Obscure
3 Capitulo 3 - O Velho Louco
Notas iniciais
Meus olhos se abriram devagar quando eu acordei, tonto, desnorteado e totalmente perdido. O local estava escuro, sendo iluminado somente por uma pequena faixa de luz que entrava por uma fresta na janela.
Quando eu me sentei sobre o que eu pensava ser uma cama eu vi que se travava de um hospital e de imediato me desesperei, um soluço ficou preso na garganta... Seriamos mandados de volta ao orfanato.
Minha perna fora engessada o que dificultou minha ida até as macas onde estavam Louise e Deno que ainda dormiam.
— Deno, Louise! — Falei no espaço que havia entre suas macas e balancei os braços deles simultaneamente para que acordassem.
— Vejo que já acordou, menino esquisito. — uma voz disse atrás de mim.
Me virei rapidamente apoiando o peso do corpo na perna boa para poder ver quem era a pessoa que falava comigo. Era uma menina branca de cabelos loiros tão intensos que pareciam brilhar junto com a faixa de sol que entrava. Ela sorria, só não sabia o motivo ainda.
— Quem é você? Onde eu estou? — falei grosseiramente, tentando intimidar, mas com aquela perna engessada eu só tentaria mesmo.
Ela franziu o cenho antes de responder e encarou minha perna engessada como se quisesse me mostrar que eu estava incapacitado de fazer alguma coisa caso fosse preciso.
— Sou a conselheira do chalé de Asclépio, deus da medicina e da cura. Você está na minha enfermaria. — Falou debochadamente.
"Conselheira do chalé de Asclépio", repeti em minha mente tentando entender o que se passava ali. Talvez aquilo fosse uma pousada e cada chalé fosse representado por um deus mitológico... Era a coisa mais sensata que pude imaginar por hora.
Deno se levantou atrás de mim com a mão na cabeça, eu olhei para trás para checar se ele estava bem e ele balançou a cabeça positivamente, e quando voltei a olhar pra frente fui atingido por uma onda de choque... Meu melhor amigo tinha uma semelhança muito grande com a garota, seu cabelo só não era tão brilhante. Resolvi não soltar aquilo ali, não queria sair como louco, precisava manter o foco da conversa.
— Poderia me explicar o que estamos fazendo aqui? Como viemos parar aqui? — Tentei ser menos grosseiro pra que ela não se zangasse e resolvesse parar de me responder.
— Vocês apareceram ai, magicamente. Acho que foi obra de algum deus, eles andam tramando muitas coisas ultimamente... Qual a idade de vocês? E os nomes?
— Magicamente... — sussurrei olhando novamente pra Deno assentia quase imperceptivelmente para que eu respondesse a garota.
— Tenho 10 anos, me chamo Damon. Estes são meus amigos Deno, de 10 anos e Louise, que tem 9. E você?
— Sou Annelise, tenho 16 anos... Bem, vocês foram medicados e estão melhor, quando sua amiga acordar...
"CREC" fez a maca em que Louise estava, porque quando ela acordou ela se levantou desesperada, com a mão sobre o abdome onde fora atacada.
— Hihi... — Fez Annelise, com um risinho que não parecia de escárnio. — Acho que eu devo leva-los à casa grande. É lá onde Quiron deve estar e ele vai os explicar o que se passa aqui melhor do que eu.
— Onde fica a casa grande?! Quem é Quíron? — Louise perguntou desconfiada como sempre.
— Não é muito longe daqui. E... Vocês verão quem é Quíron.
— Deixe-me tirar esse gesso de sua perna para que possa ir conosco até lá. Enquanto isso, vocês dois podem começar a mastigar isso... — Ela ofereceu dois chicletinhos que tirou de seu bolso. — Vai aliviar a dor. Tem efeito analgésico.
Fui andando até a maca, apesar de não confiar na garota, não achava que ela estivesse mentindo... Talvez omitindo alguma verdade, mas não mentindo.
Logo ela tirou meu gesso e me ofereceu um chiclete como os que Deno e Louise já tinham. Os ferimentos causados pelos espinhos já haviam sido totalmente curados e só restou a cicatriz, que a garota disse poder resolver caso ela nos incomodasse. Saímos da enfermaria, estávamos num vale, podia ver várias coisas estranhas além das arvores. Andamos um pouco até chegar numa construção que parecia uma casa de fazenda, tinha quatro andares e era todo azul e branco... Estranho demais. Caminhamos até a varanda e batemos na porta, onde fomos atendidos por um homem de cadeira de rodas.
— Este é Quíron. Quíron, estes são Damon, Deno e Louise. Estavam sendo tratados na enfermaria desde ontem a noite quando apareceram magicamente... Você sabe o que fazer com eles.
Ela piscou e foi embora depois do agradecimento de Quíron.
— Se vocês estão aqui, quer dizer que são meio sangues. Entendem o que quer dizer?
— Meio sangue é o nome que se dá a um hibrido de humano com um deus.
