Depois da minha malfadada conversa, as coisas se atropelaram e saíram do controle. Ao menos do meu controle. Eu me pergunto se isso foi proposital. Se eu inconscientemente estava pedindo socorro à minha prima, ao revelar o plano de David a meu respeito. O fato é que ela alertou minha família que me levou ao psiquiatra.

Hoje faz quatro dias do ocorrido, e estou tomando quatro remédios diferentes, que afetam a mente. Sou vigiada constantemente. Ordens médicas, segundo me disseram. Não sonho mais. E David nunca mais deu as caras. Não vejo mais faces nas paredes, nem escuto vozes na minha cabeça. Não tenho mais medo do escuro, nem do claro. Ninguém me consola quando estou triste, nem me concede amor incondicional.

Algumas vezes tenho que lembrar de fechar a boca, pois saliva começa a escorrer. Outras vezes percebo que alguém espera uma resposta a uma pergunta que não sei qual é. E quase sempre me pego admirando o vazio, não porque esteja devaneando, mas porque me esqueço de desviar o olhar. Como uma candeia que se apaga e deixa tudo na penumbra, sei que perdi algo mas não lembro o que é, e nem sei se isso é importante.