Obscuro

16 Plúmbeo


Certa manhã ensolarada, David apareceu para mim. Estava mais para Caspian do que para José de Abreu, o que era suspeito, pois nunca atraí a atenção de rapazes bonitos. Vocês podem então entender a minha descrença e receio. Eu ainda tinha dúvidas quanto a sua origem e intenção. Ele, como se lesse minha mente, falou:

— Não tenha medo. Eu venho em paz.

Eu fiquei muda. Tanto pela desconfiança, quanto por estar me comunicando com um ser sobrenatural. Ele falou novamente:

— Você, dentre todas as pessoas, deveria ser a única a não me temer. Acaso se esqueceu de todas as vezes em que a amparei? Quando a consolei e acalmei? Se eu quisesse seu mal, não estaria me regozijando com o seu sofrimento?

Ele se aproximou e eu dei um passo para trás.

— Eu queria que me visse como sou, para conversar. Você tem andado muito sozinha. Está na hora de aceitar um amigo.

Ele estendeu a mão, e eu a agarrei avidamente. Percebi que ela não era de carne e osso ou algo plúmbeo. Era mais como a idéia de uma mão, que se desfazia ao meu contato. Mesmo assim foi o aperto de mão mais excitante que já tive.