— De fato. — Ele falou olhando por cima de meu ombro para ver Louise. — E vocês, são meio sangues.
Deno riu baixinho da cara do velho senhor que estava coberto por um lençol surrado sentado em sua singela cadeira de rodas.
— Vejo que não acredita em mim — ele disse a olhar para Deno. — Porquê?!
— Os deuses não passam de mitos, esqueceu? Não existe Deus, ou deuses, que seja... Se existissem nos saberíamos, certo?!
Ele olhou para Louise que dava de ombros.
— Você está bem enganado, meu rapaz. Venham, vou mostrar-lhes um vídeo que será esclarecedor.
E horas de conversa se passaram, as dúvidas foram deixando de existir e logo deixamos de ser totais ignorantes, descobrimos que não éramos órfãos. Éramos filhos de deuses da antiga mitologia grega, era quase inaceitável, mas paramos de duvidar depois de algumas demonstrações...
— Então a mulher que nos ajudou com a manticore era uma deusa grega?! — Indaguei, surpreso.
— Exatamente, e pelo que você me descreveu, é provável que seja uma deusa ctónica... Mas são muitas. Bem, vocês logo serão reclamados, e o lado deus de vocês será aflorado, vocês serão capazes de coisas que não são agora... Inclusive, agora que sabem o que são devem estar começando a perceber mudanças.
Assenti, realmente aquilo aconteceu, minha estaca estava diferente, era como se houvessem olhos em toda a minha cabeça, podia olhar para todas as direções sem nem mesmo virar a cabeça, mas ainda doía, era como se requeresse pratica.
— Consigo ver Louise, e ela está atrás de mim... Nem sei como posso fazer isso, ai...
Voltei a focar a visão no homem que descobrimos se tratar de um centauro.
Ele me olhava estranho, puxando com os dedos os longos fios de barba que saia de seu queixo.
— Eu também me sinto mais assim, como se meus sentidos houvessem se apurado. — Deno falou.
— É, e eu. — Terminou Louise.
— Vocês serão levados ao chalé de Hermes por hora, irão dormir lá enquanto não são reclamados, talvez serão reclamados a qualquer momento, e quando descobrirmos de quem são os seus pais vocês dormirão em seus respectivos chalés. Não podendo mais dormir juntos. — Quíron falou.
Fomos levados até o chalé de Hermes por uma ninfa do vento que se chamava Heliane. O acampamento, que a pouco descobrimos que se tratava de um, estava cheio de campistas que eram todos meio sangues. Incrível. Alguns, geralmente os loiros, nos apontavam e sussurravam coisas entre si. Acho que eles eram os que trabalhavam na enfermaria e nos viram por lá, por isso fofocavam sobre isso.
Logo chegamos ao chalé de Hermes, uma construção de mármore cinza, simples, comparada as outras construções ali. Todas muito pomposas, é... Tirando algumas. Quando subíamos as escadinhas que davam para a varanda Deno brilhou num tom dourado e um cajado com uma cobra enroscada apareceu flutuando sobre ele, sendo reclamado.
— Mais um filho de Asclépio...
Heliane bateu palminhas enquanto sorria para Deno.
— Venha Deno, vou leva-lo ao chalé de Asclépio, seus amigos irão atrás de você amanhã, vocês precisam descansar um pouco agora.
— Então, vejo vocês amanhã então...
Ele perdeu seu ânimo de estar ali, porque foi separado de nós para ser levado a pessoas que nem conhecia. Eu e Louise esperamos pra ver onde Heliane ia leva-lo para que pudéssemos ir procurar por ele no dia seguinte, quando vimos que se tratava do chalé que mais parecia um hospital nós entramos na bagunça que era o chalé de Hermes. Vários beliches, o chalé todo era uma bagunça só, sujo de tinta, roupas sujas por todo lado... Enfim. Um filho de Hermes caminhou até nós e se apresentou.
— Me desculpem pela bagunça, esse chalé nunca estará limpo. Mas vocês não precisam se preocupar, não tem cara de filhos de Hermes, seus chalés provavelmente será melhor que esse. Bem... Sou Fred, o conselheiro.
— Prazer Fred.
Falou Louise.
— Sou Louise e este é Damon...
Ela olhou para mim que estava de cara feia, não pretendia socializar com as pessoas ali... Eles tinham uma cara traiçoeira.
Apenas estendi a mão para cumprimenta-lo.
— Bem, tem um beliche livre lá no final, do chalé. Vocês podem ocupar enquanto não são reclamados.
— Obrigado, nós iremos.
Caminhei na direção do beliche livre deixando pra trás o garoto que tentava ser gentil conosco. Eu sentei na cama de baixo, talvez Louise fosse ficar na cama de cima mas ela também se senta na cama de baixo e concordamos que poderíamos dormir juntos.
— Essas pessoas são estranhas, tem feições traiçoeiras. Não concorda?!
— Acho que você está diferente, como se tivesse se tornado outra pessoa...
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