Obscure - Cobrade

1 Capítulo Único


Eu esperava que qualquer coisa acontecesse comigo naquela noite. Eu poderia ir a uma boate, transar com um homem qualquer, ficar bêbada ou usar algum tipo de droga e fingir que nada daquilo estava acontecendo. Se bem que nada que eu fizesse mudaria a minha realidade, a realidade que eu escolhi para mim, que eu provoquei.

Muitos acham um grande absurdo eu ter essas ideias passando pela minha cabeça, mas tenho que confessar que por inúmeras vezes pensei em optar pelo suicídio. A morte seria uma ótima solução para todos os meus problemas. Mas confesso, também, que tenho medo do que vem depois da morte. Aquela história de céu e inferno ainda me assustava. Acho que é porque eu tinha a plena consciencia de que eu queimaria no fogo eterno. Clichê! Eu sei!

Uma guerra estava acontecendo dentro de mim. No meu coração uma vos dizia que eu deveria continuar lutando e estar, sempre, "do lado bom da força", desistir nunca! Afinal, eu tinha mudado, não tinha? Mas o meu lado racional falava mais alto e me dizia que a antiga Jade estava adormecida em algum lugar dentro de mim. E que, a qualquer hora, ela acordaria e acabaria com tudo que eu consegui construir.

Por mais que eu quisesse fugir, meu passado obscuro iria me seguir para sempre onde quer que eu fosse. E é como dizem, o tempo passa, mas as marcas dos seus erros ficam eternamente em você. E agora, ele estava lá, para me lembrar exatamente quem fui. Ou seria, quem sou? Não sei!

Meus pais sempre foram muito ausentes na minha vida e muito presentes na vida do meu irmão. Na minha casa eu sentia que era uma intrusa, a filha que eles não queriam ter, mas que, por uma gravidez indesejada, foram obrigados. Infelizmente ou felizmente, não sei, eles faleceram. E, de acordo com o testamento deixado por eles, todos os bens que eles tinham iriam para o meu irmão e eu fiquei literalmente na merda. A unica coisa deixada para mim foi uma boate, que estava praticamente falida.

Para conseguir reanimar a boate e conseguir algum dinheiro para sobreviver tive que optar por uns meios ilícitos. No inicio, algumas prostitutas faziam a alegria dos homens. Por um tempo me contentei com isso, mas eu queria mais. Comecei a vender drogas lá dentro. Usei algumas vezes, mas não fui burra o suficiente para continuar. Não permitiria que minha vida acabasse desse jeito. Sentia que eu estava no topo, mas as coisas começaram a sair do controle. Eu comecei a comprar mais drogas, não conseguia vender todas e, consequentemente, ficava devendo.

(...)

- Seria importuno de mais te oferecer uma bebida?

- Depende, o que você quer com isso?

- Apenas ter uma conversa com uma garota sexy.

- Obrigada, mas eu dispenso! Tenho coisas melhores a fazer!

- Desculpe, mas, pelo que vejo, não está fazendo nada interessante.

- Qualquer coisa é mais interessante do que conversar com você!

- Essa foi pesada! Então, você é a dona daqui, não é? Este lugar é bem legal.

- Você não vai desistir, não é mesmo?

- Não!

- Tudo bem! O que você quer saber de mim?

- Me falaram que você é quem comanda as coisas que acontecem por aqui. É verdade?

- Por que não me disse antes? Arrumo fácil para você! Quantas quer?

- Não, não é isso. Eu não uso. Só fiquei curioso!

- Por que?

- Não é muito comum ver mulheres nesse meio.

- Entendi. Machismo!

- Não é machismo. É só...

- Tudo bem. Vamos esquecer isso. Quer dançar?

- Dançar? Pra quem não queria nem ter uma conversa!

- Não fica muito animadinho. É, apenas, o efeito da bebida!

Saí do bar e fui em direção a pista de dança, seguida por ele. Algumas pessoas voltaram a atenção para nós. Eu não custumava me socializar com ninguém dali, eu só ficava no bar observando tudo que acontecia, controlando as entradas e saidas e tudo o mais. Mas, eu estava precisando abrir um pouco a guarda. Por mais que eu tenha me acostumado com essa vida, eu estava cansada. Cansada de ter que fugir e de viver sozinha. Uma coisa que dizem e é a mais pura verdade, quando você entra nesse meio não consegue sair. Ele se posicionou atrás de mim e começamos a dançar juntos. Ele segurou na minha cintura e virou-me, fazendo com que nossas bocas se unissem. Sua lingua invadiu minha boca em um beijo desesperado. Com uma mão ele segurava minha cintura e a outra passeava pelo meu corpo. Levei minha mão até seu cabelo e puxei de leve, ao mesmo tempo mordia seu lábio inferior. Eu já estava ficando excitada, então afastei-me dele. Não sou do tipo de mulher que transa com um cara que acaba de conhecer. Não mais!

