoha no mapa do Japão atual. (Sim, é incrível o poder que as fics nos dão! :P) A Tsunade para mim é uma personagem riquíssima no enredo oficial de Naruto. Admiro ela em inúmeros aspectos e é exatamente por essa minha admiração que ela ganhou um papel tão fundamental na fic. Até porquê eu sempre a vi mais como a mãe do Naruto, do que como avó. Adoro o relacionamento dos dois no enredo original de Naruto. Então, é isso. Continuo? Então, por favor, deixem algumas reviews! Meu beijo coletivo! o/ See you next!