Obscuro
22 Rebotalhos
Um dia acordei cansada. Senti cheiro de terra. Estava deitada na relva. O céu era de um azul pálido como uma aquarela. Ouvi passarinhos e cigarras. A brisa exalava lavanda. Era maravilhoso.
— Gosta daqui?
Virei-me assustada e deparei-me com David. Estava sonhando.
— Gosto. É a dimensão dos mortos?
— Não. É uma lembrança de como era meu reino. Naquela direção há uma floresta exuberante. Naquela outra há uma trilha para outro reino. Acolá fica meu castelo. E às minhas costas há uma vila de camponeses. Você gostaria daqui.
— Sim, é muito bonito, mas isso ficou no passado, não? É impossível viajar de volta no tempo. A não ser em uma lembrança.
— Hum. Venho observando suas atividades na igreja. Tem tanto medo de mim assim?
Envergonhei-me ao ver meus esforços para me libertar serem escancarados. Fiquei calada.
— Não estou lhe forçando a nada e posso muito bem sair da sua vida e nunca mais voltar. É só você pedir. — David falou ressentido.
— Se é assim, estou lhe pedindo agora que me deixe em paz.
— Está bem. Cumprirei com a palavra dada. Vagarei sozinho com os rebotalhos da minha vida na Terra, mas antes quero lhe mostrar onde vivo: a dimensão dos mortos.
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