- O que foi?

- Cansei de dançar. Acho melhor você ir embora.

- Por que? Vamos conversar um pouco. Vem, vamos para o bar.

Homem insistente! Ele segurou na minha mão e me levou até lá, pedindo duas taças de vinho em seguida.

- Por que tanto interessem em mim? Você não é nenhum infiltrado da policia, é?

- Não. Fica tranquila! Na verdade, eu venho aqui há um bom tempo já e fico observando você. Mas nunca tive coragem de me aproximar.

- Medo de mim? Não se preocupe, eu não mordo. Só se pedirem!

- É? E se eu pedir?

- Já disse que não estou interessada!

- Você é muito misteriosa, sabia? Não sei o que se passa na sua cabeça.

- E é melhor que não saiba!

- Tem muitas coisas a esconder?

- Algumas.

- Se quiser me contar, sou todo ouvidos.

- Por que eu te contaria? -ele olhou para mim e eu arqueei uma sobrancelha- Eu compro drogas e repasso, todo mundo sabe disso. E, de uns tempos para cá, as vendas cairam e eu fiquei devendo. Então, eu tive que apagar dois caras. Se não o fizesse eles viriam atrás de mim.

- O que? Você matou duas pessoas?

- Não com as minhas mãos! Pelo menos um não. O outro eu mesma fiz questão de apagar. Foi fácil. Primeiro coloquei ele para dormir, depois uma mistura de remédios apagou ele rápido -eu ri e ele me olhou sério.

- Do que esta rindo? Você é maluca?

- O que queria que eu fizesse? Não tinha outra opção! Era eles ou eu! E eu espero que você não conte nada para ninguém.

- O que você vai fazer? Vai me apagar também?

- Se for preciso, sim!

- Eu não tenho medo de você! -eu ri e tomei o resto do vinho que estava em meu copo de uma vez.

- Ainda não me disse seu nome!

- Ricardo Cobreloa. Cobra, para os íntimos.

- Acho que não preciso dizer o meu, não é?

- Quem não sabe seu nome, Jade?

- Realmente!

- Eu não sei porque vou dizer isso agora, mas eu quero ajudar você!

- Não sabia que eu estava precisando de ajuda.

- Sabia sim! Só é orgulhosa de mais para admitir.

- Você acabou de me conhecer e acha que pode falar assim comigo?

- Eu só estou tentando te ajudar, não tenho obrigação nenhuma de fazer isso. Posso ver que você não está feliz. E uma mulher bonita como você não merece viver assim.

- Ainda acha que sabe de tudo!

- Posso ver nos seus olhos, eles não mentem. Mas eu não vou ficar insistindo nisso, preciso ir.

- Não! Espera! Eu odeio dizer isso, mas você tem razão, eu preciso da ajuda de alguém!

Eu odiava ter que admitir que eu estava errada e, principalmente, que eu precisava de ajuda, porque, como eu disse, ninguém consegue sair desse meio. Mas eu estava sentindo necessidade disso, eu precisava mudar e sozinha eu não conseguiria. Talvez, não conseguisse nem com a ajuda de alguém. Mas era um incentivo a mais. Esse homem tinha aparecido na minha frente sem explicação alguma. Prefiro acreditar que uma força superior me achou e viu alguma ponta de esperança em mim. Então, me mandou um "anjo" para me ajudar. Os dias foram passando e a cada hora eu tinha mais certeza que não conseguiria me desprender daquilo. Então, eu vendi a boate e com o dinheiro da venda eu me sustentava. Depois disso não sabia o que iria fazer da minha vida. Em uma sexta-feira a noite, sozinha em meu apartamento me peguei pensando nessas coisas. O desespero tomou conta de mim e eu recorri a uma coisa que não usava a tempos. No fundo de uma gaveta ainda tinha uma pequena quantidade de droga injetavel que eu guardava para alguma emergência. Apliquei dois frascos na minha veia e tomei um compromido para tentar ficar calma. Depois disso, não lembro de mais nada.

- Ei, acorda! Jade?

Ouvi alguém me chamar e fui despertando aos poucos.

- Cobra? Minha cabeça está doendo!

- Calma, não faz muito esforço. O que aconteceu?

- Eu não quero falar.

- Por que? Não confia em mim?

- Sim, mas você vai brigar comigo. Promete que não vai ficar bravo?

- Não posso prometer. Mas de um jeito ou outro, você precisa falar.

- Eu não consegui ficar longe, eu fiz aquilo de novo. Me desculpa!

- Você usou drogas novamente? -ele perguntou e eu fiquei em silencio- Responde Jade!

Eu balancei a cabeça em sinal positivo e ele fechou os punhos, em sinal de raiva, e acertou a parede ao meu lado. Eu não consegui segurar o choro. Aproximei-me dele com dificuldade, devido a forte dor de cabeça e o agarrei pelo pescoço.

- Por favor, me perdoa. Foi a última vez, eu juro!

- Quantas ultimas vezes vão existir? Você mesma disse que não deixaria sua vida acabar desse jeito e olha o que está fazendo!

- Eu sei. Eu sei! Mas eu não consegui, foi mais forte do que eu. Eu estou tentando, mas esta difícil. E quer saber? A culpa é sua! Você disse que iria me ajudar, mas desde que me tirou de lá as coisas só pioraram.

- Eu disse que te ajudaria, mas nunca disse que seria fácil. O que você queria? Depois de tudo o que você fez queria que a sua vida virasse um mar de rosas?

- Eu não sei! Só não queria estar assim! Será que você não entende? Quer saber, eu vou sair.

- O que? Pra onde você vai?

- Para qualquer lugar longe de você.

Peguei a chave do carro em cima da mesinha e sai apressada. Minha cabeça ainda doia e eu me sentia um pouco tonta. Mas precisava sair dali o mais rápido possível. Entrei no elevador e consegui descer antes que ele chegasse até mim. Entrei rapidamente no carro e antes que eu consegui-se sair com ele, Cobra entrou.

- Você não pode dirigir nesse estado. É perigoso.

- Eu não me importo. Sai do carro!

- Não vou sair e te deixar aqui. Vamos comigo!

- Não, eu não vou a lugar nenhum. Vou falar pela ultima vez: Sai do carro!

- Eu já disse que não vou sair!

- Ótimo!

Sai com carro dali, mesmo com o Cobra junto. As ruas estavam desertas, o que permitia que eu aumentasse a velocidade do carro. Ele começou a falar algumas coisas para mim, que, em vez de ajudar, estavam fazendo com que eu ficasse ainda mais nervosa. Minha visão começou a ficar turva e a cabeça doia mais do que antes. Ele tentou pegar o controle do volante, mas eu o impedi, dando uma cotuvelada em seu rosto, o que fez com que ele inclina-se um pouco para o lado contrário. Perdi o controle do carro e, a única lembrança que tenho é a do carro capotando.

(...)

- Onde eu estou?

- Olá querida, como se sente?

- Bem, eu acho. Quem é você?

- Eu sou Maria, a enfermeira que está cuidando de você.

- Enfermeira? Por que? O que aconteceu?

- Você sofreu um acidente de carro e dormiu por umas horas.

- Acidente?

- Sim. Não se lembra?

- Não consigo lembrar de nada. Mas, e o Cobra? Onde ele está?

- Eu vou chamar o médico. Ele fez alguns exames em você e já deve ter o resultado. Espere um minuto!

Não foi essa a minha pergunta! Por que ela não me diz o que aconteceu com o Cobra? A enfermeira saiu dali e alguns minutos entrou o médico, um senhor que aparentava ter mais ou menos cinquenta anos de idade.

- Como se sente?

- Bem. Só com um pouco de dor na cabeça.

- Está com dor em algum outro lugar?

- Não.

- Você teve muita sorte mocinha. Com a gravidade do acidente você deveria, no minimo, ter quebrado alguma coisa.

- E o Ricardo, doutor? Como ele está?

- Infelizmente, as notícias não são boas. Seu amigo não teve a mesma sorte que você!

- Como assim? O que aconteceu com ele?

- Por não estar usando o cinto de segurança, ele foi arremessado para fora do carro. A pancada na cabeça foi muito forte e, por sorte, ele não sofreu um traumatismo craniano. Mas fizemos alguns exames e o resultado não foi satisfatório. Ele está em um estado de inconsciência e demonstrou pouca reação aos estímulos.

- E o que isso quer dizer, doutor?

- Eu sinto muito, mas ele está em coma.

- Em coma? Ele vai ficar assim por quanto tempo?

- Eu não sei. Pode ser que seja por meses ou anos. É dificil ter uma previsão. Pode ser que ele nunca mais acorde.

- O que? Você tem que fazer alguma coisa! Não pode deixar ele assim.

- Não a nada que possamos fazer. Isso só depende dele!

(...)

Sete meses já tinham se passado e a minha esperança de que ele fosse acordar diminuíam a cada dia. Saber que ele estava trancado naquele quarto de hospital, aprisionado naquela cama, sem poder se quer abrir os olhos era torturante. Principalmente, por ter a consciencia de que eu tinha causado tudo aquilo. Eu era a culpada! Maldita hora que eu o conheci!Maldita hora que permiti que ele entrasse na minha vida! Tudo o que ele queria era me ajudar e, como recompensa, o que eu fiz? Acabei com a vida dele! E agora não tem nada que eu possa fazer.

- Não sei você consegue me entender, mas eu queria te contar uma coisa. Hoje os caras que compraram a boate foram na minha casa. Eles fizeram um convite um pouco tentador. Queria que eu entrasse em uma sociedade com eles. Isso me renderia muito dinheiro, mas isso não é o mais importante, não é? Foi dificil, mas eu disse que não. Foi você que me deu forças para fazer isso, inconscientemente, mas foi. Obrigada por isso.

(...)

- Essa semana não foi tão boa quanto eu esperava. O dinheiro está acabando e eu não sei como vai ser quando isso acontecer. Eu preciso conseguir um trabalho, mas ninguém quer dar emprego para uma mulher como eu. As pessoas não acreditam na minha mudança. Acho que nem eu acredito. Eu me desesperei como nunca tinha me desesperado e, de novo, eu não consegui. Não usei drogas, mas bebi muito. Quase dormi com um cara que nem conhecia, mas fui mais forte e consegui fugir antes de fazer uma burrada maior.

(...)

- Um ano! Você precisa reagir. Precisa voltar a ser quem você era. Por favor! Eu quero acreditar que você consegue. Me faz acreditar. Me faz acreditar! Abre os olhos, meche os dedos, eu não sei! Qualquer coisa, eu só preciso ver!

(...)

- Ei, eu tenho uma novidade para você. Acho que vai gostar. Eu estou trabalhando, acredita? Sou secretária em uma empresa de comunicações. O cargo é baixo e o salário não é lá essas coisas, mas eu estou muito feliz. Queria que você pudesse comemorar comigo. Tudo isso esta acontecendo graças a você!

- Não acha que está se punindo de mais fazendo isso?

Tirei minha atenção de Cobra e olhei para trás. Um homem alto e magro estava encostado na porta. Sua expressão era séria, o que me preocupava um pouco.

- Não. Estou fazendo o que está ao meu alcance.

- Não adianta! Ele não pode te ouvir.

- Quem garante isso?

- Sou médico, sei do que estou falando. Aliás, os exames não negam. Você está perdendo o seu tempo!

- O senhor não tem compaixão?

- Tenho, e é por isso que estou aqui. Caso contrário, estaria fazendo qualquer outra coisa. Você vem aqui todos os dias, faz a mesma coisa e, olha só, tudo esta como antes. Esta presa a uma coisa que não tem jeito. Não deu resultado e nem vai dar. Há quanto tempo as coisas estão assim?

- Quase um ano e seis meses.

- E você tem esperança que algo vai mudar? Não tenha! Ele só está aí agora porque os aparelhos estão o fazendo viver.

- O que quer dizer com isso?

- Quero que nos de autorização para desliga-los. Vai ser menos sofrimento, para você e para ele.

(...)

- Oi, sou eu de novo. Estive conversando com o seu médico e precisei de um mês inteiro para pensar sobre isso. Ele quer desligar os aparelhos que te mantêm vivo. Sabe, se não fosse por você eu não sei o que seria de mim hoje. Você me tirou de uma vida desgraçada e fez com que eu conseguisse algo digno. Sou eternamente grata a você por isso. Se eu pudesse trocar de lugar com você, com certeza eu faria. Sem pensar duas vezes. Mas, infelizmente, eu não posso. Como esse mundo é injusto! Eu vou sempre lembrar de você como o homem que salvou a minha vida. E, como eu não me canso de dizer, obrigada por isso. E me perdoa por não ter sido para você, tudo aquilo que você foi para mim.

(...)

- Doutor, será que o senhor tem um tempinho para mim?

- Claro, precisa de alguma coisa em especial?

- Eu lhe dou permissão. Desligue os aparelhos!

Fim

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